Ficção - Operação Chaparral

Autor: Carlos David


Cap. 1



Baia de Guanabara no Rio de Janeiro

O cozinheiro senegalês Demba Biagui voltou para observar a Baia de Guanabara novamente. Da ultima vez que ele esteve no mesmo local foi para assistir ao festival de fogos alusivos a abertura dos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, no dia 05 de agosto. Agora, às 02:45h da madrugada do dia 06, ele não procurava por fogos, mas por uma minúscula lancha.
Ao avistá-la, posicionou a sua lanterna e mandou o seu sinal em código: dois fachos longos, seguidos de três curtos. Em resposta, vindo da direção da lancha, três fachos curtos e um longo. Ele não precisava esperar mais. Biagui se dirigiu para acionar a escada de aço que estava a bombordo da sua embarcação e poucos minutos depois foi receber os homens que estavam na lancha.
O grupo era formado por cinco homens. Estavam todos calados. Eles usavam calças jeans e jaquetas escuras, além de gorros e sapatos de solas de borracha. Todos carregavam mochilas ou grandes bolsas. Biagui os recebeu.
— Tudo certo? — disse o homem encabeçando a fila que subia as escadas.
Biagui um pouco nervoso e olhando para os lados disse.
— Sim, tudo certo. O Capitão está na sua cabine, um homem está na enfermaria, com febre, os outros quatro estão em seu alojamento dormindo. O resto da tripulação está em terra, se divertindo.
— Aqui está a sua "encomenda" — disse o recém-chegado, passando para Biagui uma mochila.
O senegalês olhou para o conteúdo da mochila e sorriu. Lá dentro tinha 10.000 dólares, um passaporte nigeriano com um nome falso e uma passagem aérea para Montevidéu, marcada para dali a três horas.
— O navio é todo seu, faça bom proveito e foi muito bom fazer negócios com vocês — Falou Biagui agarrado a sua nova mochila e descendo para a lancha que o aguardava.
Não houve despedidas e nem comprimentos. O líder do grupo simplesmente olhou para o senegalês que descia a escada, pensando nele mais como um verme desgraçado, que tinha lá sua utilidade.
Mas havia muito a fazer, e Aomar, o líder do grupo, não podia perder tempo com pensamentos tolos que não levavam a lugar nenhum. Os homens de Said Aomar tinham ensaiado essa ação por muito tempo, e mesmo nunca tendo subido a bordo do grande petroleiro Green Star, sabiam perfeitamente como ele era e onde estavam os seus compartimentos, de tanto estudarem suas plantas e fotos.
 


Os terroristas que tomaram o Green Star estavam armados com Ak-47 e todos usavam mascaras.

Todos estavam armados com fuzis automáticos AK-47 de 7.62mm, adquiridos cada um por cerca de 30.000 dólares no mercado negro carioca, além de pistolas 9mm, e farta munição. O segundo em comando de Aomar se chamava Mounir. Ele era um homem de meia idade, que viveu seus primeiros vinte anos na Cisjordânia e era especialista em explosivos. Mounir carregava em sua mochila várias cargas de explosivo plástico, tipo militar e detonador.
Os homens de Aomar dominaram o navio rapidamente. Os homens desarmados no alojamento não ofereceram nenhuma resistência. Em seus rostos estava estampada a surpresa de serem abordados por homens armados e o medo do desconhecido. Ao ser preso em sua cabine, por Aomar e um de seus homens, o capitão do navio, o espanhol Fernandez González, indagou aos seus captores.
— Quem são vocês e o que pensam que estão fazendo? Pirataria é um crime internacional e vocês não sairão impunes. Exijo que se retirem imediatamente desta embarcação!
— Calma Capitão González, não somos piratas e não queremos o seu navio ou sua carga, e tão pouco exigiremos resgate. Não desejamos também lhes fazer mal, mas estamos armados e não hesitaremos em usar nossas armas para demonstrar a nossa determinação em alcançar o nosso objetivo — Disse Aomar de forma calma, tão calma, que González em olhar para os olhos daquele homem, sentiu um frio na espinha.
— Como estão os meus homens? O que vocês fizeram com a minha tripulação? Disse González tentando não transparecer está com medo, apesar do suor em seu resto lhe denunciar.
— Eles estão bem e assim ficarão se o senhor for cooperativo. Acredite, não quero lhe fazer nenhum mal, e lhe garanto que até amanhã estaremos bem longe do seu navio — Falou Aomar de forma monótona, quase recitando uma reza.
— Então o que você deseja? Pergunto o aflito González.
— Seu pessoal que está em terra tem a volta programada para às 09:30h, certo? — Perguntou Aomar, mesmo sabendo a resposta.
— Isto mesmo! — Afirmou González, tentando entender como aquele homem sabia daquela informação.
— Por favor siga-me até a cabine de comando e lhe explicarei com prazer as minhas intenções — Disse Aomar, apontando a sua pistola 9mm para González de uma distância segura, para que o espanhol não tivesse desejos de tentar ser um herói.

Cap. 2
O petroleiro Green Star estava ancorado ao largo da Baia da Guanabara há dois dias. Estava completamente carregado, seu destino era a África do Sul, mas um estranho incêndio danificou seriamente seus equipamentos de navegação e o capitão González requisitou novos equipamentos a sua empresa para reparos.


O Green Star em águas do Mediterrâneo.

O Green Star era um petroleiro que transportava óleo cru (petróleo), e tinha os seus tanques, projetados para aquecimento do produto a fim de evitar o congelamento ou solidificação, podendo também transportar, pixe, betume, e óleos combustíveis pesados e lubrificantes pesados.
Como uma embarcação moderna eram os computadores que cuidavam da maior parte do trabalho. A navegação era feita pelo sistema de satélites GPS. A tripulação do Green Star era composta de apenas 15 pessoas. Durante a viagem a tripulação passava todo tempo na superestrutura, situada na parte de trás do navio. Ali funciona a cabine de comando, camarotes, restaurante, biblioteca etc.
O Green Star consumia uma média diária de 35 toneladas de um diesel especial, usado exclusivamente em grandes embarcações. Metade desse combustível alimentava o motor principal. A outra metade gerava energia para todo o navio e calor para o sistema de serpentinas que mantinha o óleo aquecido durante as cargas e descargas. A propulsão do petroleiro ficava por conta de uma única hélice de cinco pás e 10 metros de diâmetro, movida por um motor de 50 mil cavalos. Isso dava ao petroleiro a uma velocidade máxima de 30 km/h, o suficiente para ir do Oriente Médio aos Estados Unidos em cerca de dois meses.
Por volta das 08:40h o capitão González entrou em contato pelo rádio com a Capitania dos Portos do Rio de Janeiro, pedindo para falar com o comandante pessoalmente, pois precisava reporta um incidente urgentemente. Às 08:55h o Capitão-de-Mar-e-Guerra Alberto Mascarenhas recebeu um novo contato do Green Star.
— Aqui é o capitão do Green Star, Fernandez González, e passo agora o rádio para quem de fato controla essa embarcação — Disse González visivelmente contrariado e aflito, tendo uma pistola apontada para o seu peito e lembrando-se da advertência feita por Aomar de que não tentasse bancar o herói passando informações as autoridades brasileiras ou sua tripulação seria morta.
— Meu nome é Saif ("espada" em árabe) e faço parte do Comando dos Militantes Sagrados, e estou no controle dessa embarcação. Tenho cargas explosivas por todo o navio e não hesitarei em detoná-las, caso as minhas exigências não sejam atendidas ou aconteça qualquer tentativa de retomada desta embarcação. Diante das ações criminosas do governo francês em perseguir e assassinar líderes da resistência nos guetos árabes nos subúrbios de Paris e de outras cidades franceas exijo a retirada da delegação olímpica francesa dos Jogos de 2016 no prazo de 24 horas e a realização de uma entrevista coletiva com o embaixador da França no Brasil e um de nossos representantes, no Copacabana Palace, duas horas após a saída dos atletas franceses de solo brasileiro, nesta entrevista iremos detalhar as ações criminosas francesas em sua tentativa de abafar o nosso movimento. O embaixador francês deverá reconhecer publicamente as ações assassinas dos aparatos de segurança franceses. Se essas exigências não forem atendidas em seus respectivos prazos irei explodir os tanques de óleo do Green Star despejando no mar todo o petróleo que ele transporta, causando um grande desastre ecológico. O Brasil por seus acordos bilaterais de defesa com a França, pagará por ser aliado de um país que pratica assassinatos sistemáticos. Alá é grande!
Depois desta ligação, usando um telefone por satélite Aomar, fez uma ligação para a sede da BBC em Londres e da Reuters em Paris, passando a mesma mensagem que tinha falado com o comandante Mascarenhas. Em poucos minutos a notícias estava nos principais sites de noticias do mundo, e pouco depois na TV e nas rádios também.


