OPERAÇÃO SEA BREEZE


O C-17 da RAF tinha partido da Inglaterra em missão secreta. Fez escala na Florida e algum tempo depois estava sobre Amatique, de onde do seu interior 8 vultos negros se lançaram no espaço, saindo rapidamente pelas portas laterais da aeronave. Eles eram operadores do SAS e do SBS que tinham a missão de levantar inteligência in loco sobre a situação em Corozal, capital de Amatique.

Amatique era um pequeno país da América Central, banhado pelo Caribe, que tinha um antigo relacionamento com o império britânico, do qual foi colônia, e  remontava à época da caça aos piratas no século XVIII. Em 1967, Amatique conquistou a sua independência. Os idiomas falados eram:  inglês (oficial), inglês dialetal e espanhol.

Este país possui belas praias na capital, o que impulsiona o turismo, e também na capital está um porto de pequeno-médio porte que facilita a exportação dos seus principais produtos agrícolas como laranja, cana-de-açúcar e banana, produzidos no interior de Amatique.

Na capital existe a Escola de Enfermagem Emma Hoon, onde há também um pequeno hospital. Esta escola é mantida e dirigida por uma entidade assistencialista britânica. Na Escola de Enfermagem estudavam alunos de vários paises da América Central. Seu corpo docente eram composto em sua maioria por cidadãos britânicos.

Golpe

Nos últimos doze anos Amatique esteve sob o governo do primeiro-ministro Tommy Bishop, amigo pessoal, a mais de 25 anos, do atual premier britânico, Edward Scotter. Bishop também era um velho amigo da Rainha Elizabeth.

A cerca de cinco anos o Partido do Povo, tendo a frente George Parkins, fazia uma oposição que chegava as raias da violência, contra o Partido Liberal de Bishop.

Parkins queria uma reforma agrária radical no país e uma diminuição considerável da presença estrangeira em Amatique, notadamente a presença britânica. Os discursos de Parkins chegavam muitas vezes a serem xenófobos.

A situação política começou a se deteriorar quando o Partido do Povo foi acusado de ações fraudulentas nas últimas eleições municipais, a 14 meses atrás, com o objetivo de conquistar as prefeituras das três principais cidades do país, inclusive Corozal.

Foi aberta uma investigação pelo Parlamento e Parkins foi afastado provisoriamente do presidência do seu partido, por seus próprios correligionários, enquanto as investigações tinham prosseguimento.

Parkins, que na verdade era culpado deste crime eleitoral, acusou o Partido Liberal de manipular as investigações e de ter se infiltrado no Partido do Povo, para gerar o seu afastamento. Revoltado, Parkins abandonou o Partido do Povo, e criou o Partido da Libertação Nacional - PLN e partiu para interior do país.

Há três semanas atrás Parkins surgiu sorrateiramente na capital a frente de uma força de 300 homens fortemente armados, auxiliados por 60 mercenários (argentinos, salvadorenhos e guatemaltecos), e deu um golpe de estado. Uma das principais armas dos golpistas eram dois helicópteros Hughes 500 fortemente armados. Os homens de Parkins também estavam armados com canhões sem recuo, lançadores RPG-7 e metralhadoras .50 e .30. A arma padrão era o fuzil de assalto AK-47 russo.

Como Amatique não possuía forças armadas, e sua segurança era de responsabilidade da Força Policial Metropolitana e da Policia Portuária, e essas duas forças estavam armadas apenas com pistolas, revolveres, fuzis SLR L1A1 e algumas submetralhadoras Sterling, foi relativamente fácil para Parkins e seus homens tomarem o poder.

Tommy Bishop foi preso e mantido cativo numa cela, na Prefeitura Naval em Corozal. Uma semana após o golpe a Escola de Enfermagem Emma Hoon, foi cercada e todos os estrangeiros que trabalhavam ali foram proibidos de sair do local. Parkins acusava a escola de ser um centro de treinamento para espiões. Na escola ficaram reclusos 20 britânicos, 8 canadenses, 5 americanos e 3 alemães. O pessoal da embaixada britânica, na verdade a única representação diplomática em Amatique, foi convidado a se retirar do país em 48 horas.

Inteligência

Dos oito operadores que saltaram do C-17, seis eram de ascendência africana, o que facilitava a sua locomoção entre a população local, em sua maioria descendentes de escravos africanos. Esse era um dado bem interessante e pouco divulgado das principais forças especiais ocidentais: a sua capacidade de contar com pessoal étnico específico para missões especiais em várias partes do mundo.

