OVERLORD - DIA D - NORMANDIA (FRANÇA) - 1944

7 - FIM DO DIA


1- A PREPARAÇÃO

2 - O PLANO

3 - O INIMIGO

4 - ALIADOS

5 - ASSALTO AEROTERRESTRE

6 - DESEMBARQUE 

NAS PRAIAS

7 - O FIM DO DIA

8 - O DIA-D 

HORA A HORA


Por que os Aliados venceram a batalha do Dia D? Seria Montgomery um general maior que von Rundstedt? Por que os alemães, com cerca de 40 divisões à sua disposição, colocaram tantas delas em lugares errados, facilitando aos Aliados a luta pela permanência na praia?

Deve ser lembrado que, em primeiro lugar, os Aliados detinham a supremacia do ar. Em segundo, eles tinham o absoluto comando do mar. Em terceiro, embora Montgomery tivesse seus defeitos, era provavelmente um general bem melhor que von Rundstedt, além de ser talvez um páreo duro para Rommel. E foi apoiado com nobreza por Bradley e Dempsey.

Se os Aliados tinham a vantagem aérea e naval, os alemães eram tremendamente superiores por terra, porque tinham muito mais divisões e, especialmente, mais divisões Panzer. Além disso, seus soldados eram, em termos gerais, muito mais experientes que os dos Aliados. Eram bem conduzidos em todos os níveis.

Supremacia aérea aliada: Spitfire abate Ju-88 sobre Gold Beach

Doze Junkers Ju88 são repelidos por Spitfires canadenses do Esquadrão 401 quando tentavam atacar Gold no dia 7 de junho de 1944

O ponto-chave é que os comandantes alemães, por uma ou outra razão, estavam divididos quanto ao significado dos relatórios que chegavam a seus quartéis-generais. Às 2:15 h, o Major-General Pemsel reportava ao Chefe do Estado-Maior de Rommel, o General Speidel, que "se pode ouvir o som de motores vindo do mar sobre a costa leste de Cotentin .. .", e que o Almirante, da costa do Canal, relatara a presença de navios na área marítima de Cherbourg. Para Pemsel toda essa atividade indicava uma grande operação. Speidel não concordou e, o que faz mais ao caso, tampouco concordou von Rundstedt, que continuou convencido de que o ataque principal seria desfechado em Calais e que, portanto, não tinha começado ainda. Von Rundstedt foi a figura central da crise, uma vez que Rommel estava ausente. A opinião de Keitel não era nem uma nem outra, porque, uma vez que von Rundstedt estava convencido de que o genuíno Dia D tinha chegado, era de se supor que o velho guerreiro prussiano usasse sua iniciativa e mobilizasse suas reservas para onde pensava que Montgomery pudesse ao menos vê-las. O melhor local para o ataque era Caen. Um forte contra-ataque contra o flanco esquerdo inglês era a melhor alternativa quedos alemães tinham para estragar o Dia D. À medida que a campanha se desenvolvia, Montgomery mostrava-se muito satisfeito em manter a massa dos blindados alemães na frente inglesa. Conquanto isso em uma segunda etapa pudesse ser verdade, uma massa de blindados alemães ao redor de Caen era a última coisa que os ingleses desejavam ver no Dia D. 

