OVERLORD - DIA D - NORMANDIA (FRANÇA) - 1944

8 - O DIA-D HORA A HORA


1- A PREPARAÇÃO

2 - O PLANO

3 - O INIMIGO

4 - ALIADOS

5 - ASSALTO AEROTERRESTRE

6 - DESEMBARQUE 

NAS PRAIAS

7 - O FIM DO DIA

8 - O DIA-D 

HORA A HORA


0h - 1h

Pathfinders britânicos ajustam seus relógios na noite de 5/6 de junho de 1944 em frente a um Armstrong Whitworth Albemarle

antes de saltarem na Normandia

Logo no primeiro minuto, seis grandes planadores Horsa, da 6a Divisão Aerotransportada britânica, penetraram na costa francesa, acima de Houlgate. Um pousa na área coberta de arame farpado que protege a ponte de Bénouville, no canal de Caen. Dois outros pousam ao lado da ponte de Ranville, no Orne. Total surpresa: em menos de quinze minutos, duas pontes pertencem ao 2o Oxfordshire and Buckinghamshire Light Infantry. Enquanto isso os Pathfinders pousam nas dropping zones. Seus vaga-lumes se acendem no solo. É uma hora da manhã quando o grosso da 6a British Airbone começa a cair ou a deslizar do céu. Na outra extremidade da frente de assalto, no Contentin, a operação americana começou no mesmo instante.

Identificação do ombro do 2o Oxfordshire and Buckinghamshire Light Infantry

Os Pathfinders da 101a Airbone saltaram em primeiro lugar, 15 minutos depois da meia-noite. O céu está nublado, a terra coberta de lama, a lua intermitente. A 0h50, a leste de Monteburgo, o Tenente-Coronel Hoffmann, que comanda um regimento de posição da 709a DI, vê, a um raio de luar, corolas que se aproximam do chão. Suas sentinelas atiram. Uma metralhadora de mão americana responde.

1h - 6h  

A 1h11 o 84o Corpo alemão, em Saint-Lô, recebe, de Caen, uma comunicação de sua 716a DI: “Pára-quedistas a leste das embocaduras do Orne, região Ranville-Bréville e orla norte da floresta de Bavent”. A 1h45, recebe, recebe de Valones uma mensagem da 709a DI: “Pára-quedistas inimigos ao sul do Saint-Germain-de-Varreville e perto de Sainte Marie-du-Mont. Segundo grupo a oeste da grande estrada Carentan-Valognes, dos dois lados do Merderet”.  

As duas regiões indicadas estão nas duas alas do corpo de exército. A operação é, assim, importante. O General Marcks cancela sua viagem a Rennes. A realidade substitui a ficção. Além, o céu está terrificante. Enormes espirais de fumaças avermelhadas ensangüentam o horizonte. O barulho de milhares de motores - todos inimigos - enche a noite. 

Às 2 horas, novas informações chegam a Caen e de Valognes. Pára-quedistas foram capturados. Pertencem à 3a Brigada Aerotransportada britânica e aos regimentos 501o, 505o e 506o de pára-quedistas americanos. Três, das quatro divisões de infantaria aérea conhecidas pelo inimigo, estão, pois, comprometidas. Os grandes chefes são acordados: Dollmann no Mans, Salmuth em Tourcoing, Rundstedt em Saint-Germain-en-Laye. Em Roche-Guyon, Speidel ainda espera, antes de alertar Rommel, que está em sua casa de Herrlingen. 

A leste do Orne, as principais missões da 6a Airbone são realizadas. A cabeça-de-ponte de Rainville consolida-se. São dinamitadas as pontes do Dives, a de Troarn inclusive, destruída quase que unicamente pelo Major Roseveare, na retaguarda de sua guarnição. O Castelo de Varaville é tomado. Cai a bateria de Merville. Foi atacada às 2h45, pelo 9o Batalhão de Pára-quedistas, que sabia sua lição de cor. Às 3h45, depois de vivo combate, o Tenente-Coronel Ottway solta o pombo-correio com a comunicação: bateria tomada. Percebe-se então que a bateria não continha senão os canhões 75 quase inofensivos em vez dos temíveis 150 que os invasores queriam amordaçar.  

Às 3h30, chega o General Gale, com a terceira vaga, que traz material pesado. Sua divisão toma o Orne, semeia a confusão entre o Orne e o Vire, captura homens pertencentes à 716a DI e à 21a Pz. Suas perdas graves são poucas, porém mais da metade de seus 4.800 homens estão dispersos, por causa dos erros da aterragem, e não responde à chamada.  

