FRANKTON - FRANÇA - 1942


 

 

A Operação Frankton foi uma das operações especiais britânicas mais famosas da Segunda Guerra Mundial, tanto pelo arrojo e ousadia de seus executores como pelas conseqüências por eles sofridas. O objetivo desta operação planejada pelas Operações Combinadas era sabotar o porto francês de Bordeaux. Participaria do ataque 12 homens do Royal Marines Boom Patrol Detachment - RMBPD, da Marinha Real. O grupo usaria caiaques para dois homens tipo Cockle MK II kayaks. Por isso eles ficaram conhecidos como os Cockleshell Heroes. Os homens seriam liderados pelo Major Herbert "Blondie" Hasler.

Major HG Hasler

A criação do RMBPD

Anteriormente o Major Hasler tinha desenvolvido a idéia de penetrar em portos, usando caiaques, com o objetivo de destruir embarcações com cargas explosivos poderosas. Porém o Almirantado considerou a idéia impraticável e uma tentativa de Hasler, na primavera de 1941, para interessar o QG das Operações Combinadas (COHQ neste tipo de ações, falhou, devido em parte, a pré-existência da Seção de Barco Especial (SBS).

Porém em dezembro de 1941 os italianos conseguiram penetrar no porto de Alexandria usando "torpedos humanos". Eles infligiram sérios danos nos encouraçados britânicos Elizabeth e Valiant. Churchill decidiu que a Grã-Bretanha devia ter capacidade semelhante e o projeto de Hasler foi lembrado, e o major foi enviado ao Centro de Desenvolvimento das Operações Combinadas para desenvolver suas idéias o mais cedo possível.

Inicialmente ele e alguns homens alocados para a sua equipe, se concentraram no "barco explosivo a motor" usado pelos italianos em um ataque a Marinha Real em Suda Bay em março de 1941. Em um ataque semelhante ao de Suda Bay contra Malta, os italianos falharam e alguns barcos foram capturados. Por questões de segurança (e decepção) a equipe de Hasler foi designada "Boom Patrol Boats"

.

Hasler teve a idéia de usar este tipo de barco e caiaques em um assalto futuro - os primeiros para encontrar o caminho por entre os obstáculos da superfície e os últimos para os Commandos escaparem. Mountbatten concordou com esta tática de aproximação e assim inapropriadamente a equipe foi nomeada de Royal Marine Boom Patrol Detachment (RMBPD). A plausibilidade desta designação foi aumentada pela missão recebida de realizar patrulhas defensivas do porto de Portsmouth.

Hasler montou sua base em Southsea. Ele recrutou seus oficiais na Royal Marine Small Arms School em Gosforth e seus homens no Royal Marine Auxiliary Battalion em Portsmouth. Ao todo Hasler recrutou 34 membros para sua nova unidade. Hasler os selecionou por sua autoconfiança, estabilidade mental, tenacidade e resistência; e todas estas qualidades eram necessários para os meses de treinamento duro que enfrentariam. O treinamento era difícil, muito difícil. Inicialmente o único na unidade que sabia qualquer coisa a respeito de canoas era o próprio Hasler, mas por causa da abundância de inteligência natural entre os seus homens logo todos atingiram as habilidades necessárias. Eles aprenderam: navegação noturna, remar rapidamente e silenciosamente, fuga e evasão, além de técnicas de sabotagem e explosivos. 

A canoa desenvolvida por Hasler era robusta, capaz de levar dois homens, 75 kg de carga e era desmontável, ao contrário das usadas pelo SBS. Primeiro veio a Cockle Mark I e depois a Cockle Mark II, que seria usada na Operação Frankton. Esta canoa (caiaque) tinha cerca de  5m de cumprimento, 72cm de largura e 28cm de altura. Ela pesava 35kg vazia.

 

 

HMS Tuna

Por esse tempo os alemães estavam tendo sucesso em furar o bloqueio naval dos aliados. O porto francês de Bordeaux, a aproximadamente 75 milhas (120km) acima do Rio Gironde, era um dos principais portos envolvidos no esforço nazista. O porto de Bordeaux era usado para receber navios mercantes que levavam suprimentos para as unidades alemãs que estavam estacionadas naquela parte da França e também quebravam com sucesso o bloqueio Aliado entre o Japão e Alemanha. Submarinos alemães também usavam a área como base. Qualquer navio mercante nazista que passasse pelo Canal da Mancha podia ser abastecido ou reparado em Bordeaux e seguir para o Mediterrâneo ou além e os poucos recursos da Marinha Real britânica não podiam impedir totalmente este fluxo. Um maciço bombardeio aéreo por parte da RAF foi descartado pois o risco de haver muitas vítimas civis era considerável.

