Operação Neptune Spear (Arpão de Netuno) - Killer Bin Laden


Depois de 3.519 dias, duas guerras (Afeganistão e Iraque) e 1,18 trilhão de dólares em gastos militares, "a justiça foi feita". Foi assim que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou a morte do homem mais procurado do planeta, o terrorista mais famoso da história e o mandante do maior atentado já cometido no mundo. O saudita Osama bin Laden, de 54 anos, foi executado com um tiro na cabeça, numa operação militar realizada nos arredores de Islamabad, capital do Paquistão, a poucos meses do décimo aniversário do 11 de Setembro.

No dia 01 de maio de 2011, Osama Bin Laden, foi eliminado por operadores do US NAVY SEALS pertencentes a ultra-secreta unidade antiterrorista DEVGRU (United States Naval Special Warfare Development Group), ou como são informalmente chamados, Seal Team Six (ST6), da Marinha dos EUA.

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Cinco operações de decapitação dos EUA realizado durante um período de 92 anos desde
precedência histórica para responder as questões acima. Os cinco estudos de caso são:
• general Emilio Aguinaldo, Filipinas 1901
• Francisco "Pancho" Villa, México 1916
• Almirante Isoroku Yamamoto, Japão 1943
• General Manuel A. Noriega, Panamá 1989
• Pablo Escobar, Colômbia, 1993

http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://fedgeno.com/documents/military-decapitation.pdf&prev=/search%3Fq%3Dgeronimo%2Bpancho%2Bvilla%2Byamamoto%26num%3D100%26hl%3Dpt-BR%26safe%3Doff%26prmd%3Dimvnso&sa=X&ei=IzFuUM_4Dozg8ASbh4DQBQ&ved=0CEQQ7gEwAw

http://fedgeno.com/documents/military-decapitation.pdf

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Determinação política

Um mês antes da eleição presidencial de 2008, Obama, então senador por Illinois, foi a um debate contra John McCain na Universidade Belmont, em Nashville. Uma mulher na platéia perguntou a Obama se ele estaria disposto a perseguir os líderes da Al Qaeda dentro do Paquistão, mesmo que isso significasse invadir uma nação aliada. Ele respondeu: "Se tivermos Osama Bin Laden em nossa mira e o governo paquistanês for incapaz, ou não quiser livrar-se dele, então eu acho que nós temos que agir e vamos buscá-lo. Nós vamos matar Bin Laden. Nós vamos esmagar a Al Qaeda. Que tem que ser a nossa maior prioridade de segurança nacional." McCain, que muitas vezes criticou Obama por sua ingenuidade em assuntos de política externa, caracterizou a promessa como tolice, dizendo: "Eu não vou telegrafar meus socos."

Quatro meses depois de Obama tomar posse, Leon Panetta, Diretor da CIA, informou ao presidente sobre as últimas iniciativas da agência para localizar Bin Laden. Obama não ficou muito impressionado. Em junho de 2009 o Presidente redigiu um memorando para Panetta ordenando que ele elaborasse um “plano operacional detalhado” para localizar o dirigente da Al Qaeda, e “que assegurasse que todos os esforços tinham sido feitos”. O presidente intensificou um programa secreto da CIA, o de aviões não-pilotados; houve mais ataques com mísseis contra o Paquistão no primeiro ano de Obama do que nos oito anos de George W. Bush. Os terroristas logo notaram a diferença. Um comunicado da Al Qaeda interceptado e transmitido pela CBS relatava que a situação estava séria e culpava “espiões que tinham se espalhado pela terra como gafanhotos”. Apesar disso, Bin Laden continuava em local ignorado.

Em agosto de 2010, Panetta voltou com melhores notícias. Os analistas da CIA acreditavam ter identificado o correio de Bin Laden e o local onde estava Bin Laden. Obama se entusiasmou com as notícias, mas ele ainda não estava preparado para agir. John Brennan, seu assessor para assuntos de contraterrorismo, falou que os conselheiros do presidente examinaram os dados para ver se “podiam refutar a teoria de que Bin Laden estava ali”. Ao terminar o ano de 2010, Obama ordenou que começassem a explorar as opções de uma ação militar.

A "Estrada para Abbottadab"

Há muitos anos que os serviços de inteligência dos EUA realizavam uma caçada frenética contra Bin Laden. Nos preparativos da missão que eliminou Bin Laden o pessoal da CIA contou para os operadores do DEVGRU como foi que encontram o líder d Al Qaeda, o chamada "caminho de Abbottabad". A cidade de Abbottabad, localizada nas colinas da serra de Pir Panjal, é considerada um refúgio no verão, por seu clima agradável. Ela foi fundada em 1853 por um major britânico chamado James Abbott, ela se tornou a sede da prestigiada Academia Militar desde a criação do Paquistão em 1947.

Os americanos buscavam principalmente identificar quem eram os homens de confiança da Al-Qaeda que serviam de correios humanos para o líder do grupo terrorista. Desde 1998 quando os americanos lançaram mísseis Tomahawk contra bases de Bin Laden no Afeganistão e no Sudão (Operação Infinite Reach), que o saudita deixou de usar celulares e telefones via satélite. 

 

Operador do US Navy SEALs, Team 4, no Iraque. Ele está armado com uma pistola P226, uma carabina Mk18 Mod 0 CQB-R (Close Quarters Battle Receptor), e em seu ombro a bandeira de pirata "não oficial" Calico Jack. Aos seus pés ele tem uma metralhadora Mk 48 Mod 0 de 7.62x51 mm.

Em 2002, agentes da CIA ouviram falar em seus interrogatórios de um correio da Al-Qaeda chamado de Abu Ahmed Al-Kuwaiti (um nome de guerra, por vezes referido como o xeque Abu Ahmed, do Kuwait). Em 2003, Khalid Sheikh Mohammed, o suposto chefe operacional da Al-Qaeda, revelou em um interrogatório que ele tinha contatos com Al-Kuwaiti, mas que ele não era um operativo da Al-Qaeda.

Em 2004, um prisioneiro dos americanos chamado Hassan Ghul disse aos seus interrogadores que Al-Kuwaiti se encontrava com Bin Laden, assim como Khalid Sheik Mohammed e o sucessor de Mohammed, Abu Faraj al-Libi. Ghul revelou ainda que Al-Kuwaiti não tinha sido visto por algum tempo, o que levou as autoridades dos EUA a suspeitarem que ele estava viajando com Bin Laden.