A operação de transporte aéreo americana é muito complicada. Os historiadores oficiais não se julgaram aptos a reconstituí-la com exatidão. A sebes e a bruma apareceram para isolar os pequenos grupos de pára-quedistas e povoar de fantasmas o campo estranho onde caem os rapazes que vêm das grandes planícies do Novo Mundo. Os brejos e as inundações causam vítimas. Não é exato que regimentos inteiros tenham sido tragados pelos baixios do Merderet, segundo a versão romanceada que compara o episódio com o que ocorreu nos pântanos de Saint-Gond ou nas águas estagnadas de Austerlitz; mas é absolutamente verdade que muitos pára-quedistas fazem um esforço sobre-humano para sair do lamaçal, e alguns se afogam sob o peso do próprio equipamento. De 13.000 homens das duas divisões de transportes aéreos, menos de 2.500 se reagrupam imediatamente. Como instrumento de reunião, receberam matracas, que enchem a noite normanda, saturada de umidade, de um estranho concerto de cigarras. Mas seus gritos são abafados na espessura dos bosques. 

Na 101a Airbone, o 502o Regimento deve tomar as saídas norte da Utah Beach, as aldeias de Saint-Germain e Saint-Martin-de-Varreville, Mésières, Audouville-le-Hubert; o 506o deve apossar-se das saídas de sul, dos povoados de Houdienville, Pouppeville, Sainte-Marie-du-Mont; o 501o deve estabelecer-se no Dove, ao norte de Carentan. Mas o nevoeiro, o vento e a DCA baralham estas combinações longamente estudadas sobre o mapa. Os homens juntam-se ao primeiro oficial que encontram. As escaramuças verificam-se na obscuridade, com fracos destacamentos inimigos acantonados nas aldeias e também, provavelmente, com grupos amigos, vítimas de equívocos. Ao clarear do dia poucos são os elementos da 101a que se conservam nos lugares programados. Mas a irrupção de tantos soldados do ar nas suas retaguardas desorganizou a defesa costeira alemã. 

Compõem a 82a Airbone, o 505o, o 507o e o 508o regimentos de pára-quedistas. O 505o deve apossar-se de Sainte-Mère-Eglise e garantir as passagens do Merdetet até Chef-du-Pont e La Fière. Os dois outros regimentos devem constituir a cabeça-de-ponte para oeste, entre o Douve e o Merderet.  

Quando o céu se torna róseo, uma parte do 507o e do 508o ainda patina nas campinas inundadas. Uma outra parte desceu num terreno sólido, perto de Amfreville, mas as sebes são espessas e o reagrupamento se faz muito lentamente. Nada teria sido feito se um grupo de pára-quedistas não houvesse entrado no pátio de um pequeno castelo, perto de Picauville. Uma Mercedes aparece. Deslizando rumo ao campo de exercício de Rennes, o general comandante da 91a Divisão de Fallsschirmjäger, William Falley, resolveu voltar ao seu QG quando a ressonância dos bombardeios aéreos o convenceu da seriedade dos acontecimentos que iriam marcar esse dia nascente. Um deles é sua própria morte. Uma rajada colhe seu carro. Ele sai, de pistola em punho. Outra rajada o derruba. A divisão que defende o centro de Contentin perdeu seu chefe no começo do combate.  

Na outra margem do Merderet a sorte sorri ao 505o. O episódio da tomada de Sainte-Mère-Eglise é o mais célebre do desembarque. O 3o Batalhão do 505o pousou com notável exatidão na dropping zone 0, 1.500 metros a noroeste de Sainte-Mère-Église, no lugar chamado vale da Miséria. O Tenente-Coronel Edward Drause reagrupou rapidamente seu pessoal e, quando ao assalto à localidade, deu ordem para utilizar apenas granadas e facas. Havia uns 30 alemães e mais a turma de um comboio de passagem. Foram rapidamente mortos ou presos. 