Cap. 3
Sentado na cabine de comando, Aomar sentia que estava muito perto de realizar o seu plano de humilhar a França, e lembrava quando todo aquele tormento começou para ele e sua família, há três anos atrás no dia 14 de julho de 2013, feriando nacional na França, o dia da Queda da Bastilha. Devido a uma forte repressão contra estrangeiros, notadamente de origem africana e árabe, executada pelo governo de direita francês, as comunidades árabes que viviam na periferia das grandes cidades francesas estavam se organizando mais e mais para resistir e exigir os seus direitos. Os distúrbios nas ruas ficaram muito intensos desde 2011, e o número de carros incendiados durante as ondas de protestos, a sua marca registrada, passava sempre de mil. Também estava aumentando o número de feridos e mortos nos distúrbios.


Os distúrbios na França em 2013 atingiram muitas cidades e foram extremamente violentos.

Naquele 14 de julho em especial, o velho médico de origem argelina, Zakaria Aomar estava como sempre, por trás dos manifestantes, segurando sua maleta, pronto para socorrer os rapazes que poderiam sair feridos daqueles confrontos com a polícia. Naquele dia, Zakaria estava em Arnouville, uma cidade vizinha a Villiers-le-Bel (ao norte do aeroporto Charles de Gaulle), onde jovens destruíram a delegacia e a estação de trem do subúrbio. A reação da polícia foi violenta, e para conter os jovens se usou balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Porém algo de marcante aconteceu naquele dia à família Aomar, que mudaria a sua história.
A muito tempo que os líderes dos distúrbios acreditavam que atiradores de elite eram usados para disparar as balar de borracha, pois essas se tornaram assassinas, atingindo mortalmente na cabeça, muitos dos manifestantes. Os manifestantes acreditavam que eram tiros certeiros e não mero acaso. Naquele dia, enquanto atendia uma moça com um corte na perna Zakaria Aomar foi violentamente atingido na cabeça por uma bala de borracha tendo morte quase que instantânea. Um cinegrafista amador filmou toda a cena que imediatamente foi postada na internet. Nunca se descobriu quem atirou e o governo francês atribui o caso a uma fatalidade, e ponto final. A saber da morte do marido a esposa de Zakaria teve um infarto e passou vários dias internada. Para Said, 26 anos, e seu irmão mais velho Ahmed, 32 anos, tudo aquilo era inacreditável, e a sua irmãzinha Nadia de 11 anos não entendia bem o que estava acontecendo.
O ódio tomou conta do coração dos irmãos Aomar e eles procuraram vingança, mas foram impedidos pela liderança dos distúrbios. Said era muito importante para eles, reconheciam aqueles homens. Formado em Engenheira Elétrica, falava além de francês, árabe, inglês e espanhol. Said era o cérebro estrategista em muitas das ações de rua. Já o seu irmão Ahmed, motorista de ônibus desempregado e com pouca instrução era igual a maioria daqueles que eram lançadas nas ruas para enfrentar a policia, e perfeitamente descartáveis. A cúpula rebelde tinha outros planos para Said e deixou que mais tarde Ahmed liberasse um ataque contra uma delegacia onde um policial foi morto.
Os líderes rebeldes ofereceram a Said a chance de causar a França uma grande humilhação, mas ele teria que se dedicar completamente a esta missão, inclusive tendo de morar em outro país por muito tempo com uma identidade falsa. Depois de muito pensar Said aceitou a proposta, mas só foi embora quando sua mãe saiu recuperada do hospital e teve a garantia de que cúpula rebelde iria prover as necessidades de sua família, que agora estaria sob a responsabilidade de seu irmão mais velho. Sua família não sabia o que Said foi fazer no exterior, mas se sentiu confortada com os cheques que chegavam todo final de mês.
Said morou no sul da Espanha, norte da Síria e na Turquia também. Foram longos três anos, onde ele e outros se prepararam para desferir um duro golpe contra a França. Durante todo este tempo Said aprendeu sobre espionagem e conta-espionagem, armas, explosivos, luta corpo-a-corpo, fuga e evasão e tantas outras coisas. Só uma única vez a sua missão se viu ameaçada quando um descende de marroquino, desferiu um tiro de uma arma artesanal contra o ministro do interior francês, ferindo-o de raspão na orelha, um ano antes da execução da sua missão.
Em reação, o serviço secreto francês se tornou mais ameaçador e a suas ações clandestinas de eliminação de lideranças rebeldes mais constantes. Em um ano, dois líderes morreram de ataque cardíaco (vitimas de substancias químicas, que simulavam infartos), um foi atropelado e outro vítima de latrocínio. Inclusive um deles era um dos mentores da operação que Said iria realizar foi morto. A vigilância da polícia ficou mais intensa, mas mesmo com tudo isso Said recebeu sinal verde de prosseguir com seus preparativos, que culminaram com o seqüestro do Green Star.

Cap. 4
Após o seu contato com Aomar, o comandante Alberto Mascarenhas imediatamente passou toda informação para o Comando de Operações Navais e aguardou ordens superiores. Que não demoraram a chegar. Devido a abertura das Olimpíadas, todas as principais autoridades da nação brasileira estavam na capital do Rio de Janeiro naquela fatídica manhã de sábado, o que facilitou a comunicação ente elas.
Tão logo a informação chegou ao Comando de Operações Navais ela foi repassada para o ministro da defesa, Paulo Miller, que levou a informação ao presidente da república Daniel Campos, mas este já tinha sido informado de toda a situação pelo chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que foi informado através de seu núcleo de inteligência. O presidente convocou uma reunião de gabinete de emergência para discutir o assunto para as 09:45h. Contatos foram feitos também com o governo francês. O governador do Rio de Janeiro e o Prefeito do Rio também ligaram aflitos para o presidente para saberem que providências seriam tomadas.
Imediatamente a veterana Fragata F40 Niterói, foi enviada para vigiar o Green Star, enquanto lanchas da Capitania dos Portos se posicionavam para afastar pequenas embarcações com curiosos. Também foi estabelecida uma zona de exclusão aérea para que helicópteros, principalmente da impressa, não sobrevoassem o petroleiro. Helicópteros da Marinha sobrevoavam a região ostensivamente em missão de vigilância.
Coincidentemente estava na Base Aérea do Galeão em treinamento uma aeronave R-99B da FAB, com cinco tripulantes. Fabricada pela Embraer com o nome de ERJ-145 RS/AGS, essa aeronave é mais conhecida por desempenhar missões de apoio as autoridades civis e policiais como mapeamento de solo na Amazônia, análise de cheias, e apoio à repressão ao tráfico de drogas. Mas essa aeronave realiza outras missões que não são tão divulgadas na mídia.
O R-99B com suas duas turbinas Rolls-Royce AE3007A, pode voar a 833 Km/h com alcance máximo de 1.480 Km. Esse avião tem 21m envergadura, 29,87m de comprimento e 6,75m de altura. Essa aeronave tem uma quantidade impressionante de sensores, que podem ser convertidos ou diretamente utilizados de forma a transformar o R-99B numa aeronave de vigilância do campo de batalha. Os seus sensores, permitem por exemplo detectar veículos de combate camuflados e detectar a movimentação de tropas no terreno, acompanhando o seu movimento e enviando os dados através de um sistema de Data-Link para as aeronaves de combate e ataque ao solo, ou para centros de Comando e Controle. O mais importante dos seus sensores, é o sistema IRIS, que são as iniciais de Integrated Radar Imaging System, ele é construído em volta de um Radar Lateral de Abertura Sintética fabricado no Canadá pela McDonnel Dettwiler, e que é uma versão de Radar de Abertura Sintética derivada do AN/APS-504. O equipamento funciona na banda L que permite por exemplo remover a interferência da folhagem numa selva, e na banda X que permite imagens 3D de maior definição. O alcance deste radar é de 20Km (maior resolução 3D com erro de 3 metros) a 120Km (o que implica uma resolução inferior, com erro de 18 metros). Essa capacidade permite a criação de imagens 3D de alta definição, que permitem identificar os contornos de edifícios, veículos e equipamentos, a uma distância segura. Os radares de Abertura Sintética estão instalados a bordo dos aviões não tripulados Predator que permitir à Força Aérea dos Estados Unidos um conhecimento e identificação do campo de batalha muito maior, mais próximo dos alvos e sem o risco de perdas. Também são utilizados pelas sondas de exploração interplanetárias que vão a Marte ou a Venus, e criam imagens 3D de um planeta, efetuando leituras continuas durante as suas órbitas. Esta capacidade 3D é no R-99B complementada com sensores que podem determinar com precisão a localização de um alvo, e entre esses existe o Star Safire, um sistema FLIR (Forward Looking infra-Red) que é uma pequena torre (com o peso aproximado de 50Kg) que se encontra por debaixo do avião, aproximadamente abaixo da cabine de pilotagem. Este dispositivo, consegue ver objetos ou alvos com o auxilio de infravermelhos (detectando o calor emitido e permitindo a visão noturna) e tem um telêmetro a laser (rangefinder) que permite determinar a distância do alvo com uma precisão de 5 metros, a uma distância de até 20Km.
Esta aeronave além de detectar alvos marítimos, pode executar missões ELINT (inteligência eletrônica) e COMINT (inteligência de comunicações), demonstrando uma versatilidade operacional notável. E foi principalmente para essa missão que o R-99B foi enviado para monitorar o Green Star.