Quando confrontados com as informações de Ghul, Khalid Sheik Mohammed manteve a história original. Abu Faraj al-Libi foi capturado em 2005 e transferido para Guantánamo em setembro de 2006. Ele disse aos interrogadores da CIA de que o correio de Bin Laden era um homem chamado Maulawi Abd al-Khaliq Jan e negou conhecer a Al-Kuwaiti. Diante da tentativa de Mohammed e de al-Libi de minimizarem a importância do Al-Kuwaiti, os agentes da CIA começaram a especular se de fato ele não fazia parte do círculo íntimo Laden Bin.

Em 2007, a CIA descobriu o verdadeiro nome de Al-Kuwaiti, embora esse nome não tenha sido revelado. Em 2010 os americanos instalaram um grampo em um suspeito, que era parente de Al-Kuwaiti e pegaram uma conversa entre os dois.

Parecia um inócuo telefonema. Por onde você andou?, perguntou o amigo. Nós sentimos falta de você. O que tem ocorrido na sua vida? O que você anda fazendo? A resposta de Al-Kuwaiti foi vaga, mas com certo orgulho na voz. Mas quando o seu parente perguntou em que estava trabalhando, Al-Kuwaiti respondeu: “Estou de volta com as pessoas que estava antes”.

A resposta ajudou a CIA a ligar alguns pontos e ofereceu um
bom pontapé para a operação. Todas as provas eram indiretas, mas era
tudo de que se dispunha para seguir em frente. A CIA começou a seguir Ahmed al-Kuwaiti, em agosto de 2010, e os americanos prepararam um intricado sistema de vigilância sobre ele, o provável correio de Bin Laden. Os agentes notaram que ele dirigia uma caminhonete de tração 4x4 cujo estepe tinha uma capa onde se via a imagem de um rinoceronte branco. Um dia, um satélite capturou imagens da caminhonete entrando em um grande complexo de concreto, em Abbottabad. Os agentes, convencidos que Kuwaiti morava ali, passaram a vigiar o complexo com artefatos aéreos e viram que ele era formado por uma casa principal com três andares, uma casa de hóspedes e vários edifícios auxiliares. Observaram que os moradores  queimavam o lixo em vez de deixá-lo para a coleta regular e também que o local não possuía nem telefone nem internet. Kuwaiti e seu irmão iam e vinham mas um outro homem que morava no terceiro andar nunca saia lá de cima. Quando arriscava sair era para se mover dentro dos muros do complexo. Alguns analistas especularam que o terceiro homem poderia ser Bin Laden e a agência o apelidou de Marchador.

A CIA redobrou esforços e de acordo com informações do The Guardian, um médico que trabalhava para eles iniciou uma campanha de imunização em Abbottabad com esperanças de encontrar amostras do DNA dos filhos de Bin Laden (na verdade, ninguém no complexo foi vacinado).

Uma série de estimativas concluiu que havia de 60% a 80% de chance de que o líder da al-Qaeda estivesse na mansão. Michael Leiter, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, foi muito mais conservador. Durante uma reunião na Casa Branca, ele apostou numa probabilidade de 40%. Quando um participante sugeriu que havia uma chance baixa de sucesso, Leiter rebateu: “Sim, mas o que temos é 38% melhor do que já tivemos até hoje”.

Pelas analises da CIA, Bin Laden morava no terceiro andar do A1, o prédio principal. O filho, Khalid, vivia no segundo. A CIA acreditava que ainda moravam ali pelo menos uma ou duas mulheres e cerca de dez crianças. Era comum que houvesse crianças nos alvos da Al Qaeda por isso os atacantes estavam muito familiarizados com essa questão. Também havia no complexo uma casa de hóspedes, chamada pelos americanos de C1, localizada ao sul do complexo e separada da casa principal.  

A espionagem e vigilância sobre o complexo onde estava Bin Laden foi realizado pela CIA, que liderou a operação, e a National Security Agency, a National Geospatial-Intelligence Agency (NGA), o ODNI [Office of the Director of National Intelligence] e o Departamento de Defesa também desempenharam papéis fundamentais. De acordo com o Washington Post, o esforço de coleta de inteligência foi tão extensa e onerosa que a CIA foi ao Congresso em dezembro de 2010 para garantir que as autoridade realocassem dezenas de milhões de dólares nos orçamentos de agências para financiá-lo.

A CIA estabeleceu uma casa segura em Abbottabad de onde uma equipe observou o complexo ao longo de vários meses. A equipe da CIA usou informantes e outras técnicas para reunir informações sobre o local. A casa segura foi abandonado logo após Bin LAden ser morto. A NGA ajudou o Joint Special Operations Command (JSOC) a criar cenários para os simuladores da missão para os pilotos e analisou os dados coletados a partir de drones RQ-170, durante e depois do ataque sobre o complexo. A NGA criou também três representações tridimensionais da casa, e avaliou o número, altura e sexo dos moradores do complexo. 

A CIA utilizou um processo chamado de "red teaming" para analisar toda a inteligência coletada e descobrir diferentes perspectivas do problema para auxiliar na tomada de decisões utilizando modelos de teoria. Com isso lançaram mão de análises dos conceitos, teorias, ideias, ferramentas e metodologias da antropologia cultural e militar para prever outras percepções das forças dos EUA e suas vulnerabilidades.

Os militares aplicaram técnicas avançadas de análise a nível tático e nível estratégico e buscaram desenvolver soluções para os problemas encontrados que apoiassem as decisões tomadas e direcionassem a execução do comando operacional. 

O complexo de Abbottabad

Em setembro de 2010, a CIA concluiu que o complexo foi feito sob medida para esconder alguém de grande importância, muito provavelmente Bin Laden. Os mapas do Google Earth mostram que o complexo não existia em 2001, mas imagens tiradas em 2005 já mostram a construção que começou a ser erguida em 2004, com três andares. A propriedade de quatro mil metros quadrados ficava na rua Kakul, num bairro residencial de classe média chamado Bilal e a 4,0 km a nordeste do centro da cidade de Abbottabad. Ela fica a cerca 160 km da fronteira com o Afeganistão no leste e a 32 km da fronteira com a Índia, no leste.

O complexo estava a 1,3 km a sudoeste da academia militar do Paquistão (PMA), uma proeminente academia militar que tem sido comparada, nas devidas proporções, com West Point nos Estados Unidos e Sandhurst em Inglaterra. Localizado em um terreno oito vezes maior do que as das casas nas proximidades, ele era cercado por muros de concreto de 3,7-5,5 m, cobertos com arame farpado. Havia dois portões de segurança, e da varanda do terceiro andar havia um muro de segurança de 2,1 m de altura suficiente para esconder Bin Laden que tinha 1,95 m de altura. As janelas desses andares eram escurecidas para que ninguém visse o que se passava ali dentro. Não havia internet ou qualquer serviço de telefone fixo no complexo. Seus moradores queimavam seu lixo, ao contrário de seus vizinhos que deixavam o seu lixo para a coleta. Os moradores da região chamavam o complexo de WaziristanHaveli. Haveli é um termo indiano e paquistanês para mandão privada e porque acreditavam que o proprietário era do Waziristão. A propriedade, era avaliada em quase um milhão de dólares.

