OPERAÇÃO "MOKED" - ORIENTE MÉDIO - 1967


A sombra ameaçadora de um Mirage III sobre uma base área egipcia.

O planejamento da operação "Moked" (foco) teve início em 1963 e desse momento em diante os dados de inteligência militar de todas as forças aéreas árabes (pessoal, bases, aviões, etc) foram recolhidos rotineiramente. O objetivo da operação era conseguir a superioridade aérea em uma guerra contra as nações árabes dentro de 6 horas. Israel tinha concluído que os combates aéreos eram uma maneira ineficiente de se conseguir isto e que os aviões inimigo deviam ser destruídos em terra. O plano se desdobraria em um ataque em grande escala contra os aeródromos árabes. Primeiras as pistas de decolagem seriam destruídas, para impedir que os aviões inimigos decolassem, e depois em repetidas dos aviões israelenses os aviões inimigos seriam destruídos. 

O escopo da operação era realmente grande e eram necessárias várias surtidas, e a IAF teve de submeter-se a grandes  mudanças  a fim preparar-se para a execução bem sucedida da operação. As estruturas de comando e controle foram modernizadas, o treinamento técnico dos grupos de terra foi aperfeiçoado, buscando um tempo de manutenção e remuniciamento mais curto entre as surtidas,  novas armas foram projetadas e muito mais foi feito. O planejamento da operação tinha sido concluído pouco antes da crise de 1967, que levou a eclosão da Guerra dos Seis Dias. 

A IAF/IDF
Do grupo heterogêneo de avie obsoletos da Segunda Guerra Mundial, Força Aérea Israelense fora transforma numa formidável máquina de combate. Sem a cooperação e a amizade da França na década de 1950, isto não teria sido possível Estimulados pela atitude de apoio do Egito para com os rebeldes argelinos, os franceses forneceram a Israel aviões e armas e, em 1967, mais de metade dos aviões da Força Aérea Israelense era francesa _ e a maioria dos restantes era de Fouga Magisters, de desenho francês, montados numa fábrica instalada em Israel pela firma francesa de Fouga. Como ela recebia quase metade do orçamento da defesa de Israel, de mais de 350 milhões de dólares, e como seus dedicados pilotos profissionais eram a nata do potencial humano israelense, a força aérea era o grupamento de elite da FDI. 

A Força Aérea Israelense, quando foi mobilizada para o conflito que ficaria conhecido com A Guerra dos Seis Dias, montava cerca de 20.000 homens. Antes que a guerra começasse, Israel possuía cerca de 450 aviões, 350 dos quais podiam ser classificados como máquinas de primeira linha. Estes eram divididos em 13 esquadrões _ quatro de interceptadores, cinco de caças-bombardeiros, dois de aviões de transporte e dois de helicópteros. Não tendo bombardeiros de longo alcance, não havia nenhuma força de bombardeiros estratégicos. O raio de ação da maioria dos aviões israelenses era limitado a cerca de 640 km, ou menos, ficando grandes áreas do Egito, Iraque e Arábia Saudita fora do seu alcance. Dos 350 aviões operacionais, havia 20 caças-bombardeiros Super Mystère, franceses, entre 40 e 60 caças de ataques terrestres Mystère Mark IVA mais antigos, com cerca de 10 anos de idade, 73 caças interceptadores/ataques terrestres supersônicos Mirage Mark III, 48 caças-bombardeiros Ouragan já meio obsoletos, 60 Fouga Magisters, montados em Israel, para uso como caças-bombardeiros de ataques terrestres, 25 bombardeiros Vatour, de ataques terrestres, 20 transportes Noratlas e Stratocruiser _ cada um capaz de levar cerca de 45 soldados de combate ou 18 casos de padiola, e aproximadamente 25 helicópteros de tipos diferentes. Destes aviões, somente os interceptadores Mirage e os Super Mystère eram considerados capazes de um confronto com os MIG-21 egípcios fornecidos pela União Soviética. Tecnicamente, todos esses tipos de aviões estavam aproximadamente em pé de igualdade. Todos supersônicos estavam equipados com canhão de 30 mm e transportavam mísseis ar-para-ar. Instruídos por técnicos russos, porém, os pilotos egípcios acreditavam firmemente que seus MIG-21 eram superiores a qualquer coisa que os israelenses pudessem lançar em vôo. O tempo mostraria que o treinamento e a habilidade dos pilotos israelenses compensariam quaisquer diferenças técnicas entre os aviões de desenho soviético e francês.

