CAMUFLAGEM - PARTE I


O termo camuflagem vem de camoufler, palavra em francês que quer dizer "a véu cego." A camuflagem tem o objetivo de encobrir, ocultar ou disfarçar um objeto, da visão normal, de algo ou de alguém. Por iss a camuflagem tem o objetivo de esconder ou disfarçar a aparência de tropas, armas, navios, aviões, equipamentos, ou estruturas militares do inimigo.

Uniformes

A camuflagem não era muito usada antes do século XX pelos exércitos. As primeiras unidades que se tem notícia que usaram cores em sombras pardas de marrom e verde foram as unidades irregulares de esclarecedores do século XVIII nos EUA. Exércitos mais importantes relutavam em retirar suas cores até serem convencido pela dura realidade dos combates. Mas não eram poucos as forças militares que normalmente adotavam uniformes bem vistosos, com cores fortes, chamativas e até brilhantes.

O objetivo dessas cores era intimidar o inimigo, atrair recrutas, nutrir a coesão da unidade, e é claro permitir uma identificação mais fácil das unidades amigas durante uma batalha, pois era muito fácil em meio a tanta fumaça dos campos de batalha, um general perder as suas tropas de vista. Quando se adotavam pinturas, como no caso dos indígenas, elas eram mais para ressaltar os guerreiros e tinham muitas vezes aspectos religiosos.

O uso de penas e peles de animais (em especial de ursos, leopardos e leões) também era bem comum no passado. Porém se tinham exceções é claro, como por exemplo os ninjas, que não formavam uma força militar, mas adotavam normalmente o preto em toda a sua vestimenta, visto que a maior parte de suas ações de combate aconteciam a noite. Porém não podemos esquecer que em certas situações no passado, como emboscadas, os soldados procuravam se ocultar usando a vegetação. Mas nos grandes campos de batalha o comum era os generais ocultarem as suas tropas da visão inimiga, escondendo-as atrás de alguma colina ou em uma floresta.

Com o passar do tempo algumas cores básicas surgiram para substituir os uniformes brilhantes, como a cor vermelha, azul e verde. Um pouco mais adiante duas cores básicas foram adotadas pela maioria dos Exércitos, elas eram a cor verde e o cáqui. É bom frisar que o surgimento do rifle de repetição, das metralhadoras e de peças ligeiras de artilharia, também foram fatores que influenciaram a adoção de cores menos visíveis no campo de batalha, visto que o soldado usando cores chamativas podia ser visto a distância e atingindo aonde se encontrava pela exatidão do fogo inimigo, que tinha uma melhor alcance que os velhos mosquetes.

A primeira delas ficou conhecida como Rifle Green, que é uma precursora do material conhecido hoje como verde oliva. O uniforme verde foi adotado pelos carabineiros alemães recrutados entre os homens das florestas e os guarda-caças. Embora a cor verde não funcionasse muito para camuflar, ela estava mais associada simbolicamente as caçadas.

A segunda cor adotada nos uniformes como já falamos foi o cáqui. Os britânicos na Índia em 1857 foram forçados, devido as duras perdas, a tingir suas famosas túnicas vermelhas e calças brancas em tons neutros, inicialmente um lamacento bronzeado chamado cáqui (a palavra Urdu khak para 'empoeirado'). Isto a princípio foi uma medida temporária, porém tornou-se padrão no serviço das tropas na Índia em 1885, para todos o serviço no exterior em 1896 e padrão em todo Exército britânico na Segunda Guerra Boer em 1902, quando todos os uniformes de combate do Exército britânico foram padronizado neste tom.

Os Estados Unidos foram rápidos em seguir os britânicos, adotando a cor cáqui no mesmo ano. A Rússia seguiu, parcialmente esse tendência em 1908. O exército italiano usou grigio-verde ( "verde-cinzento") nos Alpes em 1906 e para todo exército em 1909. Os alemães adotaram o feldgrau ("campo cinzento") em 1910. Outros exércitos retiveram suas cores mais chamativas por mais algum tempo.

No começo da Primeira Guerra Mundial os franceses sofreram perdas pesadas porque as suas tropas usaram a cor vermelha em suas calças como parte de seu uniforme. Isto foi mudado em 1915, parcialmente devido a perdas e parcialmente porque a tintura vermelha era fabricada na Alemanha. O exército francês também adotou uma nova jaqueta "azul horizonte".

O exército Belga começou usando uniformes cáquis em 1915. Os franceses também estabeleceram uma Seção de Camuflagem (Departamento de Camuflagem) em 1915, encabeçada por Eugene Corbin e Lucien-Victor Guirand de Scévola.

Os peritos de camuflagem eram, na maioria, pintores (muitos deles cubistas), escultores, artistas de teatro e etc. Neste tempo os uniformes camuflados não eram fabricados em larga escala, cada um deles era modelado e pintado, e normalmente se destinavam a snipers, observadores avançados da artilharia e outros soldados envolvidos em serviços avançados.

