OPERAÇÃO JABURU III - FICÇÃO

Atenção: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, nomes e obras é mera coincidência.


Carlos David

O velho DC-3 pertencente ao AIR CONDOR fazia um vôo interno na Colômbia com destino a cidade de Letícia. O avião tinha sido fabricado em 1942, na versão militar C-47 e seria enviado para a Inglaterra para participar da invasão da Europa, porém por questões administrativas passou toda a guerra servindo como avião de transporte de pessoal no estado da Geórgia a serviço da USAAF. Depois da guerra foi vendido como excedente de guerra para o México em 1947 e na década de 1950 foi vendido para a Força Aérea da Colômbia. Na década de 1970 foi vendido para a Air CONDOR e transformado para a versão civil, DC-3.

Na sua versão para esta companhia aérea o DC-3 tinha 23 lugares, contando inclusive com um banheiro químico. A tripulação era formada pelo piloto, co-piloto e um comissário de bordo. O DC-3 levava 22 passageiros. Mas algumas vezes a AIR CONDOR retirava algumas cadeiras para transportar carga.

O vôo daquela manhã estava lotado. Entre os passageiros estava o jovem policial de 23 anos, Henrique Mendonza, que foi um dos primeiros a entrar, encontrar o seu assento perto da janela, do lado esquerdo do avião e cair no sono, pois vinha direto de um plantão e tinha pego aquele vôo para não perder a festa de casamento de um primo.

Lá pela metade do vôo Mendonza que estava na terceira fila, acordou com uma risada estridente, meio aborrecido abriu os olhos e viu um homem sair da cabine do piloto. Quando viu o rosto daquela pessoa, alguns metros a sua frente, o seu sangue quase que gelou. A partir dai os pensamentos e as atitudes de Mendonza aconteceram como que num flash. O homem era Fernando Herrera, do Exército de Libertação Nacional, a pessoal que Mendonza mais odiava na vida, pois a três anos atrás Herrera tinham comandando um ataque de punição a aldeia de Mendonza por ela enviar alguns de seus jovens para servirem na polícia colombiana, entre esses estava Mendonza. No ataque morreram os pais e dois irmãos do jovem policial.   

O sangue subiu a cabeça de Mendonza, e ele tomou uma atitude impensada e completamente idiota. Sacou de seu revolver e deu ordem de prisão a Herrera, ali mesmo dentro do avião em pleno vôo. O guerrilheiro ao ver a alma tentou reagir, Mendonza tremendo muito ao ver o guerrilheiro fazer um movimento de sacar uma arma, disparou três vezes. Uma bala passou direto indo atingir o painel de controle do avião. As outras duas atingiram Herrera de raspão no pescoço e no no seu lado esquerdo próximo as costelas.

Mendonza pagou caro por ser impulsivo, pois Herrera não estava só. Com ele viajavam outros dois guerrilheiros: um sentado na última fila perto da porta e alguns assentos atrás de Mendonza e o outro no terceiro assento da fila única da direita, contando da frente para trás. Imediatamente os dois guerrilheiros sacaram de suas armas (ninguém foi revistado no pequeno aeroporto de onde saiu o vôo) e mataram Mendonza. Um senhor de 53 anos de idade, chamado Pablo, foi ferido no ombro, por uma bala que passou a poucos centímetros do rosto de sua filha adolescente.

A gritaria foi geral, pois havia ali mulheres e crianças. Os guerrilheiros com as armas em punho mandaram todos ficarem quietos e levantarem as mãos para cima. Um dos guerrilheiros mandou o comissário de bordo verificar como estava Herrera e Pablo, enquanto dava cobertura para o companheiro que revistava os passageiros em busca de armas. Mas nada nenhuma foi encontrada.