Objetivo da missão

 

Se o líder da Al Qaeda estivesse no complexo essa oportunidade representava a primeira tentativa real, desde o final de 2001, de matar ou capturar Crankshaft, nome código que o JSOC havia dado a Bin Laden. Desde que ele escapara, naquele inverno, de uma batalha na região de Tora Bora, no Afeganistão, Bin Laden desafiara os esforços feitos para localizá-lo. Até hoje não se sabe como nem porque ele foi morar em Abbottabad.

Essa foi uma missão altamente arriscada onde as forças especiais dos EUA deviam capturar ou matar Osama Bin Laden. Os operadores do DEVGRU tinham plena autoridade de acordo com as regras de engajamento americanas para matar Bin Laden se esse esboçasse qualquer tentativa de resistir à prisão. Se ele claramente levantasse as mãos e se entregasse, segundo alguns funcionários da Casa Branca, ele seria preso.

No entanto, um outro funcionário ligado a segurança nacional dos EUA, que não foi identificado, disse à Reuters que "esta foi uma operação de matar", deixando claro que não havia vontade de tentar capturar Bin Laden vivo no Paquistão". Outra fonte confirma a intenção de matar (e não de captura), afirmando: "Os funcionários descreveram a reação dos operadores especiais, quando foram informados algumas semanas atrás que tinham sido escolhidos para treinar para a missão." Eles disseram, "Nós acreditamos que  encontramos Osama bin Laden, e sua missão é matá-lo", recordou o funcionário. Os soldados começaram a aplaudir." Patch del N.S.W.C.

Planejamento

 

Após a intensa coleta de inteligência, o presidente Barack Obama se reuniu com seus assessores de segurança nacional em 14 de março de 2011 para criar um plano de ação. Eles se encontraram quatro vezes mais (29 de março, 12 de abril, 19 de abril e 28 de abril) nas seis semanas antes do ataque. Leon Panetta, diretor da CIA, designou o vice-almirante William H. McRaven, o comandante da JSOC para planejar a operação. McRaven já tinha sido comandante em todos os níveis dentro da comunidade de operações especiais, incluindo o DEVGRU. Tradicionalmente, o Exército é quem controla as comunidades de Operações Especiais, mas nos últimos anos os SEALs têm tido uma presença maior: o chefe de McRaven por ocasião da incursão, Eric Olson – Comandante do Comando de Operações Especiais, SOCOM em inglês – é um Almirante que já comandou o DEVGRU. Em janeiro de 2011, McRaven pediu a um oficial do JSOC chamado "Brian", que havia sido Sub-Comandante do DEVGRU, que lhe apresentasse um plano.

No mês seguinte, "Brian", o típico americano que parece ser o capitão do time do ginásio, se instalou numa sala sem identificação no primeiro andar da área de impressoras da CIA em Langley (Virginia) e cobriu as paredes de mapas topográficos e imagens de satélite do complexo de Abbottabad. Ele e mais seis oficiais do JSOC foram formalmente nomeados para o Departamento de Contra Terrorismo da CIA voltado para o Paquistão e o Afeganistão, mas na prática não tinham que prestar contas a ninguém. Um alto oficial do departamento numa visita ao JSOC descreveu a sala como um enclave de extrema discrição e sigilo. “Todo o trabalho ali era muito bem guardado”, foi o que ele disse.

A relação entre as unidades de Operações Especiais e a CIA datam da época da Guerra do Vietnã. Mas o limite entre os dois grupos vem desaparecendo cada vez mais à medida que os agentes da CIA e seus paramilitares e os militares das forças armadas dos EUA passaram cooperar cada vez mais em missões no Iraque, Afeganistão, Iêmen, etc. “Temos uma relação muito íntima, falamos e compreendemos a mesma língua” disse um oficial graduado do Departamento de Defesa. (Exemplo dessa tendência é o fato do General David H. Petraeus, antigo Comandante em Chefe das forças no Iraque e no Afeganistão, ter assumido o posto de Diretor da CIA, enquanto Panetta, que era Diretor da CIA, assumiu o Departamento de Defesa). A missão contra Bin Laden, preparada no Quartel-General da CIA e autorizada por seus estatutos legais, foi conduzida por militares da Marinha (DEVGRU) e intensificou mais ainda a cooperação entre a agência e o Pentágono. John Radsan, que fez parte do grupo de advogados da CIA, disse que “o assalto a Abbottabad resultou na incorporação do JSOC a uma operação da CIA”.

No dia 14 de março, Obama convocou seus conselheiros de Segurança Nacional à Sala de Crise da Casa Branca e reviu o quadro que mostrava as possíveis ações contra o complexo de Abbottabad. Todas eram variantes de um mesmo modelo: uma operação da JSOC ou um ataque aéreo. Em algumas versões havia a proposta de cooperação com o Exército paquistanês; em outras, não pedir sua colaboração. “Não se acreditava que os paquistaneses pudessem manter esse segredo mais que por um nanosegundo”, disse um alto conselheiro do presidente. Ao final do encontro, Obama instruiu McRaven a continuar com o planejamento do ataque. Em 29 de março, Obama pessoalmente, discutiu o plano como vice-almirante William H. McRaven. Muito cursos possíveis de ação foram apresentados a Obama e as opções da linha de ação (COA - course of action) foram sendo refinadas ao longo das várias semanas seguintes.

