Perfil da Unidade

SPECIAL AIR SERVICE - SAS

CAMPANHAS

Omã - 1958-59;1969-76


Operador do SAS nas Falklands, armado com um Colt Commando.

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Omã

Localizado no extremo leste da península Arábica, Omã tem um relevo variado. Há montanhas, planícies salinas, desertos e oásis e praias. A península de Musadem, separada do resto do país pelos Emirados Árabes Unidos, domina a entrada do estreito de Ormuz, por onde passam dois terços do tráfego mundial de petróleo. Majoritariamente muçulmana, a população é formada por omanis (73,5%), de origem árabe. Apesar das reservas de petróleo não estarem entre as maiores do Oriente Médio, cerca de 90% do PIB é resultado da exportação do produto.

Como todos os países da península Arábica esteve na esfera de influência da Grã-Bretanha por uma boa parte do século XIX  e XX. No século XIX, os britânicos chegaram a dominar toda a região, por meio da posse de extenso território ou de acordos com príncipes locais.

O sultanato foi governado de 1932 a 1970 por Said bin Taimur, fiel aliado dos britânicos. Mas a presença destes não ultrapassou os cofres da corte, as armas do Exército e os equipamentos de exploração petrolífera. Said bin Taimur reinou como soberano absoluto e obscurantista, proibindo qualquer influência moderna sobre seu povo, que vivia da agricultura, da pecuária e da pesca, em regime de pura subsistência. A população estava impedida de ter rádio ou bicicleta, de usar remédios e antibióticos desenvolvidos no Ocidente ou de assistir a espetáculos artísticos. Essa falta de perspectivas, a escravidão que ainda existia e a situação de pauperismo em que se encontrava o povo contribuíram para o surgimento de rebeliões populares, como a guerra civil que assolou a província de Jebel Akhdar entre 1957 e 1959, sufocada com auxílio das Forças Armadas britânicas.

Jebel Akhdar 1958-59

Limitando-se ao norte com o golfo de Omã, a leste e ao sul com o mar da Arábia, a sudoeste com o Iemem, a oeste com a Arábia Saudita e a noroeste com os Emirados Árabes Unidos, o Sultanato de Omã tem localização estratégica, cujo peso político aumentou após a crise do petróleo de 1973. Mas antes disso na década de 50 Omã chamou a atenção da Grã-Bretanha por causa da sua guerra civil.

As insatisfações que resultaram na guerra civil de 1957-59 são de origem bem remota. No fim do século VII. sob o domínio dos califas de Bagdá. a população de Mascate e Omã converteu-se ao islamismo. A autoridade de seus líderes religiosos, os imãs da seita ibadi. ia muito além das questões de fé. Pelos séculos afora, o poder central do sultão só era efetivo sobre a estreita faixa litorânea. Nas áreas desoladas do interior, as tribos árabes freqüentemente mantinham sua independência e continuavam fiéis a seus xeques e ao imã. Os conflitos entre facções rivais tornaram-se crônicos e, em 1793, após expulsar os turcos, o imã Ahmed ibn Said tomou o poder e fundou a atual dinastia reinante. No início do século XIX, depois de um surto expansionista. Mascate e Omã controlavam Zanzibar (ilha no oceano Índico), parte do litoral da Pérsia e trechos do atual Paquistão, formando o mais poderoso Estado da Arábia.

Ansiosa por impedir o acesso da França às riquezas da região, a Inglaterra firmou com o sultão um tratado de amizade e cooperação, impondo aos poucos sua influência sobre Omã e Mascate, este um rico entreposto que detinha o monopólio do comércio de café no Oriente Médio e constituía um movimentado mercado de compra e venda de escravos.

Em 1832. a capital foi transferida para Zanzibar, porém a morte do sultão Said ibn Sultan. em 1856, levou ao desmembramento de seus domínios, em meio a violentas disputas pela sucessão. A mediação britânica conseguiu, por um acordo firmado em 1861, separar Zanzibar de Mascate e, a partir daí, as relações entre o sultanato e a Grã-Bretanha estreitaram-se cada vez mais.

A proibição do tráfico de escravos, no final do século XIX, abalou a economia do país e em 1891, quando as nações européias voltaram a atenção para as reservas de petróleo do golfo Pérsico, o sultanato concedeu a Inglaterra a exclusividade para explorar partes de seu território. O sultão passou a ter a assessoria de um conselheiro inglês para negócios estrangeiros. o que levou naturalmente a ingerências em sua política interna.

Entre 1913 e 1920, tribos do interior de Omã se rebelaram contra o sultão de Mascate e declararam obediência ao imã. Este foi assassinado em 1920 e o sultão assinou o Tratado de Sib, pelo qual o novo imã reconheceu a primazia do sultão, em troca de maior autonomia para as tribos do interior. No entanto, os termos do acordo não foram suficientes para assegurar uma paz duradoura. A presença inglesa, inclusive no plano militar, acentuou-se gradativamente. com o reforço de novos tratados de comércio e navegação.

Assim, em 1955 tropas britânicas intervieram em favor do sultão Said ibn Taimur, no poder desde 1932, contra o recém-investido imã Ghalib ibn Ali, que denunciou o tratado de 1920, pleiteou a criação de um território independente com o apoio da Arábia Saudita (que tinha fortes interesses no petróleo de Omã) e a simpatia do Egito de Nasser (franco opositor dos britânicos), e exigiu novas prerrogativas para as tribos do interior.

Os direitos do sultão de conceder licença para exploração de petróleo passaram a ser contestados por Ghalib e pelo poderoso xeque Suleiman ibn Himyar, da tribo beni-riyain, que habitava as montanhas no Hajar. A rebelião pretendia destruir o sultão, contando com os sauditas para fornecimento de armas e outros equipamentos bélicos. Mas Ghalib calculou mal a hora de agir, iniciando a revolta antes que suas forças estivessem bem preparadas. Assim, foi muito fácil para o sultão Said e seus aliados britânicos repelir os insurretos.

O imã rendeu-se, mas seu irmão Talib ibn Ali, vindo do Egito, desembarcou na costa nordeste do sultanato. com cerca de oitenta homens armados, e dirigiu-se para Jebel Akhdar ("Montanha Verde"), uma região de penhascos quase verticais, onde se situa o ponto culminante do Hajar, com poucas e difíceis vias de acesso.

Era junho de 1957 e o sultão, informado do fato. enviou um regimento a Hamra. a fim de interceptar os rebeldes em sua marcha para o interior. No entanto, o xeque Suleiman veio em socorro de Talib e atacou as torças do sultão; o regimento de Omã. cercado, retirou-se às pressas, abandonando cidades-chaves como Nizwa e Firq.

Impotente para controlar a situação, o sultão pediu auxílio à Grã-Bretanha. Em fins de julho de 1957, um pequeno grupo armado chegou a Omã, compreendendo duas companhias dos Cameronians, vindos de  Bahrain, e um destacamento do 15º/19º Hussardos Reais, vindo de Aden, com seus carros de reconhecimento Ferret, junto com seu comandante, o general-de-brigada J. A. R. Robertson.  

Ao deparar com um quadro militar caótico e potencialmente desastroso, Robertson decidiu empenhar suas torças, antes de tudo, na reconquista de Nizwa. Desfechada em agosto, a vitoriosa investida teve apoio da Real Força Aérea (RAF) (que usou aviões Venoms, Sharjah, Talib e Suleiman), do Exército de Omã da Trégua (TOS), que tinha oficialato britânico, e do que restava das Forças Armadas do Sultão (SAF).

Os insurretos refugiaram-se nas montanhas e, como o contingente britânico diminuiu (os Cameronians voltaram para Aden antes de chegar setembro), foi a fraca e mal equipada SAF que ficou encarregada de prover a maior força para enfrentar os rebeldes em Jebel Akhdar.Em tais condições, o poder do sultão continuou ameaçado. Era essencial chegar a uma solução para o impasse.

