OPERAÇÃO MUSKETEER - SUEZ - 1956


Nos preparativos para a ação militar contra o Egito, em 1956, britânicos e franceses enfrentaram dois grandes problemas em relação a seus objetivos estratégicos. Caso se pretendesse depor o presidente Nasser, o desembarque inicial deveria ser feito em Alexandria, de onde as tropas poderiam chegar rapidamente ao Cairo. Se, no entanto, a decisão estratégica fosse apoderar-se da zona de Suez, o desembarque ocorreria em algum lugar do canal, provavelmente Port Said, sua extremidade norte.

Considerados todos os fatores, optou-se pelo desembarque em Port Said, no dia 6 de novembro, com a descida de pára-quedistas um dia antes. A primeira data sugerida para a ação militar no Egito foi 15 de setembro, mas indecisões políticas e logísticas influíram para que o Dia-D acabasse transferido para 25 de setembro, depois 1º de outubro e, por fim, 6 de novembro.

A estrutura de comando obedeceu ao princípio de entregar os diversos comandos à Inglaterra, por ser o estado que disponibilizava maior número de eletivos, que seriam coadjuvados por um homólogo francês. O comandante supremo designado foi o general Charles Keightley, coadjuvado pelo vice-almirante francês Barjot. As forças terrestres ficavam sob a alçada do general Hugh Stockwell e do general André Beaufre; as forças navais seriam comandadas pelo almirante Maxwell Richmond e o seu adjunto contra-almirante Lancelot; quanto à força aérea seria entregue ao comando do marechal Barnett e ao general Brohon.

A preparação para o desembarque foi dificultosa para as equipes de planejamento anglo-francesas. Precisavam convocar e treinar os homens e, também, decidir qual seria a base de partida para a invasão. A escolha estava entre as ilhas de Chipre e de Malta. A primeira era geograficamente ideal, mas não tinha portos de águas profundas. Em Malta havia instalações necessárias, porém a grande distância do Egito impedia um ataque de surpresa. Decidiu-se, enfim, que ambas as ilhas deveriam ser usadas, embora Malta fosse a base principal. O poderio militar organizado pelos anglo-franceses equivalia à força que desembarcara em Anzio (Itália) na Segunda Guerra Mundial.

Forças britânicas envolvidas : 45.000 britânicos, 70 navios, 300 e helicópteros estacionados nos porta-aviões Bulwark, Ocean e Theseus, juntamente com tropas de combate,  mais de 70 navios mercantes, e centenas de embarcações de desembarque e 12.000 veículos.

Tropas em terra

16ª Brigada Pára-quedista (1º, 2º e 3º Batalhões do Regimento Pára-quedista, 9º Esquadrão de Campo Pára-quedistas Independe,  Companhia Pára-quedista Independe de Guardas)
3ª Brigada Commando Royal Navy (Commandos 40, 42 e 45, 166ª Bateria, 148ª Bateria Commando de Operações Avançadas RA)
6º Regimento de Tanques
3ª Divisão de Infantaria (Uma substancial parte desta divisão foi do Reino Unido para Malta. Depois do ataque inicial, duas brigadas (19ª e 29ª) desembarcaram em Port Said, como força de ocupação, e depois foram substituídas por forças da ONU.)

1º Real Regimento de Tanques
5º Real Regimento de Tanques
33º Regimento Pára-quedista Leve RA
31º Esquadrão de Campo RE
42º Esquadrão de Suporte de Campo RE
42 Field Support Squadron RE
3º Regimento Divisional de Sinais
23º Regimento de Sinais
52º Regimento de Sinais

Marinha britânica
HMS Tyne (capitânia da Operação Muskeeter)
HMS Eagle
HMS Bulwark
HMS Albion
HMS Ocean (usado como porta-helicopteros)
HMS Theseus (usado como porta-helicopteros)
HMS Jamaica (cruzador)
HMS Ceylon (cruzador)

HMS Crane
HMS Diana
HMS Modeste
HMS Newfoundland (cruzador)
 

Quanto aos franceses: 34.000 soldados, 30 navios de guerra, incluindo dois porta-aviões, 200 aviões  e 7.000 veículos.

