Batalha de Arnhem

1ª Divisão Aerotransportada Britânica

A batalha de Arnhen - "Uma ponte longe demais"


Um grande e arriscada operação

Em 1944 a grande pressão então exercida pelos aliados em ambos os frontes Leste e Oeste e a aparente exaustão das forças oponentes, recomendavam um golpe final; Os americanos e ingleses pensaram em desenvolver um plano que levasse ao rápido aniquilamento dos exércitos Alemães e que acelerasse o fim das hostilidades. Em julho de 1944, o General Dwight Eisenhower , Supremo Comandante das forças aliadas na Europa, solicitou aos seus estrategistas a elaboração de um plano que viabilizasse a execução de um ataque aerotransportado que levasse aoO plano encurtamento da Guerra. 18 planos foram apresentados. Em 10 de setembro, o Marechal Bernard L. Montgomery apresentou um novo plano que, após analisado, foi imediatamente aceito pelo Supremo Comandante. O objetivo estratégico da operação Market-Garden, era a ocupação da região industrial do Ruhr.

MARKET - A parte aeroterrestre

Essencialmente o plano para a parte aeroterrestre (Market) , era composto pela intervenção de três divisões aerotransportadas. Elas seriam lançadas nos arredores de Grave, na Holanda, sobre a margem do rio Maas, a 5o km da fronteira da Bélgica e somente a 25 da Alemanha; Nijmegen, também em território holandês, 10 km mais ao norte de Grave, a menos de 5 km da fronteira alemã e sobre o rio Waal (nome holandês do Reno) e Arnhem, também na Holanda, a 10 km mais ao norte de Nijmegen e a uns 10 km da fronteira alemã. Arnhem situava-se sobre as margens do rio Neder, afluente do Waal e, conseqüentemente, do Reno. O objetivo, em todos os casos, era constituído pelas pontes existentes nos citados rios, que formavam um grande obstáculo para que as tropas aliadas atingissem o território propriamente dito da Alemanha.

A Operação Market objetivava lançar as tropas aliadas através do Reno, sobre o Ruhr, contornando a muralha defensiva alemã (Westwall). Os informes dos serviços de inteligência dos Aliados, referentes às forças alemães no oeste, calculavam os efetivos numas quarenta e oito divisões, com uma potência real equivalente a vinte divisões sendo quatro blindadas. Quatro dias antes do ataque, o 1o Corpo Britânico Aerotransportado calculou os efetivos alemães em território holandês em algumas unidades de infantaria e um total de tanques que oscilava entre cinqüenta e cem.

A 10 de setembro, dia em que o General Eisenhower aprovou o plano e deu o ordem para pôr em execução a Operação Market, informes chegados aos serviços de inteligência davam conta que duas divisões blindadas alemães dirigiam-se para a Holanda, mencionando-se Eindhoven e Nijmegen como seus destinos finais. Pouco depois se soube que as mencionadas divisões eram a 9a Panzer SS e a 10a Panzer SS, provavelmente reequipados com novos carros.

Planos e preparativos

No setor aliado, o planejamento das ações e o comando posterior dos efetivos em luta tinha ficado subordinado ao Primeiro Exército Aliado Aerotransportado. À frente do comando estava o Tenente-General Lewis Brereton, que tinha granjeado prestígio como comandante no Pacífico. Posteriormente, enviado a Inglaterra como comandante da 9ª Força Aérea, foi designado comandante do Primeiro Exército Aliado Aerotransportado, na data de 8 de agosto de 1944. Sob as ordens de Brereton estavam os seguintes efetivos: as veteranas divisões aerotransportadas americanas 82ª e 101ª e também a 17ª. Os efetivos ingleses sob o seu comando eram os seguintes: as 1ª e 6ª Divisões Aerotransportadas. Além disso, também comandava as unidades polonesas, que integravam a 1ª Brigada Polonesa Pára-quedista Independente.Dispostos os efetivos que interviriam na operação, apresentou-se ao comando de Brereton o primeiro grave problema. Com efeito, se devia decidir se o lançamento se efetuaria de dia ou de noite. O vôo e lançamento diurno exporia as unidades atacantes a um intenso fogo antiaéreo do inimigo, o que poderia causar graves perdas se fosse considerada a lentidão dos aviões que seriam empregados. Os C-47 destinados à operação eram bastante lentos, o que faria com que os mesmos e os planadores rebocados ficassem consideravelmente expostos ao fogo dos alemães. Por outro lado, se o ataque fosse realizado de noite, os aviões estariam sujeitos ao fogo dos caças noturnos alemães. De fato, embora os caças diurnos alemães tivessem sido praticamente neutralizados em suas ações, os seus semelhantes noturnos conservavam ainda muito de sua potência e seria muito difícil defender as máquinas de transporte e os planadores de seus ataques. Em conseqüência a um exaustivo exame da situação e prendendo-se à possibilidade de oferecer à força atacante um grande apoio aéreo diurno, Bereton decidiu: o ataque se efetuaria à luz do dia. A decisão estava baseada num plano de intensos ataques aéreos, para debilitar as defesas alemães da zona de operações. O problema seguinte a ser resolvido foi o da via de acesso ao objetivo. A rota mais direta, vindo da Inglaterra, passava sobre as ilhas do estuário do Schelde-Maas. Ali, os alemães mantinham efetivos anti-aéreos que submeteriam os atacantes a um intenso fogo. Ao mesmo tempo, até chegar à zona de lançamento, os aviões atacantes deveriam voar sobre quase 200 km de território inimigo. Apresentava-se ao comando aliado uma segunda rota, a do sul. Por esta direção os aviões deveriam sobrevoar um pouco mais de 100 km do território em poder dos alemães. Diminuíam, assim, consideravelmente as oportunidades oferecidas ao fogo antiaéreo inimigo. A decisão final de Brereton, entretanto, foi a de dividir as forças. Duas divisões iriam pela rota do norte, por sobre as ilhas; uma divisão voaria pelo sul. Foram discutidos e solucionados, paralelamente, dezenas de problemas táticos e técnicos, referentes a unidades, rotas de marcha, abastecimentos, armamentos, sincronização de lançamentos, etc.