SUPER FRELON

 

AVIAÇÃO ISRAELENSE

MIRAGE

Fouga Magister

Dassault Super Mystere

Dassault Ouragans

 

O "outro lado da colina"


A força aérea egípcia tinha mais ou menos o mesmo tamanho da israelense, mas seus aviões eram mais modernos, quase todos de origem soviética. Por tipos, estes consistiam de cerca de 130 caças MIG-21 dos mais modernos, 80 MIG-19, 180 MIG-17 e MIG-15 originais, 20 caças-bombardeiros SU-7, 30 bombardeiros de reconhecimento TU-16 e 40 Ilyushin-28. Havia também cerca de 90 aviões de transporte _ Ilyushin-14 e Antonov-12. além de 60 helicópteros. Alguns destes estavam no Iêmen, apoiando o exército egípcio que ali lutava. Em fins de maio de 1967, contudo, a maio­ria deles já voltara ao Egito. A combinação de bombardeiros Tupolev com uma grande proteção aérea de MIG representava uma arma ofensiva formidável para um primeiro e decisivo ataque, porque poderia despejar 300 toneladas de alto explosivo numa única incursão contra cidades israelenses; e se as forças aéreas da Jordânia, Síria e Iraque atacassem com ela, a carga poderia subir para 500 toneladas. A ameaça representada pêlos aviões de transporte era igualmente terrível. Sob orientação soviética, os egípcios haviam feito avanços significativos na técnica de desembarque aéreo e de saltos de pára-quedas. Usando todos os seus Ilyushins, Antonovs e helicópteros MI-4 e MI-6, eles podiam lançar 3.000 homens em um vôo e desembarcar outros 4.000, juntamente com 600 toneladas de equipamento e suprimentos. Protegidos por amplo sistema de aviso por radar, pois algumas dessas instalações estavam bem avançadas no Sinai, e como seus aeródromos estavam espalhados por vasta área, os egípcios também eram muito menos vulneráveis a bombardeios do que os israelenses. As cidades e indústrias de Israel estavam concentradas numa área muito restrita, ao passo que as do Egito — à exceção do Cairo_ estavam bem dispersas. Portanto, em qualquer competição de bombardeio e contra-bombardeio, os israelenses, sem dúvida, sofreriam muito mais.

MI-6

MIG-19

TU-16

 

A força aérea jordaniana era pequena e também carecia muito de pilotos. Segundo o Rei Hussein, havia apenas 16 pilotos para seus dois esquadrões de caças de ataque a terra Hawkers Hunters. Seis meses antes de estourar a guerra, os Estados Unidos haviam contratado o fornecimento à Jordânia de 36 Starfíghters F-104 e seis destes já haviam sido entregues. Porém, como não havia pilotos jordanianos para pilotá-los, Hussein pediu aos instrutores americanos que haviam levado os Starfíghters até Ama que os retirassem do pais. Assim, o esforço de guerra aérea jordaniano limitou-se a 22 Hunters, 3 Doves, 3 velhos Dakotas e 3 helicópteros.

Hawkers Hunters

F-104 Starfíghters 

 

A força aérea síria, com efetivo de aproximadamente 9.000 homens, tinha cerca de 120 aviões soviéticos, organizados em dois esquadrões de caça operacionais de MIG-21 e MIG-19, e dois esquadrões de MIG-17. Como a Jordânia, o Iraque e, em menor grau o Egito, a Siria tinha poucos pilotos treinados e, embora os instrutores soviéticos fizessem bom trabalho no campo de treinamento, os pilotos e as turmas de terra sírios estavam longe de apresentar um padrão de eficiência que sequer se aproximasse" do israelense. 

MIG-21

A força aérea iraquiana tinha cerca de 220 aviões, possuía dois esquadrões de caças MIG-21, três de MIG-17 e MIG-15, possuindo cada um deles um esquadrão de bombardeiros Tu-16 e 11-18, além de esquadrões de transporte e de helicópteros. Como os demais Estados árabes, os iraquianos tinham muito poucos pilotos treinados para acionar todos os aviões que possuíam.