Durante essas escaramuças, o alerta se propaga nos escalões do Comando alemão. Em Saint-Lô, Marcks dirige, rumo ao Carentan, seu único regimento de reserva. No Mans, Dollmann dá ordens de liquidar, através de uma ação concêntrica, os pára-quedistas que descerem em torno de Sainte-Mère-Église. Em La Toche-Guyon, Speidel prescreve à 21a Pz, reserva do Grupo B, a limpeza da margem direita do Orne. Em Saint-Germain, Rundstedt alerta a Pz Lehr e a 12a Pz SS, prevenindo-as de que deverão rumar para Caen. Um pouco antes das 6 horas, o chefe de estado-maior Blummentritt chama a Berchtesgaden o adjunto de Jodl, Warlimont, informa-o das decisões de seu marechal e assegura-lhe que a invasão está desencadeada. O sono de Hitler é intocável, mas Warlimont telefona a Jodl. Este desperta um homem cético: as descidas de pára-quedas são uma simulação; o verdadeiro desembarque não se efetuará na baixa Normandia.  

Na Mancha, o vento sopra com força 5. As vagas espumam. O enjôo põe à prova a maioria dos passageiros do Grande Cruzeiro. No horizonte, trovões e relâmpagos indicam o terrível embate que está sofrendo a costa normanda: 1.056 Lancaster da RAF se encarniçam contra as dez principais baterias alemães. Começaram pelas de Merville, Fontenay e Saint-Martin-de-Varreville, sobre as quais o bombardeio devia preceder a intervenção das divisões aerotransportadas; continuam por La Pernelle, Maisy, ponta do Hoc, Longues, Mont-Fleury, Quistreham e Houlgate. Nos navios, calma absoluta. No mar, dilúvio de fogo.  

Às 2h29 o LSH Bayfield, conduzindo o General Lawton Collins, comandante do 7o Corpo dos EUA, ancora a 17 braças de profundidade, 11 milhas ao largo de Utah Beach; 20 minutos depois, o LSH Ancon, levando o General Gerow, comandante do 5o Corpo fundeia, nas mesmas condições, diante de Omaha. Em torno dos dois QG flutuantes, todos os navios de imobilizam. Sete minutos depois, os botes de desembarque começam a dançar sobre as vagas. Um ligeiro clarão de lua dilui a escuridão, mas a costa está invisível. É irreal, quase angustiante, proceder aos preparativos para o maior desembarque da História, diante desse litoral que estaria totalmente silencioso, se não fosse o tapete de bombas que, a intervalos regulares, se abatem sobre ele.  

Na água agitada, entre os pálidos salpicos de espumas, formam-se os comboios de assalto. À frente, os barcos-pilotos, seguidos pelos lançadores de fumaça. Depois, em colunas, as unidades especializadas, de PC ou patrulheiras, LCT encarregadas de levar os carros anfíbios; outras LCT lotadas de carros comuns; LCA inglesas e LCVP americanas transportam uma seção de infantaria; LCG trazendo a artilharia; LCF conduzindo a DCA; LST entupidas de homens de material; LCR trazendo as baterias de lança-foguetes. Os destróieres, galgos escoltando tartarugas, estabelecem seu posto nos flancos. Uma frota sai de outra frota e mergulha na noite, rumo a uma terra de mistério de perigo.  

A distância da costa impõe uma navegação de três horas, sobre vagas de mais de um metro de altura, a esta frota de quilha rasa, dificilmente manobrável, reagindo brutalmente ao balançar das ondas. O enjôo chega mesmo a afetar as tripulações, tão recentemente habituadas ao mar. A Força U, vogando para Utah Beach, protegida pelo posto avançado de Cotentin, entra progressivamente em águas mais calmas. A Força O, ao contrário, continua a sofrer nas vagas como se fosse feito de cortiça - enquanto lentamente, como contra a vontade, o dia nasce. 

Nas praias atribuídas aos ingleses, a aproximação foi mais tardia. Os transportes avançaram apenas até 7 milhas da costa. Às 5h05, no momento em que a noite começa a dissolver-se, clarões verdes na superfície das águas provam que o X-20 e o X-23 estão no seu posto de balizas. Alguns instantes depois, os navios, entre os quais o Warspite e o Ramillies, ancoram e os aviões da Fleet Air Arm lançam uma cortina de fumaça para esconder a frota das baterias pesadas do Havre. A formação de tropas de assalto começa em seguida. 

Mas, no nevoeiro artificial, surgem três flechas. Três vedettes torpedeiras, T-38, Jaguar e Möwe, três mosquitos, uma trintena de homens, uma centena de toneladas, atacam os senhores do mar. Uma artilharia terrível os acolhe. Fazem, pois, meia-volta, retornam à cortina de fumaça - mas depois de ter lançado seus torpedos. Um destes atinge o destróier norueguês Svenney nas suas caldeiras. O barco afunda imediatamente.  