Por isso mais uma vez a ajuda externa foi  solicitada. Em janeiro de 1958. pressionado pelo governo britânico, o sultão realizou algumas reformas sociais indispensáveis, em troca de equipamentos, treinamento militar e aperfeiçoamento da SAF. Três meses depois, o coronel David Smiley, da Cavalaria Real britânica, chegou a Omã na qualidade de chefe do Estado-Maior da SAF, cujas forças começou a reorganizar, tendo como objetivo a derrota final dos rebeldes de Jebcl Akhdar. Smiley pegou o remanescente do contingente britânico foi usado para providenciar a expansão das forças nativas que contaria com alguns oficiais britânicos e o apoio de alguns commandos dos Royal Marines, de pessoal do Real Corpo de Sinaleiros, do Corpo Médico, de uma tropa dos 13º/18º Hussardos Reais e alguns pilotos da RAF.

O SAF teve algum êxito contendo os rebeldes no Jebel Akhdar em fins de  1957 e inicio de 1958. Ao longo de 1958, minas terrestres na estrada entre Mascate e Nizwa destruíram vários veículos militares. Entre agosto e dezembro um Esquadrão do Life Guards substituiu os Hussardos, e perdeu 80% de seus Ferrets para as minas, com algumas vitimas. A RAF informou que foi alvo de fogo antiaéreo de calibre .50 na área de Jebel.

Smiley achou que a ameaça rebel estava crescendo e que era necessário capturar Jebel o mais rápido possível, mas sabia que não podia fazer isso com as suas forças atuais. Em junho de 1958, o Secretário de Estado para Guerra, Christopher Soames, visitou  Smiley e este lhe pediu tropas adicionais, especialmente as do tipo Commandos, Pára-quedistas ou SAS. Smiley disse que o 22 SAS estaria saindo da Malásia com destino a Grã-Bretanha em julho e sugeriu um pequeno desvio de rota.

O Esquadrão D do 22 SAS, comandando pelo major John Watts, chegou a Omã pela metade de novembro de 1958. O Esquadrão de D, estava organizado em quatro tropas de cerca de 16 homens cada. 

Homens do SAS em operação nas montanhas

Logo após a sua chegada, teve início o patrulhamento das vizinhanças de Hijar e Tanuf. Em dezembro, um ataque a Aquabat ai Dhafar fracassou, obrigando Smiley a rever sua estratégia e pedir mais reforços. Ele percebeu que um só esquadrão do SAS não seria suficiente para tomar Jebel e assim em 12 de janeiro de 1959, chegou o Esquadrão A do 22 SAS, comandando pelo major John Cooper. Pouco antes disso, em 1º de janeiro, o comandante do 22 SAS, Tenente Coronel Tony Deane-Drummond, chegou a Mascate e estabeleceu um QG tático conjunto no dia 8 de janeiro em Nizwa. Depois de fazer o reconhecimento aéreo de Jebel Akhdarm, esse oficial concluiu que seus homens seriam mais úteis em pequenos ataques indiretos.

O primeiro deles visaria à tomada dos povoados de Habih, Saiq c Sharaijah. sem os quais os revoltosos não poderiam manter posição ao norte. Para atingir os povoados era preciso seguir uma rota acidentada e íngreme que não era vigiada.

Foi decidido que um ataque direta a Jebel, seria realizado na noite de 25 para 26 de janeiro. Uma força mista do SAS(Esquadrão A e D)/SAF faria o ataque. Entre 18 e 22 de janeiro, parte das forças mistas britânicas e do sultão realizaram alguns ataques contra Aquabat ai Dhafar, Tanuf e Izki, para atrair a atenção dos rebeldes. Na noite do ataque, dos 100 rebeldes colocados para guardar os acessos a  Jebel, só um estava na rota escolhida pelo SAS. Porém o ataque foi adiado por 24 horas devido as nuvens baixas, que não permitiriam o apoio necessário da RAF. 

No dia 26 a força mista SAS/SAF marchou até Kamuh. A marcha, lenta e difícil, obrigou os soldados do SAS a abandonar suas mochilas para agüentar o último trecho da subida, já de noite. As 21:00 o SAS iniciou o ataque a Jebel. A força tinha recebido também apoio de um pelotão do Regimento de Mascate e de membros de algumas tribos. As armas de 5.5mm das forças do Sultão proveram também apoio para a operação.

Ao amanhecer, o grupo de ataque aéreo da RAF, composto por Venoms e dois helicópteros,  veio reforçar o pessoal de terra, que, chegando ao objetivo, logo dominou uma oposição fraca e desordenada.  Três Valettas lançaram cerca de 7,5 toneladas de equipamentos, munição, comida e água para as tropas. Rapidamente o SAS tomou a posição inimiga. Porém os líderes rebeldes conseguiram fugir. O SAS e as SAF avançaram mais para vasculhar povoados, localizar depósitos subterrâneos de armas e documentos e assegurar assim completa vitória sobre os rebeldes. 

O membros das tribos rebeldes se renderam e entregaram uma grande quantidade de armas enviadas pelo Exército saudita, quando lhes foi assegurado que nenhuma represália seria levada contra eles.

A Rádio Cairo tinha informado que no ataque a Jebel Akhdar, tinham sido empregadas 120.000 soldados britânicos e Moscou reforçou a mentira dizendo que 13.000 pára-quedistas britânicos tinham saltando na área. Na verdade apenas 1.000 homens tinham participado do ataque, sendo que só 250 eram britânicos. 

Tropas britânicas e das SAF patrulharam Jebel por mais duas semanas e a área foi toda mapeada, também foi construída uma pista de aterrissagem. Uma companhia das SAF estabelecido um acampamento perto da pista de pouco e um oficial  britânico ligado as SAF foi designado Governador Militar do Jebel Akhdar. 

Os líderes rebeldes tinham conseguido chegar até a Arábia Saudita. Eles comandavam uma pequeno grupo de rebeldes leais que permaneceram em Omã. Esse grupo passou a minar estradas novamente no verão 1959. Smiley percebeu que as SAF não tinham números suficientes de soldados para parar o fluxo de minas vindos da Arábia Saudita e conseguiu montar uma força paramilitar, os Gendarmeries, que com as SAF e a Marinha Real reduziu o contrabando de armas. Um sistema de recompensas e represálias ajudou a comunicar a mensagem e Smiley continuou remodelando as SAF depois que o SAS partiu em março de 1959. Mas o movimento contra a presença britânica em Omã traria novos problemas. 

Quando Smiley deixou Omã em 1961, as SAF contavam com uma de 2.000 homens. Havia uma paz intranqüila na área. Durante a campanha, entre janeiro de 1958 e janeiro de 1959, as SAF tinham sofrido 8 mortos e 51 feridos. Os britânicos perderam 1 oficial que servia com as SAF, 3 homens do SAS, 2 Royal Marines e um membro do Real Corpo de Sinaleiros. Eles também tiveram seis feridos, um SAS, três dos Life Guards e dois Royal Marines.

Revolta em Dhofar (69-76)

Apesar da vitória em Jebel Akhdar a instabilidade política em Omã continuou. Nos anos 60, a província de Dhofar, no extremo sul do país, tornou-se foco de rebeliões populares e movimentos de guerrilha. Os dhofari que deixavam a província em busca de trabalho no exterior logo chegavam à conclusão de que a miséria e o atraso de sua terra natal resultavam, em boa parte, do regime reacionário do sultão. Motivados pêlos ideais do nacionalismo árabe e contrários as posições do sultão e à interferência britânica, militantes dhofaris criaram em 1962 a Frente de Libertação de Dhofar (FLD), liderada por Mussalin bin Nufl. Apoiados pelo Egito (sob influência soviética) e Iraque, três anos depois, a FLD iniciou operações de guerrilha em pequena escala, baseada em emboscadas e sabotagens. O FDL era pobremente armado e equipado, mas algum de seus soldados tinham lutado com outros exércitos árabes.  

A rebelião em Dhofar assumiu proporções bem mais graves do que uma simples revolta de nômades. Em termos de idioma e cultura, as tribos da isolada província meridional do sultanato estavam muito mais próximas dos sul-iemenitas do que dos demais habitantes de Omã. Aos revoltosos juntaram-se pastores nômades, acostumados a andar armados, e emigrantes que tinham conhecido o progresso e as novas idéias políticas dos países vizinhos.