MIG-17

O DIA 5
O que passaria à História como a Guerra dos Seis Dias começou, bem cedo, na manhã de segunda-feira, 5 de junho, sendo virtualmente vencida por Israel antes mesmo do meio-dia daquele dia. Mas antes que ela terminasse, seis dias mais tarde, haveria muita luta e milhares de vidas se perderiam. Talvez ninguém venha realmente a saber quem disparou o primeiro tiro. Nasser, ao acolher o Iraque na aliança da RAU com a Jordânia, na noite anterior, proclamara: "Estamos ansiosos pela batalha, para obrigar o inimigo a despertar dos seus sonhos e enfrentar cara a cara a realidade árabe." Acontece que as sereias do alarma antiaéreo em Tel Aviv começaram a funcionar e ás 07h45 a rádio israelense anunciou que uma coluna egípcia se dirigia para o Negev e que aviões egípcios, a caminho de Israel, haviam sido captados pelo radar de aviso antecipa­do. Pouca gente achava que essa informação fosse mais que uma racionalização. Um pais pequenino como Israel não poderia, de modo algum, travar guerra defensiva; somente a ação de preempção faria sentido para os responsáveis pela tarefa de impedir que o desastre se abatesse sobre o pais. A defesa contra um ataque aéreo era difícil, porque o pais era pequeno demais para que qualquer sistema de aviso antecipado desse tempo aos caças israelenses de levantarem vôo. O Cairo ficava a 25 minutos de vôo de Tel Aviv, mas Tel Aviv distava apenas 4 minutos e meio de vôo da base aérea egípcia avançada de El Arish. Os canhões antiaéreos não eram eficazes contra bombardeiros a jato voando a grande altitude e tendo como alvo áreas populadas, e os poucos mísseis terra-ar que Israel podia dar-se ao luxo de ter eram suficientes apenas para dar proteção limitada a Tel Aviv e á instalação nuclear israelense, no Negev. Por esta razão, a .força aérea israelense prepara-se para atuar ofensivamente, visando a obliterar as forças aéreas do inimigo. Nas partes desabitadas do Negev, os pilotos israelenses haviam praticado vôo rasante, bombardeio de precisão e destruição de modelos de alvos terrestres semelhantes aos aeródromos egípcios. Ao mesmo tempo, as turmas de terra vinham treinando para desenvolver com celeridade o serviço de reabastecimento, de remuniciamento e preparação dos aviões. Assim, quando chegou a hora, todo piloto estava plenamente confiante na sua capacidade de destruir seu alvo e todas as turmas de terra estavam igualmente confiantes na sua capacidade de manter os aviões em vôo.A Força Aérea israelense entrou em ação às 07h45 (08h45, hora do Cairo).

O alvo eram dez aeródromos egípcios, e o plano era atacá-los simultaneamente. A hora fora escolhida com muita argúcia, como o momento em que os egípcios menos esperariam um ataque. A visibilidade seria boa e a costumeira prontidão matinal, durante a qual os MIG em voo estariam esperando para atacar intrusos, já terminara. A maio­ria dos pilotos egípcios estaria tomando o café da manhã e seus comandantes ainda não teriam chegado a seus gabinetes. Ademais, os pilotos israelenses, que tinham um longo dia pela frente, poderiam descansar bastante durante toda a noite.Uma vantagem adicional, que surgiu como valioso prêmio, não foi nem planejada nem, tampouco, esperada. Dois dos principais comandantes egípcios foram surpreendidos no ar.

O Marechal Ali Amer, comandante-chefe da RAU, e seu comandante da força aérea. General Mahmoud Sidky, estavam num avião que partira do Cairo para inspecionar as tropas egípcias no Sinai quando os caças-bombardeiros israelenses avançavam para seus alvos. Como medida de segurança, as baterias antiaéreas egípcias haviam recebido ordens de não abrir fogo contra qualquer avião sobre o Sinai enquanto o Ilyushin de Amer estivesse em vôo. Este não podia pousar no Sinai porque todos os seus aeródromos estavam sendo atacados e, por fim, teve de voltar ao Cairo. Durante noventa importantíssimos minutos os dois principais comandantes da RAU estiveram fora de contato com suas forças e incapazes de emitir qualquer ordem. Para piorar as coisas, os oficiais que no Sinai se encontravam no exercício do comando da campanha haviam-se deslocado para Thamed, a fim de receber Amer.Como os planejadores israelenses esperavam, o ataque foi surpresa completa para os egípcios _ "uma hora antes do esperado" _ como disse, pesarosa, a Rádio do Cairo. Os pilotos israelenses tinham ao todo nove objetivos: os aeródromos de El Arish. Jebel Libni, Bir Gifgafa e Bir Thamada, no Sinai; Fayid e Kabrit, no Canal de Suez; Abu Sueir e Cairo Oeste, na área do Delta; e Beni Sueif. a uns 100 km ao sul do Cairo. Com exceção de Fayid, que os pilotos israelenses demoraram algum tempo a encontrar, devido à névoa, todos esses aeródromos foram atacados em quinze minutos, dentro da hora marcada. Os atacantes aproximaram-se em vôo rasante, para evitar detectação, subindo somente ao chegarem perto dos alvos, aparecendo de repente nos radares egípcios. A subida final foi um ardil deliberadamente aplicado para dar aos egípcios um aviso tardio e induzir seus pilotos a tentar levantar vôo. Surpreendidos nas pis­tas de pouso ou nas carlingas dos seus aparelhos, seriam também destruídos com eles. Aproximando-se de seus alvos sob a proteção aérea de uns 40 caças Mirage, as primeiras levas de Myslères israelenses não encontraram praticamente oposição.