Este ataque alemão, insignificante e intrépido, mostra que se conhece a aproximação da frota de invasão. Às 3h09, um dos últimos radares alemães revelou enfim numerosos navios ao largo do Port-en-Besin. O Almirante Krancke deu ordem de intervenção às flotilhas de Cherburgo e do Havre. A de Cherburgo ficou imobilizada no porto, diante da ação da aviação inimiga. A do Havre fez uma vítima: um navio de guerra entre 1.200!  

Partem de terra alguns tiros de canhão. No ar, uma carga de 1.630 Liberartors da USAF substitui os Lancaster da RAF. No mar, os couraçados e os cruzadores atingiram as Fire Support Areas, a 10 braças de profundidade. Seus canhões abrem fogo às 5h30, contra Sword, Juno e Gold. Sobre Omaha e Utah o ataque só principia às 5h50, havendo do americanos preferido a surpresa à demora de uma preparação. As lanchas de desembarque estão a 3.000 metros das praias. A maré é a mais baixa possível. O sol ainda não surgiu. 

6h - 12h  

Brigadeiro Theodore Roosevelt Jr desembarca em Utah

Utah Beach. Um dos primeiros americanos que pisa a terra francesa, exatamente às 6h39, é o Brigadeiro Theodore Roosevelt Jr, fiel à tradição de bravura dos Roosevelt de Oyster Bay, homônimos e rivais de Roosevelt de Hyde park e do “New Deal”. Adiante, em cima, atrás dele, os foguetes lançados pelo LCR fazem um barulho infernal. Roosevelt, que tinha estudado o terreno, não o reconhece. Compreende que uma corrente afastou os barcos para o sul, até a aldeia de Madeilene, onde termina o caminho de Sainte-Marie-du-Mont. Lá estava um blockhaus armado com uma peça de guerra e uma velha torre de proteção de tanque, constituindo o ponto de apoio n° 5. Os defensores, que pertencem à 3a Companhia do 919o RI, foram enterrados pelo bombardeio. Os americanos os desenterram. O oficial alemão, Tenente Janke, deixa-se fotografar ao lado deles, diante da fortaleza.  

Nessa praia, atingida por equívoco, porém facilmente conquistada, o desembarque se organiza admiravelmente. Alguns barcos, entre os quais um LCT, naufraga de encontro às minas, mas as equipes especiais, Underwater Demolition Teams, destroem rapidamente os obstáculos e desfazem as armadilhas. A ressaca é um débil marulhar; os homens entram na água alegremente, mais atrapalhados pela rápida maré montante do que por alguns obuses vindo das baterias de Saint-Marcouf. As ondas de assalto se sucedem. As extremidades de vanguarda da 4a DI dos EUA se lançam para os caminhos de Audouville, de Sainte-Marie e de Pouppeville, procurando ligação com os pára-quedistas de Taylor.  

Diante de Omaha Beach o mar continua violento. Rolos de espuma correm sobre a areia. Os barcos de desembarque respeitaram o horário, mas a ressaca os maltrata e a espessa fumaça que cobre a costa torna difícil pilotar. À esquerda, 32 tanques anfíbios são lançados a 5.000 metros da praia, mas seus flutuadores são feitos para águas tranqüilas, e todos, salvo dois, submergem juntamente com sua equipagem. À direita, 28 outros DD deveriam ser lançados à água nas mesmas condições: avaliando com exatidão o estado do mar, o Tenente-Comandante Rockwall encalha seu LCT, em vez de fazer nadar seus pesados patos. Os carros saem da água atirando. Mas a reposta que recebem é áspera. Obuses de 88 mm os estripam, perfurando também os LCT enquanto eles flutuam novamente.  

O canhão não é único a falar. Rajadas de armas automáticas varrem a longa esplanada, a descoberto pela maré. Os homens que desembarcam dos LCVP tombam nas ondas, ou, se conseguem sair da água, tentam refugiar-se na areia. Os mais felizes alcançam o dique que limita a praia. Mas a areia está sob a mira do fogo. Os metralhadores e os artilheiros alemães atiram “sobre um tapete de homens”. O oficial que comanda a ponta de La Percée telefona a seu coronel informando que vê a costa atravancada de tanques, viaturas, barcos em chamas, cobertos de mortos e feridos.  

