OPERAÇÃO VALE DE BEKAA - LÍBANO 1982


F-16 israelense caça um MIG síria no Vale de Bekaa.

As investidas de Israel no Líbano, em junho de 1982,tiveram como principal suporte seu
impressionante arsenal aéreo, do qual constavam modernos e eficientes aviões de guerra.Os combates ocorridos então sobre o Vale de Bekaa foram os mais violentos de que se tem notícia e terminaram com os israelenses marcando uma esmagadora vitória sobre os sírios, desorganizados e taticamente mais fracos.

Raramente nos anais da guerra aérea um triunfo foi tão completo e uma derrota tão absoluta e humilhante. A guerra que se desenvolveu sobre o Vale de Bekaa, no Líbano, em junho de 1982, entre as forças aéreas de Israel e do Líbano, terminou com os israelenses declarando um assombroso numero de 85 'vitórias em combates aéreos, contra nenhuma baixa admitida. A Síria insiste em afirmar que suas forças derrubaram 19 aviões israelenses, mas muitos destes eram RPV em missões de reconhecimento. O único fato com o qual os dois lados estão em completo acordo é que os combates incluíram a maior batalha aérea jamais vista no Oriente Médio.Os incidentes que provocaram os furiosos combates aéreos de junho têm suas raízes mais profundas na histórica inimizade entre árabes e judeus. Num passado recente, porém, a Síria deslocara suas tropas para o vizinho Líbano, num gesto que aparentemente se destinava a acabar com a guerra civil naquele país. Enquanto isso, Israel continuava a ser atormentado por ataques dos guerrilheiros da Organização para Libertação da Palestina (OLP) que operavam de bases situadas ao sul do Líbano. A força síria, no entanto, não podia ser encarada como de ocupação, pois deixara para trás sua cobertura aérea e grandes unidades SAM, muitas das quais localizadas em regiões de fronteira. Daí poderiam combater um "gancho de esquerda" de aviões israelenses que eventualmente tentassem atacar Damasco. Paralelo à fronteira, e correndo para o sul desde Rayak até as Colinas de Golan ocupadas por Israel, fica o Vale de Bekaa.Também é certo que há muito tempo Israel planejava um golpe armado no Líbano, destinado a acabar de vez com a OLR Para diminuir o impacto que isso teria sobre a opinião pública internacional, o ataque deveria ser inicialmente justificado como revanche a uma atrocidade cometida pela OLP. A ocasião chegou no dia 3 de junho, em Londres, quando foi realizado p atentado contra o embaixador de Israel.Às 15hl5min da tarde seguinte, McDonnell Douglas Phantoms e Skyhawks da Força de Defesa de Israel/Força Aérea (IDF/AF) voaram sobre Beirute, capital do Líbano, atacando os campos de refugiados onde viviam guerrilheiros palestinos e suas famílias e destruindo um depósito de munições situado num estádio de futebol. Durante 90 minutos, até se retirarem, os aviões israelenses pareciam ter livre trânsito sobre a cidade, dando pouca importância ao fogo de terra e aos SAM SA-7s lançados com bazucas. Na manhã seguinte, Beirute, a estrada da costa e um baluarte da OLP foram atingidos do ar, e um Skyhawk caiu, atingido por um SA-7, sendo a primeira baixa da IDF/AF.Mas foi somente no dia 6 de junho que os reais objetivos de Israel ficaram evidentes: forças de terra, apoiadas por helicópteros, invadiram o território libanês a partir da costa, em direção ao norte, numa arremetida que poderia deixá-los às portas de Beirute. A resistência da OLP foi completamente esmagada, obrigando a Síria, na condição de aliada, a fornecer assistência. A Força Aérea síria apareceu em cena pela primeira vez no dia 7 de junho, numa acanhada tentativa de interceptar os General Dynamics F-16 Fighting Falcons que operavam sobre Beirute e Damur, perdendo dois MiGs nesse encontro.Para proteger seus flancos, Israel usou pesados helicópteros Sikorsky CH-53 Stailions, que no dia seguinte transportaram uma poderosa força de combate para as montanhas Shuf (ao sudeste de Beirute). Isso ameaçou o flanco externo das posições sírias no Vale de Bekaa e cortou as comunicações entre Beirute e Damasco. A Síria reagiu com um ataque de helicópteros armados Aérospatiale SÁ 342 L Gazelles; aparelhos de asa fixa penetraram mais longe no espaço aéreo libanês, para atacar blindados israelenses perto do porto de Sidon.
A essa altura, estava claro para os israelenses que os sírios deveriam ser impedidos de interferir nas operações anti-OLP que se desenrolavam nas planícies do litoral. A liberdade de ação da IDF/AF estava sendo restringida, basicamente, por posições de SAM no Vale de Bekaa; informado de que mais mísseis estavam sendo instalados aí, Israel optou por armar uma ação rápida, que acabou resultando na chamada "Batalha do Vale de Bekaa".