Devido às ordens recebidas sobre Amer, os artilheiros antiaéreos egípcios não abriram fogo e os únicos aviões egípcios em vôo no momento do primeiro ataque eram quatro aparelhos de treinamento, que logo foram derrubados. As levas de atacantes que chegaram aos alvos quando as esquadrilhas anteriores retornavam às bases, para reabastecer e rearmar para novo ataque, enfrenta­ram oposição ligeiramente maior _ partida sobretudo de canhões antiaéreos, que entra ram em ação quando suas guarnições perceberam o que se passava. Apenas oito MIGs conseguiram levantar vôo durante a ação, derrubando dois Mirages israelenses, mas foram todos destruídos. Os aviões israelenses passaram apenas dez minutos sobre os alvos, mas nesse estreito período de tempo desfecharam três ou quatro ataques, esgotando neles a munição e as bombas. Duran­te as primeiras surtidas, as pistas de pouso e as áreas de estacionamento de aviões foram metralhadas com fogo de canhão e as bombas dos Mirages foram lançadas sobre as pistas durante o ataque final. Os ataques se realizavam em levas sucessivas _ cada qual integrada por uns 40 aviões _ à medida que as esquadrilhas israelenses se seguiam umas às outras, a intervalos de dez minutos. Quando um ataque terminava, os aviões da leva seguinte aproximavam-se do alvo, os da terceira leva estavam a caminho, os da quarta preparavam-se para levantar vôo e as turmas de terra aguardavam o momento de reabastecer e rearmar os da quinta leva. Em 50 minutos a primeira leva já estava de volta sobre os mesmos alvos, mantendo-se os aeródromos egípcios sob sucessivos e contínuos ataques até o meio-dia _ quando a força aérea de Nasser estava praticamente eliminada. Então, após breve intervalo, os mesmos aviões israelenses decolaram nova mente para atacar os aeroportos egípcios mais distantes. O Ilyushin que conduzia o Marechal Amer e o General Sidky teve de permanecer em vôo por hora e meia, até conseguir pousar no Aeroporto Internacional do Cairo. Dezessete importantes aeródromos foram atacados e, em pouco menos de três horas, quase 300 aviões da Força Aérea egípcia foram destruídos, incluindo 30 bombardeiros pesados Tupolev-16, 27 bombardeiros médios Ilyushin, 70 caças MIG-19, 12 caças-bombardeiros Sukhoi-7, 90 caças MIG-21 e 32 aviões de transporte e helicópteros.

Fim de um MIG

A surpresa pela qual os israelenses ansiavam fora completa. Em quase todos os aeródromos da RAU, os aviões egípcios foram surpreendidos em seus estacionamentos _ um ao lado do outro _ e não se fizera nenhuma tentativa de dispersá-los e camuflá-los. Isto, disseram os árabes, mais tarde _ e porta-vozes soviéticos, em Moscou, concordaram, irritados, com eles _ era uma clara indicação de que Israel desfechara o primeiro golpe. No Cairo, o mais triste comentário ouvido durante a guerra foi: "Aqueles judeus atacaram porque sabiam que nossos pilotos estariam, àquela hora, tomando o café da manhã."


Para os árabes, o poder devastador do ataque israelense foi tão espantoso quanto a surpresa com que foi feito. A maioria dos aviões egípcios foi destruída por fogo de canhão incrivelmente certeiro e os aeródromos foram postos fora de ação por bombardeios que destruíram as pistas de pouso. A maioria dessas bombas era dos tipos convencionais de 250 lb., 500 Ib. e 100 lb., mas algumas das lançadas sobre os aeródromos a oeste do Canal de Suez haviam sido desenvolvidas para a finalidade expressa de romper as duras superfícies de concreto das pistas. (Nenhuma delas foi lançada nos aeródromos do Sinai, que os israelenses esperavam capturar para usá-los eles próprios.) Quando uma dessas bombas atingia o solo, foguetes de empuxo faziam sua ogiva de 365 lb. penetrar na superfície dura, enquanto que estopins de ação retardada tornavam incerto o momento da detonação. Conhecidas como bomba dibber (de abrir buraco no concreto), elas eram novidade para os egípcios e o sucesso israelense foi parcialmente atribuído ao uso desta arma "secreta". Nos primeiros minutos do primeiro ataque, as turmas de terra e soldados egípcios tentaram valorosamente reparar as pistas danificadas, apagar os incêndios e salvar os aviões que ainda não haviam sido atingidos. Mas as explosões continuas das dibbers e o fogo dos canhões israelenses finalmente os obrigaram a desistir. Uma vez recuperados da surpresa inicial, os artilheiros antiaéreos egípcios revidaram vigorosamente e foram responsáveis pela perda da maioria dos aviões israelenses derrubados. Vários dos decantados mísseis de defesa aérea soviéticos SAM-2 foram lançados contra os aviões israelenses atacantes durante o dia. Mas os israelenses voavam baixo e rápido demais para eles, que não atingiram um aparelho sequer. Como eram lentos na largada de suas plataformas de lançamento e em acelerar, o desempenho dos SAM-2 foi comprovadamente menos eficaz que o dos canhões antiaéreos.