Mais esforço foi posto em ocultar equipamento militares maiores e estruturas militares importantes. Isto porque na Primeira Guerra Mundial foi acrescentada uma nova dimensão da guerra, a guerra aérea e com ela a observação vinda do alto. Por isso o uso de redes camufladas foi importante para ocultar posições militares. Em meados de 1915 a seção francesa tinha quatro oficinas - uma em Paris e três mais perto da frente de batalha - produzindo inclusive lonas camuflagem.

A malha era pintada das mais variadas cores, conforme a necessidade. As unidades de "camufladores" também foram formados na Inglaterra (Seção de Camuflagem estabelecido em tarde 1916 baseado em Wimereux) e nos EUA (Sociedade de Camuflagem de Nova Iorque em abril de 1917, Companhia Oficial UM, 40º de Engenheiros em janeiro de 1918 e o  Corpo de Camuflagem de Reserva das Mulheres) e até também na Alemanha (onde se usou pintores expressionistas),  Itália, Bélgica e Rússia.

A camuflagem adicionada a capacetes era extra-oficialmente popular, mas estes não foram produzidos em massa até que os alemães começaram em 1916 a usar seus stahlhelme (capacetes de aço) em cores verde, dourada ou ocre. Coberturas com pano foram produzidas pouco antes do final da guerra, embora já fossem usadas por volta de 1914. As tropas especializadas, notadamente snipers, podiam receber vários itens de camuflagem, incluindo véus para a cabeça e rifles, e até uma roupa todaSoldado alemão da Divisão Panzer Hermann Goering - 1943, com capa padrão telo mimetico. especial, surgida na Escócia, chamada gillies, que eram as primeiras ghillie suits.

No século XIX, a indumentária do Exército Brasileiro foi influenciada pelos portugueses. Foram adotados uniformes da época da Colônia e do Império. Com a Proclamação da República processaram-se grandes alterações. Surgiram os capacetes, os alamares postiços, as meias-botas e foram restaurados os vincos, as carcelas, as listras e as golas de cor.

Uma curiosidade é que o o primeiro plano de uniformes, lançado após a Proclamação da República e aprovado em 28 de novembro de 1889, em que a cor azul-ferrete dos uniformes do Império foi mantida nos fardamentos de todas as Armas. Entretanto, foram introduzidas substanciais modificações.

As cores das Armas, à época, eram: Infantaria – vermelho, Cavalaria – vermelho e branco, Artilharia – carmesim (vermelho vivo), e Engenharia – carmesim e branco. Em 1903 experimentou-se, pela primeira vez, o brim cáqui e, em 1908, os uniformes sofreram uma reformulação completa. Duas significativas alterações nos planos de uniformes do Exército, ocorreram em 1920 e 1931. Em 25 de agosto de 1920, foi estabelecida a coloração cáqui para a maior parte dos uniformes, o uso de “cintos-talabartes”, botas com esporas e perneiras.

Em 04 de dezembro de 1931, foram feitas modificações com a finalidade de “distinguir o Exército de qualquer outra coletividade e evitar a maior ou menor semelhança de seus uniformes com o de outras corporações, prejudicial ao prestígio do Exército e perniciosa à sua boa disciplina”. Entre as modificações estava a substituição dos galões (“laço húngaro”) dos uniformes dos oficiais por estrelas.

A semelhança aludida era referente ao fardamento das Forças Públicas Estaduais – atuais Polícias Militares – também cáqui. Nascia, assim, a cor verde-oliva para os uniformes do Exército. Os uniformes verde-oliva para distinguir nosso Exército permanecem em vigor, mesmo com as alterações efetuadas por ocasião da participação do Exército na Força Expedicionária Brasileira, sob o comando do Exército dos Estados Unidos da América, pois neste conflito os brasileiros adotaram o modelo de uniformes americanos.

A primeira produção em massa de material militar de camuflagem foi o telo mimetico (' pano de camuflagem')  italiano padrão de 1929, que era uma rede que cobria um abrigo, uma idéia copiada pelos alemães em 1931. Com a produção em massa de tecidos camuflados, eles tornaram-se muito mais comuns, e puderam ser usados por soldados normais durante a Segunda Guerra Mundial, porque inicialmente a camuflagem era algo incomum, especial, para ser usada somente por unidades de elite.

O telo mimetico tem duas características especiais foi o primeiro tecido camuflado produzido em massa e o que teve o uso continuado mais longo, indo até 1990. É um padrão de três cores verde médio, vermelho-amarronzado e amarelo ocre. Originalmente fabricado para abrigos em 1937 foi destinado a produção de uniformes para os pára-quedistas italianos. 

Uniformes da Segunda Guerra Mundial

Equipe de snipers soviéticos. Dois deles são mulheres.

O Exército Vermelho emitiu termos padrões de uniformes camuflados para franco-atiradores em 1937, mas só foram de fato usados em larga escala quando começou a Segunda Guerra Mundial.

Os alemães tinham experimentado antes da guerra em algumas unidades do exército uma camuflagem splittermuster "padrão de lasca".

A pesquisa deste padrão foi financiada pelo partido Nazista em 1931. Esse padrão foi adotado em 1942 pelo Exército, um ano depois que a Luftwaffe o recebeu.