Cap. 5

Na reunião de gabinete o presidente iniciou a mesma com o seu bom humor característico.
— Bem senhores esse não era o café da manhã que tinha planejado para hoje, em vez de pensar sobre bombas e terroristas, pensei que hoje estaria assistindo as provas de natação. Mas estamos aqui e vamos resolver toda essa bagunça. Paulo como estamos até aqui?
— Todas as providências para isolar a área em volta do petroleiro já foram tomadas. — falou o ministro da defesa. — Lanchas da Capitania dos Portos estão afastando as pequenas embarcações e temos uma fragata no local. Helicópteros da Marinha também estão patrulhando a área. Reforçamos a segurança em torno da delegação francesa. Todos os atletas franceses irão permanecer na Vila Olímpica, com seus alojamentos e locais de treino sob forte proteção. Seus passeios turísticos foram cancelados. E hoje nenhum francês irá competir.
— Mas o que esses loucos estão querendo? Eles desejam prejudicar todo mundo e será que eles pensam que vão se safar desta? — Falou um aturdido ministro da justiça.
— Eles são terroristas treinados e motivados — acrescentou sem nenhuma emoção o general Antunes Barbosa, chefe do GSI. — Eles são bem articulados, não se toma uma embarcação daquelas sem um bom planejamento e apoio. Eles tem apoio externo e o que mais querem é chamar a atenção para a sua causa, o que de fato já estão conseguindo. Se eles estão dispostos a morrer por isto, ai é outra coisa. — O General estava pensando como aquilo tudo poderia acabar, e quais as conseqüências.
— Os olhos de todos no momento estão voltados para o Brasil. Mas a iniciativa agora está com o governo da França. São os franceses que vão decidir se aceitam ou não as exigências dos terroristas. Mas eu acredito que os franceses não vão ceder um milímetro. Seria o fim do governo do presidente André Terry — acrescentou o chefe da Casa Civil.
— Mas se os franceses não tomarem a iniciativa, seremos nós que estaremos com uma bomba relógio em nossas mãos. — falou o presidente da república. — Quais as conseqüências do derramamento de toneladas de petróleo na Baia de Guanabara?
— As conseqüências seriam desastrosas. — tomou a palavra o Ministro do Meio Ambiente. — Toda a Baía seria atingida. A Fauna e a Flora marítima seriam dizimadas. Os caranguejos seriam as principais vitimas. As aves que habitavam a baía, como os binguás, morreriam devido o derramamento de óleo. As rochas e as praias da Baía da Guanabara ficariam impregnadas de óleo. Haveria também é claro graves prejuízos de ordem social e econômica a população local. As comunidades que tiram seu sustento de atividades ligadas, direta ou indiretamente, a qualidade das águas da Baía de Guanabara, tais como, a pesca e o turismo, seriam duramente prejudicadas, quer pela contaminação dos peixes e crustáceos, quer pela inviabilização do turismo pela poluição do ambiente. Gastaríamos milhões e milhões para restaurar a Baía de Guanabara. Gostaria de dizer também que todo o pessoal do Plano de Emergência da Baía de Guanabara já está a postos. A Defesa Civil Estadual acionou as Defesas Civis Municipais e as Companhias de Limpeza Urbana.
— Se todo o quadro encaminhar para um impasse, sem uma resolução francesa, seremos nós que teremos que tomar a iniciativa. Quais as nossas opções Paulo? — perguntou o presidente.
Neste instante todos se viraram para ouvir atentamente o que o Ministro da Defesa tinha a falar. Entendo a sua deixa o Ministro da Defesa Paulo Miller, se adiantou e falou pausada e didaticamente, pois sabia muito bem o peso do que seria dito ali e suas conseqüências.
— Se os franceses não negociarem com os terroristas, acredito que os terroristas cumprirão as suas ameaças. Eles não vieram até aqui para blefar, esses homens defendem uma causa e podem ir até as ultimas conseqüências. Sendo assim só restará a nós a opção militar — disse Paulo de forma firme e categórica. — Nesse exato momento temos nossas unidades de forças especiais em alerta máximo. Devido o contexto da operação, essa missão deverá ser atribuída ao
GruMeC - Grupamento de Mergulhadores de Combate da Marinha do Brasil. O GruMeC possui o Grupo Especial de Retomada e Resgate - GERR/MeC. Especialmente equipado e adestrado para atividades anti-seqüestro e anti-terrorista em ambiente marítimo, como a retomada de navios, terminais e plataformas de petrolíferas, incluindo o resgate de possíveis reféns. Os militares do GERR/MeC utilizam, equipamentos, técnicas e armamentos específicos para o emprego em situações de alto risco, onde a precisão, o sigilo e a rapidez são fatores preponderantes para o sucesso da missão. Suas ações são eminentemente "cirúrgicas", impetuosas, ou seja, as ameaças são eliminadas com absoluta exatidão, sem expor terceiros (reféns, por exemplo) a riscos. Suas reações a ameaças e situações inesperadas são imediatas e quase instintivas. Eles estão diretamente subordinados ao Comando da Força de Submarinos e pelo fato de também existir um GERR/OpEsp na estrutura do Batalhão de Operações Especiais de Fuzileiros Navais (BtIOpEspFuzNav), o Batalhão Tonelero, suas atribuições operativas seguem, em princípio, o cenário da ação prevista: é acionado o GruMeC quando ocorrer uma crise, primordialmente, em ambiente aquático, enquanto que a tropa de Fuzileiros Navais intervém em ambiente predominantemente terrestre. Os operadores do GruMeC, são altamente técnicos e aguerridos, contando com armas e equipamentos especiais, e podem chegar furtivamente pelo mar ou mesmo pelo ar (de helicóptero ou pára-quedas) até seus alvos, tendo condições inigualáveis para assumir o controle da situação em termos eminentemente "cirúrgicos", ou seja, sem a perda desnecessária da vida de possíveis reféns.


Armados com Mini Uzis homens do GruMeC desembarcam em um navio, usando o método "fast rope". Através deste o operador dispensa a conexão fixa (freio em oito) com o cabo pendente do helicóptero (neste caso um Lynx), processando a descida de forma rápida e devidamente segura.

No final de sua exposição Miller ficou observando que todos estavam impressionados com o que ele disse. Provavelmente, além dele, do presidente e do chefe do GSI, ninguém naquela sala nunca tinha ouvido falar desses mergulhadores de combate. A sensação na sala era de surpresa e de alívio, por saberem que o Brasil tinha uma unidade tão bem preparada para lidar com essas situações.
— Mas esses soldados têm experiência de combate? — perguntou o Ministro do Meio Ambiente, chamando erroneamente mergulhadores de combate de soldados.
— Com certeza — afirmou Miller — Só que as suas missões são absolutamente secretas e ninguém vai ler sobre elas nos jornais. Essa unidade tem uma excelente folha de serviços de combates reais e treinar arduamente.
— É bom saber que podemos contar com homens assim, mas espero que não seja necessário. Como sabemos a bola está com os franceses, espero que eles possam encontrar uma saída sensata para esse problema. Voltaremos a nos reunir as 15:00h — falou o presidente — Todos temos muitas coisas para fazer em relação a essa situação e preciso liberar todos vocês agora.