Os assessores do presidente ficaram divididos. Alguns preferiam um assalto helitransportado; outros, um ataque aéreo e outros preferiam esperar por mais dados. Robert Gates, o Secretário de Defesa, foi um dos opositores mais declarados a um ataque de helicóptero. Na verdade os Estados Unidos não tinham um grande histórico operacional no que dizia respeito a incursões de tropas especiais em terra como a que estava sendo proposta. Era muito complicado submeter tropas a situações de alto risco num país soberano. Gates lembrou aos seus colegas que ele tinha estado na Sala de Crise da Casa Branca no governo Carter quando as autoridades militares apresentaram a Operação Eagle Craw (Garra de Águia) em 1980, uma operação envolvendo a secreta unidade do Exército dos EUA, a Força Delta, que visava resgatar cinquenta e dois reféns americanos em Teerã, mas que resultou em uma colisão desastrosa entre duas aeronaves americanas, um helicóptero RH-53D da US Navy e um EC-130 da USAF, no deserto iraniano, matando oito soldados americanos. "Eles disseram que era uma boa ideia, também," advertiu Gates. Ele e o General James Cartwright, vice-presidente do Estado Maior, eram favoráveis a atacar com bombardeiros stealth B-2 Spirit. Isso evitava o risco de colocar soldados americanos em território paquistanês. Mas a Força Aérea calculou que seriam necessárias 32 bombas inteligentes Joint Direct Attack Munitions de 907 kg, para penetrar 10 metros abaixo da terra e assegurar a destruição de qualquer bunker. A perspectiva de arrasar uma cidade paquistanesa, matando muitos civis fez Obama afastar a ideia de um bombardeio. Também foi sugerido um ataque com um UAV Reaper da USAF, que era conhecido como Predator-B e é na essência uma versão maior e bem mais armada do Predator. O uso do Reaper aparentemente não era uma abordagem viável, em parte devido ao limitado poder de fogo e em parte porque o complexo estava localizado dentro da área de intercepção da defesa aérea da capital do Paquistão. Finalmente o presidente dos EUA optou por uma operação em terra só com operadores americanos que daria a prova definitiva de que Bin Laden estava lá dentro, e limitaria as baixas civis.

Diante desta aprovação, "Brian" recebeu sinal verde e convidou "James", chefe da Equipe Vermelha (os red-indians) do DEVGRU e "Mark", o mais graduado suboficial da unidade para irem ao Quartel-General da CIA. Lá eles passaram as duas semanas e meia seguintes buscando formas de entrar na casa.

Ninguém queria voar direto para o complexo. As forças especiais dos EUA tinham deixado de agir assim havia anos. Seus operadores ficavam mais à vontade se descêssem perto e seguíssem por terra até a propriedade de Bin Laden. Com o passar dos anos, as táticas das forças de operações especiais evoluíram e seus homens passaram a ser tão sorrateiros quanto possível, preservando o elemento surpresa até o último segundo. Por isso as equipes de reconhecimento e tocaia estudaram imagens de satélite à procura de zonas de desembarque num raio de quatro a seis quilômetros do alvo, mas nenhuma das rotas parecia boa. A propriedade ficava numa área residencial. Todas as zonas de desembarque eram próximas demais de áreas urbanas, o que faria com que os operadores tivessem que andar pelas ruas da cidade chegando ao local cansados depois de correr uma boa distância até o complexo. O risco de comprometer a infiltração era muito alto. No fim, voar direto para o complexo era o menor dos dois males. O assalto seria intenso, mas rápido. Os americanos não podiam correr o risco de comprometer tudo durante a patrulha a pé. Os americanos pensaram em cavar um túnel para entrar na casa ou na possibilidade de Bin Laden ter sido ajudado a cavar um para fugir. Mas as imagens de satélite mostravam que aquela região estava sobre água represada, o que sugeria que o conjunto fora construído sobre um banhado. Por isso os tuneis estavam fora de cogitação. Finalmente, todos concordaram que voar era a melhor solução. “Nosso trabalho consiste em fazer o inesperado e é provável que o que menos se espera é que um helicóptero deixe cair alguns homens no telhado e aterrisse no quintal”, disse um oficial das Operações Especiais.

Assistindo a um vídeo gravado pela CIA da propriedade, os militares viram surgir do lado direito da tela, um helicóptero Huey paquistanês a sobrevoando a área provavelmente saindo da academia militar. Todos ficaram fitando a a tela esperando ver se alguém na propriedade reagia. Na tela eles viram o homem que identificaram como Bin Laden, e ele não saiu correndo para lugar nenhum. Imediatamente todos pensaram a mesma coisa: eles estavam acostumados a ouvir helicópteros em volta do complexo. E um dos operadores do DEVGRU falou: “Talvez a gente consiga acesso antes que eles entendam o que está acontecendo”.

"Brain", "James" e "Mark" começaram a selecionar uma equipe dentre as dezenas de SEALs da Equipe Vermelha (baseada em Dam Neck, Virginia) e disseram a eles que se apresentassem em uma localidade densamente arborizada na Carolina do Norte para um exercício no dia 10 de abril. Essa equipe é uma das quatro que compõem o DEVGRU, que por sua vez conta com uns trezentos a quatrocentos militares).

A força de assalto era formada por vinte e quatro homens, incluindo um especialista em descarte de material bélico explosivo, "Ahmed", um intérprete da CIA que falava pachto, língua usada naquela área. Completava a equipe um cão adestrado para combate, chamado "Cairo". Essa força de assalto era dividida em quatro equipes.

Nenhum dos SEALs, além de "James" e "Mark", estavam cientes do trabalho da CIA sobre o complexo de Bin Laden até que um tenente entrou no escritório. Ele encontrou um General de duas estrelas do Exército, da JSOC, sentado em uma mesa de conferência com "Brian", "James", "Mark", e vários analistas da CIA. Isso obviamente não era um exercício de treinamento. O tenente foi prontamente posto a par do que ocorria. Uma réplica do composto tinha sido construído no local, com paredes e tela de arame marcando o layout do complexo. A equipe passou os próximos cinco dias praticando manobras.

No dia 18 de abril a patrulha do DEVGRU foi para Nevada para outra semana de treinamento. Praticaram numa grande área do deserto, propriedade do governo, de tamanho equivalente ao terreno de Abbottabad. Lá havia uma edificação que podia servir como “casa de Bin Laden”.

O nível de detalhes da maquete era impressionante. A equipe de construção da base de treinamento tinha plantado árvores, cavado uma vala em volta
da propriedade, e até amontoado terra para simular os campos de batata que cercavam o conjunto no Paquistão. Depois de alguns ensaios, os SEALs perguntaram se podiam acrescentar a varanda do terceiro andar e mudar alguns portões de lugar  para poderem simular melhor a disposição da propriedade original. Antes do treino seguinte, as mudanças foram feitas. A equipe de construção nunca perguntava por que e nem dizia não. Simplesmente aparecia e fazia as alterações pedidas. Os SEALs estavam impressionados. Nunca os tinham tratado assim. A burocracia desaparecera. Se eles precisassem de algo, conseguiam. Ninguém fazia perguntas. Era muito diferente do que eles tinham sido obrigados a enfrentar no Afeganistão. O único buraco negro na propriedade de treinamento eram os interiores. Os operadores do DEVGRU não faziam ideia de como a casa era por dentro. Mas isso não era uma grande preocupação, pois os SEALs tinham anos de experiência em combate, e podiam aplicá-los a esse problema. Eles não duvidavam de que teriam êxito; só precisam chegar lá.