Herrera foi deitado no chão, e Pablo ficou na sua poltrona, aparado pela filha  e o corpo policial morto foi levado para trás do avião. Gonçales, guerrilheiro mais velho foi até o piloto e perguntou como estavam as coisas. O piloto disse que não estava nada bem, tinha perdido com o tiro alguns aparelho importantes e que era melhor pousar logo (mentiu). O piloto também disse que era melhor pousa em lugar neutro pois o policial morto disse que estava indo participar de uma batida no aeroporto de Letícia onde eles iam pousar e não tinha combustível para voltar (mais mentiras). Por isso o melhor seria ir para Tabatinga no Brasil, a 1.105 km de Manaus. O que Gonçales concordou e foi feito. O piloto inventou toda essa conversar porque já tinha visto a Polícia e o Exército colombiano resolvendo um problema de seqüestro com um avião repleto de gente pobre como o seu DC-3 e o resultado não foi nada pacífico.

O SIVAM detectou a entrada do velho DC-3 mas não houve tempo hábil para uma interceptação pela FAB. O piloto entrou em contato com a torre de controle do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes e disse que enfrentava uma emergência humanitária, segundo suas próprias palavras, que tinha pessoas feridas e mortas a bordo, que pousariam de qualquer jeito e que precisava de uma ambulância urgentemente esperando por seu avião. Tão logo o avião pousou e foi direcionado pAra uma área reservada, uma ambulância se aproximou. Entre os paramédicos estava um policial federal disfarçado, que foi até o local para avaliar a situação. 

O que ele viu não foi nada bom: Duas caras mascarados com lenços e armados de pistolas dominavam o avião; havia sangue pelo chão; dois homens estavam feridos, um deles quase inconsciente; e para piorar, um cara morto estava estendido nos fundos do avião. 

Pelo rádio o pessoal ambulância pediu que uma camioneta fosse enviada para pegar o morto, enquanto os dois feridos eram transportados para o ambulatório do aeroporto. Na rápida conversa dos enfermeiros com os mascarados, estes últimos disseram que manteriam o avião em seu poder até que o seu companheiro fosse medicado e voltasse, para eles prosseguirem viagem. De passageiros, os guerrilheiros das FARC se transformaram em seqüestradores.

O COT acionado

De volta ao terminal do aeroporto o policial federal entrou em contato com o Exército e fez uma ligação para a sede da Policial Federal em Tabatinga. Imediatamente forças do Exército que estavam na cidade tomaram o Aeroporto de assalto por medida de segurança. Da sede da Policial Federal em Tabatinga partiu um telefonema para a sede do Departamento de Policial Federal em Brasília e de lá foi feita uma outra ligação para o Comando de Operações Táticas - COT.

Olá Fernando, como vão as coisas? Tenho uma missão para vocês! – Falou o Diretor-geral da Polícia Federal para o delegado Fernando Tavares, coordenador do Comando de Operações Táticas.

São os "piratas" de Tabatinga?

Isso mesmo Fernando. Prepare a equipe de plantão, e a envie para lá imediatamente. O caso está dento de nossa jurisdição e vamos tentar resolvê-lo sem muito alarde.

Estou acionado a equipe Alfa agora. 

Tão logo foi acionada a equipe de plantão, logo após os seus privativos se dirigiu para o Aeroporto de Brasília e foi enviada diretamente para Tabatinga. O pessoal do COT chegou a Tabatinga no inicio da noite. A equipe Alfa era comandada por um delegado (Adriano Mendes) e seus agentes estavam divididos em duas equipes: a equipe de assalto e a equipe de atiradores de elite.

O delegado Adriano ao chegar conversou com o um major do Exército, responsável pela segurança do aeroporto, e o policial federal de plantão no local. O delegado Adriano descobriu que o negociador local da Policia Federal conseguiu que os seqüestradores libertassem todas as mulheres e crianças perto do início da tarde, em troca de comida, e como uma demonstração de boa vontade. O policial também disse que os seqüestradores ficavam todo tempo falando no rádio querendo notícias do companheiro ferido, ansiosos para irem embora e que a coisa dentro do avião tava feia. Não havia central de ar e o banheiro químico quebrado. As janelas do avião estavam sempre abertas e quem tinham alguma necessidade fazia num balde que era depois colocado na pista e recolhido pelo pessoal de serviço do aeroporto.