Cap. 6
Do outro lado do Atlântico o presidente André Terry não acreditava no que estava acontecendo. Para ele aqueles estrangeiros que só queriam se aproveitar da França tinha ido longe demais. A reunião com seus assessores foi bem tensa.
— Senhor presidente, as conseqüências de aceitarmos as condições dos terroristas são incalculáveis, toda a França estaria em perigo se esses bandidos vencerem com sua chantagem — falou o Ministro do Interior Renaud Henry.
— Calma Renaud, não estou pensando em negociar com terroristas, muito menos com esses bandidos — disse o presidente francês.
— Os brasileiros estão sob forte pressão senhor presidente— disse o Ministro do Exterior Hubert Bernard — Eles querem saber o que nós planejamos fazer, pois eles se prepararam por muitos anos para essas Olimpíadas e temem que o seu legado, em vez de passar uma imagem de uma nação capaz, de um país moderno seja apenas a imagem de um grande desastre ecológico causado por terroristas, e que nada foi feito para se impedir tal catástrofe.
— Com certeza o presidente do Brasil está sob forte pressão, irei falar com ele pessoalmente em 20 minutos, me colocando a sua inteira disposição para ajudá-los em tudo que for possível, podemos enviar técnicos para o local para auxiliar nos trabalhos de contenção da mancha de óleo se o pior acontecer, e com certeza poderemos ajudar os brasileiros financeiramente com os trabalhos de restauração do local, e também podemos oferecer é claro ajudar militar e compartilhar inteligência— disse o presidente francês.
— Acredito que os brasileiros podem ter técnicos capazes, mas a ajuda financeira seria bem-vinda é claro num momento como esse, além disso não dá para enviar equipamentos da França em tempo hábil para ajudá-los, mas podemos contratar empresas regionais para ajudar nesse trabalho de recuperação — falou sem muita convicção o Ministro da Ecologia, Desenvolvimento e Planejamento Sustentável, Bernard Fillon.
— Mas estamos falando agora como se o desastre estivesse concretizado. O que podemos fazer para impedir que esses homens obtenham sucesso em sua empreitada e como podemos prendê-los? — falou com sua irritação característica a nova ministra da Justiça Michèle Morin.
Nesse momento o Ministro do Interior Renaud Henry falou com determinação — Senhores neste exato momento estamos realizando uma série de prisões executadas por agentes do Direction centrale du renseignement intérieur-DCRI. Também descobrimos através de nossos serviços de inteligência que o homem que falou com os brasileiros, a BBC e a Reuters como o nome de Saif é na verdade Said Aomar, um ativista envolvido nos motins de rua. Ele foi reconhecido pela sua voz. A alguns anos atrás seu pai foi morto nos conflitos de rua. Aomar estava desaparecido. Provavelmente deve ter recebido treinamento terrorista no exterior, mas com certeza ele está ligado às lideranças locais desse movimento islâmico.
— Estamos monitorando as comunicações do Green Star e temos imagens do navio através de um satélite. Temos três agentes do Direction Générale de la Sécurité extérieure-DGSE na delegação francesa que estão fazendo investigações no local, estamos também enviando mais agentes em um vôo que partiu a meia hora atrás, juntamente com uma equipe das forças especiais, oficialmente eles vão reforçar a segurança da delegação olímpica francesa, mas estarão lá para uma possível intervenção se os brasileiros nos solicitarem — Disse o Ministro da Defesa Maurice Duhamell.
— Ótimo, fico feliz que temos tudo encaminhado — disse o presidente francês — Duhamell tome as providencias necessárias no local, para chegarmos a um bom termo dessa crise. Em alguns minutos estarei falando com o presidente Campos e vamos tentar coordenar as nossas ações. Por enquanto é só senhores e senhora.

Cap. 7
A bordo do Green Star os tripulantes estavam tensos, mesmo não sendo ameaçados ostensivamente pelos seqüestradores, não podiam deixar de pensar no que poderia acontecer se esses homens armados ficassem loucos de uma hora para outra ou se as forças de segurança tentassem invadir o navio. Será que daria tempo de serem salvos? Será que não morreriam no fogo cruzado? Quais as intenções desses terroristas?
Bem acima do alojamento dos reféns, Aomar estava sentado na sala de comando e sabia que naquele instante várias reuniões estavam acontecendo em todo o mundo. Os olhos da mídia estavam centrados nele, todos tinham com certeza deixado os Jogos de 2016 para segundo plano. Ele se sentia vitorioso, mesmo não tendo chegado ao final de sua missão, era quase impossível não deixar que um sentimento de satisfação invadisse o seu peito. Pois agora todos ouviram falar, pela voz dos injustiçados, o que o fascista e infiel governo francês estavam fazendo com o seu povo. Só faltava agora a humilhação dos franceses diante da mídia, com a sua delegação saindo dos jogos e com a coletiva de imprensa com o embaixador francês.
Pela mente de Aomar passava também a idéia de que as autoridades pudessem tentar impeli-lo. Mas eles que tentassem. Seus homens tinham treinado com extrema dedicação para aquela missão, que era a missão de suas vidas, e estavam prontos a morrer por ela. Todos estavam bem armados e em constante comunicação através de seus rádios táticos. Falavam pequenas palavras em árabe a intervalos predeterminados de tempo para controle e segurança. As cargas explosivas estavam instaladas e se alguém tentasse invadir o navio, ele iria detonar tudo sem nenhuma hesitação. Ele não iria perder nada com aquilo. A morte era uma benção e sua causa seria ainda mais divulgada e comentada diante das imagens da catástrofe ambiental que percorreriam o mundo. Olhando ao redor na cabine de comando, Aomar se sentia realmente o dono da situação. Agora era esperar e ver o que os franceses iriam decidir. Eles não poderiam deixar os seus aliados brasileiros em situação tão grave, se isso acontecesse pensou Aomar, as relações entre as duas nações iriam se deteriorar, melhor ainda, pois os franceses perderiam um excelente comprador de suas armas.
A mídia global estava mais do que satisfeita com tudo aquilo, pois tinha um quadro espetacular para trabalhar: terroristas, desastre ecológico e Olimpíadas. Vários foram os programas especiais que foram ao ar falando do seqüestro, os sites de noticias na internet também só falavam disso, inclusive com várias enquetes sobre o assunto, alguns até perguntando quem era simpático aos terroristas. Especialistas de todas as áreas eram convidados a apresentarem as suas teorias para explicar a situação, mas sem muito sucesso.
Nas praias e nas margens da Baia da Guanabara era imensa a quantidade de pessoas com maquinas digitais buscando capturar imagens do Green Star, também muitos curiosos estavam com binóculos. A Marinha do Brasil teve alguma dificuldade com lanchas e outras pequenas embarcações que tentavam chegar o mais perto possível do petroleiro para tirarem fotos, algumas dessas embarcações transportavam repórteres das TVs que desejavam gravar suas reportagens tendo o navio como pano de fundo. Um grupo de rapazes que confessavam o islamismo estendeu uma grande faixa na Ponte Rio Niterói com uma frase que dizia em árabe: "vocês envergonham a nossa religião e o profeta". Autoridades policiais retiraram a faixa em questões de minutos e detiveram os jovens. A verdade era que a tensão dentro e fora do petroleiro estava aumentando consideravelmente, e a tendência era que as coisas ficassem piores com o passar do tempo.