Os objetivos

Os planos traçados determinaram os diferentes objetivos que as forças a serem lançadas deveriam ocupar. Conseqüentemente, os diferentes comandos de divisão foram informados que seus objetivos eram precisamente os seguintes: a 101a Divisão Aerotransportada, americana, teria por meta a cidade de Eindhoven e as pontes que cruzavam os povoados de Zon, 6 km mais ao norte, St. Oendenrode, 5 km ao norte de Zon, e Veghel, 6 km a nordeste de St. Oendenrode; os efetivos da 82a Divisão Aerotransportada, também americana, seriam lançados mais próximos de Arnhem, em Grave, a 10 km ao sul de Nijmegen, com o objetivo de capturar as pontes no Maas em Grave, as do Waal em Nijmegen e as do canal Maas-Waal, entre as duas localidades; a 1a Divisão Aerotransportada britânica seria lançada mais ao norte ainda, nas proximidades de Arnhem, com a missão de tomar as pontes sobre o rio Neder; a 1a Brigado Polonesa Pára-quedista Independente seria lançada à luta no dia D + 2, nas proximidades de Arnhem, do lado sul do Neder. A Operação Market, em resumo, serio a operação aerotransportada de maior envergadura que se realizaria até o fim da guerra. Realmente, superaria inclusive o Varsity (efetuada pelo Primeiro Exército Aliado Aerotransportado, ao norte e nordeste de Wesel, a 23 de março de 1945); na Market operariam 16.500 pára-quedistas (dia D), contra 14.300 da Varsity e 20.000 soldados aerotransportados, contra 17.000. 

Os meios

Os planos traçados previam lançamentos nos dias D, D + 1 e D + 2. As viagens previstas para o dia D eram consideradas suficientes para transportar o Q-G avançado dos efetivos britânicos, três regimentos de pára-quedistas das 82ª e 101ª Divisões americanas e efetivos da 1ª Divisão: duas brigadas e um regimento de artilharia. No decorrer do segundo dia, D + l, os efetivos restantes da divisão britânica seriam lançados, bem como elementos da 82ª e 101ª. Durante o dia D + 2 os poloneses e os remanescentes das 82ª e 101ª tocariam terra. No decorrer do dia seguinte previra-se lançar os efetivos que, por diversos motivos, não tivessem sido lançados nos dias anteriores, se os houvesse. Seria um eventual dia D + 3. Para o dia D, a 101ª Divisão contava com 424 aviões de transporte de tropa e 70 planadores. A 82ª, por sua vez, empregaria 480 aviões e 50 planadores. A 1ª Divisão contava com 145 aviões americanos, 354 ingleses, 4 planadores americanos e 358 britânicos. 

GARDEN - A parte terrestre

A missão fundamental dessas tropas aerotransportadas seria a tomada de determinadas pontes sobre o cursos de água acima citados, cuja posse deveria ser sustentada até a chegada das forças blindadas de terra (Fase Garden) constituídas pelo XXX Corpo do exército britânico sob o comando do Tenete-General Horrocks pertencente ao Segundo Exército Britânico sob o comando do Tenetente General Sir Miles Dempsey. O XXX Corpo, composto pela Real Brigada Holandesa "Princesa Irene", a Divisão Blindada de Guardas, a 43ª Divisão Wessex e pela 50ª Divisão Northumbriana faria a junção com os pára-quedistas, consolidando a profunda brecha aberta nas linhas inimigas. Posteriormente, o avanço seria prolongado até o Zuider Zee. 

Tanques Cromwell Mk IV durante um ataque.

Tanques Cromwell Mk IV durante um ataque

A grande decisão

Contando com os elementos materiais e com os homens prontos para a operação, o General Brereton enfrentou o problema de decidir a data do dia D. Finalmente, às 19 horas do dia 16 de setembro, Brereton decidiu: o dia D seria o 17; a hora H seria as 13. A campanha começaria na noite anterior, isto é, na noite de 16 de setembro, quando o Comando de Bombardeiros da RAF lançou seus aviões com o fim de eliminar o mais possível a oposição antiaérea alemã. A 16, durante a noite, em cumprimento às ordens determinadas, uma força de 200 Lancaster e 23 Mosquitos jogaram aproximadamente 890 toneladas de bombas sobre os aeroportos alemães. Outra força, composta por 59 aviões, atacou paralelamente as fortificações da artilharia antiaérea. Em ambos os casos, os pilotos deram informações positivas. Foram particularmente alentadores os informes dados pelos pilotos que atacaram aeroportos onde estavam estacionados os novos caças Messerschmitt 262. 

Os ataques foram renovados no dia 17, às primeiras horas da manhã. Nessa oportunidade, 100 bombardeiros britânicos, escoltados por caças Spitfire, lançaram-se ao assalto das defesas costeiras e das fortificações situadas ao longo da rota do norte. Pouco antes da operação propriamente dita começar, 816 Fortalezas Voadoras da 7a Força Aérea, escoltada por P-51, lançaram 3.139 toneladas de bombas sobre 117 fortificações de artilharia antiaérea, ao longo das rotas do norte e do sul, que seriam percorridas pelos transportes aéreos de tropas. Incluindo os aparelhos de escolta, 435 aviões britânicos e 983 americanos participaram das operações preliminares de bombardeio. No curso das ações perderam-se, no total, dois B-17, dois Lancaster e outros três aviões britânicos de escolta. Para desempenhar o papel de proteção das forças atacantes, os Aliados destacaram 1.131 caças britânicos e americanos. Ao longo da rota norte, o comando inglês colocou 371 Tempest, Spitfire e Mosquito. 

Paralelamente, a rota do sul foi coberta por 548 P-47, P-38 e P-51 da 7a Força Aérea. Ao se aproximar a hora determinada para a partida, uma força composta por 1.545 aviões de transporte e 478 planadores decolou de vinte e quatro aeroportos situados nas vizinhanças de Swinden, Newbury e Grantham. A massa aérea compreendia 1.175 aviões americanos e 370 ingleses; os planadores eram 124 americanos e 354 britânicos. Os aparelhos convergiram sobre determinados pontos da costa britânica e, dali, dirigiram-se para os seus respectivos corredores de entrada no continente europeu. Ao longo da rota do norte voaram os aviões e planadores das 1ª e 82ª Divisões; a rota do sul, paralelamente, era utilizada pelos aparelhos semelhantes da 101ª. Alguns aviões foram obrigados a regressar às suas bases por defeitos mecânicos. Outros, em reduzido número, caíram no mar. Os serviços de salvamento intervieram imediatamente, salvando as tripulações. O vôo total, entre as bases britânicas e o objetivo, estava calculado em, aproximadamente, duas horas e meia. O vôo sobre o território inimigo seria entre trinta e quarenta minutos do tempo total. Quando os primeiros aparelhos atingiram a costa inimiga, os canhões antiaéreos abriram fogo. Os danos, entretanto, ficaram reduzidos a pequenas avarias em alguns aparelhos. Muitas das defesas antiaéreas inimigas ficaram silenciosas. De fato, suas posições foram danificadas ou destruídas totalmente pelos bombardeios prévios. A reação da Luftwaffe foi particularmente débil, em certos lugares nem foi percebida. Nessa primeira fase das ações, os pilotos unanimemente informaram que da ordem de trinta aparelhos alemães estavam em atividade, sendo que quinze deles eram Focke-Wulf 190. 