Diante das informações, Adriano espalhou os seus atiradores pelo perímetro, enquanto a equipe de assalto se preparava para uma possível invasão da aeronave. Por falar em aeronave, o COT nunca tinha treinado para invadir um DC-3. Os operativos do COT tinham treinado como invadir aviões do tipo 737, 727, Bandeirantes, Brasílias e Fokker F-27 e 100, e o COT se preparava para treinar em aviões 747 e DC-10, mas um DC-3 não foi previsto no treinamento.

Interior de um DC-3

Por isso dois dos operativos da equipe Alfa, que faziam parte  da equipe de assalto, em vez de desembarcarem com o resto da equipe em Tabatinga tinha ido para o aeroporto de Tefé, estudar um velho DC-3 que estava lá e poderem descobrir como entrar e sair do mesmo, além de ver questões sobre dimensão da aeronave, espaço do corredor, dimensão das janelas, pontos cegos, etc.

Os dois agentes chegaram a Tabatinga por volta das 21:15h com os dados sobre o DC-3, inclusive com fotos e vídeo, numa câmera digital. Até aquele momento o estado de saúde do guerrilheiro baleado estava crítico, ele tinha sido levado para o hospital do Exército, enquanto Pablo recebido alta. Os seqüestradores estavam cada vez mais nervosos e chegaram a acenar com suas armas para a torre de controle. Algumas mulheres libertadas no início da tarde disseram que os seqüestradores pareciam drogados e estavam muito agitados. Elas também disseram que não viram em posse dos seqüestradores explosivos, granadas ou sub-metralhadoras. Só pistolas automáticas.

Por volta das 23:40h os seqüestradores visivelmente cansados e impacientes, disseram pelo rádio que só esperavam até às 07:00h do dia seguinte para que o seu colega fosse entregue com vida no DC-3 para eles prosseguirem viagem. Disseram também que queriam que o avião fosse reabastecido, que um representante das FARC estivesse presente e que uma sacola com U$ 100.000 deveria ser entregue a eles logo de manhã. Se suas exigências não fossem atendidas iriam matar um refém a cada 15 minutos.

O quadro começou a se complicar cada vez mais. As 02:27h o guerrilheiro Herrera morreu, e os seqüestradores não iam acreditar nesta notícia. Também pela manhã não haveria dinheiro nenhum, e muito menos o representante das FARC. Os guerrilheiros sabiam que não tinham nenhuma chance, tinham participado de um assassinato e praticado o crime de seqüestro, e que não tinham nenhuma possibilidade de conseguir um asilo político no Brasil com esses crimes nas "costas".

O delegado Adriano entrou em contato com o Diretor-geral da Polícia Federal ainda de madrugada e disse que os caras não iam ceder, o negociador estava muito preocupado pois os seqüestradores estavam nervosos e que podia haver um banho de sangue. Por tudo isto Adriano pediu permissão para invadir o avião logo no início do dia. O Diretor-geral da Polícia Federal disse que tinha que consultar o Ministro da Justiça, e que logo ligaria de volta.

20 minutos depois Adriano recebeu um ligação:

Adriano, aqui é Macedo! – Falou o Diretor-geral da Polícia Federal. – A operação de retomada da aeronave está autorizada, repito, a operação de retomada da aeronave está autorizada!

Sim senhor, ouvido e entendido. Ela acontecerá por voltas das 05:45h quando a maioria dos reféns ainda estiverem dormindo e apenas os seqüestradores e talvez o piloto estiverem acordados, depois de um rádio que vamos passar para o avião. 

Cuidado para não atingir o piloto, tá certo?!

Não se preocupe a operação será a mais limpa possível.

Muito bem, façam um bom trabalho e tenham cuidado. Boa sorte!

Obrigado senhor!

Após a ligação Adriano se reuniu com a Equipe Alfa, com o encarregado dos serviços de emergência e os comandantes militares encarregados do contingente do Exército e da FAB que estavam no local. Passou a todos eles a ordem recebida do Diretor-geral da Polícia Federal. Os militares perguntaram como podiam ajudar no resgate e Adriano disse que o COT podia cuidar disso, pedia apenas que os militares reforçassem a segurança. Disse também que as ambulâncias deviam ficar a postos para uma eventual necessidade. Em separado em uma sala reservada, Adriano passou com a Equipe Alfa e o negociador a estratégia de assalto. 