A região da província de Dhofar oferece terreno excelente para a tática militar de guerrilha. Suas principais cidades estão situadas numa estreita planície costeira e o interior é região montanhosa, com escarpas íngremes e vales, transitável apenas pelas rotas dos camelos. Durante quatro meses por ano a região mergulha em névoas, trazidas pêlos ventos das monções e as chuvas fazem nascer uma espessa vegetação, e isto oferece excelente cobertura para as forças guerrilheiras.

Nos dois primeiros anos do movimento, a guerrilha contava com pouco mais de 200 militantes, mas fez dezenas de vítimas. As Forças Armadas do Sultão (FAS), compreendendo os regimentos de Mascate, do Deserto e da Fronteira Norte, tinham poucos efetivos e equipamento limitado e recebia auxílio esporádico da Arábia Saudita.

Cerca de mil soldados das FAS mantiveram-se estacionados na região no início das hostilidades. A maioria dos oficiais era britânica e muitas das tropas, também estrangeiras, como os baluchis do Paquistão, país com o qual Omã  mantinha vínculos tradicionais. A Força Aérea do Sultão de Omã  (FASO) dispunha apenas de um jato Skymaster e era auxiliada pela Real Força Aérea britânica (RAF), que mantinha uma base na cidade de Salalah.

Em fins de 1967, a Grã-Bretanha afinal se retirou de Aden e então fundou-se a República Democrática Popular do lêmen do Sul. O governo da nova República era de orientação marxista e logo exerceu grande influência nos conflitos do vizinho Dhofar. Do ponto de vista militar, os guerrilheiros passaram a dispor de uma base segura além das fronteiras e de uma rota para o fornecimento de armas. Politicamente, o movimento ganhou novos simpatizantes - a União Soviética e a China. A República Democrática Popular do lêmen do Sul chegou a enviar "assessores" para a província de Dhofar.

 

Guerrilheiro da FLD com sua inseparável AK47

Durante um congresso realizado em junho de 1968, a liderança nacionalista da FLD foi substituída por um Comando Geral dominado pêlos comunistas e chefiado por Muhammad Ahmad al-Ghassani. A ideologia marxista foi adotada e o objetivo de independência substituído pelo projeto de varrer a influência britânica dos países do golfo. Enviaram-se guerrilheiros para treinamento na URSS e na China e muitos jovens de Dhofar receberam instrução ideológica e de táticas de guerrilha no lêmen do Sul. O nome da organização foi mudado para Frente Popular pela Libertação do Golfo Árabe Ocupado (FPLGAO). E seus militantes deram início a um intenso trabalho de mobilização popular, que obteve relativo sucesso entre os dhofaris.

Porém o verniz do marxismo não foi aceito pelas bases da FLD, integradas por montanheses ciosos de suas tradições tribais e devotados ao Islã. Surgiram divergências no movimento rebelde, que no futuro foram aproveitadas pelas equipes do SAS que organizavam os guerrilheiros que desertaram em unidades militares (os firqats).

Em 23 de agosto de 1969, os guerrilheiros capturaram o principal centro administrativo a oeste de Dhofar, Rakyhut. Os rebeldes conseguiram estabelecer controle quase absoluto sobre o oeste e avançaram na região a leste da área de Salalah, capital de Dhofar, que reduziu-se a um enclave fortificado montado por trás de uma cerca de arame farpado construída em 1966, que abrangia a área urbana, o palácio do sultão e a base da RAF. Os rebeldes, armados, minavam as bases de um governo aliado da Grã-Bretanha e o processo parecia irreversível.

Diante do alastramento da rebelião, Said bin Taimur adotou medidas ainda mais repressivas. Prisioneiros foram executados publicamente e seus corpos expostos por vários dias. As tropas do governo atacaram aldeias suspeitas de apoiarem os guerrilheiros e destruíram seus poços - uma vingança cruel numa região árida, onde a vida se organiza em função das raras nascentes de água. A população do Dhofar aderiu em massa à guerrilha, enquanto a FAS tentava pelo menos manter o controle da planície costeira.

Em 1970, as atividades guerrilheiras já haviam conseguido desestabilizar o governo e suas forças armadas. Em meio à crise, muitos oficiais renunciaram a seus postos. Neste mesmo ano, oficiais superiores britânicos, inclusive do 22º Regimento do Serviço Aéreo Especial britânico (22 SAS), reuniram-se para analisar a situação em Omã.

O êxito da campanha britânica (com auxilio do SAS) na Malásia e em Bornéu dependera, em parte, do estabelecimento de boas relações com a população local. A crise em Dhofar parecia exigir esforço semelhante, para conquistar os "corações e mentes" das tribos montanhesas. Nesse processo, a criação de postos médicos e veterinários no Jebel seria tão importante quanto o trabalho sistemático de coleta de informações, base de toda campanha antiinsurrecional vitoriosa.

O golpe do sultão

Sob o sultão Said bin Taimur, tal programa seria impossível. No entanto, em 23 julho de 1970, o seu único filho, Qaboos, de 29 anos, lidera um golpe de estado palaciano (mais uma vez com o apoio britânico, embora esses o negassem) e depõe o seu pai, que passará o resto da sua vida no exílio em Londres.

 

O novo sultão de Omã, Qaboos, de 29 anos.

Qaboos tinha estudado na academia militar britânica de Sandhurst e servido num regimento de infantaria britânico.  Imbuído de idéias um pouco mais progressistas, mas permanecendo pró-britânico como o pai, Qabus bin Said tencionava obter a confiança do povo mediante a melhoria econômica de suas condições e a importação de tecnologia ocidental.

O país parecia estar saindo do obscurantismo. O sultão Qabus anunciou de imediato uma série de reformas modernizadoras e pediu aos rebeldes sua cooperação para desenvolver o país através de projetos de desenvolvimento econômico, oferecendo água encanada, assistência médica, instrução e proteção, usando para isso as rendas do estado (provenientes do petróleo) que antes eram usadas exclusivamente para a defesa e para alimentar o luxo da corte. E país precisava desta modernização e da alteração radical da sua economia semi-feudal, pois Omã só tinha dez quilômetros de estrada asfaltada (entre Mascate e Matara), três escolas primárias e um hospital administrado por missionários norte-americanos. Contrariamente aos seus vizinhos, que se encontravam então em franco desenvolvimento.

Só os antigos membros da Frente de Liberação do Dhofar (FLD) responderam favoravelmente. A Frente Popular pela Libertação do Golfo Árabe Ocupado recusou a oferta, pois acreditava que tinha condições de tomar o poder. Diante disto, além dos projetos desenvolvimento econômico o sultão também investiu pesado na ampliação das Forças Armadas. Era clara a insatisfação das bases do FLD com a FPLGAO, e isto seria explorado pelo SAS. Em agosto de 1970, o nome Mascate deixou de ser parte do título do país que passou a se chamar Sultanato de Omã.   

Com a rápida ampliação dos quadros das FAZ acrescentou-se um quarto regimento, o de Jebel, e as unidades existentes foram reforçadas com tropas e novas armas, incluindo barcos de patrulha ligeiros (os novos e velozes Brooke Maine que possibilitaram o aumento do controle sobre as rotas marítimas). A FASO recebeu uma frota de helicópteros e doze jatos Strikemaster (versão armada dos treinadores a jato Provost). O seu efetivo aumentou de 2.500 para 12 mil homens no final de 1973. Esses homens eram liderados por seiscentos oficiais britânicos e alguns sargentos especialistas (metade deles era contratada pelo sultão e a outra emprestada e paga pelo governo britânico).

A primeira equipe do 22 SAS chegou a Dhofar algumas horas depois do golpe de Estado. Além de garantirem a segurança pessoal do sultão Qabus, os integrantes da unidade desempenharam um papel decisivo na implantação da nova estratégia britânica para derrotar os guerrilheiros.