Tropas em terra

7ª Divisão Mecanizada Leve (esquadrões de blindados AMX, esquadrão de carros de combate Patton )
1º Regimento Pára-quedista (Legião Estrangeira)

10ª Divisão Colonial francesa de pára-quedistas (Major General Jacques Massu) -  veterana dos duros combates da Indochina e da Argélia

11ª Meia-brigada Pára-quedista
2ª Regimento Colonial Pára-quedistas

3º Regimento de Comandos da Marinha

Marinha francesa
Porta-aviões Arromaches
Porta-aviões Lafayette (F4U Corsairs)
Couraçado Jean Bart
Cruzador Georges Leygues (cruiser)

 

Força Aérea

Esquadrão de aviões F-84 (Em Chipre)

Contando com as base e unidades de apoio tão distantes como as localizadas nas Ilhas Britânicas, mais de 100.000 militares anglo-franceses estavam comprometidos com a operação.

Para apoiar a invasão por terra, foram mobilizadas várias unidades aéreas para Chipre e Malta pela Grã-Bretanha e França. As duas bases aéreas em Chipre estavam tão congestionadas que um terceiro campo de aviação que estava em condições duvidosas teve que ser colocado em uso para os aviões franceses. Mesmo a base da RAF em Luqa, Malta, estava extremamente lotada de aviões do Comando de Bombardeiros.

Partindo dos portos da Grã-Bretanha, da França, do Norte da África, de Malta e de Chipre, as diversas frotas aliadas puseram-se a caminho. Em 5 de setembro, estavam reunidas na costa de Chipre, formando um grande comboio em direção a Port Said.

Na semana anterior, os campos de pouso egípcios, as instalações militares e a vizinhança das áreas onde seriam feitos os desembarques anfíbios, ao redor de Port Said e Port Fuad, foram submetidos a contínuos ataques aéreos. Assim, 24 horas antes do Dia D, quando deveriam descer os pára-quedistas, a superioridade aérea já estava garantida para as forças aliadas. A capacidade egípcia para resistir ao assalto principal havia sido drasticamente reduzida.

Pára-quedista em ação

o plano anglo-francês original de intervir no canal de Suez previa a captura de Alexandria, seguida de um ataque ao Cairo. Isso seria feito por meio de tropas de assalto aerotransportadas, com pára-quedistas saltando numa cordilheira a sudoeste de Alexandria e apoiados por desembarques nas praias.

No entanto, por motivos estratégicos, o objetivo passou a ser Port Said e a operação foi dividida em três fases. De início, ataques aéreos destruiriam no 10 a Força Aérea egípcia. Em seguida, haveria um salto com pára-quedistas e forças desembarcadas nas praias. Por fim, uma coluna blindada avançaria para dominar toda a extensão do canal e a resistência remanescente seria eliminada por ataques aéreos.

Soldado do 3 Para em 1956 em Suez, Egito. Ele usa uma Sten Mk V. Ele está vestindo uma túnica camuflada khaki tropical Denison com modelo pós-guerra. Este militar tinha participado recentemente de operações antiterroristas em Chipre.

A Guerra de Suez ocorreu em má hora para as forças aerotransportadas britânicas. Além da falta de experiências recentes com pára-quedismo, havia grande inadequação no transporte aéreo. Os franceses, com seus aviões Noratlas, mostravam-se mais capazes. Esses aparelhos, com portas traseiras, podiam lançar dezessete pára-quedistas em dez segundos, ao passo que os anacrônicos Hastings britânicos, com portas laterais, lançavam apenas quinze homens em vinte segundos. Isso significava que, em condições normais, o grupo francês não se dispersaria por mais de 800 m no solo, enquanto os britânicos se afastariam até o dobro dessa distância.

