Perfil da Unidade

 

SELOUS SCOUTS

RODÉSIA


ORIGENS

Dois homens do Selous Scouts em patrulha.

Homens que travam uma guerra anti-insurrecional têm de ser muito especiais. Inteligência, boa forma física, capacidade de agir com frieza em quaisquer condições são qualidades exigidas para se enfrentar guerrilheiros em seu próprio terreno. O Regimento de Batedores Selous (Selous Scouts), formado em  dezembro de 1973, não foi a primeira unidade desse tipo.

 

Os britânicos utilizaram com êxito pequenas unidades disfarçadas na Malásia e no Quênia, na década de 50 mas os Scouts em sete anos de campanha tornaram-se uma das melhores nesse gênero de luta, graças à qualidade e à intensidade do árduo treinamento.

 

Para muitos observadores não familiarizados com as penosas condições do sertão africano, parecia que os Scouts eram submetidos a testes bárbaros de força e sangue-frio.

 

Devido à estrita segurança que rodeava as  operações dos Scouts, era inevitável que os membros das forças regulares, já  ressentidos com o tratamento especial e com a indumentária pouco ortodoxa do regimento, começassem aí questionar o seu valor. No  fim dos anos 70, foram  acusados de furtos e tráfico de armas. Durante algum   tempo a unidade enfrentou  esses problemas.

 

Com a renúncia de seu comandante, em 1979, o seu fim estava próximo. Em 1980, após a formação de um governo nacionalista no  Zimbábue — a nova denominação da Rodésia  o regimento foi dispersado. 

 

HISTÓRIA

Um soldado do Selous Scouts, com seu "tradicional" uniforme fora dos padrões.

Em março de 1980, os projetos da minoria branca da antiga colônia britânica da Rodésia sofreram um sério revés, com a formação de um governo de maioria africana chefiado por Robert Mugabe. A Grã-bretanha concedeu formalmente a independência ao país, que passou a chamar-se Zimbábue. Era a vitória do nacionalismo africano sobre o nacionalismo rodesiano, o término de uma ordem político-social em que a população de origem européia (5% dos habitantes) afirmava sua hegemonia absoluta sobre 94% de africanos de etnia bantu. Na mesma ocasião, era dissolvido o Selous Scouts (Regimento de Batedores Selous), ponta-de-lança rodesiana voltada contra os guerrilheiros gue lutavam para concretizar o sonho de um Zimbábue livre.

 

Os Selous Scouts operaram durante relativamente pouco tempo, de 1974 a 1980. Nesse período, sob a brilhante liderança do major Ron Reid Daly, foram reconhecidos como os melhores sertanistas da África. O regimento tinha a missão de infiltrar-se nas redes de guerrilha, isolar grupos rebeldes e transmitir informações para as forças convencionais, designadas para executar o ataque. Os batedores eram treinados para operar em pequenas equipes capazes de trabalhar isoladas na mata semanas a fio, fazendo-se passar por grupos rebeldes. Viviam sob a permanente tensão de serem desmascarados, de que um incidente qualquer deitasse por terra os esforços de semanas de infiltração. 

 

Na linguagem militar brasileira, "Scout" é o esclarecedor, elemento da infantaria incumbido de realizar o reconhecimento de combate. O Regimento dos Selous Scouts adotou esse em homenagem a um explorador britânico, Frederick Courtney Selous, que teve importante participação na conquista da Rodésia.

 

Somente voluntários bastante motivados poderiam enfrentar com êxito esse constante desafio. Reid Daly sabia que tipo de homem queria: "Um soldado de uma força especial deve ser um tipo muito especial;. de homem. Em seu perfil é preciso encontrar inteligência, caráter e bravura, lealdade, dedicação, um profundo sentimento de profissionalismo, maturidade — a idade ideal é entre 24 e 32 anos —, responsabilidade e autodisciplina". A seleção mostrava-se rigorosa, ainda mais dura que o curso do SAS britânico. Apenas 15% dos voluntários terminavam o treinamento e ganhavam o direito de usar a boina marrom dos Scouts.

 

Armado com um fuzil Heckler & Koch G3, este homem do Selous Scouts caça guerrilheiros.

Logo que os recrutas atingiam Wafa Wafa, campo de treinamento à margem do lago Kariba, tinham uma demonstração do que os esperava. Ao chegar à base, cansados e encharcados de suor — os treinadores haviam-lhes ordenado correr os últimos 25 km —, não avistavam confortáveis cabanas ou um refeitório acolhedor, mas choças de palha e marcas de fogueiras no chão.