Em março, Rommel passou pelo local. Sua cólera causou um efeito mágico. Se faltou material para as minas, em compensação todos os engenhos de que ele foi propagador estão acumulados na areia: uma barreira composta de elementos C ou “grades belgas”, várias filas de “cavalos de frisa”, várias faixas de “tetraedos” e de “ouriços”. As fotografias aéreas revelaram esses trabalhos - cujo efeito se pensou destruir com o desembarque em maré baixa -, mas, em virtude da orientação dos desvãos de proteção dos canhões, não revelam as armas de proteção dos flancos, aninhadas nas escarpas. Principalmente nenhum órgão de informação teve conhecimento da mais grave conseqüência resultante da inspeção de Rommel. Sustentando, como sempre, que as tropas de reserva não serviam para nada, empurrou para a primeira linha a 352a DI. Os americanos supunham cair sobre um setor mantido por um velho regimento da 719a Divisão de posição; caem sobre uma divisão de primeira ordem, cuidadosamente entrincheirada. 

Uma funesta prudência americana, aliás, favoreceu a defesa. O temor dos ataques retardou de 2 a 3 segundos o lançamento das bombas jogadas pelos Liberator. A maior parte caiu a 3 ou 4 km no interior das terras. Por outro lado, o apoio naval fornecido pelos couraçados Texas e Arkansas, o cruzador inglês Glasgow, os cruzadores franceses Montcalm e Georges-Leygues foi muito rápido para produzir resultado efetivo de neutralização. As defesas costeiras ficaram, de um modo geral, intactas, e seus ocupantes, ilesos.    

Na ponta do Hoc um erro de identificação retarda o assalto. Os LCVP e os DUKW, que transportam o batalhão dos Rangers, dirigem-se para a ponta da Percée, mas o Coronel Rudder, cujo nome significa “leme”, percebeu o engano e retificou-o. Os Rangers  escalam as escarpas debaixo da fuzilaria. Chegando ao cume, o que encontram em lugar de bateria são troncos de árvores. Os alemães haviam retirado os seis 155 mm, ao terminar a construção das casamatas. Aliás, quatro foram descobertos pouco depois, debaixo das redes de camuflagem, perto de Vierville, em Grandcamp, e foram destruídos.  

No fim da manhã, a situação de Omaha Beach é alarmante. Depois dos DD, os caminhões anfíbios DUKW foram liquidados juntamente com a artilharia que traziam. A praia está atulhada de material destruído. A maré alta afoga os feridos. As unidades de assalto continuam a chegar, os homens desembarcam com água até o pescoço, terminando por imobilizarem-se contra o dique. Os únicos americanos que conseguiram sair de Omaha Beach são o Coronel Canham, comandante do 116o RI, o Brigadeiro-General Cota, segundo-comandante da 1a DI, e  alguns soldados que conseguiram carregar. Com ajuda de uma investida violenta abriram uma brecha na rede de arame farpado que obstruía a entrada do caminho escavado de Saint-Laurent. Acima deles, o mato queima com uma fumaça acre. Plantado no flanco arenoso do pequeno barranco, os dois chefes esperam o momento propício. Os obuses dos destróieres, que se aproveitam da maré alta para se aproximarem a 1 km, passam rente às suas cabeças e vão devastar os ninhos de resistência alemã.  

Também entre os britânicos, o mar fez estragos. Engoliu perto de 50 velhos tanques Centaur, equipados com obuses de 95 mm para fornecer às unidades de assalto o apoio móvel da artilharia. Mas a ressaca é muito menos violenta em Sword, Juno e Gold  do que em Omaha, e os soldados da 716a DI, não valem os da 352a. O desembarque britânico se desenvolve não sem perdas, mas pelo menos sem crise grave.  

Britânicos desembarcam sob fogo em Gold, H+15minutos

No fim da manhã, na zona Gold, o ponto de apoio do Hamel mantém-se firme, mas a 50a Divisão se estende para Arromanches e Ver-su-Mer. Na zona Juno, o ponto de apoio de Courseulles também oferece resistência, mas os canadenses o contornam e se elevam sobre as colinas. Na zona Sword, o ponto de apoio de Le Brèche caiu, e o Comando n° 4, abrangendo duas seções francesas do Comando n° 10, ataca Ouistreham. Enfim, a 6a Airbone, reforçada por um desembarque de planadores, organiza-se no entroncamento de Ranville-Bénouville.  

