Perfil da Unidade

SPECIAL AIR SERVICE - SAS

CAMPANHAS

Bornéu - 1963-66


Operador do SAS nas Falklands, armado com um Colt Commando.

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Setenta soldados do SAS, em funções vitais como conquistar a simpatia da população e persuadi-la, vigiar a fronteira, operar como alerta antecipado, como retaguarda, enfim, ser os 'olhos e ouvidos' da selva, são tão valiosos quanto setecentos homens de infantaria" 

General-de-brigada Walter Walker, comandante das forças britânicas em Bornéu, em janeiro de 1964.

Por volta das 9 horas da manhã de 10 de dezembro de 1963, no aeroporto de Aden, uma granada foi atirada contra Sir Kennedy Trevaskis, alto comissário da Grã-Bretanha na Federação da Arábia do Sul, a entidade política de que tinha sido o principal artífice. Houve dois mortos e vários feridos, entre os quais o próprio Trevaskis. Era o primeiro ato de uma campanha terrorista que prosseguiu com truculência cada vez maior em Aden, até a retirada completa dos britânicos que lá estavam desde o século XIX, quando concluíram acordos com os xeques da região costeira (antes dominada pelo califado de Bagdá) para protegê-los da Turquia.

Em 1914, uma convenção anglo-turca estabeleceu linhas de demarcação separando o Sul do Iêmen, controlado pêlos britânicos, da parte ocupada pela Turquia. Já então o mais importante porto de carvão na rota marítima para o Extremo Oriente, Aden respondeu às autoridades britânicas da Índia até 1937, passando nesse ano à qualidade de colônia. Em 1954, a poderosa British Petroleum construiu ali uma refinaria e a bela enseada de águas profundas - estrategicamente localizada no golfo Pérsico - transformou-se num rico e adiantado centro urbano.

Mais além de seu território, tribos montanhesas viviam guerreando. Havia também sultanatos, emirados e principados autônomos sobre os quais o império britânico estendeu sua tutela. Em torno da colônia litorânea, mas separados dela, criaram-se os protetorados de Aden Ocidental e Oriental.

As primeiras lutas travaram-se em 1957, quando o lêmen começou a reivindicar algumas dessas áreas. Na mesma época apareceu o Congresso do Povo de Aden, partido nacionalista apoiado pelo governo iemenita. Um ano depois, a Grã-Bretanha aglutinou os protetorados na chamada Federação da Arábia do Sul, com 155.400 km2 e cerca de 8?0.000 habitantes, convertendo os antigos sultanatos e emirados em Estados confederados e prometendo-lhes independência para 1968.

 


A nova entidade passou a dispor de um Exército Federal Regular (EFR), sob a chefia de oficiais britânicos, e de forças regionais, a Guarda Nacional Federal (GNF). Por razões de segurança, tentava-se criar um modelo político aceitável. Mas as dificuldades aumentavam, principalmente com o Egito, que acusava a Federação de ser ''mais uma manobra do colonialismo inglês".

No início dos anos 60, com o processo de descolonização encetado no governo do primeiro ministro Harold Macmilian. Aden tornou-se a principal base militar britânica da região. Na cidade instalou-se o quartel-general do Comando do Oriente Médio. Tanto a guarnição militar quanto o contingente da Real Força Aérea (RAF) tiveram grande expansão, multiplicando-se os blocos de apartamentos erguidos para as famílias de militares no centro de Aden.
O descontentamento aumentou a partir de janeiro de 1963, quando a colônia foi unida à Federação da Arábia do Sul sob o nome de Estado de Aden. Uma onda de nacionalismo árabe varria a região e, tudo somado, estavam criadas as condições necessárias e suficientes para a revolta.

Quando o movimento nacionalista começou a articular-se, encontrou seguidores entre jovens profissionais urbanos, decididos a conquistar a soberania em seus próprios termos, ignorando os acordos entre o colonialismo e os antigos senhores da região.

No litoral desenvolvido, nascera uma classe média de artesãos, comerciantes, funcionários e professores. Boa parte do comércio estava nas mãos de indianos e outros estrangeiros empreendedores. Desfaziam-se os laços com os principados do interior montanhoso, de economia ainda feudal, cujos sultões defendiam o status da Federação.