Os pilotos aliados executaram outras missões no decorrer do dia D. Mais precisamente, 84 aviões britânicos da 2ª Força Aérea. Pouco antes da hora H, 84 aviões britânicos atacaram as instalações militares alemães em Nijmegen, Arhem e em mais dois povoados menores nas proximidades. Com referência às perdas ocasionadas pelo fogo inimigo e as esporádicas intervenções da Luftwaffe, os comandos aliados haviam calculado em 30% dos aviões e planadores diretamente empenhados nas ações. A realidade, entretanto, mostrou que os cálculos foram exagerados e pessimistas. De fato, as perdas da frota aérea ficaram reduzidas a 2,8%, e, por isso mesmo, imprevisível. Nenhum dos aviões das formações britânicas de transporte foi atingido e somente 35 transportes americanos, juntamente com 13 planadores, ficaram danificados. No que diz respeito aos aviões de escolta, os britânicos perderam dois. E os americanos, dezoito. No total, os perdas de transportes, planadores e aviões de combate somaram 68 unidades. Os lançamentos foram qualificados como perfeitos. A 82a Divisão considerou as operações do dia como os melhores da sua história. O informe da 101ª considerou a operação como "um desfile aéreo", sobre qualquer ponto de vista, o melhor de todos até então efetivados. No total, a operação de lançamento, consumiu uma hora e meia, aproximadamente. Em conseqüência, uns 20.000 americanos e ingleses tinham sido lançados com seus armamentos e apetrechos por trás das linhas inimigas. 

O assalto

A 101ª Divisão Aeroterrestre americana fez um salto excelente e, depois de violenta luta ao sul de Eindhoven, juntou-se às forças terrestres do XXX Corpo britânico, que prosseguiram na direção de Nijmegen. Ali, após um desembarque desimpedido, a 82ª Divisão Aeroterrestre americana logo tomou a Ponte Maas, em Grave; mas foi atrasada por ter de capturar  as elevações que dominavam o objetivo, ela e não pôde iniciar seu ataque a ponte rodovia ria de Nijmegen antes que os alemães tives sem reforçado consideravelmente suas defesas. Quando a Divisão Blindada de Guardas se juntou aos americanos, foram feitos ataques contra as pontes ferroviária e rodoviária, que fracassaram. Finalmente, decidiram-se os soldados aliados pelo cruzamento do rio, para que as duas extremidades das pontes pudessem ser atacadas ao mesmo tempo. Os pára-quedistas americanos fizeram, de dia e em frágeis barcos de madeira e lona, a arriscadíssima travessia do rio, sob intensa saraivada de balas. Após violenta luta, contra oposição vigorosa e bem armada, as duas pontes caíram sob o ataque combinado da infantaria aeroterrestre e dos tanques dos Guardas. Por volta das 19h do terceiro dia após o salto, os objetivos de Nijmegen estavam em mãos aliadas.

Entrementes, em Arnhem, bem distante do XX Corpo, que avançava lentamente, a 1ª Divisão Aeroterrestre britânica lutava pela própria vida. Deixando as zonas de salto, longe da cidade, a lª Brigada de Pára-quedistas abriu caminho lutando até o objetivo; o objetivo básico da brigada era o mesmo de toda a divisão _ a captura das pontes. A 1ª Brigada de Desembarque Aéreo, que fora trazida para a batalha em planadores, ficou para trás, a fim de proteger a zona de desembarque para a chegada de outras levas de soldados. Assim, de um só golpe, os britânicos privaram-se de metade dos efetivos disponíveis.
E o que dizer das forças colocadas em oposição a esta operação aeroterrestre? Ali, a sorte estava do lado dos alemães, porque, em condições de poder engrossar as já poderosas forças de defesa locais, havia uma concentração de soldados a leste da cidade de Arnhem. onde o II Corpo Panzer SS se reequipava, após haver-se retirado da França e da Bélgica. Embora o comando alemão não esperasse os desembarques, havia na área dois oficiais superiores altamente preparados, pela experiência, para travar batalha de tal natureza.

O Feldmarechal Walter Model, Comandante do Grupo de Exércitos B, era um homem que gozava da reputação de ser enérgico, implacável e impetuoso; era não só vigoroso e eficaz no ataque, como também calmo e engenhoso em circunstâncias adversas, com um talento para tirar o máximo proveito das forças à sua disposição. Essa capacidade para enfrentar situações aparentemente desastrosas é que motivou o apelido que lhe deram, de "Bombeiro do Führer". Os alemães dificilmente poderiam ter escolhido comandante melhor para se opor ao súbito aparecimento de um exército aeroterrestre aliado atrás das suas linhas. Para formar uma liderança realmente formidável, Model tinha entre seus oficiais graduados nada mais que o General Kurt Student, um pioneiro no uso de forças aeroterrestres, com experiência, portanto, para aconselhar sobre os pontos fortes e fracos peculiares a essas tropas. Além disso, o acaso, que desempenha freqüentemente papel importante no resultado das batalhas, colocou nas mãos de Model, duas horas após o começo dos desembarques, a ordem completa da "Operação Market Garden", tirada do bolso de um oficial americano morto quando seu planador caiu perto do Q-G alemão. Logo, é evidente que desde o começo da operação as oportunidades de sucesso da 1ª Divisão Aeroterrestre britânica eram muito pequenas.

O assalto aerotransportado britânico

Depois de suportar o barulho dos motores dos Stirling e a tensão do vôo desde a Inglaterra, foi um alívio para os britânicos saltar dos aviões nos céus da Holanda. O major "Boy" Wilson, comandante da 21.° Companhia Independente de  Pára-quedistas, olhou para baixo e viu um cenário tranqüilo, aparentemente deserto, com campos cultivados e casas isoladas. Tudo parecia muito calmo, sem qualquer sinal de luta ou guerra, e nem sombra do inimigo. Eram 13hl5 de um domingo, 17 de setembro de 1944, instante em que se iniciava o ataque aéreo a Arnhem.