Em 1º de novembro, o brigadeiro Butler, da 16ª Brigada de Pára-quedistas, instruiu o tenente-coronel Paul Crook, comandante do 3° Batalhão de Pára-quedistas, no sentido de efetuar o assalto inicial em 5 de novembro - 24 horas antes do Dia D. O objetivo do 3° Batalhão de Pára-quedistas - o aeroporto de Gamil - era uma faixa de 2.400 m de comprimento por 800 m de largura, com água em ambos os lados. Os pára-quedistas deveriam saltar de alturas entre 245 m e 185 m, e o equipamento pesado seria lançado de 300 m, para minimizar o risco de acidentes. Os aviões voariam aos pares e esperava-se que a força inteira atingisse o solo em oito minutos.

O 2º Regimento Colonial de Pára-quedistas (RCP), comandado pelo coronel Pierre Château Jobert, tinha a tarefa de tomar as pontes gêmeas de Raswa, que cruzavam a bacia interior do canal e formavam um elo vital Port Said-Suez.

Na escuridão do dia 5 de novembro de 1956, o 3º Batalhão da 16ª Brigada de Pára-quedistas lançou 600 homens. Eles estavam armados com canhões antitanque sem-recuo, morteiros e metralhadoras. Eles saltaram de obsoletos aviões Handley Page Hastings e Vickers Valetta vindos de Chipre, como dito acima seu alvo era o aeródromo de Gamil.

Em outro aeródromo de Chipre, 487 homens da 10ª Divisão Colonial francesa de pára-quedistas e 100 da 11ª Meia-brigada Pára-quedista do Gen. Brig. Jean Gilles, completados pela Guards Independent Parachute Company britânica, subiram a bordo de 17 transportes e rumara para o Egito. As tropas francesas eram formadas por veteranos de duras batalhas na Indochina e Argélia. Gilles tinha a missão de coordenar as comunicações táticas entre o campo de batalha, navios de guerra, aeronave de apoio e o QG do General Keightley em Chipre, através de um posto de comando aerotransportado que iria circula acima de Port Said. Os franceses tinham duas zonas de salto. Uma era um braço de areia entre o Canal de Suez e de um canal beco sem saída no lado sul de duas pontes no Canal Raswa abaixo de Port Said. A segunda zona estava na parte oriental do Canal de Suez ao sul da cidade gêmea de Port Said, Port Fuad.

Quando a batalha em terra pelo domínio do canal estava a ponto de começar, a guerra entre Israel e Egito, que Israel deu o nome de Operação Operação Kadesh, estava terminando a 265 milhas ao sudeste da zona de salto na Península de Sinai. O primeiro grande assalto aerotransportado do pós-guerra  começou com um forte bombardeiro aéreo.

Os aviões de transporte sobrevoaram a armada de invasão no horário programado. Às 07:15 da manhã, a primeira leva de pára-quedistas saltou , quase sem vento a 600 pés sobre a base aérea de Gamil. O salto foi completado em 15 minutos. As defesas antiaéreas egípcias não eram tão fortes como se temia; mesmo assim, danificaram nove aviões. Dois pára-quedistas foram soprados para o mar e demoraram algum tempo para chegar à praia. Outro morreu ao cair sobre um campo minado; alguns sofreram ferimentos de armas leves na descida. Substituindo seus capacetes de salto pelas boinas vermelhas, os pára-quedistas britânicos iniciaram seu ataque. Os obstáculos existentes na pista, colocados pelos egípcios, foram usados como cobertura pelos pára-quedistas durante os combates. Os britânicos dominaram um batalhão da Guarda Nacional egípcia e uma companhia de reservistas entre 30 a 45 minutos. O emprego contínuo de aviões dando suporte aéreo ajudou a dominar o aeroporto, quando isto aconteceu parte do 3° Batalhão de Pára-quedistas já seguia em direção a Port Said. Pouco tempo depois de conquistada a pista passou a aceitar aeronaves no meio dia. Com isso os britânicos conseguiram estabelecer uma base segura para as aeronaves de apoio, e para receber reforços.