O contraste acentuou-se após a crise de Suez, em 1956: o prestígio britânico no mundo árabe chegou a seu nível mais baixo, enquanto o do presidente egípcio Gamai Abdel Nasser atingia o apogeu. Em 1962, a revolução republicana no lêmen levou as idéias - e as tropas - nasseristas até as fronteiras da Federação, dando novo impulso às reivindicações do imã (governante político-religioso) do lêmen.

Na guerra civil iemenita (1962-69), em que o Egito apoiou os republicanos e a Arábia Saudita os monarquistas, houve combates em território federado, vigorosamente respondidos pela RAF e pelo EFR. Mas a propaganda antibritânica transmitida pelas rádios do lêmen encontrou grande eco.

Rebeldes quteibis no Radfan.  

Rebeldes nas montanhas

Em 1963, ano em que Aden foi acoplada à Federação da Arábia do Sul, o "contágio iemenita" aumentou. As tribos revoltosas das montanhas Radfan, ao norte de Aden, começaram a receber armas, dinheiro e treinamento do lêmen. Não eram especialmente nacionalistas, nasseristas ou republicanas. Seu ressentimento provinha do fato de o governo de Aden não mais permitir-lhes cobrança de pedágio (hábito antigo, mas ilegal) na estrada Aden-Dhala-lêmen.

O Radfan é zona inóspita e montanhosa, entrecortada por vales profundos, distante de Aden 65 km por ar e 115 km por terra. Os melhores trechos da estrada somam uns poucos quilômetros recobertos de cascalho. Do ponto mais alto do Radfan, o Jebel (pico) Huriyah, de 1.867 m, pode-se ver à noite, com nitidez, as luzes de Aden.

 

Até a época do conflito, a região não dispunha de nenhum tipo de autoridade administrativa e só raramente era visitada por turistas ou comerciantes europeus. Dispersas entre penhascos, escarpas e desfiladeiros que terminam em abismos, vivem pequenas tribos de agricultores, cujos membros são muçulmanos radicais e, como outros povos que permanecem no estágio societário tribal, refratários a qualquer tipo de autoridade centralizada.

Cultivando terras pouco produtivas, as tribos do Radfan convivem com a fome desde remotas gerações. Para mitigá-la, passaram a cobrar pedágio aos viajantes. Essa maneira de conseguir recursos foi praticada principalmente pêlos membros da maior tribo local, os quteibis, que ofereciam proteção aos mercadores em troca do pedágio compulsório. Apenas os comboios do governo sediado em Aden eram isentos de tributo.

Como maiores beneficiários dessa atividade, os quteibis foram, também, os que mais se ressentiram com a decisão do governo de tomar para si a tarefa de receber as taxas do pedágio. A insatisfação aumentou quando a tribo foi informada de que seu representante na União Alfandegária, o amir de Dhala, estaria embolsando parte do dinheiro arrecadado. Com o retomo do exílio do xá Seif Muqbil, que vivera desterrado no Egito e no lêmen, a revolta encontrou seu líder e maior inspirador.

No início, a agitação se restringiu a ataques aos viajantes. Com o estabelecimento de um fluxo constante de armas oriundas do lêmen, as ações se foram tomando mais ousadas e culminaram com incursões noturmas ao Forte da Guarda Federal, em Thumier. Essa cidade localiza-se nas proximidades da região onde o domínio dos quteibis era absoluto, em Wadi Misrah (no idioma local, wadi significa "rio temporário", cujo leito, na seca, pode servir de estrada; era um meio de penetração comum no Radfan).

Para conter a rebelião das tribos no Radfan a Grã-Bretanha usou várias unidades do Exército britânico em conjunto com a RAF para apoiar o Exército Federal Regular - EFR, uma força árabe formada por nativos e oficiais britânicos.  Os combates ocorreram num curto período, entre 4 de janeiro e 31 de agosto de 1964. 

Apesar de a revolta em Radfan e a ameaça do lêmen terem sido controladas, a influência das organizações nacionalistas de Aden não diminuiu. A mais antiga. Liga da Arábia do Sul, formada em 1951, teve pouca influência nos acontecimentos da década seguinte. A Frente de Libertação do lêmen do Sul Ocupado (FLOSY) surgiu em 1959, com tendência nasserista, e mais tarde foi liderada por dois políticos hábeis: Abdullah al-Asnag, ex-chefe do Conselho dos Sindicatos de Aden, e Abdul Kawi Makeawee, ex-primeiro-ministro de Aden.