A unidade de Wilson atuava como ponta-de-lança da 1ª Divisão Aerotransportada britânica. A missão - capturar as pontes sobre Neder Rijn, em Arnhem, no extremo norte da área envolvida na Operação "Market Garden" - tinha como líder o marechal-de-campo Bernard Law Montgomery. Naquela mesma hora, pára-quedistas e unidades transportadas por planadores integrantes da 82ª e 101ª divisões aerotransportadas americanas desciam em torno de Eindhoven e Nijmegen, com o objetivo de capturar pontes nos inúmeros canais e rios do sul da Holanda. O 30.° Corpo britânico, parte do 21.° Exército.

Soldados britânicos checam com um civil holandês informações sobre as ruas de Arnhem

Grupo de Exércitos de Montgomery, preparava o avanço para o norte, partindo da fronteira belga,. a fim de se juntar às outras unidades. Quando o 30.° Corpo chegasse a Arnhem, as forças aliadas estariam em posição ideal para atacar a planície do norte da Alemanha e se dirigir para o leste, cercando o centro industrial do Ruhr e desferindo um golpe. mortal nos nazistas. Isso encurtaria de forma significativa a guerra na Europa.

Comandada pelo general Robert "Roy" Urquhart, a 1ª Divisão Aerotransportada era uma força de elite muito bem treinada, ansiosa para entrar em ação, mas os homens sentiam-se frustrados. Três meses antes, eles viram seus "rivais" da 6ª Divisão partirem a fim de participar do Dia D e, desde então, prepararam-se para dezessete operações, todas canceladas.

Eles já começavam a achar que a guerra terminaria antes que pudessem mostrar seu valor. Por isso, aceitaram com entusiasmo um plano que continha uma série de erros básicos.

Em 10 de setembro, Urquhart recebeu suas instruções com uma ordem clara: "Ponte de Arnhem, e segure-a". Havia dois problemas imediatos: a "escassez de aviões de transporte e a insistência da RAF em afirmar que Arnhem estava muito bem defendida por armas antiaéreas. Urquhart tinha apenas seis dias para completar os preparativos e viu-se forçado a aceitar soluções improvisadas. Sacrificando o princípio da concentração, ficou decidido que a divisão iria em três etapas diferentes, divididas ao longo de três dias.

Mapa de Arnhem e local das zonas de desembarque

Num esforço destinado a evitar o fogo antiaéreo, as tropas desceriam em terreno aberto, a oeste de Arnhem, o que representava uma distância de 8 a 13 km dos alvos. Essa última idéia só foi levada em conta devido a uma avaliação do serviço de inteligência, que garantiu que Arnhem estava mal protegida pelas forças terrestres alemãs.

Apesar de tudo, o plano final era bem simples, pelo menos no papel. Assim que chegassem ao solo, os pára-quedistas da primeira leva - 1°, 2° e 3° batalhões de pára-quedistas da 1ª Brigada Aerotransportada, sob o comando do brigadeiro G. W. Lathbury - deveriam marchar para Arnhem e tomar uma ponte ferroviária, um atracadouro de balsas e uma ponte rodoviária sobre o Neder Rijn. Tais operações deixariam o 1° Regimento de Fronteira (1 Border), o 7° Batalhão King's Scottish Borderers (7 KOSB) e parte do 2° Batalhão do Regimento de South Stafford em condições de segurar as zonas de desembargue da segunda leva. Participariam dessa segunda etapa, 24 horas depois, o restante da l .a Brigada de Infantaria Aérea e toda a 4.0 Brigada Aerotransportada (10°, 11° e 156° batalhões de pára-quedistas), comandada pelo brigadeiro J. W. Hackett, com a missão de formar um perímetro defensivo ao norte das pontes capturadas. Após mais 24 horas, a divisão ficaria completa com a chegada da 1° Brigada de Pára-quedistas polonesa, comandada pelo general S. Sosabowski, que desceria ao sul do rio para servir de elo de ligação entre os defensores de Arnhem e os setores avançados do 30.° Corpo. A previsão era de que toda a operação terminaria em quatro dias.

O plano começou a fracassar antes mesmo do início do afague. As notícias de gue as forças alemãs na Holanda estavam enfraquecidas e desmoralizadas mostraram-se absolutamente incorretas. Apesar da rápida retirada de unidades do norte da França e da Bélgica no final de agosto e início de setembro, o 1.° Exército de Pára-quedistas do general Kurt Student continuava unido e recebia constantes reforços do 15.° Exército alemão, que abandonava o estuário do Scheldt. Na verdade, Arnhem estava longe de ser considerada indefesa: perto da cidade estava distribuído o 2.° Corpo SS Panzer do general Willi Bittrich, composto pelo 9.° (Hohenstaufen) e pelo 10.° (Frundsberg) SS Panzer. Embora sem dispor de sua capacidade total, essa força ainda poderia manter considerável oposição, principalmente contra tropas aerotransportadas e usando armas leves. Além do mais, o marechal-de-campo Walter Model, comandante do Grupo B do Exército alemão, tinha seu quartel-general em Oosterbeek, a oeste de Arnhem, e portanto encontrava-se no lugar ideal para coordenar uma reação rápida. Em resumo, estavam presentes todos os ingredientes para uma catástrofe em grande escala. Para completar, os alemães haviambritish_paras_market_garden6.JPG (187509 bytes) interceptado um conjunto completo das ordens sobre o ataque aéreo, encontrado nos destroços de um planador que caiu em 17 de setembro. E apesar das promessas de bom tempo, o céu limpo do primeiro dia logo deu lugar a ventos fortes, nuvens e chuva, impedindo que os pára-quedistas contassem com o tão necessário apoio aéreo.

Mas os britânicos não tinham conhecimento de nenhum desses fatos no dia 17 de setembro, e, enquanto os homens de Wilson apressavam-se a marcar as zonas de  desembarque, uma grande força de Stirling e Dakota aproximava-se do alvo. Até as 14h já haviam pousado 319 planadores Horsa e Hamilcar, transportando a maior parte da 1.° Brigada de Infantaria Aérea e o QG divisional - sob a liderança de Urquhart - e três batalhões de Lathbury. Os desembarques ocorreram sem oposição, mas logo que os homens de Lathbury se prepararam para marchar até Arnhem, começaram a surgir problemas. Uma multidão de civis holandeses - "animados, simpáticos, falantes e apressados", segundo a descrição - veio saudar os "libertadores", criando grande confusão e provocando atrasos. Para complicar, o 1.° Esquadrão de Reconhecimento de Pára-quedistas, que tinha ordens para se movimentar com rapidez e tomar as pontes, descobriu que 22 de seus jipes não haviam chegado. A unidade partiu o mais breve possível, mas a maioria sentiu que sua força dividida não seria suficiente.