As tripulações dos helicópteros eram do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (160 SOAR), também conhecidos como “caçadores noturnos”, unidade especial do Exército dos EUA. Elas já trabalhavam há décadas com os SEALs e a Força Delta. OS pilotos do 160 SOAR prepararam uma rota similar a que fariam entre Jalalabad e Abbottabad. Ao entardecer, começavam a treinar: voavam no escuro, chegavam ao falso complexo e aguardavam enquanto os SEALs desciam pelas cordas. Nem todos estavam acostumados. "Ahmed", por exemplo, foi tirado de uma escrivaninha, nunca tinha deslizado por uma corda. Mas logo aprendeu a técnica.

A missão inteira já tinha sido internalizada. Fora algumas conversas pelo rádio, durante os exercícios o sistema estava mudo. Todos sabiam qual era o seu trabalho. Os SEALs tinham anos de experiência e tudo transcorreu sem percalços. Para eles o alvo não era nem um pouco mais complicado do que centenas de outros que tínham atacado ao longo dos anos no Iraque, Afeganistão e outros lugares. Os ensaios eram feitos menos pelo treinamento e mais para mostrar à Casa Branca que o DEVGRU era capaz de cumprir a missão.

O plano foi sendo refinado. O helicóptero Chalk Um sobrevoaria o pátio e 12 SEALs desceriam pelas cordas até o quintal. O Chalk  Dois voaria até a próxima esquina e deixaria "Ahmed", "Cairo" e quatro SEALs descerem para vigiar o perímetro em torno da casa. Depois a aeronave sobrevoaria a casa e deixaria os outros seis SEALs descerem em cima do telhado. "Ahmed" manteria os vizinhos curiosos à distância. Se houvesse necessidade "Cairo" e os SEALs ajudariam de forma mais agressiva. Se não encontrassem Bin Laden, fariam "Cairo" procurar paredes falsas ou portas ocultas. “Não era uma operação difícil”, disse um oficial das Operações Especiais.  "Seria como atingir um alvo em McLean, Virginia, que é um subúrbio chique de Washington, DC".

Depois de treinar a melhor hipótese de assaltar o complexo, os operadores começaram a ensaiar os imprevistos que podiam acontecer . Em vez de descer no pátio, eles pousavam fora dos muros e invadiam a propriedade a partir de lá. Também ensaiavam a perseguição de fujões, para o caso de alguém sair correndo
do alvo antes do assalto. Cada contingência foi praticada à exaustão. Nunca treinaram tanto na vida para um objetivo particular, mas agora era diferente, a missão era fundamental e clara, e a preparação extra ajudava a sincronizar os movimentos, já que os operadores vinham de diferentes equipes.

Duas semanas depois receberem a tarefa, os SEALs fizeram um ensaio geral. Na noite de 21 de abril eles receberam um avião cheio de convidados. O Almirante Mike Mullen, Chefe do Estado Maior se reuniu com Olson, comandante do Comando de Operações Especiais em Tampa, o vice-almirante McRaven e o pessoal da CIA em um hangar onde "Brian", "James", "Mark", os pilotos e outros operadores lhes explicaram a missão, denominada Lança de Netuno. Apesar do papel fundamental do JSOC a missão era oficialmente uma operação secreta da CIA. O sigilo permitiria que a Casa Branca ocultasse seu papel, caso viesse a ser necessário. Como um Oficial de Contraterrorismo disse recentemente, "Se você chega e toda a gente está alerta, então você dá o fora e ninguém fica sabendo".

Toda a equipe e todos os planejadores, além dos VIPs se reuniram num imenso hangar da base. No chão havia um mapa da parte oriental do Afeganistão. Todos os operadores ali respeitavam muito McRaven pois ele já tinha sido comandante em todos os níveis dentro da comunidade de operações especiais, incluindo o DEVGRU. McRaven, um o almirante de três estrelas no topo do JSOC, era alto, magro e distinto. Quase todos os almirantes eram velhos e fora
de forma, mas McRaven ainda parecia capaz de fazer o que se esperava dele. Ele sabia como lidar com seus iguais e tinha um bom entendimento dos meandros políticos de Washington.

OS operadores do DEVGRU iam executar o que se chamava comumente de “ensaio final”, e tudo, dos corredores de voo para helicópteros à maquete da propriedade, estava no mapa no piso do hangar . O narrador que lia um roteiro começou a reunião de instrução de uma hora e meia sobre a Operação Lança de Netuno. Os pilotos do 160 SOAR foram os primeiros a falar . Ensaiaram todo o trajeto do voo de Jalalabad à propriedade em Abbottabad. Falaram a respeito de
chamadas de rádio, assim como de imprevistos que poderiam surgir durante o voo. Finalmente, cada chefe de equipe de assalto se levantou e fez um resumo de suas tarefas individuais. Um deles por exemplo disse: “Minha equipe vai descer do Chalk Um para o pátio, vamos desobstruir e garantir o C1, e voltar para dar apoio de reserva ao resto das equipes no A1”.

Houveram muitas perguntas feitas pelos VIPs. A maioria das perguntas era sobre a equipe de segurança do perímetro. Havia muita preocupação em saber como nossa segurança externa lidaria com possíveis circunstantes. “Qual é o seu plano se encontrarem pela frente a polícia ou os militares?”, perguntaram ao chefe da equipe. Ele disse: “Vamos desinflar a situação até onde for possível. Primeiro usando o intérprete, depois o cão, e depois um laser visível. Em último caso, usaremos a força.”

Outras perguntas foram feitas. "E se uma multidão cercar o composto? Os SEALs foram treinados para atirar em civis?" Olson, que recebeu a medalha Estrela de Prata por mérito durante o episódio "Black Hawk Down" em 1993, em Mogadíscio, na Somália, era um dos que mais temia que a operação poderia ser politicamente catastrófica se um helicóptero dos EUA fosse derrubado dentro do território paquistanês e os americanos tivessem que lutar para resgatar o seu pessoal em terra.

Perto do fim, alguém perguntou se a missão era de captura ou de morte. Um advogado do Departamento de Defesa ou da Casa Branca salientou que não era para ser assassinato. “Se estiver nu, com as mãos para cima, ninguém deve entrar em conflito com ele”, disse o advogado. “Não sou eu quem vai lhes dizer
como devem fazer seu trabalho. O que estamos dizendo é que, se ele não representar uma ameaça, os senhores deverão apenas detê-lo.”