Às 07:30 da manhã, duas linhas de transportes Noratlas, separados apenas por 75-90 pés, passou sobre o Lago Manzala a 300-400. Foram lançadas quatro linhas de  pára-quedistas sobre a primeira zona de salto francesa precisamente em quatro minutos. Os franceses receberam acaloradas "boas-vindas" de unidades de infantaria egípcia com fogo cerrado de metralhadoras e canhões antiaéreos Bofors. Os franceses também lançaram mão do apoio aéreo, cujo controle era feito a partir de um posto de comando aéreo, dirigido pelo general Gilles, comandante das operações aerotransportadas francesas. Mesmo com seu avião na mira do fogo cruzado das baterias antiaéreas, Gilles permaneceu no ar comandando as operações de solo. Aviões F4U-7 Corsair da Aeronavale 14.F e 15.F realizaram uma série de missões de apoio aéreo aproximado, destruindo vários tanques SU-100. Caças F-84F também atingiram dois tanques de armazenamento de petróleo de grande porte em Port Said, que entrou em chamas e cobriu a maior parte da cidade com uma espessa nuvem de fumaça pelos próximos dias. A resistência egípcia era variada, com algumas posições lutando até que fossem destruídas, enquanto outros foram abandonados com pouca resistência.

A França adquiriu 25 Chance-Vought AU-1 Corsair usados, mas fez uso deles apenas durante o ano de 1954. No mesmo ano, ela
adquiriu 94 unidades do F4U-7. O F4U-7 Corsair foi projetado especificamente para operação pela Aeronavale (Aviação
Naval Francesa). Ele era basicamente um F4U-4 em uma fuselagem de AU-1. Em outubro de 1954, os primeiros F4U-7 Corsairs foram
entregues à Aeronavale, que o utilizou como avião de ataque ao solo na Indochina. Durante a crise de Suez, em 1956, os Corsairs
foram usados para defender o Canal, operando dos porta-aviões Arromanches e Lafayette. Esses aviões eram facilmente identificáveis
devido às “faixas de Suez”, intercaladas em preto e amarelo na fuselagem e asas, que eram usadas pelas aeronaves israelenses, britânicas e francesas.  O Corsair também atuou na guerra da Argélia até o seu término, em 1962. O último Corsair francês foi retirado de serviço em 1964.

Os paras franceses assim que tocaram o solo atacaram uma posição egípcia. Após intenso tiroteio eles tomaram a principal ponte rodoviária-ferroviária em Raswa, agora Port Said só tinha uma ligação com o continente ao sul, mas as 09:00h a segunda ponte de Raswa, que era uma pequena estrutura, tinha sido detonada pelos defensores. Dentro de mais ou menos uma hora, Por Said estava isolada, sem condições de receber reforços egípcios. A defesa da cidade, conduzida pelo Gen. Brig. Salah Moguy, consistia em três batalhões de reservista e 600 homens componentes de batalhões da Guarda Nacional. Um trem carregado de armas também estava lá para distribuição de armamentos aos habitantes. Moguy centrou a sua defesa no setor nativa de cidade em Manakh, usando quatro canhões autopropulsados SU-100 de 100mm como pontos móveis de resistência.

Na parte da tarde, 522 pára-quedistas franceses do 1er REP (Régiment Étranger Parachutiste) saltaram perto de Port Fouad. Eles foram constantemente apoiado pelos F4U-7 Corsair da Aeronavale e rapidamente eliminaram virtualmente toda resistência. .

Soldados egípcios prisioneiros dos franceses

Uma segunda onda de pára-quedistas britânicos em Gamil reforçou a força existente no local com 100 homens e equipamento. Os franceses, com seus os objetivos atingidos, enviaram patrulhas motorizadas seis milhas ao sul numa ação preparatória para operações do próximo dia em Qantara e Suez. A França teve apenas dez baixas até esse momento. 