Os Firqats

Um dos objetivos principais do SAS no Dhofar era treinar e levantar unidades SEP (Surrendered Enemy Personnel - Pessoal inimigo rendido) chamadas de firqat (palavra árabe para unidade). Os firqats eram unidades de base tribal e tamanho variável, destinadas a atuar como tropas auxiliares na campanha antiinsurrecional. Além disso o pessoal do SAS participaria da campanha da conquista de "corações e mentes".

 

Guerrilheiro da PFLO (Popular Front for the Liberation of Oman) em 1973

Este guerrilheiro está armado com um fuzil de assalto soviético AK 47 de 7.62 mm. Ele usa trajes típicos a exceção de uma jaqueta camuflada alemã oriental e um plano camuflado usado como cobertura. Sua bolsa de munição é britânica.
1958 cinto de teia de padrão britânico com uma bolsa de munições.

Os destacamentos do SAS eram oficialmente denominados BATT (British Army Training Teams, equipes de treinamento do Exército britânico). Graças a esse eufemismo, tanto Londres quanto o governo local podiam negar, em termos formais, a presença de tropas britânicas de combate em Omã.

Os dois primeiros BATT foram baseados em Taqa e em Mirbat, uma cidadezinha cerca de 70 km a leste de Salalah. Entre setembro de 1970 e março do ano seguinte, cerca de duzentos adoo (esse era o nome dado aos guerrilheiros, e parece significar inimigo) renderam-se à FAS: a proposta de anistia dava os primeiros resultados, enquanto a guerrilha sofria o impacto das divergências crescentes entre os militantes marxistas ligados ao lêmen do Sul e os muçulmanos fundamentalistas.

Embora a lealdade dos integrantes do firqat fosse no mínimo questionável, essas unidades constituíam um elo importante com a população local, um vínculo que se revelaria decisivo no desenrolar dos acontecimentos. Em março de 1971, os ex-guerrilheiros mostraram que ainda sabiam lutar: sessenta homens do firqat e quarenta do SAS alcançaram o interior montanhoso e suportaram doze dias de combate quase incessante.  

Algum dos membros dos firqats tinham treinado na Rússia, China, e no Iêmen do Sul. A maioria dos guerrilheiros que mudou de lado para unir-se aos Firqats fez isso porque estavam insatisfeitos com a brutalidade demonstrada pelos comunista parar tentar abafar a religião muçulmana e obter a lealdade tribal. Alguns ex-guerrilheiros logo viram que era melhor estar do lado mais forte e que ganharia a guerra, pois isto lhes traria a possibilidade de pilhagem, na forma de novas armas, direitos de água, mulheres ou gado.

Quando um guerrilheiro descia as montanhas e vinha para um acampamento de um Firqat querendo desertar, a equipe do SAS não o perturbava, permitindo inclusive que ele permanecesse com suas armas. Ele então era encorajado a conversar com outros dhofaris do Firqat, muitos até, ex-companheiros de suas unidades na guerrilha. Não era incomum se achar irmãos, primos e tios lutando em lados opostos.

Depois de alguns dias o SEP era oficialmente declarado parte do Firqat e falaria em árabe aos membros do BATT o que eles gostariam de saber o Adoo, como localização de depósitos de armas, planos de ataque, etc. Algumas vezes a rendição do SEP seria mais dramática. Depois da Batalha de Mirbat, um Adoo chegou num acampamento de Firqat próximo Sudh e trouxe como ele os 6 rifles de assalto dos seus camaradas mortos. 

Como não havia uma checagem completa dos SEPs, alguns homens do SAS as vezes acharam-se em situações perigosas, onde constantemente tanto os homens do SAS como os Firqats se vigiavam. Os soldados do exército regular do sultão achavam que o pessoal do SAS era louco em sair pelas montanhas com homens que só recentemente tinham sido seus inimigos.

Os membros de SAS alcançaram grande camaradagem com seus Firqats. O capitão Simon Garthwaite foi morto em 12 de abril de 1974 quando tentava salvar um Firqat. Os dhofaris que compunham os Firqats eram muito hostis aos forasteiros e era difícil conquistar a sua confiança. Todos no mundo árabe sabiam que eles eram bem difíceis de se lidar. Há até um velho provérbio árabe que diz que se alguém achar um dhofari e uma cobra em sua cama, jogue fora o primeiro. 

O SAS treinou os Firqats a usarem uma grande variedade de armas modernas, inclusive morteiros. Trabalhar com os Firqats as vezes era extremamente estressante. Antes de qualquer operação os Firqats votavam para saber qual deles comandaria. Oficialmente o SAS só treinou e armou os Firqats e não os comandou. Algumas vezes os Firqats simplesmente paravam antes ou no meio de uma operação crucial. Quando isto acontecia os Firqats baixavam as armas e começavam a discutir numa espécie de parlamento, e as vezes chamavam o SAS para resolver a questão. Johnny Watts teve momentos frustrantes durante a Operação Jaguar quando  os Firqats decidiram parar as sua operações por um dia.

Ganhando a guerra 

As linhas mestras da estratégia governamental consistiam em mostrar que as FAS podiam conservar o controle da região leste de Dhofar e estabelecer sua presença nas montanhas. Depois que o leste estivesse seguro e os adoo fossem desafiados em suas posições fortificadas, seria possível lançar uma ofensiva geral no oeste.

O marco inicial dessa estratégia foi a Operação Jaguar, realizada em outubro de 1971. Nessa época os guerrilheiros já somavam 2.000 combatentes, organizados de maneira pouco rígida em três regimentos: o do setor oeste, o do leste e o central. Eles eram apoiados por uma milícia de quase 3.000 homens. Estavam bem armados com fuzis soviéticos AK-47 Kalashnikov e armas antitanque RPG-7, também de fabricação soviética, para uso contra os blindados Saladin do Sultão, metralhadoras, minas, morteiros de 81mm e de 82mm e lançadores de projéteis Katyusha. de 122mm. Para a defesa aérea, tinham apenas metralhadoras antiaéreas de 14,5 mm e alguns SAM SA-7 (mísseis terra-ar). Para o transporte, contavam com camelos e jumentos. Os guerrilheiros valiam-se de seu conhecimento do terreno e aperfeiçoaram as técnicas de emboscada, atacando unidades das FAS a grande distância e refugiando-se nas montanhas, para escapar à resposta da aviação e da artilharia.

A Operação Jaguar

 

A Operação Jaguar começou em outubro de 1971 com o Esquadrão G do SAS, um batalhão das FAS e 5 Firqats, todos sob o comando do Tenente Coronel Johnny Watts MC (Royal Irish Rangers), que comandou o Esquadrão D do SAS em 1959 durante a campanha em Jebel Akhdar. O objetivo da Jaguar era estabelecer uma base avançada no interior, perto de Jibjat.  Desta vez o Governo Britânico só permitiu que um esquadrão do SAS operasse em Dhofar.

 

Guerrilheiro da PFLO em patrulha.

 Entretanto, por causa do tamanho da operação de  Watts foi permitido trazer o Esquadrão B para agir como força de reserva. O Esquadrão B era comandado por Richard "Duke" Pirie.  

 

Ter um esquadrão do SAS como reserva se mostrou crucial para o sucesso da operação. Quando ela começou, só 40 membros do Esquadrão G estavam em condições de combate, pois muitos homens estavam doentes, alguns com hepatite por causa de água contaminada. O próprio comandante do Esquadrão G era um destes homens. Por isso temporariamente o comando do Esquadrão foi dado a Shaun Brogan.

 

O plano da operação determinava que uma força principal entraria nas montanhas pelo norte enquanto uma força menor de diversão atacaria os adoo no leste. A força menor seria comandada por Brogan, que foi logo alvo de fogo de longo alcance dos adoo, quando avançavam para cima do djeble. Os adoo disparavam de tão longe que suas balas perdiam a força antes de chegar a seu alvo.

 

Enquanto Brogan se dirigia pelo djeble, os ataques contra ele aumentavam cada vez mais. Na terceira noite do avanço, o SAS teve seu primeiro contato importante com o inimigo, quando se movia em direção de um grupo colina abaixo. Brogan e seus homens facilmente tomaram as colinas e as posições defensivas do inimigo. Na manhã seguinte eles foram alvo de intenso fogo inimigo e o Sgt. Steve Moores foi ferido no estômago. O ataque inimigo foi repelido com fogo de morteiro disparado pelo SAS e Firqats. O Sgt. Moores foi evacuado de helicóptero para a base da RAF em Salalah onde foi operado. Porém morreu no avião que o levava para a Inglaterra para mais tratamento. 