Cap. 8
Às 15:05h o Presidente da República Daniel Campos estava reunido mais um vez com seu gabinete.
— Boa tarde a todos e gostaria de iniciar a reunião com uma boa notícia — falou o presidente Campos, apontando para o Ministro da Justiça.
— Gostaria de dizer que a Policia Federal prendeu a algumas horas atrás no Aeroporto do Galeão um homem com 10.000 dólares e um passaporte nigeriano falso, além de uma pequena quantidade de cocaína. Essa prisão não passaria de um procedimento de rotina, se não fosse por um detalhe: quando o falso nigeriano entendeu a enrascada de uma acusação por tráfico internacional de drogas e quanto tempo ele ia passar na cadeia, ele decidiu falar sobre quem de fato ele era e a sua relação com o seqüestro do Green Star, se através de um acordo, ele conseguisse aliviar a sua pena — disse o ministro da justiça Anderson Mendes — Ele é um senegalês de nome Demba Biagui e era cozinheiro do Green Star. Por dinheiro ele sabotou a embarcação e facilitou a entrada de cinco terroristas no navio. Ele continuará preso por muito tempo é claro, pois se não é traficante com certeza é cúmplice de atos terroristas que ameaçam a segurança nacional.
— Realmente isto é muito bom, porém a duas horas atrás tive uma longa conversa com o presidente francês — falou o presidente Campos, visivelmente contrariado — Ele se colocou a nossa inteira disposição, para nos ajudar no controle de um eventual desastre ecológico. Ofereceu-nos suporte técnico e até ajuda financeira, mas deixou bem claro que a França não poderá atender em absoluto as exigências dos terroristas. E disse que se eu autorizar, forças francesas podem atacar o navio. O que é claro não irei autorizar de forma nenhuma, já basta o que estamos passando, ainda seriamos vistos como incapazes de lidar com um ato terrorista.
— O senhor Duhamell falou com o presidente e comigo e nos explanou como seria essa missão de ataque — disse o Ministro da Defesa Paulo Miller — Os franceses planejam na verdade enviar dois agentes do DGSE até o navio com um gás mortal que mataria de forma quase instantânea todos a bordo, eliminando assim qualquer risco de explosão dos tanques de óleo. Em seguida seria encenada uma tomada da embarcação por tropas transportadas por helicópteros. Para explicar os reféns mortos pelo gás, seria dito que os terroristas os tinham matado horas antes do início da missão de resgate.
— Isto é ultrajante e não autorizarei este ato de cinismo, que joga com vidas inocentes — falou o presidente Campos — Realmente a situação francesa não é tão grave como a nossa pois o petroleiro não está ameaçando poluir as águas francesas e nem destruir a imagem de um evento que nos custou uma fortuna e anos de trabalho duro. Sendo assim nada nos resta a não ser uma ação cirúrgica contra o Green Star por parte das nossas forças especiais. Miller nós estamos de fato preparados para lidar com essa situação com sucesso? E quem a realizaria?
— Com absoluta certeza senhor nós temos capacidade e pessoal altamente treinado para executar essa missão. O GruMeC é a unidade indicada para essa missão — disse Paulo Miller com determinação.
— Bem senhores diante deste contexto de inação dos franceses e do aumento da ameaça a que estamos submetidos não vejo outra alternativa a não ser autorizar uma missão cirúrgica — falou o presidente — Em quanto tempo os mergulhadores de combate podem ser acionados para executarem a missão Paulo?
— Na verdade eles já foram acionados senhor. Já estão de prontidão desde cedo pela manhã. Inclusive uma equipe da Divisão de Desativação de Artefatos Explosivos do GruMeC realizou uma varredura subaquática no casco do petroleiro e não encontrou explosivos. Os mergulhadores de combate já estão trabalhando com múltiplas opções de ataque, tendo a sua disposição a planta do Green Star, e o senhor Demba Biagui já foi inclusive interrogado pela pessoal do GruMeC. Gostaria de dizer também que através de escutas eletrônicas, já tínhamos descoberto que são cinco terroristas e pelas imagens, algumas delas imagens térmicas, sabemos que o líder está todo tempo na cabine de comando com o capitão do navio, e os tripulantes estão em alguma cabine abaixo. De acordo com o Comandante do GruMeC e seu Oficial de Operações a ação contra o petroleiro poderá ser realizada hoje a noite.
— Ok senhores, então assim será. Miller você tem a minha autorização e vamos orar a Deus para que essa operação tenha pleno êxito. Diga aos mergulhadores de combate que lhes desejo boa sorte.

Cap. 9
No Grupamento de Mergulhadores de Combate o sinal verde para prosseguir com a missão que desde cedo estava sendo planejada foi recebido com grande entusiasmo. O Comandante do GruMeC antes do meio-dia já tinha selecionado para missão um capitão, dois tenentes, quatro sargentos e dois cabo. Todos eles pertenciam ao GERR-MeC e eram operadores experientes com alguns anos na unidades e todos já tinham participado de ações que envolveram combates reais.
As inteligências da Marinha e do Exército estavam trabalhando intensamente desde as primeiras horas do dia, coletando e processando informações. Eles também estavam processando inteligência enviada pelos franceses e americanos. A equipe de assalto recebeu fotos e plantas do Green Star. Também tiveram acesso a imagens geradas pelo R-99B e por um pequeno Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT) desenvolvido pelo Corpo de Fuzileiros Navais, chamado Carcará. O VANT Carcará é um pequeno aeromodelo híbrido de asa em delta, envergadura de 1,6m, dotado de motor elétrico de um quilograma de empuxo e alimentado por uma bateria de lítio polímero de 2.220 mA. Possui um transmissor de vídeo que envia, para estações em terra, imagens em tempo real, captadas por duas câmeras de vídeo “day/night” de 480 linhas, com “zoom” e infravermelho. As imagens são gravadas em computadores portáteis pertencentes à estação de controle. Além disso, são transmitidos os dados sobre as condições do VANT. Além desses dados a equipe de assalto também recebeu uma pasta com dados e fotos de Said Aomar e assistiram um vídeo com partes do interrogatório de Demba Biagui.
Às 16:20h o Paulo Miller visitou, com o Comandante da Marinha, o Ministro da Justiça e uma pequena comitiva de oficias generais e assessores, as instalações do GruMeC. Informado de que o planejamento da operação estava concluído o Ministro da Defesa queria saber em primeira mão como a missão seria executada. Todos foram direcionados para um pequeno auditório onde Comandante da Força de Submarinos, o Contra-Almirante Cláudio Antunes deu as boas-vindas a todos, e depois passou a palavra ao Comandante do GruMeC, o Capitão-de-Fragata Julio de Souza que apresentou o Capitão-Tenente Levy Becker, que encabeçaria a ação, e também apresentou os homens que comporiam a sua equipe (alguns tentando encobrir a contrariedade, pois desejavam estar revendo os últimos detalhes da missão e não reunidos em uma sala com um bando de oficiais superiores e burocratas). Após essa apresentação o Capitão-de-Fragata Souza fez um breve “briefing” de como seria a ação de retomada e resgate.
— Boa tarde a todos — Souza cumprimentou os visitantes, de forma simpática e tranqüila, tendo às suas costas mapas da Baia de Guanabara e fotos do Green Star, e iniciou em seguida a sua explanação — A equipe de assalto com seus oito componentes irá chegar até o petroleiro em um Bote Inflável Zodiac Hurricane às 21:00h. Lançaremos uma “Fateixa” (gancho com 3 dentes lançado através de um artefato pneumático que a arremessa a uma altura de até 50 m) no convés do navio. Um MeC escalará pelo cabo preso a este gancho levando uma escada que será usada para colocar o resto da equipe a bordo. Essa escalada levará poucos segundos. Nos reuniremos atrás da chaminé onde existe pouca iluminação. Iremos furtivamente em direção a superestrutura, situada na parte de trás do navio. Bem aqui existe uma janela com vidro onde poderemos abrir um buraco para entrarmos. Dentro da superestrutura iremos para a escada principal onde teremos acesso aos conveses, além da cabine de comando. Como o número de terroristas é muito reduzido eles devem está localizados na cabine de comando e em alguma cabine abaixo desta. Na subida pela escada vamos escutar em todas as portas, em busca do som de vozes, a cada avanço iremos também usar uma microcâmera para nos mostrar o que temos pela frente sem nos denunciar. Se encontrarmos uma porta vigiada ou ouvimos algum barulho lá dentro iremos agir. Estaremos armados com submetralhadoras israelenses Mini-Uzi, além de pistolas 9mm e granadas atordoantes, também chamadas de "Flash-Bang". A granada é feita para confundir um potencial inimigo, principalmente em situações que envolvam reféns. Isso permite à equipe tática dominar a situação, com uso de força mínima. Depois que o pino é puxado, a "Flash-Bang" leva dois segundos para detonar. Ela explode com um estrondo ensurdecedor de 145 decibéis. Ao mesmo tempo, o magnésio da granada emite um intenso "flash" cegante. Como o artefato não produz fragmentos, a explosão não é letal. Ela consegue desorientar até mesmo um indivíduo alerta, por um tempo entre quatro e quinze segundos. Isso dá à equipe de resgate um tempo precioso para invadir o aposento, neutralizar os agressores e resgatar os reféns em segurança. No assalto a sala onde estiver os reféns dois homens farão a segurança no corredor e dois entram na sala. Ao mesmo tempo os outros quatro homens irão para a cabine de comando.





Mini-Uzi israelense

— Mas se vocês entram atirando como a tripulação e o capitão, irão escapar? — indagou o Ministro da Justiça.
— Senhor ministro nos treinamos duramente este tipo de procedimento todo tempo nos mais variados ambientes, inclusive com munição real tendo membros da unidade servindo de reféns — disse Souza — Garanto aos senhores que estamos preparados para este tipo de ação.
— E o detonador e os explosivos como você pretende eliminar essa ameaça? — quis saber o Ministro da Marinha.
— Bem senhor, a inteligência militar tem dados que nos levam a crer que as cargas explosivas, se elas existem, devem ser acionadas por um dispositivo a distância, um celular ou um rádio, pois eles precisariam de muitos e muitos metros de fio para conectar todas as cargas e segundo Biagui eles chegaram com mochilas pequenas — afirmou o Capitão-de-Fragata Souza — Planejamos então desfechar contra o navio contra-medidas eletrônicas que iriam inviabilizar qualquer tipo de transmissão de sinais, inclusive deixando os nossos rádios táticos foram do ar por alguns minutos. É o que chamamos de “Jammear” o alvo. A idéia é que segundos antes de invadir a cabine de comando, seja enviado por rádio a palavra código blackout e a Marinha e a Força Aérea acionariam dispositivos de interferência eletrônica. E me antecipando a pergunta de como iremos saber que o líder terrorista, que deve ter a posse do detonador estará na cabine de comando, gostaria de dizer que minutos antes de nossa abordagem ao Green Star ele receberá uma chamada de rádio do nosso negociar dizendo que o presidente francês deseja enviar um alto-representante para negociar os termos de um acordo, só precisaremos que ele fique na sala por cinco minutos. É claro que o tempo cronometrado será diferente se pelas nossas teleobjetivas soubermos que o líder terrorista não está no momento na cabine de comando, ai teríamos que esperar para escalar o navio até que ele chegasse na cabine. Depois de eliminado o perigo uma força de apoio do GruMeC descerá no navio através de fastrope em helicópteros da Marinha.
— Esplêndida exposição senhores — levantou-se falando de seu lugar Paulo Miller — Realmente desejo a todos vocês sucesso nesse ataque, e agora irei me retirar pois acredito que vocês estão ansiosos para voltar aos seus afazeres e não quero atrapalhá-los mais do que já fiz. Irei passar para o presidente a boa impressão que os senhores me passaram. Mais uma vez boa sorte. — concluiu o Ministro da Defesa se dirigindo rapidamente para saída sendo acompanhado por um cortejo de oficiais superiores.