Ao crepúsculo, os objetivos das forças aerotransportadas foram assegurados. Com poucas baixas aliadas, os pára-quedistas acamparam, esperando a chegada das tropas navais nas primeiras horas do dia seguinte.

Desembarques anfíbios

Por fortes pressões políticas a ação da armada de invasão já no horizonte de Port Said, foi limitada. Nenhuma arma maior do que 4.5 polegadas podia ser disparada. Isto eliminou a potência de fogo devastadora dos cruzadores e das armas de 15 polegadas do Couraçado Jean Bart que estava funcionando como transporte de duas divisões vindas da Argélia. Uma segunda ordem cancelou o ataque aérea pré-desembarque e os bombardeios navais complementares. Os comandantes tinham que diferenciar entre sabiamente o que era 'bombardeiro" e "apoio de fogo de artilharia".

A fase anfíbia da Operação Musketeer começou no dia 6 de novembro às 04:00h, quando um grande número de aparelhos partiu dos porta-aviões e realizou as últimas investidas contra focos da resistência egípcia ao longo das praias de desembarque, num forte ataque que durou 10 minutos. Seguiu-se intenso bombardeio naval de 45 minutos com os canhões dos destróieres e, poucos minutos depois das 04:30h, as primeiras tropas de assalto chegaram às praias.

As embarcações de desembarque saíram de seus navios localizados a cinco milhas da praia. Homens dos Commandos 40 e 42 dos Royal Marines da 3ª Brigada Commando e do Esquadrão C do 6º Real Regimento de Tanques se dirigiram para o pier do Cassino de Por Said; o 1º Regimento Estrangeiro de Pára-quedistas da Legião Estrangeira francesa com um esquadrão de tanques AMX-10, complementado por três regimentos da 7ª Divisão Méchanique Rapidefoi para Fuad, na margem leste do canal. Após consolidar as cabeças-de-praia, o primeiro objetivo dos franceses era Raswa, ponto no canal ao sul de Port Said.

Quinze anfíbios, cada um levando 30 homens, se prepararam para levar tropas britânicas para terra em um mar agitado por volta das 04:30h da manhã. Varredores de minas se moviam em seu apoio. Outras embarcações levavam homens para à linha de rebentação. Quatorze taques Centurion impermeabilizados foram desembarcados na praia ao lado do quebra-mar ocidental do canal. Os Comandos britânicos desembarcaram em ambos os lados do cais de Cassino para avançar par Said protegidos pelos anfíbios contra o tiro de snipers. Durante um duelo estranho entre um destróier e um SU-100, edifícios em Fuad foram incendiados. Pelo começo de tarde, os 1º e 2º batalhões da 16ª Brigada de Pára-quedistas e tanques do Esquadrão A do foram desembarcados no porto principal.

Os franceses, enquanto isso, desembarcaram sem oposição no outro lado do quebra-mar oriental do canal. A resistência mínima que eles encontraram em Fuad era resultado em parte da ação dos pára-quedistas que tinham saltado um dia antes.

Tropas francesas desembarcam em uma praia em Port Fuad de um LVT-4

A bordo dos porta-aviões HMS Theseus e Ocean, homens do Commando 45 dos Royal Marines se preparavam para o primeiro grande assalto com helicópteros da história. Uma hora depois dos desembarques iniciais, o Ten. Coronel Norman Tailyour comandante do Commando 45 decolou do Theseus para reconhecer o local onde suas tropas iriam descer. O helicóptero de Tailyour desceu em um estádio de esportes com Port Said coberta por uma fumaça negra. Mesmo com o fogo antiaéreo egípcio Tailyour  decolou e designou a a entrada do canal pelo quebra-mar ocidental como uma zona de aterrissagem mais segura. Minutos depois das 08:00h da manhã, a primeira onda de helicópteros Westland Whirlwind Mark 2, cada um com cinco fuzileiros navais decolou do HMS Ocean em direção a Port Said. Essa leva foi seguida quase que imediatamente por uma leva de helicópteros menores, os Sycamore, cada um com três soldados a bordo, que se sentavam com os pés pendurados para fora da porta, com o homem do meio sendo segurado firmemente pelo outros dois. Helicópteros Whirlwind do Theseus se uniram a eles.