Pelo meio-dia do primeiro dia da guerra, corria entre os israelenses a noticia de que sua força aérea havia destruído cerca de 200 aviões egípcios, mas os setores oficiais não davam nenhuma confirmação. É que por ordens do General Dayan o noticiário oficial foi deliberadamente contido. "Deixem os árabes falar", disse Dayan ao porta-voz do governo israelense. No seu entender, os generais de Nasser relutariam em trazê-lo informado das perdas egípcias, e quando Nasser se inteirasse da sua magnitude, iria pressionar a ONU no sentido de exigir o cessar-fogo, para evitar desastre maior, o que impediria os israelenses de explorar os sucessos obtidos. Dayan também estava apreensivo quanto à reação soviética, quando Moscou soubesse que muitos dos aviões e outros materiais bélicos fornecidos ao Egito haviam sido destruídos. Assim, até que os verdadeiros fatos foram revelados, numa coletiva à imprensa israelense, na manhã do segundo dia (6 de junho), os boletins árabes repletos de informes falsos sobre aviões israelenses derrubados foram retransmitidos sem comentários pelo Serviço de Radiodifusão Israelense. No Cairo, cada novidade racionalizada era alegremente recebida pelo povo, reunido nas esquinas em torno de rádios transistorizados. Grupos numerosos de estudantes cantavam "Lutaremos, lutaremos, nosso querido Nasser, estaremos com você até Tel Aviv!" Um informativo da Rádio do Cairo anunciou que um piloto israelense, cujo avião fora derrubado perto de Zagazid, no delta do Nilo, desceu de pára-quedas e foi agarrado pêlos camponeses locais, que o fizeram em pedaços com os machados que usavam _nos campos.


Enquanto tais noticias deixavam os árabes em obscuridade otimista, os israelenses que também ouviam a Rádio do Cairo e que entendiam o idioma árabe ficavam naturalmente ansiosos. Serviu, entretanto, para acalmá-los a declaração feita pelo Brigadeiro Chaim Hertzog, o comentarista militar, tachando as afirmações egípcias de "prematuras, imprecisas e desautorizadas". Não há dúvida de que a política dos israelenses de recusar-se a dissipar o nevoeiro da guerra foi-lhes favorável. O próprio Nasser só soube da extensão do ataque israelense seis ou sete horas mais tarde e, como aconteceu com o Alto Comando egípcio, demorou muito a compreender sua importância para a batalha aérea. Ao acolher a entrada da Jordânia na guerra, naquela manhã, Nasser pensava que ainda tinha uma força aérea. Quando soube da verdade, ele tentou  justificá-la, acusando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha de terem participado do ataque.

 

Em Tel Aviv, o uivo estridente das sereias anunciador de ataque antiaéreo pouco antes das 08h era a primeira indicação de que a guerra começara. Mas nenhum aviso, por mais gritante, prepara o povo para um evento dessa natureza; as pessoas relutavam em abrigar-se e a azáfama matinal de Tel Aviv praticamente não foi perturbada. A mesma atitude prevalecia em Jerusalém e outros lugares e somente às 09h, quando os rádios israelenses e árabes anunciaram o começo das hostilidades, é que o estado de espírito mudou. Muitos então correram a pegar um lugar nos abrigos antiaéreos, onde dormiram nas três ou quatro noites seguintes. Em Tel Aviv, a sereia antiaérea uivou doze vezes durante o primeiro dia _ o alerta mais longo ocorrendo ao meio-dia, quando a Jordânia começou a bombardear a cidade.


Durante toda a crise, os israelenses fica­ram na expectativa de que a Jordânia se mantivesse fora do conflito e mensagens frenéticas haviam sido enviadas ao Rei Hus­sein, através das agências locais das Nações Unidas, pedindo-lhe que não abrisse fogo. Se ele conservasse a paz, os israelenses fariam o mesmo, disseram estes. Mas Hussein, o mais moderado dos governantes árabes, já se comprometera demais e não podia recuar; ele estava envolvido, pêlos seus compromissos, com o resto do mundo árabe.