 

As duas forças do SAS se uniram logo depois e foi estabelecida uma posição fortificada no djeble. Antes da Operação Jaguar, as tropas do sultão tinham tentado muitas vezes se estabelecer no djeble. E em cada tentativa das FAS, os adoo se lançavam com bastante combatividade nos primeiros dias, pois sabiam que se lutassem muito nos primeiros poucos dias, as forças do governo se desestruturariam e sairiam do djeble.

 

Membro das BATT (British Army Training Teams, equipes de treinamento do Exército britânico), eu femismo para o SAS. Oman - 1973. Ele está armado com uma metralhadora L7A1 de 7.62mm, GPMG M60. Seu cinto é o padrão 1958. Os operadores do SAS levavam sempre o que precisavam de mais urgente em combata. Note as duas bolsas grandes no colete de fibra sintética.
Ele usa "botas do deserto", preferidas no lugar das botas padrão do Exército. Sua camisa camuflada de algodão o protegia do frio do deserto. Ele usa uma cobertura de selva, com as abas dobradas.

 

Desta vez seria diferente. O SAS estabeleceu-se numa colina que eles chamaram de "Porkchop Hill". Os adoo atacaram com muita força pensando que os britânicos iriam desistir em alguns dias. Em 4 dias houve 40 ataques. Os adoos estava armados como AK-47, SKS, metralhadoras leves de 7.62 e pesadas de 12.7, além de morteiros. Todo este poder de fogo foi despejado contra o SAS.


Porém os homens do SAS eram capazes de chamar o apoio aéreo contra os adoo. Os Strikemasters da Força Aéreo do Sultão executaram apoio aproximado, sendo guiados pelos homens do SAS. Depois de 4 dias os adoo perceberam que lutar contra o SAS era mais muito mais duro do que lutar contras as tropas do governo, e assim bateram em retirada.

 

Watts, tendo estabelecido seu pequeno ponto de apoio no djeble, começou a espalhar sua força e a construir outros pontos fortes em todo djeble. Era esperado que estes pontos fortes negassem aos guerrilheiros a condição de trazer armas e suprimentos do Iêmen. Watt nomeou esta linha de pontos fortes de Linha do Leopardo.

 

O SAS construiu posições defensivas menores, chamadas de sangars, que eram pequenos bunkers de pedra; eles davam a idéia de serem mais fortes do que eram. Essa fraude o regimento tinha aprendido durante seu tempo em Jebel  Akhbar em 1958. Destes baluartes, Watts enviava patrulhas para fazer contato com o inimigo.

 

Watts sempre ia para a frente de batalha e às vezes tanto ele como seus dois comandantes de esquadrão dirigiam patrulhas. Todos os oficiais do SAS e seus homens trabalharam muito próximos dos seus Firqats,  fazendo surgir um excelente sentimento de camaradagem. Os Firqats lutaram duro mas algumas vezes era difícil trabalhar com eles. Um dia eles estavam lutando, e de repente  decidiriam tirar o dia para descansar. Se isto tivesse acontecido durante um contato importante com o inimigo, Watts seria forçado a acionar a sua reserva, o Esquadrão B, para auxiliar a força principal. 

 

A luta pelo djeble transformou-se numa batalha de esgotamento, em que cada lado lutava duramente pelo  controle da área. Ambos os esquadrões do SAS começavam a sofrer muitas baixas, devido aos longos períodos de luta, mas os adoo sofriam muito mais perdas. Eles não mais se envolviam em combates diretos com o SAS, preferindo usar contra eles armas de longo alcance. O Esquadrão B tinha sofrido muitas perdas durante a operação e a tensão começava a se mostrar. A certa altura, Duke Pirie, comandante do Esquadrão B, se recusou a enviar seus homens em uma patrulha, quando ordenando por Watts. Ele não estava demonstrando covardia, mas apenas tentando poupar os seus homens. Ele só concordou em enviar o seu Esquadrão para ação depois que Watts o ameaçou despedir naquele mesmo lugar. O Esquadrão B entrou em batalha e lutou duramente contra os adoo. Mais homens do SAS foram mortos nesta ação, mas as operações dos adoo no djeble estavam bloqueadas.


Pelo verão de 1972 os adoo foram repelidos do djeble. O SAS consolidou sua posição nas montanhas e se preparou para executar outro tipo de guerra. Desta vez era a operação “corações e mentes”. Uma base permanente, chamada "Cidade Branca", foi estabelecida e mais tarde teve o seu nome mudado para Medinat Al Haq, que significa lugar de esperança.
As forças do sultão (e sobretudo dos britânicos) tomaram a dianteira da guerra a partir de julho de 1972. Nessa época, os rebeldes decidiram como retaliação, atacar a cidade de Mirbat.
 

  

Mirbat

 

A decisão de atacar Mirbat foi uma resposta dos guerrilheiros às várias iniciativas governamentais, nos terrenos político-social e militar. Ocupar temporariamente uma cidade litorânea do leste, que abrigava uma equipe do SAS e onde fora organizado um firqat, era inegável demonstração de força, um aviso de que os dhofari tinham tudo a perder caso deixassem de apoiar a FLD.

 

 

O ataque foi bem planejado. Deveria ocorrer no período das monções, quando a baixa altitude das nuvens tornaria o apoio aéreo quase impossível, a cidade de Rakyhut fora capturada no período das monções, justamente pela falta de apoio aéreo. Foram reunidos 250 adoo, bem mais do que em qualquer operação anterior. O armamento de apoio incluía morteiros, metralhadoras pesadas, canhões sem recuo de 75 mm e um lançador de foguetes Carl Gustav, de fabricação sueca, para projéteis de 84 mm. Decididos a enfraquecer ainda mais as defesas de Mirbat, alguns adoo deixaram-se ver no sopé das montanhas, não muito longe da cidade, atraindo boa parte dos sessenta homens do firqat.

 

Na noite de 18 para 19 de julho, os atacantes cercaram a cidade e o perímetro fortificado, mais ao norte. Chegaram a seus pontos de partida sem encontrar oposição; com os primeiros raios de sol, os elementos da vanguarda começaram a avançar.

 

Se a surpresa fosse conservada, os guerrilheiros teriam obtido uma fácil vitória. Para sorte dos defensores de Mirbat, havia um posto policial numa colina conhecida por Jebel Ali, cerca de 800 m ao norte do perímetro de arame farpado; seus ocupantes abriram fogo tão logo perceberam a aproximação dos guerrilheiros. Quatro policiais morreram e quatro conseguiram fugir - mas a escaramuça fez com que a luta começasse bem antes do que previam os líderes da guerrilha.

 

Às 5h30 do dia 19, O ruído dos projéteis de artilharia acordou os homens do BATT, que imediatamente assumiram posições na cobertura da Batthouse (como chamavam o edifício que lhes servia de quartel-general, numa alusão à Bathouse, a "casa do morcego" das histórias em quadrinhos de Batman). O capitão Mike Kealy atordoado, agarrou seu equipamento e seu fuzil, enquanto o quarto estremecia com o impacto de explosões cada vez mais próximas. Em seguida, correu para a cobertura do edifício; à luz vacilante do alvorecer, com densa camada de nuvens e uma chuva fina e constante prejudicando ainda mais a visibilidade, era difícil perceber o que acontecia. Mas a incerteza duraria pouco. O soar dos projéteis marcava o início da prova de fogo do SAS, o primeiro momento de uma ação que comprovaria a capacidade de luta dessa unidade. Não fosse a coragem, a habilidade no manejo de armas e a aptidão tática de Kealy e seus oito companheiros, Mirbat teria caído em poder de 250 guerrilheiros, o que daria novo ímpeto à guerra civil em Dhofar, a província meridional do Sultanato de Omã .