Os helicópteros em ondas sucessivas pairavam pouco acima do chão e os commandos saltavam. Dentro de 83 minutos, 22 helicópteros puseram 415 fuzileiros navais e 23 toneladas na praia. Os Whirlwind trouxeram depois reforços e materiais, e transportou de volta para os navios soldados feridos incluindo 18 commandos que tinham sido metralhados por fogo amigo quando um caça-bombardeiro da Fleet Air Arm dispatrou contra as tropas aliadas.

Esta novidade tática, o assalto helitransportado, iria determinar a imprescindibilidade da polivalência do helicóptero nos conflitos seguintes, nomeadamente na Argélia e no Vietnã. Desde então, o helicóptero tornou-se, nas suas várias funções uma arma de extrema importância, que encontramos presente em todos os conflitos com provas dadas da sua eficácia. Neste conflito destaca-se ainda a estréia de outra novidade táctica e técnica muito importante, que iria se desenvolver e se tornar num tipo de armamento imprescindível as todas as forças armadas. Pela primeira vez foram utilizados num conflito mísseis teleguiados, os Nord SS antitanque franceses, usados pelas forças israelenses contra posições egípcias em Abu Aweiglia.

helicópteros Westland Whirlwind e Sycamore vindos dos porta-aviões HMS Theseus e Ocean

transportam tropas do Commando 45 em direção a Port Said

 

Commandos dos Royal Marines desembarcam de seus helicóptero em Por Said

Os destacamentos avançaram com apoio dos blindados pelas ruas de Port Said, até que, à noite, a ação militar foi parcialmente paralisada. Durante todo o dia, soldados britânicos esforçaram-se para retirar minas e outros obstáculos no porto de Port Said, a fim de facilitar o desembarque de reforços, que seria mais tranqüilo nessa área do que nas praias. O comando da 16ª Brigada de Pára-quedistas, o 1º e o 2º Batalhão, o Regimento de pára-quedistas e os esquadrões A e B do 6º Regimento Real de Tanques foram os primeiros a desembarcar no porto. O 3 PARA realizou em conjunto com o Commando 45 ações vigorosas contra os egípcios. Se eles tivessem sido menos impulsivos, os egípcios poderiam ter capturado muitos oficias do alto comando. Algum tempo depois pára-quedistas franceses se uniram ao Commando 42 na ponte de Raswa.

Soldado do Commando 45 Royal Marines em Port Said em 1956. Os fuzileiros navais que participaram do primeiro assalto com helicópteros da história usaram óculos anti-gás de celofane, apelidados de "óculos de Rommel", para proteção contra a areia. Ele usa um véu camuflado para o rosto em volta do pescoço e sua arma pessoal é uma Sten Mk V Sten. Ele carrega uma M20 "Super Bazooka", que é uma de 3,5 in (88,9 mm) da época da Segunda Guerra Mundial idêntica em tamanho e poder a Panzerschreck alemã. A M20 pesava 14,3 libras (6,5 kg), e disparava um foguete com carga-oca 9 lb (4 kg) M28A2 HEAT, quando usado no papel anti-tanque. Era também operada por uma equipe de dois homens e tinha uma taxa de seis tiros por minuto. foi usada em na luta de rua para abrir passagens nos prédios.