No início, os sultões tinham muita força e a FLOSY era a única oposição, reivindicando a união da Arábia do Sul com o lêmen e defendendo a livre passagem dos egípcios para explorar o petróleo de Aden. Já em meados dos anos 60, esse grupo preferia uma Federação independente republicana e socialista.

Com o aparecimento da Frente de Libertação Nacional (FLN) em 1963, apoiada pelo Egito, a luta se dividiu. Sob a liderança de Qahtan al-Shaabi, a FLN adotou orientação pró-marxista. Ambas as facções escolheram o terrorismo como a melhor forma de luta contra os britânicos (que queriam ver definitivamente afastados de Aden) e seus aliados, os sultões.

A primeira ação terrorista subseqüente ao atentado contra Kennedy Trevaskis ocorreu na noite de Natal de 1964, contra um grupo de adolescentes ingleses: houve quatro feridos e uma garota morreu. Em 1965 ocorreram 286 "incidentes"; em 1966 foram 510 e em 1967 nada menos de 2.900.

Agitações na ruas de Aden.  

Soldados britânicos reprimem agitações nas ruas de Aden.

Nessa altura, a Avenida Maalah, no centro de Aden, passou a ser conhecida como "Milha da Morte", porque os terroristas árabes não deixaram de bombardear nenhuma das mansões dos ingleses que lá moravam. Os contingentes da GNF e de soldados britânicos espalharam-se por todas as esquinas das principais cidades. Mas as bombas continuaram a ser trazidas do lêmen, até no estômago de camelos.

Os primeiros ataques eram improvisados a ponto de, algumas vezes, os terroristas da FLOSY e da FLN explodirem junto com seus petardos. Gradativamente, porém, as táticas de insurreição se aperfeiçoaram e seu armamento foi diversificado. A colocação de minas nos caminhos e os ataques a granada eram complementados por tumultos artificiais, muitas vezes programados para arrastar as tropas britânicas para o raio de alcance dos franco-atiradores.

Em termos de retaguarda, as granjas de coelhos situadas,atrás da Maalah, no Crater (quarteirão comercial de Aden) e em Sheikh Othman, a 16 km da cidade, forneciam aos guerrilheiros refúgios seguros, pois, simpatias à parte, a população achava-se demasiado apavorada para denunciá-los.

Só em 1965 é que os britânicos começaram a preparar uma resposta eficaz à guerrilha urbana. No dia 5 de junho, o general-comandante das Forças do Oriente Médio foi designado para cuidar da segurança, estabelecendo um eficiente grupo de comandos. Os diversos serviços secretos também se colocaram sob controle militar centralizado; apesar disso e do estado de emergência decretado por Londres após o atentado de 1963 no aeroporto de Aden, a falta de informações confiáveis criou problemas para a repressão. No interior, as rivalidades tribais em nada favoreceram a situação. Mais de 300.000 soldados britânicos auxiliaram as forças federais, mas o caráter descontínuo das táticas terroristas obrigava-os a só agir em resposta a uma operação. Para os militares, Aden se tomaria a mais impopular das bases no exterior, aquela em que não se podia confiar em ninguém. Granadas chegaram a explodir em testas. Descobriu-se casualmente, numa cantina de oficiais, uma mesa de jantar preparada para explodir na hora da refeição.

No decorrer de 1966. embora os soldados estivessem proibidos de usar armas pesadas ou de ser os primeiros a abrir fogo. ações como patrulhamento ostensivo, bloqueio de estradas e espionagem começaram a levá-los até os refúgios da FLOSY e da FLN. Podia-se esperar que, num futuro próximo, a crise em

Aden viesse a ser controlada, mas em 22 de fevereiro de 1966, ansioso por cortar despesas militares, o governo trabalhista em Londres anunciou sua decisão de retirar-se de Aden em 1968, concedendo simultaneamente autonomia política à região.

Depois disso, nem mesmo o mais fervoroso anglófilo ousava cooperar com as forças de segurança, temeroso de represálias. Os governantes dos Estados foram avisados de que seus acordos com o Reino Unido tinham caducado. Era o fim da Federação da Arábia do Sul nos termos existentes.

Desde o anúncio da retirada em 1966, os nacionalistas não pararam de hostilizar os britânicos para apressar a data da independência. As baixas entre as forças de segurança aumentaram até chegar, só no ano de 1967, a 44 mortos e 325 feridos.

Censurada na Organização das Nações Unidas (ONU) por seu "desgoverno colonial", vendo ministros da Federação fugirem para seus Estados natais ou para a. Arábia Saudita, a Grã-Bretanha não sabia mais o que fazer. No final de 1966, o próprio primeiro-ministro Makeawee aliou-se à FLN.