No lado alemão, Jodl telefonou a Rundstedt, vetando suas pretensões: as duas divisões que o Feldmarschall pensou poder acionar diretamente só poderiam ser deslocadas com a autorização do Fuhrer - que está dormindo. Rundstedt resigna-se, sem mesmo pedir que acordem o dorminhoco. Resignação sarcástica - diz Speidel. O cabo boêmio quer comandar seus exércitos; que os comande. O generalfeldmarschall Gerd von Rundstedt lava as mãos.  

Rommel está a caminho. Informado da ofensiva às 6h30, renunciou à sua audiência com Hitler e corre para retomar seu comando. Aliás, não está absolutamente convencido de que se trate do verdadeiro plano, e sim de uma diversão feita para atrair as reservas alemães à baixa Normandia. É em torno da embocadura do Somme, diz ele, que o inimigo dará o grande golpe.  

12h - 18h  

Ao meio-dia, Churchill assoma à tribuna na Câmara dos Comuns. Exaspera a curiosidade de todos falando durante 20 minutos da tomada de Roma, que já não interessa a ninguém, depois descreve em termos grandiosos o desembarque que se está efetuando. “Até agora - diz - tudo se vem passando de acordo com os planos”.  

Em Obersalzberg, Hitler acorda. Não foi registrada sua primeira reação à notícia do desembarque. O grande comunicado será feito no Castelo Klessheim, distante uma hora de carro, na reunião em honra do novo chefe do governo húngaro, o General Astojai, convidado oficial. O programa não foi alterado. Diante do mapa da Normandia, Hitler graceja em dialeto austríaco: “Miam Miam! Eles vêm cair na boca do Grande Lobo! Bem bom!”. Todo mundo cai na gargalhada. Em seguida Hitler louva Jodl pelo seu “veto” matinal: tal como ele, não acredita que se trate da verdadeira invasão.  

No Cotentin, a luta prossegue em câmara lenta. Chamado de Périers para limpar a região de Carentan com seu batalhão de pára-quedistas, o Major Barão Von der Heydte sobe ao campanário de Saint-Come-su-Mont, na entrada de Sainte-Mère-Église. O mar está coberto de navios até o infinito e centenas de pequenos barcos descarregam tropas e material. “No entanto, não tive a impressão de que uma grande batalha estava em curso. O sol brilhava. Fora alguns tiros de fuzil, tudo estava calmo. O vaivém das embarcações fazia pensar num domingo de verão no lago Wannsee...” Utah Beach e os caminhos que levam a ela estão engarrafados. O 8o RI experimenta passar pelo pântano: atola-se e desiste. Às 12h15, está feita a junção com o 501o de pára-quedistas que acaba de conquistar Poupperville, apesar de uma resistência dura. Às 12 horas, a junção faz-se em Audouville-la-Hubert, com o 502o. Os pântanos costeiros são atravessados e a 101a Airbone cumpriu sua missão.  

No interior, a 82a luta. A conquista de Sainte-Mère-Eglise cortou a grande estrada de Cherburgo e dá aos americanos o controle da região alta situada entre os pântanos costeiros e os baixios de Merderet. A ação concêntrica ordenada pelos General Dollmann tem por fim retomar a cidadezinha. O 1.058o Regimento da 709a DI ataca vindo do norte: está parado no povoado de Neuville-au-Plain. Um ataque vindo do sul é também repelido. Em compensação, o 1.057o RI retoma a passagem de Chef-du-Pont e de La Fière. Muitos pára-quedistas caem prisioneiros a oeste do Merderet. Outros se reagrupam em torno da aldeia de Amfreville e sobre a elevação semeada de fazendas que a inundação desapruma, em frente a Chef-du-Pont.  

No setor de Omaha, o Tenente-General Dietrich Kraiss, que comanda a 352a DI comunica que susteve a invasão na própria praia. Essa convicção se reflete no comunicado de 13 horas do 84o AK; “Em Vierville o desembarque pode ser considerado repelido...” Mas Kraiss está inquieto a respeito da sua direita, ameaçada de ser absorvida pela progressão inglesa. Dirige para o leste o 915o RI, sob o comando do Coronel Meyer, dando-lhe ordem de contornar Bayeux e contra-atacar entre Bazenville e Crépon. Diante de Omaha Beach não resta qualquer reserva. 