 

Com 23 anos, o capitão Mike Kealy era bem menos experiente que seus comandados, os oito integrantes do Esquadrão B. Todos já haviam completado o turno de três meses em Mirbat e esperavam a substituição a qualquer momento. Fora um período relativamente tranqüilo, dedicado ao treinamento do firqat, haviam sofrido apenas três pequenos ataques que não causaram vítimas. De repente, isolados na cobertura da Batthouse, a compreensão da esmagadora inferioridade numérica atingiu-os como o impacto de um soco. O massacre dos policiais havia sido um breve aviso; agora, só o profissionalismo e a capacidade de combate poderiam salvá-los. Quando Kealy chegou à cobertura do prédio, a fumaça e o ruído das incessantes explosões haviam transformado a área num pandemônio.

 

Soldado do SAS - Omã - 1971-75

Ele está armado com fuzil automático americano M16 de 5,56 mm. Os homens do SAS preferiam o M16 no lugar do SLR, fuzil padrão do Exército britânico, mesmo tendo este um alcance efetivo de 600m, superior aos 400m do M16. A opção pelo M16 se fazia devido ele ser mais leve (3,86 kg contra 5 kg), e por ser totalmente automático, o que era ideal para combates a curta distância. Esse combatente usa uniforme verde-oliva, uma cobertura de selva, com as abas dobradas e uma mochila Berge.

 

O cabo Bob Bradshaw, cuja calma sob fogo inimigo iria se revelar um dos trunfos mais importantes dos britânicos, apontou-lhe a posição dos morteiros inimigos e o eixo de avanço dos atacantes. A partir desses elementos, Kealy tentou visualizar o conjunto do quadro. A 100 m para noroeste, perto do mar, erguia-se o Forte Wali, guarnecido por cerca de trinta askars, guerreiros das tribos do norte de Omã . Eles respondiam ao fogo dos adoo, mas seus obsoletos fuzis de 7,7 mm não se comparavam aos fuzis de assalto Kalashnikov dos guerrilheiros.

 

Outro ponto sob ataque era uma fortificação maior, ocupada por 25 policiais de Dhotar e situada a 700 m para| nordeste. Junto ao forte havia uma cava (abrindo para artilharia) com um obuseiro para projéteis de 12,5 kg, remanescente da Segunda Guerra Mundial e manejado por um dhofari; o soldado Labalaba, do SAS, nascido nas ilhas Fiji, já havia corrido em seu auxílio. Não havia dúvida de que o firqat teria pouca participação na luta, ainda mais sem a totalidade de seu efetivo. Mais tarde, talvez se mostrasse útil - caso os britânicos ainda estivessem vivos.

 

Nesse momento, a cobertura do edifício começou a ser alvejada por disparos inimigos. Os cabos Pete Wignall e Roger Chapman respondiam ao fogo, manejando as metralhadoras pesadas ali instaladas - uma GPMG (general purpose machine gun, metralhadora de uso geral) e uma Browning de 12,5 mm. 

 

Outro  homem, o cabo Harris, operava um morteiro instalado dentro de uma cava, ao pé da Batthouse. Era tudo o que os britânicos podiam opor ao formidável poder de fogo da guerrilha. A chave da resistência era, sem dúvida, o quartel fortificado da polícia e, em especial, o sítio da peça de 12,5 kg. Se os rebeldes capturassem a arma e a utilizassem contra os defensores de Mirbat,  não haveria sentido em continuar a luta. 

 

O rádio de curto alcance estava a cargo do soldado Savesaki, também nascido nas ilhas Fiji. Ele informou ao capitão que Labalaba tinha recebido um tiro no queixo; seria possível levar-lhe ajuda médica? Kealy concordou, embora fosse necessário correr 700 m em terreno descoberto. Mas Savesaki, excelente jogador de rúgbi, partiu a toda velocidade, desviando-se das balas como se fossem jogadores do time adversário. Momentos depois mergulhava no poço do morteiro, exausto, mas ileso.

 

Logo em seguida, os britânicos avistaram grupos de guerrilheiros bem armados avançando para a cerca de arame farpado que protegia três lados do campo fortificado. Os adoo abriram fogo com armas automáticas, enquanto seu equipamento pesado castigava o forte da polícia com efeito devastador. Nesse momento, o profissionalismo do SAS mostrou toda a sua importância. Na cobertura da Batthouse, Wignall e Chapman despejaram mortífera barragem sobre a vanguarda dos guerrilheiros. Atiravam rápida e precisamente, pedindo, aos gritos, mais munição; a chuva fazia fumegar os canos de suas metralhadoras. Dezenas de guerrilheiros atingiram o limite do perímetro - mas não é fácil atravessar um obstáculo de arame farpado, sob fogo inimigo. Os homens se debatiam presos no arame, e Bradshaw os derrubava com seus tiros de fuzil. Mas muitos conseguiram passar, e correram para o forte.

 

Nesse momento, Kealy percebeu que, na confusão, esquecera-se totalmente do rádio de longo alcance, único meio para conseguir reforços. Contatando o quartel-general em Salalah, requisitou o envio de um helicóptero com equipe médica para transportar Labalaba. Pediu também que os Strikemaster atacassem os guerrilheiros. No entanto, com o teto de nuvens tão baixo, havia pouca possibilidade de os jatos chegarem a tempo.

 

Por volta das 7h, apesar da grande bravura dos guerrilheiros e dos danos infligidos ao quartel policial, era evidente que a fase mais crítica ficara para trás. O assalto inicial fora detido por uma combinação de coragem (a arrancada de Savesaki para o poço do morteiro) e experiência de combate, em particular pela precisão dos tiros de morteiro e metralhadora que haviam dizimado os adoo.

 

No entanto, a equipe do SAS ainda estava em grave perigo. Preocupados, os homens verificaram que o sítio do morteiro não respondia às repetidas chamadas pelo rádio. Kealy ordenou a Bradshaw gue assumisse o comando na Batthouse, enquanto ele e o soldado Tobin investigavam o motivo do silêncio. Com um sorriso, Bradshaw apontou para os pés do capitão: ele ainda estava de chinelos. Embaraçado, .Kealy desceu para o alojamento e calçou as botas.

 

O capitão Kealy e o soldado Tobin aproximaram-se do quartel policial por um wadi (o leito seco de um rio) que se estendia por trás da Batthouse. Avançavam tensos, prontos a disparar. Quando passavam perto de uma lavanderia, um velho aproximou-se e insistiu em apertar-lhes a mão: foi necessário esguecer por um instante o combate e cumprimentar o civil, um atraso gue os obrigou a fazer os últimos metros do percurso sob o fogo dos guerrilheiros. Kealy abrigou-se num depósito de munição das proximidades, enquanto Tobin chegava em segurança ao poço do canhão. O soldado aplicou soro intravenoso no artilheiro dhotari, gravemente ferido, e Labalaba arrastou-se até Kealy, para dizer-lhe que Savesaki, apesar de ferido nas costas, cobria a aproximação do lado esquerdo do forte.

 

Nesse momento ocorreu uma enorme explosão. Logo depois, Savesaki avisou, aos gritos, gue novos grupos rebeldes haviam penetrado pelo arame farpado e avançavam contra eles. Era o início da segunda fase crítica da batalha de Mirbat.  Apesar dos ferimentos, Labalaba continuava a operar o canhão de 12,5 kg. No entanto, após disparar um projétil contra os adoo e enquanto pegava nova carga, foi atingido por uma bala, morrendo instantaneamente. Kealy abateu à gueima-roupa um atacante e verificou, com alívio, que Tobin passara a operar a peça de artilharia. Segundos depois, o soldado caía, vítima de um ferimento fatal.

 

Pelo rádio, o capitão solicitou gue Bradshaw dirigisse o fogo de morteiro e de metralhadora contra O grande número de inimigos gue investia em direção ao forte. O cabo recebeu a mensagem e informou gue o apoio aéreo já estava a caminho. Depois, orientou o fogo das metralhadoras pesadas. A utilização do morteiro, porém, era mais difícil, pois a distância demasiado curta impedia gue os projéteis caíssem com precisão sobre os atacantes.