Podemos citar o SAS, SBS, Delta Force, US Army Special Forces, SEALs, Forças Especiais de Israel e a Legião Estrangeira, como forças que possuem homens com características étnicas específicas para operar em várias áreas do mundo. Por exemplo, na invasão do Afeganistão muitos dos operadores do SAS que estavam vestidos com roupas nativas eram combatentes descendentes, em segunda ou terceira geração, de paquistaneses e indianos, e não tinham nenhuma dificuldade de se passar por nativos, pois se pareciam etnicamente com a população local e falavam idiomas parecidos. Certamente eles operaram sem problemas em áreas povoadas. Muitos dos operadores especiais americanos no Iraque eram de etnia árabe.

Para reforçar o pessoal lançado pelo C-17, chegou a Corozal, em um vôo internacional, uma equipe de TV da Suécia, composta por três homens (todos do SAS). Neste momento existia em Corozal muitas equipes de reportagem cobrindo o golpe e a situação dos "reféns estrangeiros".

A missão do grupo precursor era fazer o reconhecimento de alguns locais específicos em Amatique. Entre eles estavam: a Escola de Enfermagem Emma Hoon, a Prefeitura Naval, o Aeroporto de Corozal, uma casa em San Ignácio, a 20km de Corozal onde provavelmente estava morando Parkins e uma praia a 1,5km de Corozal, batizada pelos britânicos como Orange Three.

O pessoal do SBS (4 homens) ficou com a Prefeitura Naval e a Orange Three. O pessoal do SAS (7 homens, incluindo o pessoal da "TV sueca", ficaram com a Escola de Enfermagem, o Aeroporto de Corozal e a casa em San Ignácio. A dica de que Parkins estava ali veio da Agencia Nacional de Segurança dos EUA (NSA) que monitorou as comunicações dos golpistas.

Os operadores britânicos contariam com a ajuda dos partidários de Bishop, que já tinham sido contactados pelo MI6 (Serviço Secreto britânico, para ações no exterior). O pessoal de Bishop foi acionado para prover apoio ao levantamento de inteligência sobre três lugares: Aeroporto, Prefeitura Naval e a Escola de Enfermagem Emma Hoon. Os britânicos deixaram transparecer que seria realizada uma operação de resgate usando pára-quedistas que tomariam o Aeroporto e depois seguiriam para a Escola de Enfermagem e a Prefeitura Naval, onde libertariam o pessoal estrangeiro e Bishop. Nada foi falado sobre a casa em San Ignácio e a praia Orange Three.

Todos os pontos foram investigados e os "suecos" tiveram acesso privilegiado a Escola de Enfermagem  Emma Hoon, onde inclusive entrevistaram alguns dos reféns. Parkins permitiu a entrada da imprensa internacional para mostrar que todos os funcionários da Escola de Enfermagem estavam bem e que, em suas próprias palavras, "estavam sendo mantidos ali, por questão de segurança, para protegê-los da agitação das ruas".  

Os "suecos" também foram até a Prefeitura Naval, como todas as outras equipes de reportagem, mas diferente destas, mediante um bom suborno, chegaram a menos de cinco metros da cela de Bishop. Foram proibidos de gravar pelos guardas, é claro, mas tudo foi registrado em duas microcâmeras.

Alvos

A Operação Sea Breeze montada pelos britânicos para resolver a crise em Amantique, não tinha o objetivo de simplesmente resgatar o pessoal estrangeiro e tirar Bishop da prisão. Ela tinha o objetivo de fazer isso sim, mas também de restabelecer a ordem política e eliminar o perigo de um novo golpe.

Diferente do que foi passado para os partidários de Bishop, os britânicos não realizariam uma ação com pára-quedistas, mas sim usariam os Royal Marines em um grande desembarque anfíbio e tropas especiais, para o cumprimento da missão.

Segundo os planejadores militares britânicos os reais fuzileiros navais britânicos (Commando 40) desembarcariam na praia Orange Three às 06:15 do Dia-D usando lanchões e helicópteros. Um pouco antes disso, mais precisamente às 06:00, homens do SBS transportados em helicópteros SEA King tomariam a Prefeitura Naval e libertariam Bishop. A Escola de Enfermagem Emma Hoon seria tomada por homens do SAS, também transportados por SEA Kings.

Os homens do Commando 40 desembarcados em Orange Three, seguiriam em Land Rovers 110, armados com metralhadores GPMG, .50 e lançadores de granadas de 40mm Mark 19, para o Aeroporto e o tomariam. Uma equipe especial do SAS se deslocaria de helicóptero para a casa que abrigava Parkins em San Ignácio, por voltas das 05:40 e o eliminaria, bem como todos os seus oito seguranças.