O PlanoJacque Legrand (ed.): Chronique de la Second Guerre Mondial (1990)

Em setembro de 1942 o COHQ decidiu estudar a possibilidade de usar o RMBPD e os nadadores-canoistas de Hasler contra Bordeaux. O plano desta operação era muito simples: a destruição de navios no porto de Bordeaux e o bloqueio do mesmo devido os destroços das embarcações afundadas, usando para isso seis equipes de remadores de caiaques que seriam desembarcadas a 10 milhas da embocadura do Rio Gironde, remariam 70 milhas rio acima até o porto, colocariam as suas minas magnéticas e depois iriam para a Espanha com o auxilio da Resistência francesa.

Os homens escolhidos para a missão treinaram meses a fio e só souberam do objetivo quando estavam dentro do submarino que os levava para Bordeaux. No dia 7 de dezembro de 1942, por volta das 20:00h o submarino HMS Tuna deixou os incursores a 10 milhas da embocadura do Rio Gironde.

A força incursora estava dividida em duas equipes. Os caiaques "Catfish" (Major Hasler e Marine Sparks), "Crayfish" (Corporal Laver & Marine Mills) e "Conger" (Corporal Sheard e Marine Moffatt) formavam a Equipe A e "Cuttlefish" (Tenente MacKinnon e Marine Conway), "Coalfish" (Sargento Wallace e Marine Ewart) e "Cachalot" (Marines Ellery e Fisher), a Equipe B. Cada caiaque levava 8 minas.

A aproximação 

O caiaque "Cachalot" teve a sua armação quebrada quando estava sendo passado pela escotilha do submarino para ser desembarcado. Os seus tripulantes, chegaram a chorar, por não poderem participar da missão. Apenas 10 homens em cinco caiaques iriam cobrir as 75 milhas rio acima até seus objetivos.

Quando se aproximavam do estuário do Gironde, os caiaques foram açoitados por uma violenta maré, com ondas de cinco pés. O caiaque "Conger" foi danificado e teve que ser rebocado pelos outros caiaques. Uma vez próximos da costa, os tripulantes do "Conger" tiveram que nadar até a costa, pois estavam atrasando os demais companheiros. Como Sheard e Moffat não chegaram a praia presumiu-se que se afogaram. Na verdade o corpo de Moffat foi achado mais tarde na praia de Bois en Réy, mas o corpo de Sheard nunca foi encontrado.  

O "Coalfish" sucumbiu a maré quando os caiaques entraram no estuário do Gironde. Algum tempo depois a sua tripulação foi aprisionada pelos alemães perto do farol de Pointe de Grave. O Almirante Bachman ordenou que eles fosse fuzilados, o que aconteceu logo após a meia-noite de 12 de dezembro de 1942. Apesar de pressionados eles não tinham revelado nenhuma informação sobre o ataque. A tripulação do "‘Cuttlefish"  – teve que abandoná-lo depois que este foi danificado. Algum tempo depois a sua tripulação foi pega em La Réole pelos alemães e entregues a Gestapo.

Após cobrir 23 milhas, o Major Hasler só dispunha de duas embarcações e suas respectivas tripulações para completar a missão. Junto como "Catfish", estava o "Crayfish". Com os alemães alertados sobre algum ataque de Commandos naquela região, as patrulhas ao longo do rio aumentaram. As 06:30h Hasler e seus homens encontraram um local conveniente, camuflaram os caiaques e esperaram anoitecer para prosseguir pelo Gironde. Alguns pescadores e umas mulheres de uma aldeia próxima descobriram-nos mas os britânicos convenceu a todos que não estavam ali para lhes fazer mal e não foram delatados. Na segunda noite (de 8 para 9 de dezembro), o avanço se tornou rotineiro, apesar dos homens remarem sob muito frio e o gelo se formar sob a parte superior dos caiaques. No momento em que pararam novamente e se camuflaram, os marines só tinha desta vez, vacas como companhia.