Ora, os americanos vencem a depressão em que se encontram. Por mais vivo que seja, falta ao fogo alemão densidade, continuidade, estando a praia ocupada, afinal de contas, apenas por um batalhão reforçado do 914o RI. Alguns oficiais enérgicos transpõem o dique, arrastando soldados dos mais bravos. Aproveitando a maré cheia, o LCT  30 e o LCI 54 mergulham na onda de calhaus, encalham justamente na entrada do recôncavo de Coleville, no qual os homens se precipitam. Um golpe direto de um destróier desmantela a casamata de Moulins, cujos defensores se rendem. Os bulldozers blindados abrem brechas nas dunas. Lentamente, a linha americana se ergue sobre a colina, onde as primeiras sebes, pouco desenvolvidas, fornecem abrigos.  

É principalmente para a direita, para Caen, que o Comando alemão orienta sua preocupação. Um poderoso instrumento se movimenta: a 21a Divisão Blindada, com o poderio de 16.000 homens, de 127 PzKw 4, de 40 canhões de assalto, de 28 peças de 88 mm, etc. Antes de mais nada, ela recebe ordens de limpar a margem direita do Orne, dos pára-quedistas que desceram durante a noite. Chegando ao campo de batalha, apesar de sua perna ortopédica, o General Marcks vê, de golpe, que esta missão já não corresponde à situação. Encontra o coronel Oppeln Bronikovsky, que comanda o 22o Regimento de tanques, e, sob fogo, lhe dá suas instruções. Oppeln deve transportar seu regimento à margem esquerda do Orne e contra-atacar a fundo, rumo a Luc-sur-Mer. “Depende de você - diz Marcks - que a invasão seja repelida”. Deixando o coronel entregue à execução de sua missão, o general põe-se à procura de outras tropas, encontra um batalhão do 192o Pz Gr e orienta-o igualmente rumo a Luc-sur-Mer. O impossível deve ser feito para que o ataque inglês seja desbaratado, para que o desembarque se desorganize, contando com a intervenção das reservas gerais que o liquidarão.  

Commandos britânicos, apoiados por Shermans DD, avançam de Sword para o interior

Oppeln apressa-se. Sua tarefa é difícil. O único caminho praticável do Orne é uma ponte de Caen que está de pé. O 22a Pz atravessa a cidade em chamas. Os caças-bombardeiros o perseguem à saída. Ele sobe a toda pressa a colina de Lebisey, atravessa a aldeia, desce em um pequeno vale atapetado de verdura. Quando chega diante de Biéville, os batalhões de Norfolk e Warwickshire, reforçados por canhões automotores, acabaram de tomar a localidade. Caen está a 7 km. Caen é o objetivo principal deste dia. Ainda não são 6 horas da tarde. 

O encontro é áspero. Rechaçados, os tanques tentam contornar Biéville pelos vales de Périers. Destacamentos do Shoropshire Ligt Infantry e da Staffordshire Yeomanry destroem uma meia-dúzia deles. Caindo do céu, 8 bombardeiros de mergulho Typhoon incendeiam vários outros. O regimento recua, reagrupa-se nos limites de Caen. Sua intervenção impediu que a cidade fosse conquistada já na primeira noite. Contudo, não impediu a invasão.  

O contra-ataque da 192a Pz Gr foi mais longe. Caindo no intervalo das zonas Sword e Juno, seu ímpeto atinge o mar. Os granadeiros desembaraçam os centros de resistência de Saint-Aubin, de Luc e de Douvres-la-Délivrande, põem-se na defensiva, esperam os tanques... Esperam em vão.  

No restante do setor britânico, a situação é satisfatória. A 3a Divisão canadense ganhou vários quilômetros e a 50a, reforçada pelos primeiros elementos desembarcados da 7a Armoured, aproxima-se de Bayeux.  

No fim da tarde, Rommel chega a Roche-Guyon. Depara com as decisões de Hitler. A 12a Pz SS, estacionada ao sul de Rouen, e a Panzer Lehr, que está na região de Dreux, são postas à sua disposição. Por outro lado, o Fuhrer proíbe toda subtração do 15o Exército, e até anulou uma ordem de Dollmann que chamava à Normandia uma parte das tropas da Bretanha. Decidiu, de uma vez por todas, que o 6 de junho é uma dissimulação, e que a verdadeira invasão ainda vai chegar.  