Equipe médica presta socorro a soldados feridos, inclusive um piloto de planador Horsa. O Planador Horsa MK II

tinha uma envergadura: 26,4 m e um comprimento: 20,10 m. Podia transportar 29 soldados ou um obuseiro "de dorso" americano de 75 mm.

Dessa forma, os batalhões de Lathbury ficaram isolados, seguindo uma série de rotas predeterminadas para Arnhem, com o objetivo de capturar as pontes e criar um forte perímetro defensivo. O 2 Pára, comandado pelo tenente-coronel J. D. Frost, tomou a dianteira e seguiu uma rota para o sul, a leste de Heelsum, ao longo do rio que os levaria à ponte ferroviária, ao atracadouro de balsas e à ponte rodoviária no centro de Arnhem. Frost partiu às 14h45, mas o avanço foi lento, primeiro por causa da multidão de civis e, depois, devido ao fogo dos franco-atiradores alemães. Os pára-quedistas dividiram-se na tentativa de resolver o problema, mas foram obrigados a parar novamente às 16h, às portas de Oosterbeek. Frost acabou dividindo sua força, por pressão de Urquhart, que percebeu a necessidade de um avanço rápido, estratégia que impediria as defesas inimigas de se reforçarem. A Companhia B permaneceu no local para conter as unidades alemãs entre Oosterbeek e Arnhem, a Companhia C partiu para o sul a fim de tomar a ponte ferroviária e a Companhia A seguiu para o objetivo principal - a ponte rodoviária, alguns quilômetros a leste.

A Companhia B lutou com eficácia e deixou que o restante do batalhão se desviasse dos franco-atiradores, mas logo parou seu avanço. Quando a Companhia C chegou à ponte ferroviária, os pára-quedistas só tiveram tempo de ver a estrutura já destruída pêlos defensores alemães. Enquanto isso, Frost e a Companhia A avançavam com dificuldade, acompanhados por um grupo de engenheiros comandados pelo tenente E. M. Mackay e, surpreendentemente, pelo Esquadrão de Reconhecimento de Gough. Eles passavam por ruas que em nada pareciam com as que estavam nos mapas feitos na Grã-Bretanha e só às 20h as seções que iam à frente localizaram a ponte rodoviária.

Pára-quedistas britânico em Arnhem. Ele usa uma túnica camuflada Denison. Os britânicos não usaram uniformes camuflados até 1942, quando adotaram a túnica camuflada Denison para os seus pára-quedistas. Porém a principio a Denison foi projetada para ser usada pelos homens do Special Operations Executive (SOE), que era responsável em treinar e coordenar operações de resistência nos paises ocupados pelos nazistas. O corte se assemelhava as peças de roupas normais de um trabalhador francês, e suas cores marrom não eram permanentes, podendo ser facialmente retiradas com uma lavagem, de modo que o pessoal do SOE podia se fundir com a população local, durante as suas fugas. Um segundo modelo da Denison foi projetada para as tropas pára-quedistas, Commandos e até o SAS também usou esta túnica. Esse modelo tinha cores permanentes, e foi adotado para substituir um traje pára-quedista que imitava o modelo alemão Knochensack ('sacola de osso'). A Denison continuou em serviço nas forças britânicas até o inicio dos anos 1980

"Bombas começaram a explodir entre nós. Gritos e assobios enchiam o ar e as metralhadoras abriram fogo."

Aproximando-se com cautela, os pára-quedistas ocuparam os prédios mais altos que davam para a rampa norte, antes que as patrulhas chegassem à estrutura da ponte, esperando tomar o lado sul a tempo, sem enfrentar a reação dos alemães. Mas estavam sem sorte. Quando o tenente McDermot levava sua seção pela rampa, uma metralhadora Spandau abriu fogo de um abrigo que havia na ponte, obrigando o grupo a recuar. Sem reforços, Frost não podia correr o risco de um ataque frontal, limitando-se a consolidar sua posição do lado norte. Tentou abrir caminho enviando engenheiros com lança-chamas que destruiriam o abrigo, mas a reação alemã foi forte demais. Quando escureceu, os dois lados aproveitaram para descansar e preparar-se para uma batalha que prometia ser sangrenta.

Frost deveria ter recebido reforços do 3 Pára, seguindo a rota "Tiger", que começava nas zonas de desembarque, passava por Oosterbeek e ia até Arnhem, porém o batalhão não chegou. No início eles progrediram bem, marchando com confiança para seus objetivos, mas depois de andar mais de 2 km debaixo do fogo de franco-atiradores tornou-se impossível seguir adiante. Como a reação alemã aumentava, o comandante do batalhão, tenente-coronel F. A. Fitch, fez uma pausa durante a noite. As patrulhas conseguiram capturar o Hotel Hartenstein em Oosterbeek, que passou a ser usado como QG de Urguhart, e parte da Companhia C havia cruzado a ponte. Mas o ímpeto já não era o mesmo. Acontecimentos parecidos prejudicaram o l Pára na rota "Leopard" para o norte, onde enfrentou o 9.° SS Panzer. Conforme descreveu o soldado Andrew Milbourne, o l Pára chegou a avançar até as proximidades do vilarejo de Wolfheze: "Subitamente a cena se modificou. Morteiros começaram a explodir entre nós. Gritos e assobios enchiam o ar e as metralhadoras abriram fogo". Quando a noite caiu, o l Pára também estava envolvido num duro combate.

"Para qualquer lado que nos virássemos, éramos varridos por fogo inclemente. Havia mortos por toda a parte, e os feridos gritavam pedindo socorro. A toda hora o inimigo tentava ocupar nossas posições e tinha de ser afastado com baionetas."
Sofrendo toda essa pressão e sabendo que Frost precisava de ajuda, o comandante do l Pára, tenente-coronel D. Dobie, decidiu abandonar a luta e tentar chegar à ponte pelo lado sul.