 

Aviação árabe completamente destruída em terra.Às 09h, uma mensagem do Marechal Amer informava a Hussein que a guerra com Israel começara e instava a Jordânia a iniciar as hostilidades imediatamente, de acordo com o pacto assinado no Cairo. Em ataques contra os aeródromos da RAU, 75 por cento da força aérea israelense foram destruídos, prosseguia a mensagem, o que, naturalmente, era pura invencionice, assim como a afirmação de que os aviões egípcios estavam então atacando Israel. Mas, quais­quer dúvidas que Hussein porventura tivesse foram logo dissipadas, pois as estações de radar jordanianas captaram a imagem de um sem-número de aviões deslocando-se do Egito para Israel, fato interpretado como a confirmação da mensagem de Amer. (Na verdade, eram os aviões israelenses que retornavam às suas bases, após as primeiras surtidas.) Assim, Hussein decidiu agir e às 09h30 as esperanças israelenses de que a Jordânia ficasse fora da refrega ruíram por terra. Através da Rádio de Ama, o rei conclamou seu povo a unir-se na jihad; a Jordânia fora atacada, disse ele, o exército e a força aérea jordanianos foram colocados sob o comando do General Ridad e "a hora da vingança" chegou. Os israelenses ficaram surpresos, mas muitos não se desalentaram _ pois se a guerra com o Egito fora preparada durante tanto tempo, a ação contra a Jordânia era oportuna. Lutar pela cidade santa de Jerusalém era a chance de cumprir a profecia judaica.


Após a transmissão radiofônica do Rei Hussein, esperava-se que os jordanianos atacassem em conjunto com a Síria e o Ira­que. A confusão atribuível a uma mensagem espúria, supostamente vinda do Marechal Amer, mas originada do Serviço de Inteligência israelense, e uma mensagem dos sirios dizendo-se surpreendidos pelo inesperado começo das hostilidades, causaram um atraso inevitável. Os sírios disseram que sua -força ainda não estava pronta para atacar Israel. Sem dúvida, eles estavam esperando que os aviões de Hussein fossem destruídos pêlos israelenses antes de se empenharem em batalha. Para os sírios, Hussein ainda era o "Tirano Pequeno Polegar" e estavam de olho num acerto de contas com a Jordânia, quando a guerra com Israel terminasse. Os iraquianos também demoraram a responder ao chamado para a guerra santa. Mas ás 11 h, um comunicado de Hussein declarava que os aviões iraquianos já haviam decolado para bombardear alvos em Israel.

 

Subseqüentemente, os iraquianos afirmaram ter atacado Tel Aviv e destruído "sete aviões num aeródromo israelense". Nem a declaração inicial, nem a afirmação subseqüente eram verdadeiras. Durante toda a guerra, a atividade aérea iraquiana limitou-se a um único ataque de surpresa, por um solitário TU-16 que lançou algumas bombas sobre Nathanya. No tocante a Hussein, contudo, não havia razão para supor que as mensagens síria e iraquiana não fossem autênticas, e ordenou que seus aviões atacassem Israel. Dezesseis dos 22 Hawkers Hunters da Jordânia decolaram para bombardear os aeródromos em Nathanya, Kfar Sirkin, Kfar Sava e outros alvos. Por volta das llh30, os 16 Hunters estavam de volta a seus aeródromos e os pilotos afirmaram haver destruído quatro aviões israelenses em terra.

 

A reação de Israel foi imediata e devasta­dora. Tendo eliminado a força aérea egípcia, voltaram-se os israelenses para a eliminação da jordaniana. Pouco depois do meio-dia, duas esquadrilhas, cada uma com quatro Mirages, decolaram para atacar as bases aéreas jordanianas em Mafraq e Ama. Ali, surpreenderam os Hunters em processo de reabastecimento e rearmamento, após a missão de bombardeio sobre Israel. Quando os Mirages voltaram para casa, 18 Hunters jaziam em chamas, completamente destruí­dos; e as bombas haviam danificado as pis­tas de pouso. Para completar sua missão, os Mirages atacaram e destruíram alvos que entenderam importantes encontrados no percurso de volta. Esses alvos iam desde veículos em movimento até _ segundo os jordanianos _ o palácio do Rei Hussein. Durante o ataque, um Mirage foi atingido pêlos artilheiros antiaéreos jordanianos, mas o piloto conseguiu saltar sobre o Mar da Galiléia, onde foi recolhido por uma lancha de patrulha israelense. Em uma rápida incursão, os israelenses haviam incapacitado em terra a força aérea jordaniana, que agora estava, literalmente, sem um único avião. Tendo a maioria dos pilotos escapado à morte, Hussein mandou-os para o Iraque, onde passaram o resto da guerra pilotando os Hunters iraquianos. Mas o pior estava por acontecer. Hussein, mais tarde, declarou que se os sírios tivessem realizado a parte que lhes cabia no pacto árabe e atacado Israel quando chamados a fazê-lo, seus aviões teriam levantado vôo mais cedo. Então, poderiam muito bem ter surpreendido os aviões israelenses no retorno das incursões contra o Egito _ em vôo, mas sem muita munição e combustível, ou em terra, reabastecendo-se. Destruindo-os, eles teriam tirado o gume da arma que deu aos israelenses a vitória final. Talvez isto pudesse ter acontecido, porque o Hawker Hunter é, segundo se diz, mais manobrável que o Mystère e o Mirage. Mas a História está repleta de "se" e de "poderia ter acontecido", e parece pouco provável que qualquer coisa que os jordanianos pudessem ter feito viesse a afetar o resultado final.