Os desembarques britânicos seriam viabilizados pelo HMS Ocean do Royal Navy que tem a capacidade para transportar: dezoito helicópteros, quatro embarcações para transporte de tropas e um Commando dos Royal Marines com cerca de 500-600 homens. O HMS Ocean é capaz de colocar 300 fuzileiros equipados a 70 km de distância da costa, podendo lançar duas vagas de 6 helicópteros de tamanho médio em intervalos de 30 minutos.

Entre os helicópteros transportados pelo HMS Ocean haviam seis WAH-64D Longbow do Exército britânico, que estavam substituindo os Lynx. Os Longbows dariam apoio armado aos desembarques e as missões de resgate. A muito tempo que o Ministério da Defesa da Grã-bretanha tinha unificado parte do treinamento de seus pilotos de helicóptero e dos caças harrier. Por isso era comum pilotos da RAF operarem em porta-aviões da Royal Navy, bem como pilotos do Exército participarem de exercícios navais com os Royal Marines.

O HMS Ocean receberia durante a Sea Breeze o apóio dos modernos LPD (Landing Platform Dock - Plataforma Anfíbia de Desembarque) HMS Bulwark e HMS Albion.

Os Royal Marines são um Corpo altamente treinado, experiente, profissional, e com a habilidade para se desdobrar pelo mundo inteiro através do mar, terra ou ar. Como parte da Força Conjunta de Reação Rápida (Joint Rapid Reaction Force (JRRF) do Reino Unido, os Royal Marines mesmo sendo uma formação pequena, se comparada aos US Marines, formavam uma força de intervenção extremamente potente, letal e capaz, apta a proteger os interesses britânicos e aliados pelo mundo inteiro. 

Desembarques

Na madrugada do dia 5 de maio, data marcada para o desembarque, todos os Royal Marines embarcados no HMS Ocean, HMS Bulwark e HMS Albion, já tinham sido instruídos sobre suas missões em Amantique.

A frota britânica estava fora do alcance visual da costa e os rebeldes não tinham condições de realizar nenhum reconhecimento naval de longo alcance. As autoridades britânicas também sempre descartaram a possibilidade de uma intervenção militar em Amantique em seus pronunciamentos públicos, e oficialmente uma parte da Royal Navy, inclusive o HMS Ocean e seus navios de apoio, estavam em manobras em alguma região próxima aos Açores, Portugal.

Os operadores do SAS eram da Tropa 18 do Esquadrão D do 22 SAS e os operadores do SBS eram do Esquadrão A. Para este missão todos eles estavam armados com fuzis M4.

Por volta das 05:00 todos estes operadores estavam no convés do HMS Ocean esperando o sinal para embarcarem nos seus respectivos SEA King Commando. Ventava muito e fazia um pouco de frio, mas nada que lembra-se as duras condições do Mar do Norte, onde estes homens costumavam treinar exaustivamente. O tempo de vôo para alvos variava de 17min a 22min.

Os primeiros a desembarcarem em Amantique foram os operadores do SAS e do SBS:

Prefeitura Naval

O Sea King transportando os operadores do SBS pouso a poucos metros da Prefeitura Naval, que segundo a equipe precursora do SBS neste momento era guardada apenas por 12 amantiquanos, membros do Partido da Libertação Nacional. A maioria estava dormindo e só um homem vigiava Bishop. Usando granadas de fósforo e de bombas de efeito moral os homens do SBS rapidamente tomaram o local libertaram o primeiro-ministro Tommy Bishop que foi levado para o HMS Ocean. Não houve baixas entre os britânicos.

Escola de Enfermagem Emma Hoon

Simultaneamente a ação na Prefeitura Naval a ação contra a Emma Hoon aconteceu. Os operadores do SAS que já estavam no local funcionaram como uma equipe de snipers eliminaram todos os homens que estavam na área externa e nas janelas. O Sea King com a equipe de resgate do SAS pairou a poucos metros do prédio principal, aonde estavam os reféns, e doze operadores britânicos desceram rapidamente por cordas.

Dentro da Escola de Enfermagem estavam uns 10 mercenários, reforçados por outros 13 homens do Partido da Libertação Nacional. Aqui os britânicos usaram com a máxima violência, pois a ordem era para que nenhum mercenário sobrevivesse, e nenhum dos reféns fossem mortos. Seis mercenários guardavam os reféns, que dormiam todos na maior sala de aula da escola, que ficava no primeiro andar e tinha janelas para dentro de pequeno pátio.