No entanto, surgiu outro problema, pois Dobie não conseguiu entrar em contato com Urquhart ou Lathbury para confirmar sua decisão. Poucos rádios funcionavam normalmente, já que não havia potência suficiente para atravessar as áreas florestais  ou os prédios de um centro urbano, e Urquhart ficou isolado da batalha. Como se não bastasse, logo na manha de 18 de setembro ele sofreu um contra-ataque alemão e foi forçado a procurar abrigo num sótão, onde permaneceu por 24 horas. Nesse período, Hicks assumiu o comando da divisão, com poucas condições para melhorar o quadro. Na manhã de 18 de setembro, o 3 Pára conseguiu chegar ao subúrbio oeste de Arnhem, encontrando reação nas ruas em torno do Hospital St. Ehzabeth. Quando o l Pára chegou do norte, também se envolveu num combate selvagem, casa a casa, naquela mesma área. Hicks tinha poucas opções; pois, até que a brigada de Hackett chegasse, deveria segurar sua própria unidade nas zonas de desembarque. Ele ainda podia contar com as companhias B e D do Sputh Stafford, mas elas já estavam debilitadas demais para causar algum efeito.

Na verdade, sua remoção das zonas de desembarque foi potencialmente desastrosa, uma vez que os ' alemães tinham conhecimento dos planos e sabiam que a 4.3 Brigada Aerotransportada estava para chegar. Assim, infiltraram-se na defesa formada pelo l Border e 7 KOSB e colocaram atiradores de escol em posições estratégicas. Quando chegou, no início da tarde, a brigada de Hackett teve uma recepção  fulminante: planadores e aviões Dakota foram abatidos, pára-quedistas alvejados enquanto ainda estavam no ar e, para culminar, a vegetação na área das zonas de desembarque pegou fogo. Segundo um dos pára-quedistas, "foi uma verdadeira carnificina".

Hackett não estava nada satisfeito, e sua raiva aumentou quando soube que Hicks já decidira retirar o 11 Pára de sua brigada para reforçar a área em torno do Hospital St. Elizabeth. Recebendo o 7 KOSB como compensação, Hackett reuniu seus homens e tentou cumprir as ordens originais, avançando através de Wolfheze para tomar posições ao norte, do outro lado das estradas de Apeldoorn e Zutphen. Mas ele teve de enfrentar as poderosas forças inimigas do 9.° SS Panzer e de outras unidades. No final do dia, os homens de Hackett ocupavam uma linha dispersa entre Johanna Hoeve e Lichtenbeek, na periferia norte de Arnhem, de onde não conseguiam sair. Da mesma forma, o 11 Pára avançou muito pouco pela rota Tiger. Pequenos grupos acabaram sendo isolados por forças inimigas numericamente superiores e equipadas com tanques, armas autopropulsadas, carros blindados e morteiros. Apesar dos duros combates, os remanescentes do l e 3 Pára não conseguiram fazer qualquer contato até o cair da noite. Um dos soldados comentou: "Nós fizemos tudo para passar, mas foi impossível".

Sargento (esquerda), co-piloto de planador Horsa, armado com um Rifle No.4 .303, caminha

pelas ruas de Arnhen ao lado de um pára-quedista da 1ª Divisão Pára-quedista britânica, que

está armado com uma  Bren Mk. I LMG .303

Enquanto isso, o 2 Pára ficou o dia inteiro sem os reforços esperados, travando uma difícil batalha contra o 9.° SS Panzer. A princípio, os ataques alemães foram relativamente simples, consistindo em granadeiros panzer transportados por caminhões, presas fáceis para o fogo das armas leves dos pára-quedistas. Mas o dia foi passando e os assaltos se tornaram mais eficientes. O pior aconteceu no meio da manhã, quando dezesseis carros blindados tentaram cruzar a ponte para tomar as posições britânicas, apoiados por granadeiros panzer. Os pára-quedistas mantiveram o sangue-frio. "Nós só f içamos sentados, esperando. Eu estava com o meu PIAT apontado para o blindado da frente. Meus dedos estavam tremendo", recordou depois um dos homens de Frost. Quando eles abriram fogo, o resultado foi impressionante: seis veículos ficaram destruídos, vários incendiados e o restante da força alemã recuou. "Foi a mais linda ação que já vi", afirmou Frost. Mas de pouco valeu a vitória, pois ela esgotou o estoque de munição dos pára-quedistas britânicos e sua determinação. Os reforços tornaram-se indispensáveis.

Quando Urquhart reassumiu o comando da divisão, na manhã de 19 de setembro, a batalha já estava fora de controle. Setores de quatro batalhões - 1,3, 11 Pára e 2 South Stafford - encontravam-se imobilizados na área do Hospital St. Elizabeth, o 2 Pára estava isolado e com poucos suprimentos, o l Border sob pressão no oeste e a brigada de Hackett (7 KOSB, 10 e 156 Pára) lutava no norte. Três ações diferentes ocorriam ao mesmo tempo, sem qualquer coordenação entre elas. O tempo havia piorado e problemas de comunicação impediam que fosse dada ordem para cessar a entrega de suprimentos pela RAF nas zonas de desembarque, que ainda estavam nas mãos dos alemães. Era, como disse Hackett, "uma situação muito confusa", que tinha de ser solucionada com rapidez.

O obuseiro de dorso americano de 75mm M1A1, era o apoio principal das forças aeroterrestres americanas e britânicas. Podia ser totalmente desmontado em alguns segundos para ser transportado por um muar ou lançado de pára-quedas. Seu peso montado era de 610kg, tinha uma cadência de tiro de seis tiros por minuto e seu alcance máximo era de 8.500m.

A resposta de Urquhart foi ordenar a Hackett que abandonasse o combate e fosse para o sul, apoiar o 2 Pára na ponte. Uma mudança lógica, mas carregada de perigo. Um homem do 10 Pára observou: "Você não pode simplesmente levantar e fugir do inimigo em plena luz do dia. Não dá para fazer isso". A princípio a retirada foi tranqüila, mas os alemães perceberam o que acontecia e tentaram cercar os homens de Hackett, tomando o cruzamento da ferrovia em Wolfheze. Sob fogo de artilharia, morteiros e armas leves, os britânicos se desorganizaram, enquanto pequenos grupos ficaram do lado errado da linha férrea, tendo de lutar muito para sobreviver. O caos aumentou ainda mais quando uma unidade polonesa de planadores decidiu pousar subitamente no meio da batalha: entre dois fogos, os recém-chegados entraram em pânico. Um dos sobreviventes do 10 Pára fez uma observação precisa: "Foi uma verdadeira merda. Mas também naquele dia a merda foi geral".