20h - 24h 

A batalha termina cedo. As tropas de assalto estão fatigadas e os alemães não tem meios de lançar um contra-ataque noturno. De Ranville até Sainte-Mère-Église, o fogo cessa ao por do sol. 

Em compensação, a aviação noturna volta ao trabalho. Sua missão é de interditar o campo de batalha, impossibilitando a penetração das reservas inimigas. Bombas fulgurantes que os soldados alemães chamam “árvores de Natal”, Weihnachtsbäume desmascaram as colunas em marcha, e o bombardeio sistemático dos postos de passagem obrigatória multiplica as perdas e os atrasos. Bayerlein contou a Paul Carell o que foi a noite da Panzer Lehr deslocando-se rumo a Caen. Sées atravessada de bombas, depois, Argentan, às 2 horas da manhã: toda a cidade em chamas, iluminada como em pleno dia, imensa fogueira debaixo de um bombardeio ininterrupto, as ruas obstruídas por escombros, a ponte do Orne estraçalhada. Os pioneiros restabelecem uma passagem, mas Bayerlein deve caminhar através de desvios para alcançar Flers e Condésur-Noireau, igualmente arruinadas. Aponta o dia, nenhuma das cinco colunas, nas quais a divisão foi fracionada, conseguiu ultrapassar Falaise, a 25 km do campo de batalha - e os Jabos recomeçam a imobilizar contra o solo tudo que tem movimento. A Panzer Lehr deveria contra-atacar ao romper da aurora, mas não se move até a noite.  

Em contraste, os Aliados. Antes do cair da noite, o chefe do serviço de contra-espionagem do 84o corpo alemão, Major Hayn, foi postar-se em Cabourg para ver com seus olhos o desembarque. “A atividade - conta ele - de um grande porto em tempo de paz”. A Luftwaffe esteve completamente ausente no correr do dia. A divisão de caça que se esperava de Metz foi totalmente destruída, e, com exceção de 3 FW-190, prontamente postos em fuga, nenhum avião de cruz negra foi visto sobre o campo de batalha normando. 

À meia-noite, 75.215 britânicos e 56.500 americanos, mais 15.500 americanos e 7.900 britânicos das formações aerotransportadas, num total de mais de 155.000 homens, pisaram a França. As follow up divisions, 29a e 90a americanas e 51a e 7a blindadas britânicas estão em pleno desembarque. Rommel tinha razão: perder a batalha das praias significa a Europa aberta à invasão. A Mancha é para os anglo-americanos um freio muito menor do que é, para os alemães, a barragem desta diabólica aviação, dona do céu.

Taticamente, os objetivos pretendidos para o 6 de junho à noite não foram atingidos em parte alguma. No Cotentin, o terreno conquistado é duas vezes menor do que se previu, o estabelecimento de uma cabeça-de-ponte sobre o Merderet fracassou e, ao sul, de Sainte-Mère-Église, um batalhão georgiano corta ainda a estrada de Cherburgo. Diante de Omaha Beach, os alemães terminaram por ceder Colleville e Saint-Laurent-sur-Mer, mas a penetração não ultrapassa em parte alguma 1.500 metros - e o que se queria, desde a tarde, era atingir o Aure, a 8 km das praias! No setor britânico, faltou um toque de inspiração e de audácia para que os brilhantes sucessos da manhã se convertessem nos objetivos do dia. A junção com os americanos não foi feita. A continuidade da cabeça-de-ponte não está realizada. Nem Caen nem seu aeroporto, Carpiquet, foram tomados. Diante de Bayeux, a 56a Brigada estacionou sua progressão às 20h30, quando acabava de atingir a cidade intacta e vazia de inimigos.  

Apesar dessas decepções, o dia é uma magnífica vitória. Os Estados Unidos e a Inglaterra vibram de orgulho. A Europa cativa vibra de esperança. Na França, os maquis se armam, cortam as linhas telefônicas, tomam posição ao longo dos caminhos, para atormentar as colunas alemães. Os ferroviários abandonam os trens de tropas, sabotam as locomotivas e as manobras dos trilhos. 

O comunicado alemão da tarde limita-se a anunciar que violentos combates se processam na costa atacada. Mas Hitler já manifestou sua impaciência e sua decepção, lançando ordem sobre ordem para que o desembarque seja rechaçado - “no mais tardar, esta noite”. Ele começa a suspeitar de um esmorecimento criminoso e até de atos de traição.