Porém o padrão geral dos uniformes alemães foi o feldgrau - field gray (verde acinzentado) até o final da guerra. Já o padrão geral das tropas de campanha da Luftwaffe era um uniforme azul acinzentado. As tropas panzer no início da guerra usavam uniformes negros e as tropas pára-quedistas passaram a usar uniformes camuflados a partir de 1941.

As unidades de combate Waffen-SS experimentaram vários padrões, incluindo o platanenmuster ("padrão de palma") de quatro cores criado em 1938, sumpfmuster ("padrão de paul"), erbsenmuster ("padrão de ervilha"), e também o telo mimetico usando tecido capturado das tropas italianas desarmadas em 1943 - as divisões 1.SS-Panzer-Division Leibstandarte SS Adolph Hitler e 12.SS-Panzer-Division Hitler Jugend que participaram do desarmamento dos italianos freqüentemente usaram este padrão. 

Os italianos como já vimos foi o primeiro pais a produzir tecidos camuflados em massa em 1929, o telo mimetico  de três cores. Em 1942 ele foi adotado nos uniformes de combate italianos.

Porém os italianos usam uniformes monocromáticos no deserto, e quando a Itália passou para o lado Aliado em  1943 suas tropas adotaram o modelo de uniforme americano do Exército na Europa.

Na verdade os alemães se tornaram uma referência em padrões de camuflagem, pois adotaram padrões variados baseados em árvores, folhas, etc. Pelo fim de Guerra em 1945 os alemães pretendia adotar para todas as tropas o padrão de leibermuster cinco cores, bem melhor, mas isso não foi possível. 

Os russos emitiram pedidos de fabricação de uniformes completamente brancos em 1938, e começou um uso limitado de um tecido de duas cores tipo "amoeba" no mesmo ano. Este padrão foi usado até os anos 1950.

Durante a Segunda Guerra outros padrões foram usados incluído o "leaf" (1940), e o "TTsMKK" (1944) de três cores. Porém a maioria das tropas soviéticas usou uniformes monocromáticos marrons.   

Na Segunda Guerra o Japão adotou um uniforme monocromático cáqui mostarda. alguns tinham até alças especiais para ajudar a prende galhos de arvores nas operação nas florestas.

Os britânicos não usaram uniformes camuflados até 1942, quando adotaram a túnica camuflada Denison para os seus pára-quedistas. Porém a principio a Denison foi projetada para ser usada pelos homens do Special Operations Executive (SOE), que era responsável em treinar e coordenar operações de resistência nos países ocupados pelos nazistas.

O corte se assemelhava as peças de roupas normais de um trabalhador francês, e suas cores marrom não eram permanentes, podendo ser facialmente retiradas com uma lavagem, de modo que o pessoal do SOE podia se fundir com a população local, durante as suas fugas. Um segundo modelo da Denison foi projetada para as tropas pára-quedistas, Commandos e até o SAS também usou esta túnica. Esse modelo tinha cores permanentes, e foi adotado para substituir um traje pára-quedista que imitava o modelo alemão Knochensack ('sacola de osso'). A Denison continuou em serviço nas forças britânicas até o inicio dos anos 1980  

Após 1942  os britânicos foram bem pródigos na produção de material camuflado com o seu Camouflage Development and Training Centre localizado em Farnham Castle. Apesar disto os britânicos não tinham produzido uniformes camuflados em grande quantidade para o combate na selva, e os famosos Chindits lutaram com uniformes verdes oliva padrões. 

Em 1942, o Exército dos Estados Unidos emitido um pedido de um macacão com um tecido dupla fase camuflado para uso nas praias (ênfase na cor marrom) e selvas (ênfase na cor verde do Teatro do Pacífico. Pouco depois, os USMC emitiram um pedido semelhante para uso na selva. Apesar de pequenas diferenças nos uniformes, o tecido usado por ambos era praticamente o mesmo, com um padrão de camuflagem verde em um lado e um padrão marrom no outro.

Os dois padrões tinham cinco cores tipo 'caçador de pato'. Mas não eram muito eficientes, e só funcionava mesmo quando o soldado ficava imóvel. Os soldados reclamaram que o macacão era uma desvantagem quando se precisa desempenhar funções em que se devia usar pouca roupa, deixando os soldados vulneráveis a sanguessugas e espinhos. Por isso foram produzidas calças e túnicas camufladas nestes padrões pelo inicio de 1943, além de muitas outras peças incluindo cobertura para capacetes, abrigos, camisas, mochilas, etc. Muito marines as vezes usavam capacete e túnica camuflada.

Embora a camuflagem de selva dos EUA foi desenvolvida para uso no Teatro do Pacífico, ela também foi usada na Europa por algumas unidades, mas devido a sua semelhança com os padrões das Waffen-SS corria-se o risco de "fogo amigo" como aconteceu na Normandia. Esse  padrão também foi usado durante a Guerra da Coréia.

Os americanos também usaram outros padrões camuflados menos famosos no Teatro da Europa, especialmente com suas tropas de pára-quedistas e algumas unidades de infantaria. Porém na sua maioria os soldados que lutaram na Europa usaram uniformes de um só tom.

PARTE II


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Assunto: Camuflagens