Fim dos SAMs sírios. 

No dia 9 de junho havia 19 posições de SAM no Vale de Bekaa. Em quatro ataques realizados em rápida sucessão, pelo menos 17 dessas posições foram postas fora de ação por 90 aviões israelenses. O primeiro ataque ocorreu logo depois das 14h00, quando uma força de 26 Phantoms lançou mísseis ASM Hughes AGM-65 Mavericks e foguetes anti-radar contra as bases de SAM e seus postos de controle. Essa operação foi apoiada por mísseis SSm Ze'evs de curto alcance, disparados pelas forças terrestres de Israel; como resultado, 10 posições ficaram inoperantes logo nos primeiros 10 minutos de luta. Quase completamente cega, a organização de defesa aérea da Síria estava agora pronta para o golpe de misericórdia dos 40 Phantoms, Skyhawks e IAI Kfirs, que usaram Mavericks teleguiados, cachos de bombas e bombas guiadas Rockwell GBU-15s para destroçar as posições dos mísseis. Essa segunda fase de batalha terminou às 14h35min e foi seguida por uma nova onda que, numa terceira fase, atacou outras posições sírias na frente de batalha, além de algumas posições de SAM que tinham escapado. Finalmente, uma série de pequenos ataques, que duraram até o anoitecer, completaram a devastação.Os aviões da IDF/AF que tiveram melhor desempenho na Batalha do Vale de Bekaa foram os F-16s e os McDonnell F-15 Eagles, que deixaram a Força Aérea da Síria em apuros. Muitos Mikoyan-Gurevich MiG-21 ''Fishbeds" e MiG-23 "Floggers" sofreram danos graves ou foram abatidos. (Segundo a IDF/AF, 22 aviões sírios foram derrubados e 7 danificados, contra nenhuma perda.)No dia 10 de junho, as últimas posições de SAM remanescentes foram destruídas, deixando a Força Aérea síria como única ameaça aérea contra Israel. Em outros violentos combates, os israelenses reivindicaram 28 aparelhos derrubados, incluindo 3 helicópteros.A perda dos helicópteros resultou da tentativa síria de deter a coluna israelense que entrava no Vale de Bekaa; Israel respondeu com sua própria força de helicópteros armados Bell AH-1 Cobras e Hughes 500 MD Defenders. No dia seguinte (11 de junho), houve combates semelhantes, quando a Síria atacou uma força que tentava atravessar a estrada que vai do Vale de Bekaa a Beirute. Isto custou ao país mais 18 aviões (pelas contas de Israel), antes de ser combinado um cessar-fogo intermitente. Esse foi, de fato, o fim da guerra aérea, apesar de alguns outros ataques realizados pela IDF/AF, cujos helicópteros continuaram ocupados nos dias e meses seguintes, apoiando as forças israelenses que ocupavam o sul do Líbano.

Andamento da batalha
A supremacia de Israel sobre a Força Aérea síria era absoluta, sendo suas vitórias devidas, em parte, à perícia dos pilotos de caça que dispararam os canhões e mísseis. Mas o elemento chave do sucesso foi o polivalente Sistema de Direção de Batalhas Aéreas de Israel, que incluiu radares aerotransportados, aviões de reconhecimento e RPVs baseados em terra. Com total conhecimento da situação e do campo de batalha, a IDF/AF pôde planejar suas operações de modo a produzirem efeito máximo, ao mesmo tempo que impediam qualquer oposição.