Londres acabou por substituir seu representante oficial e antecipar a retirada para novembro de 1967. Nos meses precedentes, houve violentos combates em Sheikh Othman, onde estava um batalhão do Regimento de Pára-quedistas. 

Em junho de 1967 o Exército da Arábia do Sul (nova denominação do EFR) amotinou-se contra os oficiais e soldados britânicos, matando muitos deles. Os militantes da FLOSY e da FLN, pondo em segundo plano seu comum sentimento anticolonialista, passaram a lutar entre si pelo poder, perdendo 240 militantes (com 551 feridos) em batalhas de rua. A situação só se normalizou depois da intervenção dos Highlanders de Argyll e Sutherland (um dos mais famosos regimentos escoceses) que, numa ação fulminante, aniquilaram os rebeldes e devolveram a região aos britânicos. 

No final de agosto de 1967, nada menos de doze Estados confederados tinham-se unido à FLN. Em conseqüência, a FLOSY praticamente desapareceu de cena. Nesta altura, porém, o confronto já custara aos terroristas considerável perda de prestígio junto à população.

Com isso, a retirada britânica pôde ser rápida e até festiva, com despedidas formais no porto e bandas de música animando as cerimônias de troca de bandeiras. Em 29 de novembro de 1967, o comando da guarnição foi passado a um oficial do Exército da Arábia do Sul (formado pelo EFR e elementos da GNF) e o último soldado britânico deixou Aden. Constituiu-se assim a República Popular do lêmen do Sul, compreendendo Aden e os antigos protetorados Oriental e Ocidental. 

Soldado do Highianders de Argyll e Sutherland.

Umas das tropas britânicas enviadas para Aden foi o 1st Battalion The Argyll & Sutherland Highlanders. Aqui este Corporal desta unidade patrulha uma rua em 1967 - Ele usa um fuzil automático L1A1 SLR de 7.62 com carregador de 20 tiros. Ele tem uma bolsa para uma máscara contra gás lacrimogêneo, que era muito usado em Aden devido as agitações nas ruas.

O SAS em ação

A participação do 22 SAS em Aden ocorreu num momento muito agitado para a Grã-Bretanha em relação a sua possessões. Nesse período o Regimento foi solicitado a operar também em Bornéu. O primeiro Esquadrão a ser enviado para Aden foi o "A" vindo de Bornéu, que ficou na região entre abril e maio de 1964. Em 1966 o Esquadrão "B" foi operar na região onde participou de operações antiterroristas na cidade de Aden. O Esquadrão "D" também passou alguns períodos em Aden. O SAS foi usando a princípio para enviar pequenas equipes para trás das linhas inimigas no Radfan para dirigir ataques aéreos e de artilharia contra as linhas de comunicação dos rebeldes. Como a situação política era bastantes precária para os britânicos, que estavam se preparando para sair da região, a tática de "corações e mentes" não foi efetivamente implantada.

No sul, em Aden, as equipes do SAS começaram a ter experiência com um novo tipo de tática de guerra: o terrorismo urbano. Os terroristas lançavam ataques com granadas e armas de fogo contra civis e autoridades britânicas, além de soldados e policiais.

Como os terroristas eram peritos em combate aproximado nas ruas aglomeradas da cidade de Aden, eram virtualmente indistinguíveis da população local e por isso podiam escapar facilmente após assassinar políticos britânicos, soldados, civis e polícias locais, o Major Peter de la Billiere formou as unidades "Keeni Meeni" que é em Swahili descreve uma serpente que se move silenciosamente pela grama. E era assim que estas unidades deviam agir, mortalmente discretas e silenciosas para agarrar a sua presa. Os operadores se vestiam como árabes e carregavam pistolas Browning com eles. Eles vigiavam pontos chaves a espera dos terroristas ou patrulhavam as ruas a procura de surpreender o inimigo. Essas operações exigiam um excelente senso de alerta e capacidade de reação imediata. Os operadores de Fiji, com a sua pele escura, que se passavam facilmente por árabes, foram usados especialmente neste tipo de unidade.  Muitas das experiências vividas em Aden na luta contra o terror foram aplicadas e aperfeiçoadas na Irlanda do Norte, onde os homens do SAS adqiririam a fama de serem um dos melhores na luta antiterrorista e, ambiente urbano.

 

 



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