 

Nenhuma comida era servida. A partir daquele momento, os treinadores dedicavam-se a esgotar, esfomear e exasperar os recrutas. Faziam isso com tanto sucesso que geralmente quarenta ou cinqüenta homens, dos sessenta iniciais, desistiam nas primeiras 48 horas. O curso básico consistia em dezessete dias de puro inferno. A cada manhã, desde o primeiro raio de sol até as 7h, os recrutas passavam por um programa de aperfeiçoamento físico e mal tinham tempo de descansar antes do início dos treinos de combate.

 

O dia terminava com um exercício de assalto, particularmente desagradável, concebido para acabar com o medo de aleiras; com o chegar da tarde, começava o treinamento noturno. Nos primeiros cinco dias no campo, não eram distribuídas rações: os homens deveriam viver do que o sertão oferecia. No terceiro dia, um babuíno morto era pendurado numa árvore e deixado a apodrecer sob o sol escaldante. Dois dias depois era corta­do, estripado e cozido, com vermes e tudo. Reid Daly explicava por quê: "Poucas pessoas sabem que a carne podre é comestível, quando muito bem fer­vida, embora possa causar um botulismo mortal se requentada. Os batedores, em missão de reconhecimento, quando o envio de alimentos nem sempre é possível, podem sobreviver comendo carniça. Mas eles têm de saber disso por experiência própria, por­que senão jamais a comeriam".

 

Os esclarecedores estavam aptos a sobreviverem no hostil ambiente do sertão rodesiano. 

Os três últimos dias do curso básico eram dedicados a uma marcha de resistência. Além de suas armas e de pouca comida (125 q de carne e 250 q de ração de farinha), cada homem carregava uma mochila com 30 kq de pedras por uma distância de ' 100 km. As pedras eram pintadas de verde, para que não fossem joqadas fora e substituídas por outras, pouco antes da cheqada. Como se não bastasse, os últimos 12 km eram um teste de rapidez: deviam ser cobertos em duas horas e meia.

 

Os poucos que chegavam ao final das primeiras fases do treinamento eram levados, após uma sema­na de repouso, a um campo especial, onde passavam pela "fase negra". Era preciso que os batedores parecessem, agissem e falassem como guerrilheiros de verdade: só assim poderiam realizar um trabalho eficaz. Nesse período, os homens eram leva­dos a romper com seus hábitos, tais como barbear-se, fumar e beber, e adotavam o estilo de vida dos guerrilheiros. Aprendiam todos os detalhes, desde o sacrifício ritual de um bode (cortando-lhe parcialmente a garganta, antes de entranquiá-lo) até a marcha pela mata, em fila indiana. Guerrilheiros mortos ou capturados eram uma fonte de informações vitais sobre os métodos operacionais das unidades rebeldes em campo (por exemplo, a sua preferência em marcar encontros por meio de cartas).

O inimigo: Guerrilheiro da Frente Patriótica, formada pela ZANU (União Nacional Africana do Zimbábue) e pela ZAPU (União do Povo Africano do Zimbábue). A Frente Patriótica recebeu treinamento e ajuda da União Soviética, China, Coréia do Norte, Gana e Tanzânia.

Os "pseudogrupos" — tropas rodesianas disfarça­das em bandos rebeldes — formavam as principais unidades ativas dos Scouts.

 

Naturalmente, os soldados neqros eram a ponta-de-lança do pseudogrupo, encarregados do contato mais direto com o inimigo. No entanto, os oficiais brancos tentavam se fazer passar por negros — pelo menos a distância. Escurecer a pele com rolhas queimadas, recorrer à maquilagem de teatro, usar chapéus grandes e frouxos e deixar crescer a barba eram meios de que se serviam para ocultar as características européias mais óbvias.

 

Ao receber a boina marrom, os novos batedores dispunham de pouco tempo para comemorações. Pa­ra combater a crescente ameaça das guerrilhas nacionalistas, as forças de segurança rodesianas precisavam de cada homem que pudessem reunir. As­sim, formavam apressadamente unidades conhecidas como sticks (mateiros), com. um ou dois oficiais brancos e até trinta soldados negros. Tais unidades penetravam o sertão em busca do inimigo.

 

O êxito das operações dependia de os rebeldes não perceberem a presença dos Scouts. Uma vez que movimentos fora do comum nas estradas ou nos ares seriam denunciadores, os sticks eram deixados por caminhões cobertos ou helicópteros, durante a noite, longe da área suspeita, da qual se aproximavam cuidadosamente. Depois de posicionados, instalavam um posto de observação camuflado numa colina que oferecesse boa visão de toda a sua volta. Era nesse momento que os Scouts começavam a utilizar os seus conhecimentos de sertanistas. Durante várias semanas de operação, deveriam obter alimentos, viver sem ser descobertos e contatar o inimigo sem revelar sua identidade real.