Graças à incompreensão inicial de von Rundstedt, havia apenas uma divisão Panzer próxima o bastante para se fazer sentir no início do dia. Tratava-se da 21ª Panzer, sob o Tenente-General Feuchtinger, oficial que de modo algum carecia de iniciativa. Sua divisão estava estacionada em Saint Pierre-sur-Dives, a apenas 24 km da costa. Ele tinha cerca de 170 veículos blindados e tanques ao seu comando. Ele descreveu as frustrações que sofreu nas primeiras horas de 6 de junho: "EspereiA cabeça-de-praia se consolida. impacientemente durante toda a noite por instruções. Mas não recebi uma ordem sequer de uma formação mais alta. Ciente de que minha divisão blindada era a mais próxima do cenário das operações, eu finalmente decidi, às 6:30 h, que tinha de fazer alguma coisa. Ordenei a meus tanques que atacassem a 6ª Divisão Aerotransportada, entrincheirada na cabeça-de-ponte sobre o Orne. Para num, esta era a ameaça mais imediata à posição alemã." O julgamento era perspicaz e correio, até porque a 6a Aerotransportada estava longe de se encontrar entrincheirada por volta das 6:30 h, nem tinha sido reforçada pêlos comandos. Feuchtinger continua: "Logo depois de eu ter tomado esta decisão, recebi, às 7:00 h, a primeira indicação de que um comando mais alto ainda existia. Foi-me dito pelo Grupo B do Exército que eu me achava agora sob o comando do Sétimo Exército. E nada mais me foi dito quanto às minhas funções. Às 9:00 h fui informado de que receberia todas as ordens futuras do LXXXIV Corpo de Infantaria (Marcks), e finalmente, às 10:00 h, recebi minhas primeiras instruções operacionais. Foi-me ordenado parar a mobilização de meus tanques contra as tropas aerotransportadas aliadas, voltar-me para oeste e ajudar as forças que protegiam Caen."

Esta foi a decisão crucial. Os blindados de Feuchtinger, mobilizados em direção à costa 90 minutos antes que o primeiro homem da 3ª Divisão inglesa pisasse na praia, estavam agora condenados a gastar as horas vitais do Dia D cruzando a única ponte que sobrara sobre o rio Orne em Caen. Se a 21ª Panzer tivesse prosseguido em seu plano original, ela teria avançado via Lê Bas de Ranville, que foi tomada aquela tarde pelo 3° Comando, a situação teria sido muito desagradável.

Outro comandante alemão que reagiu com rapidez foi o General F. Dollman, comandante do Sétimo Exército. Nas primeiras horas de 6 de junho, ele deu ordens para um ataque pêlos três lados, que, vindo do norte, do sul e de oeste, esmagaria as divisões americanas aerotransportadas. Infelizmente para ele, seus comandantes divisionais não tinham retomado do Rennes, onde participaram de um exercício anti-invasão. Os soldados americanos e os combatentes da Resistência tinham estado ocupados em cortar as linhas de telefone, de modo que muitos comandantes alemães estavam simplesmente impossibilitados de se comunicarem com seus quartéis-generais. O caos e a escuridão era o que lhes tocava, e a seus subordinados.
Uma das melhores unidades em Cotentin era o 6° Regimento de Pára-que-distas alemão. Decidiu-se usá-lo no ataque aos americanos entre Carentan e Sainte Mère Egiise, o que já foi mencionado. O Major Friedrich-August Freiherr von der Heydte reuniu seus homens e depois supervisionou a cena do alto da torre da igreja de Saint Come. A 10 km ele viu Utah, e achou o espetáculo "catastrófico". Lá, em plena manha do Dia D, as levas de desembarque eram descarregadas tranqüilamente ao sol. Era algo como "o Wannsee de Berlim em uma tarde de verão". As tropas americanas aerotransportadas não eram vistas em parte alguma.

O lº Batalhão de von der Heydte rompeu as unidades dispersas da 101ª Divisão sem qualquer dificuldade, mas sua unidade foi cortada ao meio por uma ulterior aterrissagem de planadores e pára-quedistas. O avanço da 8a Divisão de Infantaria americana de Utah resultou desastroso para o 6° Regimento de Pára-quedistas alemães, mas eles só saberiam disto no dia seguinte, 7 de junho. Em Omaha, o General Dietrich Kraiss, como já vimos, foi convencido de que sua 352a Divisão parara os americanos. Relatórios da 716a Divisão não eram, porém, tão encorajadores. Os ingleses pressionavam na direção de Bayeux, onde a reserva do LXXXIV Corpo, o 915° Regimento, estava estacionado. Esta unidade praticara o contra-ataque rumo à costa diversas vezes. Chegara a hora de fazê-lo com seriedade. Imagine-se o desalento de Kraiss quando, às 4:00 h, descobriu que o 915° Regimento fora enviado a Carentan 59 para lidar com o desembarque aéreo! A reação do general foi expedir uma contra-ordem, que levou uma hora para chegar ao destino. As tropas - pode-se imaginar seus comentários - voltaram a pé, de bicicletas ou em velhos camihões franceses rumo a Omaha. Contudo, de um modo ou de outro, elas jamais conseguiram reforçar os defensores, que eram gradativamente desalojados de seus abrigos. Uma verdadeira cortina de fogo naval foi importantíssima para impedir o reabastecimento de munição, essencial para os alemães da linha de frente poderem resistir. O contra-ataque do 915º Regimento deu em nada. 