A única boa notícia que Urquhart recebeu dos membros da resistência holandesa foi o início do avanço do 30.° Corpo britânico. Pára-quedistas americanos tinham capturado as pontes de Eindhoven e Grave e se aproximavam de Nijmegen, a 16 km de Arnhem, em companhia da Divisão Blindada de Guardas do 30.° Corpo. Em seu QG no Hotel Hartenstein, Urquhart reuniu o que restava de suas forças, formando um cerrado anel defensivo, na tentativa de garantir o lado norte do Neder Rijn, para que o 30.° Corpo pudesse seguir em frente. Houve pesadas baixas, e, no final do dia 19 de setembro, o 10 Pára virtualmente deixara de existir. Óleo 156 Pára, juntamente com o South Stafford, lutavam pela sobrevivência, enquanto o 7 KOSB e o l Border eram pressionados pelas unidades alemãs recém-reforçadas e empenhadas em esmagar a cabeça-de-ponte britânica. O desânimo entre os aliados aumentou quando fracassou uma nova tentativa de reabastecimento.

A decisão de Urquhart de concentrar-se numa área em torno de Oosterbeek era compreensível, mas deixou o 2 Pára numa situação desesperadora. Os homens de Frost já estavam lutando a mais de 48 horas sem descanso e necessitavam de munição, comida e água. A força original de cerca de quinhentos homens se reduzira a apenas 150, que resistiam num pequeno grupo de casas, perto da rampa norte. Os feridos (Frost, inclusive) tinham sido postos em porões, sem nenhuma esperança de socorro rápido, e sofriam muito. A pressão inimiga aumentou ainda mais, e, em 20 de setembro, os pára-que-distas britânicos eram atingidos pelo fogo de artilharia, morteiros, tanques, armas autopropulsadas e bombas de fósforo. Granadeiros panzer, mostrando muita aptidão para a guerra urbana, atacavam os postos.

Cenas dramáticas dos combates de rua em Arnhem, 1944. Soldado do Regimento Pára-quedistas, armado com um Sten Mk II de 9mm, carrega um tenente do Corpo Médico sob a cobertura de um soldado do 2nd Bn. The South Staffordshire Regiment, ele usa uma Patchett Mk. I SMG de 9mm com carregador de 32 tiros. Esta arma era uma possibilidade de substituição das Sten e Thompson, e foram distribuídas 100 dessas armas para serem usadas pela Divisão Pára-quedistas.

O tenente Mackay e seu grupo de engenheiros ocupavam uma escola, que passou a ser alvo de fogo sustentado. Ele descreveu assim o que houve com o prédio: "Ficou parecendo uma peneira. Para qualquer lado que se olhasse via-se o exterior. Havia sangue espalhado por toda a parte, em poças nas salas, nas fardas dos homens e escorrendo pelas escadas. As únicas coisas limpas na escola eram as armas". Apesar dos atos de coragem, o perímetro defensivo em torno da ponte começou a se romper. Tornou-se apenas uma questão de tempo a eliminarão do 2 Pára. No final do dia 20, ressurgiu um fio , de esperança com a notícia de que o 30.° Corpo e os americanos tinham retomado a ponte de Nijmegen. Mas o otimismo durou pouco: quando os tanques da Divisão Blindada de Guardas saíram, ao amanhecer de 21 de setembro, rumo ao Neder Rijn, tiveram problemas imprevistos. Até então eles estavam aluando como a ponta de uma lança encravada nas linhas inimigas. A haste - uma única estrada que ia até a fronteira belga - mostrava-se perigosamente fraca. No momento em que parte da 10ª SS Panzer montou linhas defensivas em torno de Eist, ao sul do rio, o avanço se interrompeu. Os reforços, compostos de três batalhões de infantaria da 43ª Divisão (Wessex), receberam ordem de avançar, mas o caminho mostrava-se difícil. Ao anoitecer, o 30.° Corpo estava tão distante de Arnhem quanto 24 horas antes. Nesse período, os alemães se empenharam em acabar com o que restava do 2 Pára - os últimos sobreviventes se renderam às 9h - e enviaram reforços para romper o perímetro de Oosterbeek. A situação dos homens de Urquhart piorava à medida que acabavam os suprimentos e acentuava-se o esgotamento físico e mental provocado por uma luta selvagem.

Talvez aquele não fosse o momento ideal para a chegada dos pára-quedistas poloneses, mas às 17hl5 do dia 21 de setembro os Dakota sobrevoaram as zonas de desembarque ao sul do rio e lançaram dois batalhões, sob o comando pessoal do general Sosabowski. Ele ficou chocado com o que encontrou, pois, embora seus batalhões pegassem os alemães desprevenidos, pouco podiam fazer para ajudar o comando divisional. Naquela noite ele ainda tentou passar suprimentos e reforços para o outro lado do rio, mas logo percebeu que essa seria uma tarefa impossível de realizar sem equipamentos especiais. Os carros anfíbios só puderam seguir adiante depois que alguns elementos do 30.° Corpo conseguiram fazer contato, no dia 22 de setembro, E até mesmo aqueles veículos encontraram dificuldades para atravessar as áreas alagadas e pantanosas.   

Na noite de 24 para 25 de setembro, os homens do 4.° Batalhão, Regimento Dorsetshire (parte da 43ª Divisão), tentaram novamente completar a travessia do rio, mas os resultados foram catastróficos. O general Sosabowski descreveu assim o acontecimento: "O mundo inteiro parecia estar explodindo a nossa volta. De hora em hora, por toda a noite, eu recebi mensagens comunicando o afundamento de barcos. Toda vez que eu saía para dar uma olhada, passavam filas de carregadores de macas trazendo os feridos". 

Nessas circunstâncias, os remanescentes das unidades de Urquhart tinham poucas chances de se manter, e a situação se agravava enquanto crescia a pressão dos alemães sobre o enfraquecido perímetro defensivo. Os sobreviventes já não podiam mais pensar direito e tinham ainda de manter ocupada a atenção das forças alemãs, entre as quais se incluíam os terríveis tanques King Tiger do Panzerabteilung 503. As tropas aerotransportadas que também sofriam com a escassez de suprimentos, não tinham como reagir aos ataques desses verdadeiros monstros blindados. Os projéteis PIAT estavam acabando, mas mesmo que houvesse um número suficiente eles simplesmente batiam na grossa placa blindada dos tanques e caíam no chão, inúteis. Era preciso muita coragem e bravura para sobreviver. Alguns homens, como por exemplo o major R. H. Cain e o sargento J. D. Baskeyfield, ambos do South Stafford, responderam com admiráveis demonstrações de valentia, que lhes valeram merecidas condecorações. Mas a maioria dos soldados não conseguiu fugir do desanimado fatalismo descrito por um pára-quedista anônimo, que participou dos combates  em tomo da igreja de Oosterbeek Laag: "Naquela  altura, eu nem queria mais ver aquela maldita ponte, e acho que o mesmo acontecia com muitos de nós. Mas nos entrincheiramos e agüentamos. E assim que você fica: farto, mas terrivelmente teimoso".