A força aérea síria foi atacada e paralisada mais ou menos ao mesmo tempo que a jordaniana. À l h 15, 16 Mystères atacaram os quatro aeródromos principais ao sul de Damasco. Após 20 minutos de bombardeio e metralhamento, um monte de destroços de aviões sírios e de pistas de pouso repletas de crateras testemunhavam a rapidez e eficácia da vingança dos israelenses que, segundo a Rádio de Damasco prometera apressadamente, seriam "destruídos em quatro dias". As escolas de Damasco estavam fechadas, mais por celebração do que por precaução contra ataques aéreos, e os estudantes só agora estavam enchendo sacos de areia para envolver os edifícios públicos. Não se preparara nenhum abrigo antiaéreo na capital sí­ria e, após esta breve demonstração do poderio aéreo israelense, os sírios converteram às pressas umas duas discotecas. A oeste de Damasco, a população de Beirute também estava tomando freneticamente certas precauções, meio tíbias, contra incursões aéreas. Como os outros Estados árabes, o Líbano também declarara guerra a Israel, mas, à parte transmissões radiofônicas contendo a mesma mistura de exaltação e diatribes das demais redes radiofônicas árabes, o governo libanês não tomou nenhuma atitude hostil. O Primeiro-Ministro libanês, Rashid Karame, estava ansioso .por participar, mas o chefe do Estado-Maior do exército, General Bustani, sabia que as forças armadas do seu pais não eram adversário para as de Israel, e quando, na terça-feira (o segundo dia da guerra), Rashid Karame lhe ordenou que entrasse em luta, Bustani recuou. 

 

Tupolevs destruídos no Egito.O Primeiro-Ministro, diante disso, ordenou sua prisão, mas como ninguém se dispôs a dar cumprimento à ordem, nada aconteceu. Felizmente para os libaneses o impasse durou pouco, pois em breve a verdade alcançou as informações lançadas ao ar pela emissora do Cairo, destruindo a falsidade contida no boletim oficial emitido no primeiro dia da batalha. Karame, compreendendo seu erro, atenuou sua belicosidade e tentou esquecer que quisera travar guerra. contra Israel. À parte um choque entre aviões israelenses e dois Hunters libaneses sobre o Mar da Galiléia, os libaneses ficaram fora da guerra e os israelenses contentaram-se em deixá-los em paz.


Mas acontece que nem os sírios nem os libaneses foram perturbados por outros ataques aéreos no primeiro dia da guerra. Excetuando-se uma incursão contra o principal aeródromo iraquiano, tão logo as asas da força aérea síria foram cortadas e o poderio aéreo de Hussein, pulverizado, os israelenses tornaram a voltar-se contra o seu inimigo principal, o Egito. Os aeródromos que haviam sido atacados nas primeiras incursões foram-no novamente, enquanto que uma série de outros ataques concentrava-se contra as estações de radar egípcias. Ao anoitecer, todas as instalações de radar no Sinai, bem como quase todas as situadas nas zonas do Delta e do Canal, haviam sido postas fora de ação e a força aérea israelense podia afirmar que tinha liberdade quase completa nos ares. À parte três ou quatro ataques isolados feitos pêlos MIG egípcios contra tropas israelenses no Sinai, nenhum avião árabe aventurou-se a entrar no espaço aéreo israelense ou tentou intervir nas batalhas terrestres, depois disso. Os israelenses, ao contrário, deram apoio aéreo maciço às suas forças de terra e voavam à vontade quando e onde queriam _ fazendo vôos freqüentes sobre o Cairo e a área do Delta, partes do Iraque, Síria e Jordânia, bem como sobre todo o Sinai, antes de ser este tomado.