No Dia D, as tropas britânicas e francesas já se encontravam em Raswa. De lá dirigiam-se para o Sul, ao longo da margem do canal, com o objetivo de atingir EI Qantara e Ismaília. Tudo já estava preparado para um fulminante assalto de pára-quedistas nas duas cidades, quando chegaram notícias de que os governos britânico e francês haviam proposto um cessar-fogo (a vigorar a partir da meia-noite). Suspendiam-se assim as iniciativas.

Apanhados em duas frentes as forças egípcias, mal preparadas e comandadas, não conseguiram causar qualquer problema aos avanços das forças anglo-francesas, compostas por corpos de elite, bem treinados e com grande experiência como tropas de choque, refletindo a fraca organização e motivação já demonstrada frente às forças israelenses no Sinai.

Após semanas de ordens e contra-ordens, a invasão anglo-francesa finalmente se concretizou. Todavia, quando as forças aliadas já estavam em condições de explorar o êxito inicial, foram instruídas para desistir de outras ações militares, a não ser no caso de ataque das forças egípcias. A oposição dos Estados Unidos à operação, bem como os protestos de países aliados do Egito ou favoráveis à causa de Nasser, levaram a Organização das Nações Unidas a criar uma força internacional de paz, que interveio no conflito.

No total, 10 soldados franceses morreram e 30 ficaram feridos durante o salto e as batalhas subseqüentes. O total de britânicos mortos foi de 16, com 96 feridos. Os israelenses tiveram 181 mortos. O número de mortos egípcios foi de cerca de 650 nas lutas contras os britânicos e franceses e de cerca de 2.000 mortos contra Israel.

Conseqüências

A Guerra de Suez, em 1956, teve efeitos de longo alcance. No Oriente Médio, assinalou o fim de uma era de dominação européia, no momento em que Grã-Bretanha e França foram forçadas a retirar suas tropas do território egípcio sem que seus objetivos políticos tivessem sido atingidos.

O significado mais duradouro foi o fato de a retirada anglo-francesa resultar da pressão econômica dos Estados Unidos, embora tenha sido a Organização das Nações Unidas a entidade que decretou o cessar- fogo e a retirada de forças estrangeiras. Ficou claro, na ocasião, que tanto os EUA quanto a União Soviética estavam decididos a projetar sua influência no Oriente Médio, disputando o controle de seu corredor marítimo, suas rotas de comércio e seus recursos naturais. Portanto, a região tomou-se uma frente da Guerra Fria, antagonismo que se estendia do âmbito local para o global. O modelo da disputa entre as duas superpotências estabeleceu-se em 1956. Egípcios, armados pelos soviéticos, combatiam os israelenses. Estes, em íntima cooperação com Grã-Bretanha e França, estavam associados ao Ocidente.

Os Estados Unidos e a União Soviética, para o efeito de acordo, opõem-se veementemente
à intervenção Franco-britânica. Os soviéticos elevam o seu discurso à ameaça
nuclear, caso Londres e Paris não retirem as suas forças e os Estados Unidos, liderados
pelo presidente Eisenhower, provocam uma queda da libra inglesa no mercado através
da venda maciça desta moeda. Londres, em pânico, suspende os combates no mesmo dia. A Inglaterra é forçada a recuar e à França não resta outra alternativa senão acompanhá-la. Os americanos, assim, conseguem controlar a crise do Canal de Suez.  Com a saída dos britânicos e franceses Nasser conseguiu manter a sua política nacionalista e, mais tarde, pró-soviética, e passou a ser o herói do mundo árabe e, por extensão, herói de todo o Terceiro Mundo. A crise também acelerou o processo de descolonização, como as colônias restantes de Inglaterra e França ganham a independência nos vários anos seguintes.