Para atacar as posições de SAM, a IDF/AF planejou cuidadosamente seus movimentos. A primeira leva de aviões ficou bem afastada da posição (quase 35 km) para lançar seus mísseis disparados com precisão contra os centros vitais das redes de SAM. Eram Mavericks teleguiados e dois tipos de mísseis especialmente projetados para destruir estações de radar (o Texas Instruments AGM-45 Shrike e o General Dynamics AGM-78 Standard).Os Mavericks eram tão precisos que Israel chegou a pensar em utilizá-los sem as ogivas de combate contra alvos "moles", pois a energia cinética do impacto direto poderia destruir um carro de controle ou uma antena de radar.Com seus centros vitais inoperantes, as posições de SAM podiam ser atacadas e destruídas com bombas em cacho e explosivos de alta potência. Os Phantoms fizeram grande parte desse trabalho utilizando, pela primeira vez para valer, suas novas plataformas de navegação por inércia e sistemas de pontaria.Os Boeing 707s da IDF/AF também estiveram em ação antes e durante os ataques. Eram versões muito modificadas do avião de passageiros, algumas bastante semelhantes aos RC-135s da Força Aérea norte-americana. Equipados com radar de visão lateral para vigilância, eles também fizeram parte das missões de interferência aos radares dos SAMs, para maior segurança das primeiras forças de assalto israelenses. Os 707s serviram igualmente para aumentar a confusão nas redes de auxílio à navegação e controle de caças da Força Aérea síria.Os radares sírios ainda em uso foram de utilidade duvidosa, já que Israel os usou em seu próprio benefício. Um Boeing 707 de controle aerotransportado "acobertava" F-15 Eagles, que, assim, podiam entrar no espaço aéreo libanês pelo sul, para atrair os caças dos campos de pouso sírios. Pensando ser numericamente superiores, os pilotos da Força Aérea síria partiam para o ataque e eram recebidos não pelo 707, mas por caças israelenses chamados por ele, que tinham ficado circulando sobre o mar, fora do alcance dos radares inimigos. Às vezes, no auge da batalha, o sistema de controle de caças da Síria confundia-se totalmente, e ondas de caças eram lançadas desordenadamente para encontrar aviões oponentes. É desnecessário dizer que o único efeito disso era aumentar o número de alvos para a IDF/AF.Em contrapartida, o sistema de direção aérea israelense funcionou perfeitamente e foi incrivelmente ajudado nisso por dois dos quatro Grumman E-2C Hawkeyes israelenses disponíveis. Com sua grande antena de radar rotativa AN/APA-171 montada acima da fuselagem, o Hawkeye pode detectar um alvo do tamanho de um míssil cruise a uma distância superior a 269 km, rastreando 250 marcações semelhantes enquanto dirige interceptações simultâneas contra 30 ou mais delas. A Síria admitiu mais tarde que seus aviões foram detectados quase imediatamente depois de deixarem a base.O efeito dos SAMs que não tinham sido destruídos foi praticamente anulado por interferências e iscas. No Vale de Bekaa, a maioria das armas eram SA-2 "Guidelines", ou SA-6 "Gainfuis" móveis, além de SA-8 "Geckos", armas destinadas a combater aviões voando baixo. Os soldados da infantaria e os guerrilheiros da OLP carregavam seus próprios SA-7 "Grails" orientados por calor; os SA-9 "Gaskins" (similares aos SA-7s), montados sobre veículos, chegaram ao Vale de Bekaa num período posterior. Ataques esparsos continuavam a cair sobre posições dos SA-9s, e, em outubro de 1982, a contagem israelense de posições de SAM destruídas tinha dobrado para mais de 40. As armas infravermelhas eram atraídas por chamas semelhantes às emitidas por caças -bombardeiros sobrevoando seus alvos; as armas maiores tinham seu desempenho atrapalhado pelo lançamento de partículas metálicas ou sofriam interferência sobre os circuitos de comando de seus rádios. Muitos SA-2s e SA-6s foram vistos disparar "como que alucinados" logo depois do lançamento. Calcula-se que mais de 100 SAMs foram lançados sobre cada avião da IDF/AF derrubado sobre o Vale de Bekaa.Apesar de todo o apoio recebido, os caças israelenses ainda tiveram de atuar à moda antiga, por meio de combates travados a curta distância, por causa da necessidade de identificação positiva dos contendores. Somente 7% das vitórias israelenses foram conseguidas por canhões (sendo essa porcentagem bastante alta nas condições dadas), sendo muitas das restantes atribuídas a mísseis ar-ar de curto alcance AIM-9L Sidewinders, a Rafael Shafrir 2s construídos em Israel, e provavelmente aos novos Rafael Python 3s. Alguns mísseis ar-ar Raytheon AIM-7 Sparrows guiados por radar também foram lançados na Batalha do Vale de Bekaa, mas isso foi feito sempre dentro do alcance visual, depois que o avião lançador esgotava suas armas IR.