 

 Vez por outra, os árabes tentavam resistir às incursões no seu espaço aéreo. Mas os mísseis SAM disparados contra os intrusos foram tão ineficazes quanto no primeiro dia da guerra e os israelenses logo sentiram a capacidade dos artilheiros antiaéreos. Em várias ocasiões houve lutas encarniçadas, quando MIG egípcios e Hunters iraquianos interceptavam aviões israelenses. Depois da guerra, os israelenses afirmaram ter derrubado 61 aviões egípcios e 16 outros aviões árabes em combate aéreo. O custo, em termos de aviões israelenses, deve ter sido de cerca de 40 aparelhos, embora os israelenses jamais confirmassem ou negassem este número. Treze pilotos israelenses foram aprisionados _ nove pêlos egípcios, dois pêlos jordanianos e dois pêlos sírios _ e cinco outros pilotos israelenses que tiveram de abandonar seus aparelhos sobre território inimigo foram mortos ao pisar o solo.


Foi o ataque de preempção, pela força aérea, a chave do êxito dos israelenses nas batalhas terrestres que se seguiriam. É possível que eles tivessem vencido a guerra, mesmo sem os ataques aéreos maciços, mas a vitória seria muito mais demorada e à custa de muito mais baixas. Algumas das tropas árabes lutaram obstinadamente _ os jordanianos em particular. Mas o domínio absoluto do ar, pêlos israelenses, foi trágico para os árabes. Hussein, ignorando a extensão das perdas egípcias, não podia crer que a força aérea israelense fosse capaz do esforço' desenvolvido contra seus Legionários Árabes. Assim, era de certo modo compreensível que, pelo menos durante algum tempo, ele apoiasse a declaração de Nasser, de que aviões americanos e britânicos se haviam juntado aos israelenses no ataque.


Como esta mistificação surgiu é ainda um mistério, mas parece que quando a verdade sobre a destruição da força aérea egípcia não pôde mais ser ocultada a Nasser, o Alto Comando da RAU tentou justificá-la pondo a culpa nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. A acusação foi alimentada pela perplexidade e confusão reinantes e Nasser passou a procurar desesperadamente uma desculpa para o fracasso árabe. Ao comprometer os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, ele, provavelmente, esperava convencer Moscou a vir em seu socorro. Na verdade, o ardil jamais teve qualquer possibilidade de prosperar. Os marinheiros russos que monitoravam o movimento aéreo no Mediterrâneo viram, pelo radar dos navios, que nenhum avião americano ou britânico se envolveu no conflito, e o embaixador soviético no Cairo foi ter com Nasser e lhe afirmou isso peremptoriamente. Não obstante, Nasser ateve-se à sua afirmação e pouco antes do amanhecer do segundo dia, os israelenses monitoraram e gravaram em fita uma conversa radiotelefônica na qual Hussein disse a Nasser que 400 aviões estavam atacando a Jordânia, e após alguma discussão os dois lideres árabes concordaram, segundo o diálogo gravado em fita liberado pêlos israelenses, em dizer que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estavam participando da guerra.

 

Os trechos mais importantes da gravação são de Nasser:
Nasser: Diremos que são os Estados Unidos e a Inglaterra ou somente os Estados Unidos?
Hussein: Os Estados Unidos e a Inglaterra.
Nasser: A Inglaterra tem porta-aviões?

Hussein: (Resposta ininteligível).

Nasser: Por Deus, você e eu faremos uma declaração, e providenciaremos para que os sírios também façam, dizendo que aviões americanos e britânicos estão tomando parte no ataque contra nós, decotando de porta-aviões. Salientaremos a questão e torna-la-emos convincente . . ."

Os governos americano e britânico negaram de pronto a alegação e os dois países pediram à ONU que enviasse observadores aos porta-aviões de onde se supunha terem levantado vôo os aviões que teriam apoiado os israelenses. Nenhum observador foi enviado e Hussein, mais tarde, admitiu que a "vasta cobertura aérea" sobre a Jordânia fora totalmente israelense. Nasser, contudo, manteve-se fiel a sua história, insistindo que "três vezes o número" de aviões que Israel possuía havia atacado as forças árabes. Isto, combinado com o fato, inconcebível para o egípcio comum, de que o pequeno Israel podia vencê-los sem ajuda externa, significava que os árabes acreditavam, e provavelmente ainda acreditam, que aviões americanos e britânicos cooperaram com os israelenses. A verdade, claro, é diferente. Não há negar que o ataque de preempção contra o Egito e a subseqüente destruição do poderio aéreo árabe foram os elementos decisivos da guerra, mas o crédito da manipulação disso cabe aos israelenses, pela dedicação com que o fizeram, planejando, treinando, preparando-se, enfim, meticulosamente.

 

 

Depois de ganhar a sua "guerra", a IAF passar a apoiar as forças terrestres de Israel.