Os atiradores de elite do SAS eliminaram todos os guardas, seis ao todo, e mantiveram guarda sobre o local. Dentro do prédio uma equipe de quatro homens se dirigiu rapidamente para o alojamento dos guardas e como granadas e rajadas de fuzis automáticos eliminaram todos eles, inclusive os feridos.

Quando os mercenários que guardavam os reféns ouviram os tiros ficaram muitos agitados, mas não tiveram muito tempo de pensar e agir contra os estrangeiros, pois a porta da sala de aula foi pelos ares com uma forte explosão. Vultos negros se lançaram para dentro da sala e numa coreografia exaustivamente ensaiada tomaram o seus lugares a medida que eliminavam os guardas. Devido o horário todos os reféns estavam dormindo e os únicos que estavam de pé ou se levantaram eram os guardas, que foram cirurgicamente eliminados.

Precisamente no momento em que a Escola Emma Hoon era tomada, tropas dos Royal Marines chegavam na frente da escola transportados por Land Rovers 110 fortemente armados. Esses soldados asseguraram a área para impedir qualquer tentativa de contra-ataque. Os reféns, todos bem, mas um pouco atordoados, foram embarcados nos Sea Kings e levados em segurança para o HMS Ocean. Durante todo o tempo da operação de resgate, helicópteros WAH-64D Longbow ficaram de guarda no céu, dando cobertura e apoiando toda a ação em terra.

A uns 300 metros da Escola Emma Hoon existia uma colégio para meninas órfãs que foi transformado em quartel para as forças rebeldes. Lá estavam aquartelados cerca de 100 rebeldes, que podiam dar apoio aos homens que vigiavam a Emma Hoon se necessário. Dois WAH-64D Longbow cuidaram do local destruindo-o com mísseis hellfire, e o varrendo sistematicamente após isso, com rajadas de metralhadoras.

Aeroporto

A tomada do aeroporto foi relativamente fácil. Depois de serem avisados dos combates em toda a cidade, a pequena guarnição formada por membros do PLN fugiu assim que os Royal Marines iniciaram o seu ataque. Os dois helicópteros Hughes 500 que estavam no local nem seque saíram do chão, foram rapidamente tomados e suas tripulações presas. Essas duas aeronaves foi posteriormente entregues a Policial Portuária para realizarem missões de patrulha costeira.

A casa em San Ignácio

O ataque a esta casa foi de certa forma o mais fácil para os operadores do SAS. Nesta casa eles não precisavam resgatar estrangeiros reféns ou libertar algum político local. Aqui a missão era uma só: eliminar todos da casa. Toda a operação seria realizada com a intenção de simular uma batida policial.

Os homens do SAS chegaram ao local em duas vans, sem nenhuma identificação, fornecidas pelo pessoal da resistência. Dois carros com policiais metropolitanos e da policia portuária os estavam acompanhando. Quando os operadores do SAS saíram para realizarem a "batida" os policiais permaneceram em seus carros, eles só seriam usados no final do ataque.

Na casa estavam Parkins, seu secretário pessoal e mais quatro guarda-costas (todos mercenários). No momento do ataque dois homens estavam de guarda e os outros ocupantes da casa estavam dormindo. Os guardas foram eliminados com pistolas de 9mm dotadas de silenciadores. Duas "azeitonas" para cada um. 

Os homens do SAS entraram na casa e eliminaram todos que estavam lá dentro sem nenhuma dificuldade. Parkins foi morto também enquanto dormia. Após isso os homens do SAS saíram da casa entraram nas vans e foram embora. Aos passar pelos carros dos policiais, os britânicos sinalizaram para os mesmos, que logo após entraram na casa disparando abundantemente com suas submetralhadoras Sterling 9mm, para todos os lados, inclusive contra os corpos dos homens mortos lá dentro, crivando-os de balas.

Logo depois as 09:00 da manha os policiais chamaram os reportes para testemunharem o sucesso da "batida policial" que eliminou o líder da rebelião. Nenhuma menção foi feita a ação do SAS.

Conclusão

Houveram alguns combates até D+2, quando toda hostilidade cessou. Os britânicos tiveram 7 baixas, nenhuma fatal e muito grave. O governo instituído voltou ao poder. Os demais mercenários e partidários do PLN foram presos. Os mercenários foram deportados. Uma Companhia dos Royal Marines ficou em Corozal por cerca de 4 meses para manter a ordem. Em suma a Operação Sea Breeze foi um grande sucesso, a um custo relativamente baixo e manteve Amatique dentro da esfera de influência da Grã-bretanha.


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Assunto: Operação Sea Breeze