Cap. 10
Enquanto isso na França o presidente André Terry discutia com o Ministro da Defesa Maurice Duhamell o assalto ao Green Star.
— Acabei de falar com o presidente brasileiro — disse André Terry — Eles vão mesmo tomar o navio. Mais uma vez expliquei a ele a nossa situação delicada de não poder negociar com esses terroristas, ele entendeu mas deixou claro que espera de nós o máximo de cooperação em caso de um desastre. Além disso espera uma maior disposição da França no compartilhamento de tecnologia dos armamentos que foram vendidos para o Brasil, em especial para os vendidos à Força Aérea e lhe prometi que iremos nos esforça mais neste ponto. Outra coisa que acertamos é que no momento do resgate, os terroristas iam receber uma ligação do negociador brasileiro, em vez disso quem irá ligar para o tal de Aomar será o nosso embaixador, isto dará maior credibilidade a ligação e manterá o terrorista mais interessado em conversar. E será mais um pequeno favor de nossa parte para os brasileiros, que sem sobra de dúvidas estão arriscando o pescoço em nosso lugar. — terminou de falar André Terry com um indisfarçável sorriso no rosto.
O Capitão-Tenente Levy Becker estava por demais atarefado, e preocupado. Apesar de ser um militar bastante experiente, com alguns anos no GruMeC, e de ter participado de missões extremamente perigosas em que a sua vida e de seus comandados correu perigo mortal, sentia que aquela missão era diferente. Na verdade a maioria de suas missões jamais chegaria ao conhecimento publico e se algum detalhasse viesse a "vazar" seria negado pela Marinha, atribuíndo o "boato" a mentes fantasiosas, que tinham uma apreciação por teorias da conspiração e OVNIs. Mas agora não tinha como esconder a sua missão, na verdade a sua conclusão, pois toda a impressa internacional iria falar de seu resultado, sendo sucesso ou fracasso. Era como se ele e seus homens fossem atuar em combate real diante das câmeras de TV, e ele não podia esquecer da cena daqueles operadores do USMC Force Recon que desembarcaram nas praias da Somália em 1992 e foram recebidos por um bando de repórteres da CNN com seus microfones e refletores transmitindo tudo ao vivo. E as operações na Somália foram um fracasso no final.
O grande problema é que com a aproximação do final do prazo dado pelos terroristas o Green Star se transformou na maior atração do planeta e era filmado quase que ininterruptamente. Na verdade tinha até um site, que a inteligência naval descobriu que tinha entrado no ar a menos de 50 minutos que estava transmitindo as imagens do Green Star online. Era um saco, mas devia ter doidos assistindo aquele imenso navio totalmente imóvel por horas, só esperando por uma fantástica explosão. Porém a impressa estava lá, filmando e fotografando tudo. E essa se tornou uma preocupação operacional da missão. Como abordar o navio no meio da noite, se quase todo mundo estava de olho nele? Alguém ligado aos terroristas podia ver pela internet ou pela TV os MeCs subindo no navio e alertar os seus companheiros ou podia até mesmo ter vários observadores na Baia se revezando para fazer isso.
Por causa dessa exposição excessiva do Green Star nos últimos minutos foi decidido que o assalto passaria das 21:00h para as 02:00h da madrugada do dia seguinte. Com a mudança deste horário a ligação do embaixador francês foi descartada.
A vantagem deste novo horário era que a maioria das pessoas estaria dormindo ou lutando contra o sono. Também se decidiu que seria enviada uma Equipe Mergulhada do GERR que iria fazer uma infiltração subaquática em vez de se chegar primeiro com a Equipe de Assalto do GERR/MeC em um bote inflável.
Os MeCs possuem uma autonomia superior a 5 horas de mergulho, podendo inclusive nadar pela superfície até uma distância de uns 5 Km do alvo, fazendo o restante do trajeto mergulhados. Essa forma de infiltração é uma ação extremamente silenciosa, rápida e discreta e dificilmente visualizada de fora, a não ser que um observador estivesse muito perto e com atenção constante. Se houvesse algum observador hostil ele seria eliminado por snipers do GruMeC que estariam estrategicamente posicionados para cobrir 360º do navio. Na hora do assalto o site que transmitia imagens do Green Star seria tirado do ar por uma equipe de guerra cibernética da Marinha.
Como o Green Star estava ancorado dentro da Baía de Guanabara os MeCs sairiam do próprio GruMeC, mergulhados. Chegando ao navio este mesmo grupo se encarregaria de fazer a procura e a desativação dos artefatos explosivos principais, eliminando qualquer terrorista que eventualmente encontrasse no caminho. Em uma reunião a cerca de uma hora atrás o Comandante do GruMeC, seu Imediato, para os civis função melhor entendido como o subcomandante do GruMeC, o Oficial de Operações e o Capitão-Tenente Levy Becker chegaram a conclusão que o GruMeC deveria se concentrar não no detonador em posse do líder terrorista, mas nas cargas detonantes, pois uma vez inutilizadas (desarmadas suas espoletas/iniciadores) os terroristas poderiam usar o detonador a vontade.
Segundo o pessoal da inteligência os explosivos só poderiam está localizados do lado de fora dos tanques de óleo, pois os tanques do Green Star estavam completamente cheios até a tampa, e as imagens geradas pelo R-99B e o VANT deixavam bem claro que não havia cargas explosivas no convés principal sobre os tanques. Assim que a Equipe Mergulhada do GERR inutilizasse as cargas detonantes a equipe liderada pelo Capitão-Tenente Becker iria subir no Green Star e libertar os reféns. Neste caso, com observadores hostis eliminados e cargas detonantes neutralizadas, a equipe de Becker chegaria de lancha.
Meia hora antes do inicio da operação o presidente Daniel Campos e uma pequena comitiva presidencial chegou ao local aonde iria funcionar o Centro de Comando e Controle da operação, operação esta que recebeu o nome de Chaparral. A sala estava repleta de oficias e graduados com computadores e telas por todos os lados. O comandante do GruMEc e o seu Imediato, o Capitão-de-Corveta Flávio Moore, já estavam no local falando pelo rádio com a equipe de assalto e colhendo os últimos dados do R-99B e do VANT que sobrevoavam o local. O presidente tomou o local reservado para ele e disse polidamente para ao Comandante da Marinha, o Almirante-de-Esquadra Jefferson de Paula Peçanha, que estava ali apenas como espectador, que todos ali tivessem liberdade de trabalhar. Ele estava bem e só queria observar como toda a ação iria se desenrolar.
Nesse momento o Capitão-Tenente Levy Becker e todos os seus homens já estavam devidamente equipados. A Equipe de Assalto do GERR/MeC estava com seus rádios táticos funcionado, óculos de visão noturna, máscaras contra gases, armas, supressores de ruído (silenciadores), munições, cargas explosivas... Tudo checado. Eles estavam armados com Mini-Uzis 9x19mm israelenses com carregadores de 32 tiros e pistolas Taurus PT 92 AF, calibre 9x19mm com carregadores de 15 tiros. Todos usavam capacetes balísticos (fabricados com kevlar, o mesmo material do PASGT), óculos de proteção balística, colete tático, coletes balístico de Kevlar, cotoveleiras, joelheiras, luvas especiais de proteção,... Seu uniforme era verde e suas botas marrons.
Já a Equipe Mergulhada do GERR/MeC parecia formada por criaturas de outro mundo. Seres estranhos meio homem, meio anfíbio. Estavam também devidamente equipados. Eles usavam mascara de mergulho; equipamento de mergulho autônomo com circuito fechado de oxigênio puro; roupa, toca, luvas e sapatilhas isotérmicas; nadadeiras, além de um conjunto de navegação (bússola tática com profundímetro e iluminação química). Todos estavam armados com Mini-Uzis. Eles também levavam a “Fateixa” e uma escada de aço.
As equipes de vigilância reportaram que o movimento no Green Star era nulo, provavelmente todos os reféns estavam dormindo uma hora daquela, o que só facilitaria a ação dos MeCs quando eles entrassem nas salas para eliminar os hostis e libertar os reféns.
Para os membros da Equipe Mergulhada do GERR parecia estranho sair nadando do GruMeC para realizar uma missão tão importante quase no seu “quintal”. Pela distância do alvo aquilo mais parecia uma missão de treinamento, das mais fáceis, diga-se de passagem.
Na sala de Comando e Controle a tensão era bem grande, os civis ali presentes não entendiam quase nada de tantas palavras em código e os números citados.
— Senhor presidente — falou o Ministro da Marinha. — Todas as equipes já estão a postos e as condições do alvo estão favoráveis. O senhor autoriza a operação?
— Sim Almirante, autorizo a execução desta operação e desejo sorte a todos os envolvidos — falou o presidente de forma tranqüila, mas determinada.
O Comandante da Marinha, Almirante-de-Esquadra Jefferson de Paula Peçanha olhou para o Comandante do GruMeC, o Capitão-de-Fragata Julio de Souza, e fez sinal de positivo dizendo: Temos sinal verde do presidente, vamos colocar o nosso pessoal dentro d´água. Pelo seu rádio tático o Capitão-Tenente Levy Becker, comandante da operação ouviu o Capitão-de-Fragata Julio de Souza lhe dá a autorização para iniciar a operação.
— Ok, pessoal. Agora a bola está em nossas mãos, façam aquilo que temos treinado constantemente e tudo sairá bem. Que Deus abençoe a todos e vamos nessa! — falou Becker olhando para seus comandados.