 Emblema da 21ª Panzer Division

Emblema da 21ª divisão Panzer.

Um assalto mais perigoso foi feito pela 21a Panzer, a qual, dificultada pêlos refugiados, abriu caminho através de Caen. Os Aliados avistavam já a cidade com sua alta catedral quando, tarde avançada, o General Feuchtinger fez entrar seus blindados. Ele escreveu: "Uma vez sobre o rio Orne, dirigi-me para norte em direçâo à costa. Mas desta feita o inimigo .. . fizera impressionante progresso e já conquistara a faixa elevada a cerca de 10 km do mar. De lá o excelente fogo antitanque dos Aliados derrubou 11 dos meus tanques antes que eu pudesse parar. Contudo, um grupo de batalha conseguiu ultrapassar aqueles canhões e alcançou realmente a costa em Lion-sur-Mer, por volta das 19:00 h."

Esta força - meia dúzia de tanques e um punhado de infantaria - era insuficiente para mudar os rumos da batalha. Na verdade, cerca de três horas antes, os ingleses tinham investido contra os últimos tanques da 21ª Panzer, que contra-atacava para salvar Caen. Antes de os alemães desfecharem o ataque, o General Marcks, com toda a gravidade que pôde aparentar, falou a seu comandante de batalhão, o Coronel von Oppeln-Bronowski: "Oppeln, o futuro da Alemanha está em suas mãos. Se você não conseguir rechaçar os ingleses, perderemos a guerra."

Ninguém, que tenha combatido e vencido os alemães, precisa de muito fôlego para exaltar suas qualidades militares! Mas pelo menos uma vez aqueles valorosos guerreiros tinham sido tomados de surpresa. A tormenta sobre o Canal abaixou a guarda alemã. Rommel se ausentara. Nada do que aconteceu teria importância se as disposições iniciais de von Rundstedt tivessem sido correias. Os alemães tinham uma longa tradição de experiência em operações terrestres, mas von Rundstedt mostrou-se incapaz de conter uma operação anfíbia. Ele deveria ter visto que existiam apenas duas áreas onde os Aliados poderiam fazer seu desembarque inicial. A óbvia era Pás de Calais; a outra foi a realmente escolhida, a área entre o Orne e Cotentin. Uma combinação das duas, embora improvável, era possível. Mas a infantaria em cada uma das duas áreas Panzer, uma em cada flanco, e ,um corpo de reserva de pelo menos uma divisão de infantaria a mais.

O Marechal-de-Campo von Rundstedt, não obstante sua folha de serviço e experiência, foi enredado pelas complexidades da guerra anfíbia. Mesmo assim, não estava além de seu discernimento deduzir que algumas partes da costa simplesmente não seriam incluídas na área de cabeça-de-ponte dos Aliados. Uma era o trecho de costa nos dois lados do Dieppe, com seus rochedos de piso calcário e praias de cascalho - especialmente depois do fiasco de 1942. Segue-se que naquela área a 84ª Divisão poderia ter sido substituída por uma formação estática de mais baixa categoria.

Typhoon britânicos atacam panzers em seu deslocamento pela Normandia

A supremacia aérea aliada foi fundamental para imobilizar os blindados alemães - Typhoons da RCAF atacam panzers.

Outra área guardada com força desnecessária era a Bretanha. Lá não havia necessidade da 77ª Divisão em Saint Maio, a qual poderia ter sido substituída por uma guarnição estática. O mesmo diga-se da 353ª Divisão, uma vez que um desembarque aliado na Bretanha era altamente improvável. Ela não apenas dista muito dos portos do sul da Inglaterra, como também está afastada de Paris, Antuérpia e dos outros objetivos principais de toda a campanha aliada. Tivesse von Rundstedt analisado a situação com mais astúcia e feito uma melhor distribuição de suas melhores divisões, teria sido possível repelir os Aliados no Dia D.