 

Enguanto Bradshaw dirigia o fogo de apoio, uma granada rolou vagarosamente pela borda do poço do canhão junto ao forte. Kealy preparou-se para a morte inevitável - mas a granada não explodiu. Logo em seguida, chegaram os jatos Strikemaster, voando a baixa altitude e disparando seus canhões sobre os guerrilheiros.

 

O atague aéreo mudou a sorte da batalha. Kealy e Bradshaw passaram a orientar as aeronaves para os pontos críticos, de modo a infligir o máximo de danos ao inimigo. As 9hl5, os aviões concentraram seu fogo contra as armas pesadas de apoio da guerrilha, posicionadas em Jebel Ali. Foi nesse momento gue os remanescentes do firqat entraram em açâo contra os guerrilheiros.

 

Logo depois, os defensores da cidade receberam apoio ainda mais decisivo. No dia anterior, 23 homens do Esguadrão G do SAS haviam desembarcado em Omã . Estavam prestes a iniciar um período de treinamento nas montanhas guando foram informados da situação dos companheiros. No mesmo momento, seguiram em helicóptero para Mirbat e desembarcaram nas praias a sudeste da cidade, entrando imediatamente em combate. Diante da ferocidade do atague - o Esguadrão G estava eguipado com nove GPMG -, os guerrilheiros foram obrigados a recuar. Era o fim do assalto a Mirbat.

 

O Esguadrão B do SAS perdeu dois homens em Mirbat, os soldados Labalaba e Tobin. Dois outros sofreram ferimentos graves. Encontraram-se no campo de batalha os corpos de trinta guerrilheiros, e muitos feridos morreram no hospital. Foi uma batalha decisiva, pois a magnífica demonstração de coragem e profissionalismo do SAS mudou o curso do conflito em Dhofar: se a cidade fosse capturada, a credibilidade do novo governo entraria em colapso.

 

Nos meses seguintes, as equipes do SAS continuaram a organizar ex-guerrilheiros e a levar a luta aos redutos do inimigo nas montanhas. As relações entre as tropas regulares e os firqat nunca foram tranqüilas, e o sistema recebeu inúmeras críticas. No entanto, sem a presença dos firqat, a gradativa erosão do apoio popular à guerrilha teria sido muito mais lenta, e a ofensiva das forças governamentais para o oeste, bem mais difícil.

“Corações e Mentes”

 

Militar do SAS conversa com a população local

 

O Alto-Comando do 22 SAS, com sua longa experiência em operações antiinsurreições, sabia que a chave da vitória estava na capacidade de conquistar a confiança da população de Dhofar. O descaso e a hostilidade do sultão anterior para com os problemas de educação, assistência médica, construção de estradas ou introdução de melhorias materiais tinham deixado o governo sem nada para oferecer ao povo. Medidas punitivas contra aqueles que apoiavam os guerrilheiros, como incêndios de aldeias inteiras, haviam apenas fortalecido a resistência. Mas o sultão Qabus anunciou uma série de projetos de desenvolvimento em Dhofar e ofereceu anistia a todos os rebeldes que quisessem mudar de lado. A nova política encontrou resposta imediata. Começou um crescente fluxo de desertores para o lado do governo.

 

Depois que o SAS e os Firqats tinham se estabelecido no djeble, o Regimento começou a executar  as operações de “Corações e  Mentes”  com o objetivo de ganhar o apoio dos dhofari. O SAS já era bem treinado neste tipo de guerra psicológica, depois de suas experiências na Malásia e em Borneo.


O SAS foi até as comunidades dos dhofari nas montanhas, para explicar que seria melhor se aliar com o novo Sultão do que com os comunistas, que eram contra o Islã e Maomé. O SAS encorajou a liberdade religiosa para os dhofaris, ao contrário dos comunistas que procuravam proibi-la. Por respeitar a devoção dos árabes ao Islã, os soldados do SAS ganharam o respeito dos árabes que eles encontraram.

Os homens do SAS também ganharam a simpatia dos dhofari especialmente quando começaram a oferecer ajuda médica. Aos médicos do SAS foi permitido tratar dos homens e até das mulheres, que era algo previamente proibido. Os médicos montaram muitas clínicas por todo o Dhofar. 

Operações Finais

 

Com o passar do tempo o apoio externo ao regime do sultão na luta contra os adoo aumentou, e as forças que lutavam contra os guerrilheiros chegaram a quase 15.000 homens. A Jordânia enviou um batalhão de forças especiais e um destacamento de engenheiros, o Paquistão contribuiu com cerca de cem oficiais. O Irã teve uma participação expressiva neste conflito, quando recebeu da Grã-Bretanha a responsabilidade de controlar parte do Oriente Médio. O xá do Irã já tinha enviado tropas e equipamentos a partir de fins de 1972, chegando ao máximo de 2.400 homens, com artilharia, e apoio naval. Mas o SAS sempre constituiu, sem dúvida, a espinha dorsal de todas essas forças. Quando as tropas regulares encontravam problemas, o SAS era sempre chamado.

 

Os guerrilheiros esperavam que um levante na província de Omã  pudesse alastrar suas atividades para fora de Dhofar. Mas as rebeliões em Omã , que começaram em 1970, tiveram sempre pequena escala e foram totalmente debeladas em 1974.

 

Em agosto de 1974 o Brigadeiro John Akehurst chegou a Omã para comandar a Brigada reforçada de Dhofa, formada por 10.000 homens. Ela era constituída por 24 carros blindados Saladin, da Imperial Força Tarefa Iraniana (1.500 homens), por cinco batalhões das FAS com 12 oficiais britânicos por batalhão, 40 peças de artilharia, incluído armas de 25 libras e 105 mm, três esquadrões dos Reais Engenheiros e um Esquadrão do SAS, além de várias unidades de apoio com assessores britânicos.

 

Em janeiro de 1975 as FAS realizaram uma operação contra à base de suprimentos da guerrilha nas cavernas de Shershitti. O ataque partiu de uma posição fortificada do governo conhecida como “posição Defa”.  Essa posição era freqüentemente atacada e normalmente era chamada para dar apoio de fogo e artilharia a outras posições. Depois de um barragem de mais de 2.000 salvas as forças do governo avançaram contra as cavernas.

 

As forças do sultão tiveram dificuldades em realizar a missão ficando expostas ao fogo e finalmente foram cercadas. Elas pediram socorro ao SAS. Equipes do SAS tiveram de combater intensamente durante três dias, para libertar as tropas das FAS emboscadas pelo inimigo.

 

As cavernas não foram tomadas pelo governo até depois da guerra, mas as forças do Sultão negaram aos adoo o seu uso novamente por meio de bombardeamento de qualquer coisa que se movesse próximo as  posições inimigas nas cavernas.

 

Também em janeiro, as forças iranianas apoderaram-se de Rakyhut, com o apoio da FASO, com seus oficiais britânicos e seus navios de guerra, que bombardeavam as montanhas a pouca distância da praia. Foi o começo do fim. Dois meses depois, os britânicos capturaram o espinhaço do monte Dorra. Com isso, a guerra civil praticamente terminou.

 

Em setembro, uma patrulha do SAS foi enviada da 'posição Defa' para neutralizar um Katyusha dos adoo (122mm míssil feito Soviético) que atacava a posição. A patrulha de SAS fez contato com os adoo e se seguiu um combate feroz. O SAS sofreu três baixas. Os adoo também tiveram muitas baixas.

 

Em outubro de1975 o Brigadeiro John Akehurst, montou uma série de movimentos rápidos (para os quais muito contribuíram os helicópteros), usando as FAS, os iranianos e os firqats, comandados pelo 22 SAS, para avançar contra uma série de posições inimigas, que constituía o último bolsão de resistência da guerrilha, próximas a Sarfeet, uma localidade perto da fronteira com o lêmen do Sul.