Cap. 11
Exatamente um minuto antes da Equipe Mergulhada do GERR chegar ao Green Star o site www.greenstar-risk.com foi derrubado pela equipe de guerra cibernética da Marinha do Brasil. A equipe de vigilância também não tinha avistado nenhum hostil e nenhuma aeronave estava sobrevoando o local. A maioria das equipes de reportagem estava dormindo, e segundo o pessoal da inteligência só alguns estagiários estavam cuidando dos equipamentos, sem muito interesse naquela madrugada para com o Green Star, todos esperando pelo fim do prazo.
Porém uma equipe de TV britânica e duas brasileiras, que estavam bem atentas ao navio, tiveram seus equipamentos desligados por agentes federais nesse mesmo instante. A ação foi realizada com um mandato judicial e os homens da PF não permitiram que os jornalistas se comunicassem com ninguém até o final da operação, o que gerou muitos problemas depois.
O pessoal da Equipe Mergulhada chegou até o petroleiro sem nenhuma dificuldade. O sargento Ramos acionou a “Fateixa” e subiu rapidamente pela corda em questão de segundos. Já no convés Ramos observou atentamente em volta e sinalizou positivamente em seguida para o restante da equipe que não havia nenhum ameaça a infiltração. Todos subiram pela escadinha e a equipe se reuniu atrás da estrutura da chaminé, que tinha pouca iluminação. Como estavam todos de preto e se moviam rapidamente e inclinados, era praticamente impossível de serem notados.
O comandante da Equipe Mergulhada era o Tenente Rafael Nascimento que imediatamente enviou quatro de seus homens, divididos em duas duplas em direção aos tanques de petróleo para encontrar as cargas detonantes, ele e o sargento Ramos foram em busca de uma entrada para a superestrutura do navio. O pessoal da inteligência da Marinha tinha informado a Rafael que não havia nenhum hostil ou civil no convés no momento em que os Mecs chagaram ao navio. Era mantida comunicação constante entre os homens da Equipe Mergulhada, e entre esta e a sala de Comando e Controle, o CC recebia também imagens em tempo real de uma câmera operada pela pessoal do Tenente Rafael.

Mergulhadores de combate do GruMeC embarcados em uma lancha de ação rápida, Zodiac Hurricane H753 OB RIB, participando de um exercício da Marinha do Brasil.