O marechal-de-campo Montgomery não tinha outra escolha senão autorizar uma retirada. No dia 25 de setembro, depois de oito dias de batalha, Urquhart deu as instruções para a Operação "Berlin", naquela noite. Pilotos de planadores, muitos dos  quais haviam lutado o tempo ,todo junto aos pára-quedistas, serviam de guias. As 22h foi iniciada uma retirada por etapas, através do rio. Engenheiros britânicos e canadenses trabalharam duro para conseguir os barcos necessários. A noite estava escura e úmida, mas os alemães logo perceberam a fuga e dispararam suas metralhadoras e morteiros sobre o rio. Barcos foram destruídos, feridos tiveram de ser abandonados e muitos  homens se afogaram. Em 27 de setembro, quando terminou a operação, apenas 2.163 dos 10.000 soldados comandados por Urquhart alcançaram as linhas polonesas. Com 1.200 mortos e 6.642 feridos, desaparecidos ou capturados, uma brilhante formação deixara de existir.


ORDEM DE BATALHA - 1st Airborne Division

Emblema dos pára-quedistas britânicos

  • 1st Airborne Division - Major General Roy E. Urquhart, Aide: Captain G.C. Roberts

    • Divisional HQ - (G-I) Cos: Lieutenant Colonel Charles MacKenzie/ OPS: Maj. C.F. Newton-Dunn/ OPS (Air): Major D.J. "Tiny" Madden/ (G-2) INT: Major Hugh Maguire/ ARTY: Lieutenant Colonel Robert Loder-Symonds/ ENG: Lieutenant Colonel E.C.W. Myers/ Supply: Lieutenant Colonel Michael St. John Packe/ Medical: Colonel Graeme Warrack/ Seaborne Tail: Lieutenant Colonel G.A. Mobbs

    • 1st Parachute Brigade - Brigadier Gerald W. Lathbury

      • 1st Battalion - Lieutenant Colonel David Dobie

      • 2nd Battalion - Lieutenant Colonel John Frost

      • 3rd Battalion - Lieutenant Colonel John Fitch

      • 1st Air Landing Anti-tank Battery, Royal Artillery - W. Arnold

      • 1st Parachute Squadron - Major Murray

      • 16th Parachute Field Ambulance - Lieutenant Colonel Townsend

    • 4th Parachute Brigade - Brigadier John W. Hackett

      • 10th Battalion - Lieutenant Colonel Kenneth B.I. Smyth

      • 11th Battalion - Lieutenant Colonel George H. Lea

      • 156th Battalion - Lieutenant Colonel Sir Richard de Voeux

      • 2nd Air Landing Anti-tank Battery, Royal Artillery - P. Haynes

      • 4th Parachute Squadron - Major Perkins

      • 133rd Parachute Field Ambulance - Lieutenant Colonel Alford

    • 1st Airlanding Brigade - Brigadier Philip H. Hicks

      • 1st Battalion, The Border Regiment - Lieutenant Colonel Thomas Hadden

      • 2nd Battalion, South Staffords - Lieutenant Colonel W. D. H. McCardie

      • 7th Battalion, Kings Own Scottish Borderers - Lieutenant Colonel Robert Payton-Reid

      • 181 Airlanding Field Ambulance - Lieutenant Colonel Marrable

    • 1st Airlanding Light Regiment, Royal Artillery - Lieutenant Colonel W. F. K. (Sherrif) Thompson

    • 1st Forward Observer Unit, Royal Artillery - D. R. Wright-Boycott

    • 21st Independent Parachute Company (Pathfinders) - Major B.A. Wilson

    • 1st Airborne Reconnaisance Squadron - Major C. F. H. Gough

    • 1st Airborne Divisional Signallers - Lieutenant Colonel T. C. V. Stephenson, Major A. J. (Tony) Deane-Drummond

    • 9th Field Company - Major Winchester

    • 250th Light Composite Company

    • 1st Wing Glider Pilot Regiment - Lieutenant Colonel Murray

    • 2nd Wing Glider Pilot Regiment - Lietenant Colonel Place

    • 1st Polish Independent Parachute Brigade - Major General Stanislav Sosabowski

      • 1st Parachute Infantry Battalion - Colonel Rawicz Szezerbo

      • 2nd Parachute Infantry Battalion - Captain Sobocinski Waclaw

      • 3rd Parachute Infantry Battalion - Major Ploszewski Waclaw


OS ALEMÃES - Tropas SS

Comandante do 2º SS Panzer Corps


SS-Obergruppenführer Wilhelm Bittrich

9ª SS Panzerdivision "Hohenstaufen". Hohenstaufen 

SS-Obersturmbannführer Walther Harzel

9ª SS Panzerdivision "Hohenstaufen". Hohenstaufen: Nome da dinastia imperial germânica que reinou de 1138 a 1250, à qual pertenceu o lendário Frederico Barba-Roxa.

Formada na França, NE, com alemães e austríacos (2.43). Mediterrâneo (2.44). Rússia, Tarnopol (3.44). Normandia (6.44). Holanda (9.44). Reorganizada (10.44). Como parte do 6.° Exército Panzer SS. Contra-ofensiva Ardenas (12.44). Hungria, perdas severas (2.45). Capitulou diante dos americanos (5.45).

Emblema: A letra H e um gládio.

SS-Panzergrenadier Regiment 19

SS-Panzergrenadier Regiment 20

SS-Panzer Regiment 9

SS-Panzerartillerie Regiment 9

 

 

10ª SS Panzerdivision "Frundsberg"


SS-Gruppenführer Heinz Harmel

10ª SS Panzerdivision "Frundsberg".  Grande chefe de bandos de lansquenetes (1473-1528).

Formada na França, SW, de alemães (12.42). Transferida para SE (7.43). Rússia, Tarnopol (3.44). Normandia (6.44). Holanda (9.44). Alemanha, Aachen (11.44). Sarre, Alsácia (1.45). Hungria, perdas pesadas (1/2.45). Boémia (3.45). Capitulou diante dos americanos (5.45).

Emblema: A letra F e uma folha de carvalho.

SS-Panzergrenadier Regiment 21

SS-Panzergrenadier Regiment 22

SS-Panzer Regiment 10

SS-Panzerartillerie Regiment 10

 


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Assunto: Operação MARKET GARDEN