Suez foi uma dura lição para o General Charles de Gaulle e enfraqueceu a OTAN. Do seu ponto de vista para de Gaulle os eventos de Suez demonstraram que a França não podia confiar em seus aliados mais. A Inglaterra retirou suas tropas no meio da batalha sem advertir seus aliados. Em 1957, seguindo estes eventos, o governo francês lançou um programa nuclear autônomo administrado no Sahara, como uma resposta não só contra a URSS mas vis-à-vis contra toda ameaça potencial contra a França ao redor do globo. Dez anos depois em 1966 de Gaulle retirou a França da OTAN. De acordo com o protocolo dos acordos de Sèvres, a França transmitiu partes de sua própria tecnologia atômica secretamente para o Israel, inclusive um detonador.

Os mais traumáticos efeitos de Suez recaíram sobre os humilhados europeus e, especialmente, sobre a Grã-Bretanha. No começo da crise, o Reino Unido tinha todos os atributos de grande potência: papel de liderança na ONU, contato com a Europa via OTAN, "relações especiais" com os EUA, comércio aparentemente viável, Forças Armadas consideráveis e armas nucleares. No entanto, os acontecimentos de Suez sugeriram que tudo isso não passava de fachada. A facilidade dos EUA em garantir o cessar-fogo e a incapacidade do governo conservador de Anthony Eden de controlar a economia durante a crise demonstraram a difícil situação das finanças britânicas, deixando exposto seu calcanhar de Aquiles. Assim, Suez provou que a Grã-Bretanha não tinha mais recursos para manter os encargos globais de uma grande potência. A constatação de que, mesmo se pudesse, o país seria incapaz de agir livremente sem o apoio tácito de uma superpotência evidenciou que seu papel nos negócios internacionais precisava ser reavaliado. Se a Grã-Bretanha quisesse exercer influência no futuro, teria de reduzir seus encargos, compatibilizando-os com sua capacidade.

Apesar das atitudes tomadas pelos americanos em 1956, o laço atlântico foi rapidamente restabelecido, mas não contribuiu em nada para reduzir os encargos globais da Grã-Bretanha. Na verdade, os EUA pareciam esperar que os britânicos se mantivessem o máximo de tempo possível integrados no esforço de contenção do comunismo. Com isso, abriram um fosso mais profundo entre a Grã-Bretanha e uma Europa Ocidental desconfiada das intenções americanas. O resultado foi uma confusão nas diretrizes da política externa britânica na passagem da década de 1950 para a de 1960, quando sucessivos governos procuravam resolver o dilema central da Grã-Bretanha pós-Suez: como manter os encargos globais sem dispor de dinheiro para isso?

No entanto, o problema não terminava aí, pois o impasse nas relações exteriores tumultuou a política de defesa. A nacionalização da Companhia do Canal de Suez, em julho de 1956, pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser apanhara a Grã-Bretanha com forças inadequadas para organizar uma imediata expedição punitiva. Para efetuar o ataque de novembro, várias vezes adiado, foi necessário lançar mão de navios de guerra da reserva, fretar navios mercantes e aviões comerciais, e convocar reservistas. Na verdade esse foi o crepúsculo  de um império outrora global.

Pára-quedistas franceses arrumam suas mochilas em Porta Said

Força das Nações Unidas

Antes da retirada anglo-francesa, o canadense Lester B. Pearson, que bem mais tarde seria o primeiro-ministro do Canadá, tinha ido as Nações unidas e sugerido a criação de  Força de Emergência das Nações Unidas em Suez, para manter as fronteiras em paz. A ONU aceitou esta sugestão, e após diversos dias do contatos diplomáticos intensos, uma força neutra que não envolvia países da OTAN ou do Pacto de Varsóvia foi enviado ao Egito com o consentimento de Nasser. Pearson recebeu o Nobel da Paz em 1957 por seus esforços. Ele foi considerado o pai do conceito moderno de “peacekeeping". Entre as nações que enviaram tropas para o Suez estava o Brasil com seu famoso Batalhão Suez.

Fontes:

http://www.historynet.com

http://www.ordersofbattle.darkscape.net/site/history/historical/uk/operationkadesh.html

 


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Assunto: Operação MUSKETEER