Depois da reunião de instrução, os operadores do DEVGRU entraram nos helicópteros e decolaram para o ensaio final. Iam assaltar uma maquete da propriedade, para que os VIPs assistissem. Era o último obstáculo. Apesar de ser meio irritante os homens do DEVGRU sabia que era uma etapa necessária, mas a sensação de ser observado dessa maneira era para eles um pouco estranha. Era como se estivessem  num aquário. Mas todos eles concordavam que se fazer aquilo os levaria a conseguir a aprovação da missão,  o inconveniente valia a pena.

A um minuto do alvo, o chefe da tripulação abriu a porta e os operadores do DEVGRU se prepararam para descer pelas cordas.Eles viram alguns VIPs perto do alvo olhando para eles com óculos de visão noturna. Quando o helicóptero parou sobre o local de descida pela corda, os rotores levantaram uma tempestade de
pedras e poeira, golpeando os VIPs e obrigando-os a correr na direção oposta. Internamente alguns operadores riram com a cena ao ver algumas mulheres tropeçarem em seus saltos altos. O ensaio acabou sem nenhuma dificuldade.
Depois disso os VIPs, oficiais seniores e analistas de Inteligência retornaram a Washington. Dois dias depois, os SEALs voaram de volta para Dam Neck, sua base na Virgínia.

Na terça-feira 26 de abril os SEALs e agentes da CIA embarcaram num Boeing C-17 Globemaster numa Base Aérea da Marinha próxima a Dam Neck. Eles tinham pela frente um voo de nove horas até Ramstein, na Alemanha, para reabastecimento, e depois mais oito horas até Bagran, ao norte de Kabul. Osa operadores sem muito o que fazer tentaram dormir o máximo possível durante o voo, pois sabiam que isso era essencial. 

Estava escuro quando eles pousaram em Bagram. Taxiaram até um ponto longe dos terminais principais da base, a rampa abriu, e viram um avião a hélice C-130 com a rampa abaixada e as hélices girando. Bagram era a principal base da OTAN No norte do Afeganistão. Essa base imensa, pouco ao norte de Cabul, expandiu-se e era do tamanho de uma pequena cidade. Milhares de soldados e fornecedores civis trabalhavam ali. Houve alguns combates perto de Bagram. A
rigor, o lugar tornara-se tão seguro que o único perigo era ser multado por excesso de velocidade nas ruas da base, ou por não usar cinto refletor à noite. Se toda aquele pessoal ficassem em Bagram, mesmo por um curto período, seria difícil guardar segredo. Mas todos iriam para Jalalabad ainda naquela noite. A pista em J-bad era tão curta que não comportava o C-17. O JSOC então tomou providências para que um C-130 fosse buscar o pessoal. Eles não queriam correr o risco de ir para o terminal principal de Bagram, ou para o refeitório, e serem vistos. Uma tropa inteira aparecendo ali provocaria indagações. Eles juntaram sua bagagem, e espantando os efeitos dos remédios para dormir, saíram em silêncio pela traseira do C-17 e foam direto para o C-130. Enquanto se acomodavam nos assentos de náilon laranja dobráveis pendurados na parte da frente, as equipes de terra da Força Aérea prendiam três contêineres com seu equipamento na traseira da aeronave. A rampa foi recolhida e eles partiram para um voo de uma hora até a base em J-bad. Os bancos do C-130 eram desconfortáveis. Quem se senta na fila do meio precisa contar com o apoio do sujeito sentado atrás, ou afunda esmagando as costas. Aterrissar num C-130, mesmo em pista pavimentada, é desagradável porque sacode demais. As rodas ficam perto da fuselagem, e é como aterrissar sobre patins. Pior ainda, o barulho dá a impressão
de que a própria barriga do avião bateu na pista.

Após pousar o C-130 taxiou e parou no terminal principal. O chefe da tripulação baixou a porta, e um ônibus estava esperando para levar o pessoal ate o recinto do JSOC. O aeroporto de Jalalabad está localizado a poucos quilômetros da fronteira paquistanesa. Essa base era sede de numerosas unidades americanas — incluindo uma força do JSOC — a base era a principal área de estacionamento de aeronaves que operam no noroeste do Afeganistão. Maior do que os postos avançados que se espalham pelos vales ao longo da fronteira, Jalalabad era parte do Comando Regional do Leste, e era de J-bad que unidades da área fronteiriça recebiam seus suprimentos e sua correspondência. Essa base abrigava cerca de mil e quinhentos soldados, além de numerosos fornecedores civis. As Forças de Segurança Afegãs ajudavam a protegê-la. A pista de pouso dividia a base ao meio. OS soldados viviam do lado sul do aeroporto. A área do JSOC tinha refeitório, ginásio, centro de operações e várias barracas de compensado. O recinto era sede dos Rangers do Exército dos EUA, do DEVGRU e do pessoal de apoio. Quase todos os operadores do DEVGRU que desceram do C-130 tinham ido a J-bad mais de dez vezes a serviço. Passar pelo portão era como entrar em casa novamente. Em J-bad, o último membro da equipe de assalto de 24 homens se juntou ao grupo. Era um experiente operador do DEVGRU que tinha aprendido árabe por conta própria. Enquanto "Armed" estaria fora da casa dando conta dos vizinhos, esse operador, "Will", poderia se comunicar com a família de Bin Laden dentro do complexo.

Em J-bad já estavam baseados vários operadores do DEVGRU. Alguns deles foram escolhidos para formarem uma Força de Reação Rápida (Quick Reaction Force - QRF), embarcada em dois helicópteros CH-47, e que esperariam para ajudar se a equipe na propriedade tivesse alguma dificuldade. Estavam incumbidos também de estabelecer um ponto avançado de reabastecimento aéreo (FARP) ao norte da propriedade. Usando os volumosos helicópteros CH-47, chamados de ônibus escolares voadores, a QRF levaria bexigas infláveis para combustível, a fim de que os Black Hawks com as equipes de assalto pudessem obter gasolina para o voo de volta a Jalalabad.  Os Seal que já estavam em Jalalabad foram informados do plano enquanto a equipe de assalto voava para lá. Eles tinham ouvido rumores de que alguma coisa estava rolando, mas ninguém sabia dos detalhes até a reunião de instrução que foi feita na base. As equipes SEALs eram uma comunidade muito unida. Parecia estranho uma grupo de fora chegar para executar essa missão quando todos sabiam que o esquadrão já posicionado no local poderia fazê-lo tão bem quanto eles. A única razão para isso era que os homens que nos EUA estavam disponíveis para realizar os ensaios capazes de convencer as autoridades responsáveis na Casa Branca de que esta era a melhor opção. Na verdade todos os esquadrões do DEVGRU eram intercambiáveis. Em resumo, os homens nos EUA estavam no lugar certo na hora certa.