No momento em que a Equipe Mergulhada chegou ao convés do Green Star, Becker recebeu ordens para se deslocar com a sua equipe. Em questão de 9 minutos eles já estavam subindo pela corda posicionada pelo Sargento Ramos. Becker e seus homens tinha sido transportados em um bote inflável Zodiac Hurricane com casco rígido e motor de popa que era tripulado por dois MeCs.
O Tenente Rafael disse ao Capitão-Tenente Levy Becker que ele e Ramos tinham encontrado uma porta aberta e liberada e Ramos a estava vigiando nesse momento. Também disse que as duas duplas que estavam encarregadas de encontrar os explosivos continuavam com o seu trabalho de busca. Tão logo terminou de falar, o Tenente Rafael recebeu uma chamada no rádio feita pelo Sargento Lopes, líder da equipe de busca.
— Senhor, encontramos as primeiras cargas e não há sinal de hostis. As cargas de fato foram preparadas para serem acionadas por sinal de rádio. Estamos desativando essas cargas e continuamos a procurar por outras.
— Ok, Sargento, assim que terminar com as buscas me informe imediatamente. — falou o tenente Rafael.
— Bem Rafa, eu vou entrar com a equipe de assalto na superestrutura agora. — disse Becker — você e Ramos fazem a segurança externa enquanto o restante da sua equipe continua com as buscas.
A equipe de Becker também tinha uma câmera conectada diretamente com a sala de Comando e Controle. Ao sinal do Capitão-Tenente Levy Becker a sua equipe entrou na superestrutura e imediatamente se dividiu em dois grupos. Um iria libertar os reféns e a outra iria atrás do líder terrorista e o detonador.
De forma extremamente silenciosa as duas equipes avançaram dentro do navio. Daí em diante as coisas aconteceram como que em câmera lenta, mas na verdade levou poucos minutos.
A equipe encarregada dos reféns era liderada pelo tenente Marcos Dellane. Ele e seus homens se dirigiram primeiro para o Alojamento N° 2 da tripulação, pois segundo informações da inteligência esse era o local mais provável para os reféns estarem, e durante o dia, siluetas foram vistas pelas janelas deste alojamento.
Usando uma microcâmera, Dellane avistou um hostil armado com um fuzil automático AK-47 montando guarda no corredor do Alojamento N° 2. Dellane recebeu ordens pelo rádio de esperar pois a equipe de Becker ainda não estava posicionada.
Becker encontrou um hostil a meio caminho da sala de comando e decidiu neutralizá-lo com uma faca. Becker não queria que o barulho do corpo do hostil caindo no chão, atingido por um tiro alertasse alguém. O terrorista foi eliminado e seu corpo deitado no chão silenciosamente. O próximo lance de escada levava a sala de controle e com uma microcâmera Becker viu um guarda armado no corredor.
Coordenando a sua ação com a equipe de Dellane ele ordenou que as sentinelas fossem eliminadas ao mesmo tempo. Dellane empunhando a sua Taurus dotada de supressor de ruído efetuou dois disparos contra a cabeça do terrorista. O homem caiu como uma marionete que tem suas cordas arrebentadas. A mesma coisa aconteceu com o guarda da sala de comando, abatido pelos disparos da Taurus do sargento Túlio. Quando deu a ordem de disparo Becker pelo rádio também falou a palavra código blackout, o que acionou uma forte interferência gerada por contra-medidas eletrônicas que inviabilizaram qualquer tipo de transmissão de sinais dentro do navio.
Após o disparo a equipe de Dellane se direcionou para a porta do alojamento da tripulação. Para sua surpresa a porta estava apenas encostada, com cautela verificou-se que todos os reféns no local estavam dormindo, algemados aos beliches. Não foi necessário lançar granadas e entrar atirando. As pessoas dentro do alojamento foram despertadas, mas mesmo assim as armas estavam apontadas para elas, até que suas identidades fossem confirmadas.
Com a equipe de Becker foi diferente. O sargento Túlio, o primeiro a avançar depois de seu próprio disparo verificou que a porta de acesso a sala de comando estava trancada. Na verdade o que se seguiu a esta constatação já tinha sido treinado e ensaiado dezenas e dezenas de vezes. Um dos MeCs colocou uma carga explosiva na porta de aço, a equipe manteve uma distancia de apenas dois metros da porta.
A carga foi detonada e em menos de 2 segundos os MeCs já estavam dentro da sala. A explosão atordoou quem está dentro do compartimento, em alguns casos ela podia até ser mortal. O discernimento, clareza e percepção da realidade, de quem é pego de surpresa por uma explosão dessas ficam completamente comprometidos, dando tempo suficiente para os MeCs agirem. Geralmente as pessoas expostas a esta situação ficam em estado meio que letárgico. Com o uso dos explosivos, não havia mais a necessidade de se usar as granadas flashbangs.
A entrada na sala de comando do Green Star seguiu técnicas bem estabelecidas dentro de uma modalidade de combate chamada de "Close Quarter Battle" (CQB ou Confrontos em Ambientes Fechados). Os quatro MeCs tinham claramente determinada a sua ordem de entrada na sala e as posições que cada um iria tomar quando entrassem no recinto.
Operadores do GERR/GruMeC treinam uma entrada tática num recinto com finalidade de resgatar reféns: surpresa, velocidade e se necessário tiros de precisão, são elementos importantes neste ação.
O primeiro operativo do grupo era Becker e ele manteve o seu marcador em posição de alerta. O segundo operativo do grupo, sargento Túlio se posicionou atrás de Becker até o ponto onde eles se encostaram mas não se empurrassem. O sargento Túlio manteve o seu marcador na posição apoiada no ombro, com sua mão de apoio (ou mão fraca) apoiada no ombro de Becker. Esse contato permaneceu até que foi dado o sinal de prontidão. Túlio mantinha o seu olhar por cima do ombro de Becker para garantir que ninguém comprometesse o grupo. O segredo da equipe tática é estar agrupada e utilizar o timming adequado para se mover pelo ponto de entrada como uma unidade única. O terceiro e quarto homem, sargentos Josué Paiva e Diogo Gomes se posicionaram da mesma maneira que o sargento Túlio.
No momento em Gomes se agrupou ao time tático, ele passou adiante um firme aperto no ombro do Paiva. Quando este estava pronto fez o mesmo com o ombro do sargento Túlio e este apertou o ombro de Becker. Para que Túlio soubesse que Becker estava pronto, ele movimentou a sua cabeça para cima e para baixo. Esse movimento foi repetido para trás até que o líder do time o recebeu. Assim que Becker recebeu o sinal, o time tático estava pronto para fazer a entrada tática. Assim que um operativo passa o sinal de prontidão, ele retoma o controle de seu marcador primário.
Após a prontidão do time tático ter sido confirmada, Becker iniciou a ação do time tático com uma contagem regressiva. Cada membro do time tático tinha uma função específica durante a contagem baseada em suas posições. Como líder do time Becker podia interromper a qualquer momento a contagem se existisse qualquer problema com a entrada.
Como estava tudo certo, Becker começou a contagem:
“Cinco”:
“Quatro”:
“três”:
“Dois”: A porta foi aberta com uma explosão
“Um”: (O time não ouvir esse número)
“Execute, Execute, Execute”: O time tático executou a entrada tática.
O primeiro homem a entrar na sala foi Becker, pois ele era o homem Nº 1 e ele tomou a decisão instantânea de virar à esquerda. Ele tomou essa decisão porque o lado esquerdo era o "lado pesado" da sala, pois era o lado mais extenso. Em uma entrada como essa o homem Nº 1 sempre vai para o "lado pesado", que geralmente representa o lado mais perigoso. Becker permaneceu próximo a parede da sala enquanto ia percorrendo a mesma e atirando.
Meio atordoado com a explosão Aomar deixou cair seu caneca de café (ele estava a base de café desde chegou ao navio) ao mesmo tempo que se virava em direção a porta, o cérebro lhe ordenou pegar a pistola que estava na cintura, mas ele não teve tempo de fazer isso, pois foi sumariamente abatido com uma rajada curta disparada por Becker
O segundo homem a entrar foi Túlio, o homem Nº 2, que virou imediatamente para a direita, pois Becker tinha ido para a esquerda. Túlio imediatamente se deslocou para enquadrar possíveis alvos na parede oposta à porta. Nessa forma de entrada, um homem vai para a direita e outro vai para a esquerda, o propósito é confundir os terroristas, pois ninguém consegue acompanhar movimentos em direções opostas e a atenção fica assim dividida, o que é mortal para os hostis. Túlio ficou de frente com Mounir, o especialista em explosivos de Aomar. O palestino em fração de segundos se inclinou para o detonador que estava em cima de mesa ao seu lado, porém, como seu companheiro, não teve tempo de concluir seu movimento sendo mortalmente ferido pelos disparos de Túlio.
Numa situação em que dois operadores entram numa sala e cada um vai para um lado da mesma, ninguém consegue prestar a atenção na porta, pois a atenção estar direcionada para os homens Nº 1 e Nº 2. Sendo assim a entrada dos homens Nº 3 e Nº 4 é bastante facilitada. Eles demoram milésimos de segundos para entrar depois dos homens Nº 1 e Nº 2. O sargento Paiva, o homem Nº 3, foi para o lado esquerdo, o lado pesado, para atingir alvos naquele lado, com o objetivo de ajudar o homem Nº 1. Já o sargento Gomes, o homem Nº 4, foi para a direita e trabalhou do centro para a direita. Porém nenhum dos dois tinha mais alvos.
Em questão de segundos todos os quatro MeCs tinham dominado completamente a sala de controle. Se um móvel ou equipamento, ou qualquer outra coisa representava um obstáculo para um dos homens, outros dois pelo menos, podiam ver e atirar naquela direção. Não havia um espaço sequer na sala que não estivesse coberto por fogo e observação.
Encolhidos em um canto da sala estavam o capitão do navio Fernandez González e um marinheiro, ambos estavam dormindo em colchonetes e acordaram atordoados com o impacto da explosão e os tiros. Tudo foi muito rápido e eles ainda estavam tentando entender toda aquela cena.
— Somos brasileiros e viemos aqui para libertá-los — falou Becker em inglês — Existe alguém ou algo que seja uma ameaça a todos que estão nesta sala?
— Tem dois, dois terroristas — disse González tentando controlar o corpo que tremia e entender com quem estava falando — Eles estão fortemente armados e também têm um detonador — concluiu o capitão sem ainda ter notado os dois corpos no chão.
— Fique tranqüilo, essas ameaças foram eliminadas — disse Becker olhando para o capitão e o marinheiro.
O Capitão-Tenente Levy Becker fez sinal para que o sargento Túlio direcionasse sua lanterna para fora e dirigisse três flashes em direção a um observador do GruMeC, como sinal de que as comunicações poderiam ser restabelecidas, o que aconteceu imediatamente após a sinalização do sargento Túlio.
— A sala de comando de comando e o alojamento da tripulação estão limpos, não há necessidade de assistência médica e estamos prontos para evacuar os reféns — falou Becker.
— Bom trabalho Becker, estamos iniciando os procedimentos de retirada dos reféns — falou o Comandante do GruMeC, o Capitão-de-Fragata Julio de Souza, dando para ouvir ao fundo os vivas na sala de Comando e Controle.
Em poucos minutos dois helicópteros da Marinha do Brasil transportaram para o Green Star equipes de apoio. Essa cena seria mostrada em todo o mundo e se transformaria na marca registrada da operação. Não foram poucos os "comentaristas" de TV que afirmaram que a hora em que os MeCs desceram dos helicópteros por uma corda era de fato o início da operação de resgate. Isto foi motivo de piadas por muitos anos no GruMeC.
O trabalho ainda não tinha terminado para Becker e sua equipe. Antes de sair do Green Star todos tiveram que relatar ao pessoal da inteligência os detalhes de suas ações individuais. Todo material era gravado e seria comparado com as imagens geradas pelas minicâmeras e o áudio dos rádios táticos. Este procedimento era muito importante para treinamento e planejamento de futuras operações. As entrevistas continuaram no GruMeC.
O restante do dia foi de congratulações. O presidente da França parabenizou o presidente brasileiro por sua determinação. O presidente Daniel Campos parabenizou o Ministro da Defesa e o Comandante da Marinha. O Governador do Estado do Rio e o Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro conseguiram subir ao Green Star para serem filmados e depois foram fotografados ao lado do capitão do navio. O que ninguém conseguiu foi tirar fotos ao lado do pessoal do GruMeC.
Várias pessoas foram para a frente da Base Naval do Rio de Janeiro, na Ilha do Mocanguê, tentar avistar algum mergulhador de combate, o que foi de fato uma pífia tentativa. Em uma cerimônia reservada os membros do GruMeC que participaram da Operação Chaparral foram condecorados pelo presidente Daniel Campos. Com o passar dos dias, e as conquistas olímpicas do Brasil enchendo as manchetes, nada mais se falou sobre o incidente terrorista e a fantástica missão de resgate, o que foi ótimo para os MeCs, pois forças especiais e holofotes não combinam, a Somália já tinha mostrado isto.

 

 

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