Um problema urgente ocupou as mentes de Hasler e seus homens. Como progrediram rio acima a sincronização e a duração das marés tornava-se cada vez mais críticos os seus cálculos. Tinham que considerar a logística do ataque e as condições da maré antes e depois da incursão. Na noite seguinte haveria 3 horas de maré cheia, 6 horas maré baixa e depois mais 3 horas de maré cheia. Definitivamente a fuga, usando a maré baixa era impossível.


Um Commando do Royal Marines Boom Patrol Detachment (RMBPD), envergando o traje usado durante a Operação Frankton. Ele está armado com um Submetralhadora Sten com silenciador e logo atrás deles dois homens navegam com um caiaque  Cockle Mark II também usado durante o assalto ao porto francês Bordeaux.

Na terceira noite (de 9 para 10 dezembro) eles reduziram o ritmo das remadas e se esconderam em uma pequena ilha durante o período da maré baixa. Eles estavam atrasados e não podiam alcançar o porto na noite seguinte com tempo suficiente para completar a missão e se retirarem em segurança. Sendo assim Hasler decidiu estabelecer um acampamento básico de antemão na quarta noite (de 10 para 11 de dezembro) dentro de uma distância fácil de cobrir até o porto.

Um local satisfatório foi achado por volta das 23:00h. No dia seguinte os homens prepararam suas minas magnéticas e seus equipamentos para o ataque. Hasler decidiu que "Catfish" cobriria o lado oeste das docas e "Crayfish" o leste. Os detonadores das minas foram fixados para as 21:00h.

O ataque

Na quinta noite (de 11 para 12 de dezembro) ambas os caiaques entraram na bacia sem dificuldade.O "Catfish" colocou 8 minas magnéticas em quatro barcos, inclusive no barco patrulha Sperrbrecher. Uma sentinela na coberta do Sperrbrecher teve a sua atenção chamada em direção ao "Catfish", chegando até a iluminar o local com uma lanterna.

Mas não deu o alerta, por acreditar que era um pedaço de madeira flutuando, pois a tripulação permaneceu imóvel em seu caiaque bem camuflado, como tinha sido treinada para fazer. O "Crayfish" também colocou 8 minas em duas embarcações, 5 em um navio cargueiro e 3 em um pequeno barco.

O método usado por Hasler e seus homens para a colocação das minas foi aprendido pelo Major junto a Tropa 101 dos Army Commandos, que usou o método em seu assalto a Boulogne, onde se afundou um navio-tanque. O método da Tropa 101 era abaixar a mina usando uma barra de 2m, e a soltar suavemente até ser fixada pelo imã ao casco da embarcação; a barra era puxada e usada novamente para colocar as minas subseqüentes.

Como quase todos navios eram divididos em compartimentos estanques, foram necessárias várias minas para cada navio, normalmente três, incluindo a casa de máquinas para causar o máximo dano. Realmente os danos no porto de Bordeaux foram severos. Foi afundado um navio e avariado quatro outros severamente e o porto ficou danificado por meses.

A fuga 

Após colocarem as minas magnéticas os homens saíram rapidamente do local. As duas canoas se encontraram depois por acaso na Ilha Caseau. Eles continuaram juntos na jusante até o fim da retirada por volta das 06:00h quando as tripulações fugiram em suas canoas, com a distância de 400 metros uma da outra.

Pouco depois as tripulações tiveram que deixar os seus caiaques (que foram afundados) e se moverem a pé, para se unirem com a Resistência francesa na cidade de Ruffac. Os Commandos usavam um kit elementar de fuga, como mapas de seda, bússolas, mais ração. Os homens tinham a opção de escaparem com seus uniformes, e se capturados serem tratados como prisioneiros de guerra, ou usar roupas civis e serem tratados como sabotadores. Depois de algum tempo Sparks e Hasler optaram em usar roupas civis. Os alemães presumiram acertadamente que os britânicos viajariam para o sul em direção da Espanha. De fato, eles fizeram isto, um percurso de 100 milhas de Bordeaux, só que a jornada levou dois meses.

Mina magnética

Na fuga Laver e Mills, que se moviam separadamente de Sparks e Hasler, foram pegos pela polícia francesa e entregue aos alemães em Montlieu e depois levados para Paris, e acreditasse que juntamente com os homens capturados em La Réole foram fuzilados em 23 de março de 1943.

Com ajuda da Resistência, Sparks e Hasler chegaram à Espanha e então a Gibraltar separadamente . Mas mesmo aqui houve problemas. Hasler usou de sua patente e conseguiu ser transportado para a Inglaterra. Porém, Sparks não teve a mesma sorte e foi preso.