Enquanto isso em Washington, Panetta perguntou aos assistentes que garantia tinham de que Bin Laden estava em Abbottabad. O agente especializado em contraterrorismo respondeu: “de 40 a 90 ou 95%”. Panetta estava consciente das dúvidas dos analistas mas achava que as informações eram as melhores obtidas sobre Bin Laden desde o episódio de Tora Bora. No meio da tarde de quinta-feira, Panetta e o restante da equipe de Segurança Nacional se reuniram com o presidente. Durante algumas noites não ia haver luar sobre Abbottabad, condição ideal para um assalto. Teriam que esperar outro mês até o ciclo lunar entrar na mesma fase. Muitos outros analistas do Centro Nacional de Antiterrorismo expressaram sua opinião: a confiança nos dados da CIA ia de 40 a 60%. O diretor, Michael Leiter, achava que seria melhor esperar até terem uma certeza maior da presença de Bin Laden na casa. No entanto, todos eram unânimes que quanto mais adiassem a operação, maior o risco de vazamento o que “desbarataria todo o plano”. Já passava das sete da noite quando Obama encerrou a reunião. Ia pensar.

Na manhã seguinte Obama se reuniu na Sala dos Mapas com seus conselheiros para assuntos de Segurança Nacional. Tinha se decidido pelo assalto e queria que McRaven escolhesse a noite. Já estava tarde para um ataque naquela sexta-feira e para o sábado a previsão era de muitas nuvens. Na tarde de sexta McRaven e Obama se falaram ao telefone, pois McRaven estava no Afeganistão, e o militar  disse ao presidente que a ação seria executada no domingo à noite. “Deus acompanhe vocês. Por favor transmita meus agradecimentos pessoais a todos e diga-lhes que vou acompanhar a missão minuto a minuto”.

Enquanto isso no Afeganistão, a força de assalto ignorava as excessivas preocupações de Washington. Eles tinham reuniões de instrução diárias. As reuniões de instrução diárias eram realizadas numa sala comprida e estreita, com bancos de madeira feitos a mão colocados no meio, como numa igreja. Na frente da sala havia TVs de tela plana para apresentações de PowerPoint, e para mostrar imagens filmadas por aviões não tripulados ou fotos de satélite que constantemente vigiavam a propriedade de Bin Laden.

Também precisavam combater a “fada das boas ideias”. A fada aparece quando o pessoal do quartel-general tem tempo livre de sobra. Essencialmente, o que acontece é que oficiais e planejadores começam a sonhar hipóteses fantasiosas, irreais, com as quais os operadores tem de lidar nas missões. “Agora querem que a gente leve um megafone para controle de multidão”, disse o chefe de equipe encarregado da segurança externa. “Isso está no mesmo nível da luz de carro de polícia.” O pessoal do quartel-general tinha aventado a possibilidade de a equipe de segurança externa instalar uma luz intermitente no teto de um dos carros de Bin Laden, que seria levado para fora da propriedade e se passaria por um veículo policial. Um dos operadores do DEVGRU indiginado disse: ‘Senhor, quer dizer que a gente vai simplesmente empurrar o carro para fora? Não temos as chaves’”, e um chefe de equipe disse: “E se o volante travar? Além disso, que equipe terá tempo para tirar um carro da garagem e empurrá-lo até a esquina da rua? E não nos esqueçamos de que passaremos a ter uma luz intermitente da polícia dando maior visibilidade à nossa posição.” “Qual é a cor da luz da polícia no Paquistão?”, perguntaram. “Não faço ideia”, disse alguém. Outra discussão era sobre "Ahmed", o interprete da CIA. Ele estava na equipe de segurança externa. A fada das boas ideias queria que ele fique à paisana. Ele ia ficar um operador e um atirador da SAW. OS militares estariam fardados é claro, então que importância teria se "Ahmed" estivessem com roupas civis? A lógica venceu as duas batalhas. Os SEALS não levariam uma luz intermitente de polícia e "Ahmed" usaria farda. Questões desse tipo sempre aparecem quando os planejadores resolvem cuidar dos detalhes. A CIA pediu que a força de assalto levasse uma caixa de vinte e sete quilos para bloquear sinais de celular . Peso já era um problema, e essa “boa ideia” morreu logo. Os operadores do DEVGRU sempre pensavam que se fosse possível recuperar o tempo que perdem combatendo a fada, talvez recuperassem também alguns anos de vida.

No dia 29 de abril, às 08h20, Obama reuniu com Brennan, Thomas E. Donilon, e outros assessores da segurança nacional e deu a ordem final para atacar o complexo de Abbottabad. Enquanto o mundo assistia ao casamento do herdeiro da coroa britânica com uma plebeia de origem humilde e porte de rainha, Obama anunciava sua decisão ao Conselho de Segurança Nacional americano. Ele havia decidido que era hora de atacar. O ataque planejado para esse dia foi adiada para o dia seguinte devido ao tempo nublado. A operação receberia o nome de Neptune Spear em homenagem aos SEALs que usam o tridente de Netuno como seu símbolo, onde cada dente representa a capacidade desta tropa de opera à partir do ar, mar e terra.

Até que enfim se realizou a última reunião com todo pessoal envolvido na operação. A sala estava lotada e muitos estavam de pé. Haviam vários SEALs do outro esquadrão amontoados em volta da maquete. Examinavam-na com toda a atenção antes das instruções. Era incrível como ela absorvia e prendia a nossa atenção. Uma parte da reunião foi sobre o que fazer se a missão desse drasticamente errado e as autoridades paquistanesas de alguma forma detivessem os americanos. O presidente tinha dado luz verde para que eles se protegessem, ainda que tivessem de entrar em conflito com as forças armadas paquistanesas. Eles iam penetrar em território paquistanês, e precisavam dar uma boa desculpa se fossem detidos.