Oficialmente, a Guerra do Líbano terminou em onze de junho de 1982, mas os combates no solo não cessaram. A Força Aérea Israelense continuou lançando operações de supressão de defesa antiaérea contra baterias móveis de mísseis SA-6 que a Síria conseguira deslocar para o Líbano. Em 1985, os israelenses finalmente se retiraram do Líbano (com exceção de uma estreita zona de segurança, que mantiveram até 2000), sem terem atingido seus objetivos políticos. No entanto, a devastadora vitória no campo militar permanece como um importante feito de armas na história militar do Oriente Médio. A vitória sobre as baterias de mísseis foi esmagadora, mas a batalha aérea que se seguiu - na qual a IDF/AF abateu
um número impressionante de caças inimigos (os F-15 receberam o crédito por 34 vitórias, os F-16 por 49 e um caça
inimigo foi abatido por um F-4E) - foi realizada sem uma única perda. 

MÍSSEIS TERRA-AR SÍRIOS (BEKAA - LÍBANO)

SA-2 Guideline (S-75 "Dvina")

Era um míssil semi-móvel de defesa aérea de segunda geração, empregado contra alvos a grande altura. Usava um radar de aquisição Spoon Rest (que operava na banda A), e um radar diretor de tiro Fan Song (operando na banda E; mais tarde, na banda G). Cerca de 3.700 lançadores e mais de 20.000 mísseis foram fabricados e exportados para mais de quarenta países. Os chineses produziram uma cópia modificada, conhecida como HQ-2.

Míssil SA-2_GUIDELINE

SA-3 Goa (S-125 Neva)

Sistema complementar do SA-2 cobrindo altitudes mais baixas.Geralmente utilizava o radar Flat Face (P-15) na banda C para aquisição de alvos, e o radar Low Blow de banda I como diretor de tiro e guiamento. Com alcance máximo de cerca de 27 km, foi exportado para 30 países.

SA-4 Ganef (9M8 Krug)

Sistema tático de mísseis semi-móvel utilizado para a defesa de unidades do exército no terreno. Emprega o radar Long Track na banda E para a aquisição de alvos, e o radar Pat Hand na banda H para a direção de tiro.

SA-6 Gainfui (ZRK-SD Kub)

Sistema de mísseis táticos semi-móveis voltados para a defesa de unidades do exército dispersas no terreno. Os radares de controle e unidades de lançamento são trans­portados em diversos veículos sobre lagartas. Emprega o radar Long Track na banda E para a detecção de alvos, o radar Thin Skin na banda H para determinação de altitude e o radar Straight Flush na banda H para "traqueamento" e iluminação do alvo. Depois do lança­mento, os mísseis são comandados até a proximidades do alvo e, em seguida, passados para o modo semi-ativo para "traqueamento" terminal. O alcance máximo é de cerca de trinta e dois quilômetros. É utilizado em cerca de vinte países.

Míssil SA-6 Gainful

SA-7 Grail (Strella 2, 9M32)

O SA-7A apareceu em 1966, como míssil infravermelho portátil, lançado do ombro. Possui um alcance máximo de cerca de 3,5km. Sua versão mais avançada, o SA-7B (Strella 2M), apareceu em 1972 e era dotado de contramedidas eletrônicas simples, que incluíam um filtro capaz de rejeitar sinais infravermelhos não espera­dos. Seu alcance máximo é de cerca de 5,4km. Os dois modelos só conseguiam engajar aeronaves pelo quadrante traseiro. Foi fabricado em grande número e vendido para cerca de cinqüenta países.

 

AVIÕES ISRAELENSES EM BEKAA

CAÇAS SÍRIOS

A TÁTICA ISRAELENSE