A batalha do Dia D dividiu-se naturalmente em três fases. A primeira era a ruptura do Muro Atlântico, a segunda o avanço para o interior e a terceira a consolidação para repelir o inevitável contra-ataque. A primeira fase, a despeito dos reveses iniciais de Omaha, foi em todos os lugares notavelmente bem-sucedida. O Muro Atlântico, apesar de toda a habilidade colocada em sua construção, demonstrou-se muito menos formidável que o necessário. Ou, vendo-se sob outro ângulo, as tropas aliadas, particularmente as inglesas e as canadenses, estavam treinadas e equipadas para lidar com todo tipo de obstáculo. Este é talvez o lugar de se render tributo ao Major-General Sir Percy Hobart, cujos tanques funnies ("engraçados") foram a cartada decisiva em favor da infantaria inglesa.

O progresso feito na segunda fase de combate do Dia D foi desapontador, pois Caen, Bayeux e Saint Lô encontravam-se ainda em mãos alemãs quando anoiteceu. Deve-se levar em conta que os planejadores limitavam-se a ser otimistas na seleção dos objetivos para o Dia D. O completo sucesso deve ser atribuído às tropas que, depois de uma noite com enjôo nos navios e nas barcaças de desembarque, tiveram ainda de romper o Muro Oeste. A eles o crédito, inclusive a 6ª Aerotransportada e aos comandos, pois na verdade atingiram a maioria de seus objetivos.

Em toda grande operação anfíbia é essencial de saída conquistar-se bastante solo, para a força ter espaço onde manobrar. A experiência mostra que se pode ganhar terreno no Dia D, o qual depois só pode ser mantido a um custo elevado, uma vez que o inimigo tem tempo de organizar as defesas. Cabe, pois, às tropas de avanço assumir os riscos sobre o Dia D, interiorizando-se muito ou pouco. Não se pode dizer que todas as tropas engajadas tivessem isto em mente. Algumas, a verdade seja dita, eram decididamente cautelosas. Foi má sorte dos ingleses que a 21ª Panzer tenha se postado à frente de uma divisão treinada para fazer 100 m em três minutos. Táticas apropriadas para uma batalha de peças paradas não constituíam necessariamente a melhor resposta à situação fluida do Dia D.

A fase de consolidação era algo que os comandantes aliados de todos os níveis compreendiam plenamente. Foram rápidos em entrincheirar-se e defender o terreno conquistado. Graças a dispositivos criativos, como o porto de Mulberry e PLUTO (Pipeline Under lhe Ocean = oleoduto sob o oceano), o corpo administrativo deu sólidas bases ao Grupo do Exército, bem antes que, a 19 de junho, o pior temporal de que se tem notícia nos últimos 40 anos desabasse sobre o Canal.

Muitos anos se passaram desde que os Aliados conseguiram aquela admirável vitória. É bem provável que o mundo não veja outra igual, de vez que uma única arma nuclear na área de assalto bastaria para desmantelar toda a máquina anfíbia. um pensamento aterrador.

Contudo, mesmo que não mais seja possível contemplar-se uma operação daquele tipo, vale a pena parar por um momento para lembrar a grandeza dos esforços despendidos pêlos Aliados a 6 de junho de 1944. A aviação aliada fez 14.000 vôos na noite de 5 de junho e no dia D. Nessas operações, perderam-se 127 aviões e 63 foram danificados.

Mais de 195.000 homens estavam engajados nos navios e nas embarcações que tomaram parte nas operações navais. Mais de 23.000 soldados aerotransportados, cerca de 8.000 ingleses e de 15.500 americanos, desembarcaram do ar. Ao total cerca de 156.215 soldados desembarcaram, do ar e do mar, na Normandia e, a custo de 10.300 baixas, romperam o Muro Atlântico de Hitler em apenas um dia.

O preço em vidas foi alto, tantas nos combates nas praias quanto no interior