Isto porque o Chefe das Operações Combinadas, Sir Louis Mountbatten, tinha assumido que todos os homens que participaram da missão estavam mortos, desta forma qualquer um reivindicando ser um deles deveria ser tratado com suspeita.

Sparks foi postos sob a guarda da Polícia Militar e levado para a Inglaterra. Porém, ele despistou os guardas em Euston Station, Londres e, depois de visitar o seu pai, foi se apresentar no QG das Operações Combinadas. Hasler recebeu a DSO e Sparks a DSM. Laver e Mills receberam menções póstumas em despachos.

Depois da assalto a Bordeaux, Sparks serviu na Birmânia, África e Itália. Em 1946 ele foi trabalhar na London Transport como motorista e depois de 1952 foi trabalhar como tenente na polícia malaia durante a Insurreição naquele país. Três anos depois ele trabalhou como conselheiro do filme Os Heróis de Cockleshell com Mel Ferrer e Trevor Howard, e visitou os EUA para promover o filme. Ele também publicou O Último dos Heróis de Cockleshell (1992) e Cockleshell Commander (2002).

Cockleshell Heroes

Tripulantes

Caiaques

O que aconteceu

Marine Fisher

Cachalot

Abandonou a missão, pois sua canoa foi danficada

Marine Ellery

Cachalot

Abandonou a missão, pois sua canoa foi danficada

Corporal Shear

Conger

Afogado

Marine Moffat

Conger

Afogado

Sergeant Wallace

Coalfish

Capturado e fuzilado

Marine Ewart

Coalfish

Capturado e fuzilado

Lieutenant Mackinnon

Cuttlefish

Capturado e fuzilado

Marine Conway

Cuttlefish

Capturado e fuzilado

Corporal Laver

Crayfish

Capturado e fuzilado

Marine Mills

Crayfish

Capturado e fuzilado

Major Hasler

Catfish

Voltou para a Inglaterra

Marine Sparks

Catfish

Voltou para a Inglaterra



Royal Marines Boom Patrol Detachment - RMBPD

O RMBPD foi formado no dia 6 de julho 1942, especificamente para atacar navios inimigos. Era a primeira unidade de pequenos barcos completamente formada pelos Reais Fuzileiros Navais, embora outros fuzileiros tenham servido e continuariam a servir em unidades como as Seções Especiais de Barco e Esquadrão Especial de Barco. Seu fundador-comandante foi o Major H.G."Blondie" Hasler, um oficial regular e iatista experiente

O nome da unidade e o seu apelido, Boom Patrol Boat, veio do tipo embarcações usadas por ela, baseadas em alguns alguns "barcos explosivo a motor" italianos capturados, de vários que foram usados em um ataque fracassado contra Malta. A embarcação era uma lancha planadora de 16 pés com um carga de 500lb, que era abandonada pelo piloto perto do alvo. é interessante notar que este artefato nunca foi usado em ação.

Outra opção era usar caiaques submersos de 12 pés a motor (elétrico), conhecidos como "Sleeping Beauties", com um único assento. O piloto o controlava o caiaque com um joystick e o levava até o seu alvo. Até que este artefato estivesse pronto 25 nadadores-canoistas foram treinados em ações com caiaques, barcos de assalto e pequenos barcos a remo. A primeira missão do RMBPD foi a Operação Frankton.

Após essa operação o contingente do RMBPD foi aumentado, porém várias operações posteriores foram canceladas em 1943. Em fevereiro de 1944 dezoito homens, da Earthworm Section foram enviados para o Oriente Médio. Lá eles ficaram subordinados ao Raiding Forces.

Sua primeira operação foi contra navios alemães na Baía de Portolago, em Leros, em meados de junho. Três destacamentos de canoas foram desembarcados pelo Marinha Real e se infiltraram no porto, colocando minas, que afundaram três navios de escolta e avariaram três contratorpedeiros. Todos escaparam e foram resgatados pelo Marinha Real.

Outros ataques foram executados no Mar Egeu, mas a falta de alvos valiosos forçou a seção a retornar para a Grã-Bretanha em outubro de 1944. Uma proposta de enviar duas seções ao Extremo Oriente não deu em nada. Pouco depois Hasler foi promovido a Tenente Coronel e segundo em comando do Small Operations Group.



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