O resgate

Às 05:30 todos estavam em posição. Os snipers tinham relatado que todos estavam dormindo no avião a exceção de um seqüestrador. Os atiradores de elite disseram que os seqüestradores revezaram a noite toda na guarda da aeronave em turnos de três horas, e que pelas contas, o cara que estava de guarda no momento, o segundo em comando dentro do DC-3, estava chegando ao fim de seu turno e já começava a dar umas boas cochiladas. 

O negociador já estava na torre de controle desde às 05:00h e exatamente às 05:45h entrou em contato com o DC-3. A Equipe de Assalto se colocou bem atrás do avião, enquanto os snipers esquadrinhavam a aeronave.

Quando o rádio chamou o seqüestrador de plantão chamou o seu colega, que por sua vez chamou o piloto. O piloto e o líder do seqüestro fora para a cabine e o seqüestrador sentou no assento do co-piloto. Os atiradores de elite do COT, que estavam armados com um Remington 700 Police, não acreditaram no que viram. Imediatamente o sniper que cobria a cabine do avião entrou em contato com Adriano, que estava observando a aeronave através de um potente binóculo.

Líder Alfa, aqui Trovão Um, câmbio!

Aqui Líder Alfa, pode falar Trovão Um!

Alvo Um, na cabine do piloto, livre para tiro, peço permissão!

- Aguarde!

Trovão Dois, aqui Líder Alfa. Como está o Alvo Dois?

Semi-encoberto, mas está no corredor, na entrada da cabine do piloto!

Equipe de Assalto, qual sua situação?

Aqui Delta Um, estamos em posição, a porta de entrada está preparada, estamos prontos!

Aqui Líder Alfa, para atiradores, confirmem alvos!

Trovão Um, pronto para tiro!

Trovão Dois, alvo semi-encoberto!

Trovão Três, nenhum alvo!

Aqui Líder Alfa, na contagem de Delta Um, Trovão Um e Equipe de Assalto executam.

Todos prenderam a respiração, enquanto o negociador estava enrolando o seqüestrador com detalhes sobre o pagamento, se podia ser feito em outra moeda que não fosse o dólar, e coisas do tipo. 

Aqui Delta Um, iniciando contagem. Três, dois, um. Executem, executem, executem.

O seqüestrador que falava no rádio levou um tiro bem na cabeça do seu lado direito e desmoronou. Quando o seu companheiro olhou para dentro da cabine para entender o que tinha acontecido não percebeu que a Equipe de Assalto entrou no avião como um tufão que tomou conta do corredor da aeronave. 

Os primeiros homens do COT que entraram no avião estavam armados com pistolas automáticas de 9mm, pois o espaço lá dentro era muito apertado. O homem da frente "deu de cara" com o segundo seqüestrador que usava um lenço para cobrir o rosto, facilitando assim a sua identificação. Imediatamente o agente federal disparou dois tiros na cabeça do seqüestrador matando-o imediatamente.

Os reféns acordaram com o barulho e ficaram assustados com aquelas figuras negras, de capacete e com armas em punho. Mas um agente imediatamente disse.

Somos da Polícia Federal, vocês estão salvos, vocês estão livres!

Imediatamente todos foram retirados do avião e enviados, sob a guarda dos operativos do COT, para uma aérea reservada onde foram submetidos a exames médicos, entrevistas e checagem de identidade, inclusive com cruzamento de dados com a Interpol. Ninguém queria deixar escapar um assassino, terrorista ou traficante procurado, depois de tê-lo em suas mãos. Ninguém com problemas com as justiça foi encontrado e todos foram mais tarde liberados para voltar a Colômbia em um avião fretado pelo governo daquele país.

Enquanto os reféns eram examinados, operativos do COT filmavam e tiravam fotos de várias partes do avião (interior e exterior) e dos seqüestradores mortos, para posterior estudo, porque o sucesso de uma unidade de elite é se aprimorar de forma constante, sempre tentando se antecipar ao inimigo e sobrepujá-lo em técnica e força.