Para localizar os grupos guerrilheiros, os batedores usavam informações colhidas pelo Special Branch (Seção Especial) da polícia rodesiana. Os policiais permaneciam nos postos de observação, saindo somente à noite para ouvir relatórios, dar ordens e transmitir informações valiosas à base. Paralelamente, os soldados negros iam a uma aldeia, disfarçados de rebeldes, e tentavam encontrar o contato local - o simpatizante que fornecia alimentos, abrigo e informações à guerrilha.

 

Em geral, não era difícil identificar o homem certo; vários Scouts eram "terroristas arrependidos" (rebeldes capturados que, por dinheiro, temor ou opção consciente, haviam decidido ingressar no regimento), possuidores de informações de primeira mão. 

 

O mais comum era o grupo de batedores ser aceito pelo contato local e, em seguida, marcar encontros com guerrilheiros autênticos, em lugar e hora determinados. Às vezes, porém, os contatos desconfiavam de seus hóspedes e então os Scouts tinham de ir a extremos para provar sua "lealdade". Certa ocasião, os soldados simularam um ataque à propriedade de um fazendeiro branco, para convencer as forças rebeldes, com quem estavam em contato, de que eram guerrilheiros. Chegaram a cobrir a área com sangue e a improvisar "cadáveres" - oficiais dos Scouts, cujos corpos apareciam por baixo de lençóis manchados de sangue. Durante outra missão, um oficial fingiu ser prisioneiro de seus soldados negros e sofreu vários espancamentos, para convencer as tropas rebeldes da dedicação de seus homens à causa nacionalista.

 

Um batedor armado com um fuzil FN FAL, uma faca e um cantil, investiga 

a presença de um grupo guerrilheiro. 

As reuniões de grupos guerrilheiros estabelecidas por iniciativa dos Scouts eram freqüentemente "interrompidas" pelas forças de segurança. No entanto, os batedores nunca participavam do ataque, a menos que não houvesse outro recurso: todo o trabalho de infiltração numa determinada área seria desperdiçado se evidenciasse qualquer envolvimento deles na destruição de uma força guerrilheira.

 

Reid Daly decidiu que o ataque deveria ser feito por unidades do exército regular, transportadas por helicóptero. As "forças de fogo" integradas por um helicóptero armado com canhões, três helicópteros de transporte de tropas, e um avião Dakota de transporte de pára-quedistas surgiam de repente no local da reunião, e varriam o inimigo.

 

Muitos oficiais e homens do regimento vinham de áreas rurais da Rodésia e tinham ampla experiência em seguir pistas, mas nem sempre era fácil passar da caça a animais selvagens para a tocaia de grupos terroristas, muito mais perigosos. Em missões de reconhecimento além da fronteira, os Scouts chegavam a ficar mais de uma semana procurando pegadas, evidências de vegetação fora do lugar e pistas de guerrilheiros.

 

Buscavam principalmente de manha ou à tarde, quando os raios inclinados do sol destacam o mais leve sinal de movimento. Qualquer caça apanhada ou encontrada morta, além de plantas ou raízes - os batedores tinham aprendido a distinguir as comestíveis das venenosas -, proporcionava alimento.

 

Os homens eram proibidos de atirar em animais, pois o.ruído poderia revelar sua posição. Fogueiras, quando acesas, eram feitas com gravetos secos, para que não produzissem fumaça. De noite, os Scouts faziam buracos de 30 cm de profundidade para esconder o fogo - mesmo pequenas fagulhas podem ser avistadas, à noite, a uma distância de até 800 m. De repente, os guerrilheiros perceberam o engano: começou um verdadeiro inferno de fogo.

 

Seguindo rigorosamente as idéias de Reid Daly, os pseudogrupos infligiram sérios danos à campanha guerrilheira. As bases localizadas em países vizinhos, como Moçambique e Botsuana, ainda representavam uma ameaça ao regime rodesiano. Aluando em conjunto com elementos do exército regular, pequenas unidades de Selous Scouts receberam ordens de fazer incursões além das fronteiras.

Os homens do Selous Scouts normalmente usavam trajes e calçados fora do regulamento. Estes soldados estão armados com fuzis FN FAL e portam bolsas de munição de criação chinesa, a mesma usada pela Frente Patriótica.

A mais famosa teve por alvo a base nacionalista de Purigwe/Nyadzonya, em Moçambique.