 

A linha de suprimento dos guerrilheiros como o lêmen do Sul foi cortada e ataques aéreos na fronteira devastaram as baterias da artilharia inimiga. Este foi o golpe final na guerrilha, embora muitos guerrilheiros estivessem dispersos pelo interior do país ou exilados, a espinha dorsal do movimento foi quebrada. Sem estoque de munição para as suas armas, a luta estava acabada. A última vila ocupada pelos adoo foi conquistada em 1º de dezembro de 1975. Dois dias depois o Brigadeiro John Akehurst comunicou ao sultão que o Dhofar estava agora seguro.

 

Em março de 1976, o governo sul-iemenita estabeleceu um acordo com o sultanato, e os guerrilheiros perderam sua "retaguarda" que se mostrara tão importante a partir de 1967. Ocorreram ainda alguns chegues isolados, mas no final de 1976 a última equipe do SAS deixava o território de Omã. As perdas britânicas durante a guerra entre 1970-76 foram de 24 mortos (destes 12 eram do SAS) e 55 feridos. O efetivo do SAS em Dhofar foi sempre reduzido - menos de cinqüenta homens em alguns períodos, e pouco mais de cem nos momentos mais graves.

 

As forças iranianas permaneceram em Omã até 1979, quando a Revolução Islâmica do Ira depôs o xá Rehza Pahievi e trouxe o poder ao aiatolá Khomeini, inimigo dos britânicos. O não-alinhamento do Irã, a tomada do Afeganistão pêlos soviéticos em 1979 (o que lhes permite aproximar-se da margem norte do estreito de Ormuz) e a crescente influência da URSS sobre o lêmen do Sul preocupam os estrategistas ocidentais.

 

Agravada pela Guerra Irã-Iraque, a ameaça de interrupção do fornecimento de petróleo do golfo Pérsico pode aumentar do dia para a noite os preços internacionais desse combustível, abalando a economia mundial. Cortejado por Grã-Bretanha e EUA, o sultão de Omã  manteve oficiais britânicos em seu Exército e permitiu que a Força Aérea americana usasse a base militar da ilha de Massira, a partir de 1980. Nesse mesmo ano foi criada uma Comissão Conjunta Omã-EUA para estimular a cooperação econômica e militar.

Hoje Omã é um país rico: seu quase exclusivo produto de exportação, o petróleo, permitiu uma entrada de  bilhões de dólares em importação. Mas o povo (apesar de já ouvir rádio) ainda estava na miséria, devido à má distribuição da renda, o que contribuía para a persistência da ameaça de instabilidade política.

O sultão Qaboos  demonstrou muito perspicácia nas relações internacionais. Apesar dos anteriores laços militares com o regime do xá, consegue manter relações amigáveis com o Irã pós-revolucionário. Omã  foi único dos países árabes (além do Sudão) a recusar interromper relações diplomáticas com o Egito na seqüência da assinatura do tratado de paz deste país com Israel, em 1979. Mais recentemente, em 1993, o sultão torna-se no primeiro líder do Golfo a receber o então primeiro ministro israelense Itzhak Rabin.

Apêndice:

Os Adoo

 

Os guerrilheiros que enfrentaram a FAS e a BATT ("camuflagem" das equipes do SAS) eram adversários valentes e engenhosos. Seus fuzis de assalto AK-47 Kalashnikov e outras armas modernas fornecidas pelo bloco socialista davam-lhes enorme potência de fogo. Os adoo, como eram conhecidos, constituíam o braço armado da Frente de Libertação de Dhofar, organizada em 1962. Mais tarde, por influência do lêmen do Sul, a FLD integrou-se à Frente para a Libertação do Golfo Árabe Ocupado (FLGAO), de nítida orientação esquerdista. Muitos guerrilheiros foram treinados na URSS e na China e vários jovens de Dhofar receberam instrução ideológica e de táticas de guerrilha no lêmen do Sul. Os  guerrilheiros valeram-se de seu conhecimento do terreno da província (com escarpas íngremes e vales que se cobrem de espessa vegetação nos meses de chuva) para realizar potencializar suas operações. Eles aperfeiçoaram as técnicas de emboscada, atacando unidades das FAS a grande distância e refugiando-se nas montanhas, para escapar à resposta da aviação e da artilharia.

O verniz de marxismo não foi aceito pelas bases da FLD, integradas por montanheses ciosos de suas tradições tribais e devotados ao Islã. Surgiram divergências no movimento rebelde, aproveitadas pelas equipes do SAS que organizavam antigos guerrilheiros em firqat.

No auge da guerra civil os rebeldes mobilizavam provavelmente cerca de 2 mil guerrilheiros, apoiados por uma milícia de 3 mil homens. O armamento de apoio abrangia equipamento portátil soviético, a exemplo do lançador de foguetes RPG-7 e de metralhadoras de 12,7 mm, mas havia peças mais pesadas, entre elas os lançadores de foguetes Katyusha, de 122 mm, e Cari Gustav (de fabricação sueca), de 84 mm. Esta arma foi empregada em Mirbat, onde os acfoo, com enorme bravura, mostraram que podiam desafiar a morte de frente.

Felizmente para as forças do Sultão, a liderança comunista acabou entrando em choque com os chefes tribais, ao procurar combater o fanatismo religioso. Isso indispôs parte da população contra a FPLO.

Paralelamente, os centros de "desenvolvimento civil" do governo, oferecendo água encanada, assistência médica, instrução e proteção, passaram a atrair as tribos. Além disso, à medida que se rendiam, alguns guerrilheiros eram recrutados pelas forças organizadas pêlos britânicos e enviados de volta às montanhas para localizar seus antigos colegas. E a experiência guerrilheira da FPLO acabou sendo usada contra ela própria.

Operador do SAS com turbante armado com um fuzil L42A1 com mira telescópica L1A1. Esse fuzil é basicamente um Nº4 Mark I, de 7,7 mm, modificado para usar munição padrão da OTAN. Ele leva as costas um lança-granadas M79

As Dianas

As Dianas - Eram uma série de posições defensivas ao longo da fronteira sul do Jebel em Oman, construídas entre 1970 e 1976. Cinco Dianas foram formadas e projetadas para impedir que os rebeldes  trouxessem armas de longo alcance para as encostas do Jebel de onde poderiam disparar para baixo na direção da base da RAF perto do povoado de Salaha. As Dianas sofreram constantes ataques e foram defendidas principalmente por pessoal do SAS.

Durante a campanha em Dhofar (1970-76), o governo construiu cinco linhas defensivas para proporcionar proteção para as áreas sob controle de governo. Os linhas eram formadas por cercas de arame farpado, campos minados que protegiam bases militares defendidas por unidades das FAS. As linhas eram: 

       Linha Simba: Guarnecida por um batalhão regular das FAS, apoiado por um Firqat, estava localizado em Sarfait, na fronteira com Iêmen.

       Linha Denavend: Completada em abril de 1975, foi guarnecida por Forças Especiais iranianas que chegaram 1973.

       Linha Hornbeam: Localizada em Mugsayl a 64km do litoral, estava a 1.800 metros do nível do mar. Linha Hammer: Estabelecida em Khaftawt no Jebel, servia como ponto de apoio para a linha Hornbeam, ocupar posições semelhante como a linha Leopard.

        Linha Leopard: Localizada em Khaftawt no Jebel, com três posições defensivas. Mas foi abandonada em meados de 1972, por causa de problemas de reabastecimento durante a estação das monções.

Os Engenheiros Reais tiveram uma participação crucial na campanha. Eles foram usados na construção de defesas e campos minados. A Linha de Hornbeam foi talvez sua façanha maior consistindo em 53 km de cerca de arame farpado e campos minados. Por oito meses a cada ano, havia um Esquadrão dos Reais Engenheiros baseado em Dhofar.

 

Sniper do SAS com turbante armado com um fuzil L42A1.  Nas montanhas do Dhofar, onde o terreno acidentado favorece as emboscadas, a precisão de tira era fundamental par a sobrevivência.

Última versão do Lee Enfield a ver o serviço ativo no Exército Britânico. O L42A1 é um fuzil de 7,62 mm x 51 de operação manual com carregador de 10 tiros. Ele vem equipado com mira metálica. O rifle é equipado com uma mira telescópica No. 32 Mk. 3 convertida para uso de munição 7.62mm.

 

 



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