 

Em agosto de 1976, um grupo de 72 Scouts, em dez caminhões Unimog e três blindados Ferret, atacou mais de. 5 mil guerrilheiros. Entraram calmamente com seus veículos no acampamento, onde foram bem recebidos. De repente, os guerrilheiros perceberam o engano: começou um verdadeiro inferno de fogo. No final, morreram l .200 nacionalistas, enquanto apenas cinco Scouts receberam ferimentos. Realizaram-se inúmeras incursões desse tipo, até o regimento ser desmobilizado., em 1980.

 

A crise dos Selous Scouts teve início antes disso, em plena vigência do regime de minoria branca. Vários oficiais do alto escalão achavam que os Scouts criavam mais problemas do que resolviam, que eram contrabandistas e traficantes de armas e que tinham, algumas vezes, posto em perigo as vidas de solda­dos do exército.

 

Em 29 de janeiro de 1979, as operações foram canceladas, após um aparelho de escuta ser encontrado no escritório de Reid Daly. Dois dias  depois, ele lançou um ataque público ao co­mandante do exército, tenente-general John Hickman, que resultou em corte marcial. Reid recebeu uma leve repreensão, mas renunciou ao comando.

 

Devido ao segredo que envolvia as operações, poucos rodesianos sabiam da existência e da eficácia dos Selous Scouts. Somente no fim do conflito, quando o Comando de Operações Combinadas da Rodésia fez uma declaração, na qual creditava ao regimento 68% das baixas nacionalistas, é que a escalada do seu sucesso chegou ao público.

 

Em menos de sete anos de combates, perderam somente 36 homens em ação, mas foram responsáveis pela destruição de centenas de grupos guerrilheiros.

 

TENENTE-CORONEL-RON REID DALY:

 

Nascido na Rodésia, Bon Reid Daly alistou-se no Exército em 1951, como voluntário para lutar com o Esquadrão C (Rodésia) do SAS britânico contra rebeldes comunistas na península malaia. Transferiu-se depois para o Exército rodesiano. Em 1973, no posto de capitão, foi encarregado de organizar um regimento que ficou conhecido, em 1974, como

 

Os Selous Scouts — uma unidade de forças especiais de elite para o combate à crescente ameaça das guerrilhas nacionalistas. Aproveitando sua experiência na Malaisia, Reid Daly construiu, a partir do nada, um regimento de magnífico desempenho em campo. No entanto, seus  métodos pouco ortodoxos geraram divergências com as autoridades militares.

 

Em 1979, Daly foi submetido a uma corte marcial, depois de se envolver em uma polêmica discussão publica com seu superior, o general John Hickman. O resultado foi uma repreensão de pouca importância, mas que o levou a renunciar. Em novembro de 1979, o comando dos Selous Scouts foi transmitido para o tenente-coronel Pat Armstrong, e Reid Daly deu por encerrada sua associação com a unidade em que tanto trabalhara.

 

HIREDZL, 1976

No dia 18 de abril, uma patrulha comandada pelo sargento Lucas suspeitou de um grupo muito barulhento, numa aldeia. Com muita calma, os Scouts passaram pela multidão, até chegar à frente. O orador brandia sua submetralhadora AK, sacudindo-a acima da cabeça. Lucas não podia perder essa oportunidade. Tranqüilamente, levantou o fuzil, mirou o terrorista e atirou.

 

A bala acertou o homem, no centro do rosto.Por um momento, houve um silêncio total. Ninguém conseguia crer no que havia ocorrido. Depois, instalou-se o pânico generalizado, com os demais terroristas correndo em todas as direções. Aproveitando-se da confusão, o sargento e seus companheiros deslizaram para a proteção da noite e mandaram um relatório pelo rádio quando se viram em segurança.

GALERIA SELOUS SCOUTS:


Selous Scouts embarcam corpos de guerrilheiros mortos durante uma emboscada.

Selous Scouts são desembarcados por helicópteros Alouette III durante um ataque

Um APC "PIG", fabricado pelo próprio Selous Scouts

Haviam muitos soldados negros dentro do regimento Selous Scouts

Homens do Selous Scouts atravessam um rio rodesiano

Todos os Selous Scouts foram treinados em pára-quedismo

Homens do Selous Scouts em missão de patrulha

Selous Scouts durante treinamento de sobrevivência

Homens do Selous Scouts aprendem a usar armamentos da Cortina de Ferro

Momentos comuns durante as operações do Selous Scouts: 1.Emboscada;  2.Equipe sendo recolhida por um Bell 205;  3.Destruição de um posição inimiga.

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Assunto: Selous Scouts