“Tudo bem”, disse um oficial. “Eis o que eles imaginaram. Estamos numa missão de busca e salvamento de uma plataforma ISR derrubada”, disse ele. Uma plataforma ISR é como os militares chamam os aviões não tripulados. Essencialmente, os operadores do DEVGRU teriam de dizer aos interrogadores paquistaneses que a Força Aérea dos Estados Unidos tinha perdido um avião. Foi uma risada geral. “Foi o melhor que conseguiram?”, disse alguém no fundo da sala. “Por que não nos dão um megafone e uma sirene da polícia só pra garantir?” A história era ridícula. Os EUA era aliado do Paquistão no papel, e, se
eles perdessem um avião não tripulado, o Departamento de Estado negociaria diretamente com o governo paquistanês para tê-lo de volta. A história não convenceria ninguém e seria muito difícil sustentá-la durante horas de interrogatório. Pelo menos os homens do DEVGRU puderam dar boas risadas. Talvez achassem que um pouco de humor os ajudaria a aguentar a tensão. A verdade, sabiam todos eles, é que, se chegassem a esse ponto, nenhuma história que inventassem justificaria a presença de vinte e dois Seal com vinte e sete quilos de equipamento hi-tech nas costas, um especialista em descarte de material bélico explosivo e um intérprete — num total de vinte e quatro homens —, mais um cão, incursionando num bairro de subúrbio a poucos quilômetros de uma academia militar paquistanesa.

No fim da reunião, o oficial comandante do DEVGRU chegou. Era um capitão de cabelos prateados e bigode, que anos antes perdera uma perna num acidente de paraquedas. Enquanto caminhava para a frente da sala de conferência, mal se pude perceber os pequenos trancos que dava por causa da perna mecânica.
O oficial que instruía os homens recuou enquanto o comandante tomava a dianteira. As risadas e os murmúrios provocados pela história da explicação que eles deveriam dar diminuíram, e a sala ficou em silêncio.

“Tudo bem, pessoal”, disse o comandante do DEVGRU. “Eu estava no telefone com McRaven. Ele acabou de falar com o presidente. A operação foi aprovada. Partimos amanhã à noite.” Não houve vibração nem palmas. Alguns pensaram “Puta merda. Nunca pensei que fosse realmente acontecer .”

Não haveria mais reuniões de instrução. Não haveria mais fada das boas ideias. E, acima de tudo, não haveria mais espera.

Na manhã de domingo, 1º de maio, o pessoal da Casa Branca cancelou visitas agendadas, encomendou sanduiches e transformou a Sala de Crise numa Sala de Comando. Às 11:00 horas os assessores de Obama começaram a se reunir em volta de uma mesa e criaram um link com Panetta, nos escritórios da CIA, e com McRaven, no Afeganistão (havia ao menos dois outros centros de comando, um dentro do Pentágono e outro na Embaixada Americana, em Islamabad).

A Sala de Comando tinha a única tela da Casa Branca com imagens online, em tempo real, tomadas pelo avião não-tripulado RQ170 que sobrevoava Abbottabad a mais de 5.000 mil metros de altura. Obama voltou para a Casa Branca às duas em ponto, depois de uma partida de golf na Base Aérea de Andrews. Os Black Hawks saíram de Jalalabad 30 minutos depois. Os estrategistas do JSOC decidiram guardar o maior segredo possível e preferiram não usar aviões de combate ou bombardeiros para prover apoio. Os SEALs em terra estariam por conta própria.

Uniforme

A força de assalto era um punhado heterogêneo de profissionais. Eles vinham de origens diferentes, formações diferentes, tinham passatempos e interesses diversos, mas o que havia em comum entre eles era a disposição de sacrificar a convivência familiar, o tempo e até mesmo a vida por um bem maior.

Para os soldados normais o grupo de SEALs que participou da missão parecia uma gangue ou um bando de vikings. Quase todos tinham cabelos compridos demais para os padrões militares e usavam barba. Normalmente ninguém usava uniforme completo, pelo contrário, descombinavam calças e camisas. Além disso a maior parte de seus braços estava coberta de tatuagens.

Apesar das descombinações, nessa operação eles normalmente usavam uniforme de combate Crye Precision Desert Digital. Este era era composto de uma camisa de manga comprida e uma calça cargo. Tinha dez bolsos, cada um com uma função. A camisa era feita para usar debaixo do colete à prova de bala. As mangas e os ombros eram camuflados, mas o corpo da camisa era cor de bronze, de um material leve que absorvia o suor. Alguns operadores tinham cortado as mangas por causa do calor. As calças militares camufladas eram cheias de bolsos, como todo o uniforme. Num bolso estavam as luvas de assalto e as de couro para escorregar pela corda. Um outro bolso tinha baterias extras, um repositor energético e duas barras nutricionais. O bolso do tornozelo direito
podia conter um torniquete extra, e o do esquerdo luvas de borracha e um kit de proteção SSE. Num dos bolsos do ombro esquerdo, eles levavam duzentos dólares em cédulas para uma emergência, pois durante uma fuga talvez precisassem pagar uma passagem ou subornar alguém. Todos eles sabiam que escapar custava dinheiro, e poucas coisas funcionavam melhor do que dinheiro americano em espécie. Muitos levavam câmeras fotográficas, algumas do modelo Olympus digital point-and-shoot, que podiam ir no bolso do ombro direito. Na parte de trás do cinto, podia ir uma faca de combate, do tipo lâmina fixa Daniel Winkler.

Todos usavam placas balísticas de cerâmica que cobriam seus órgãos vitais na frente e atrás. Eles tinham dois rádios montados em cada lado da placa dianteira. Entre os rádios, levavam três carregadores de suas armas individuais e uma granada de fragmentação do tamanho de uma bola de beisebol. Eles levavam também cargas de invasão que eram presas por elásticos na parte de trás.

Também tinham várias luzes químicas instaladas na parte da frente do colete, incluindo uma versão infra vermelha que só é útil para dispositivos de visão noturna. Eles quebravam as luzes plásticas e as jogavam em quartos e áreas desobstruídas. As luzes eram invisíveis a olho nu, mas os operadores poderiam vê-las com seus dispositivos de visão. Dessa forma saberiam quais eram as áreas seguras. Eles também podiam levar torqueses que viajavam num bolso das costas, com os dois cabos presos um pouco acima do ombro. No colete estavam presas também as duas antenas dos rádios. Nos pés eles calçavam por exemplo botas Salomon Quest ou os tênis de corrida off-road de cano curto.

Os capacetes deles era um item à parte. Pesavam cerca de quatro quilos e meio. Oficialmente eram capazes de deter um projétil de nove milímetros, mas os SEALs sabiam de histórias de capacetes como esses que já tinham detido balas de AK-47. O capacete tinha uma lanterna presa ao trilho das laterais. Era uma lanterna recarregável Princeton Tec. Ao capacete estavam conectados os óculos de visão noturna meio engraçados com seus quatro sensores. Esses óculos eram do modelo GPNVG18 (Ground Panoramic Night Vision Goggles-18) com quatro quatro tubos em vez dos dois costumeiros. Isso dava um campo de visão de cento e vinte graus, e não apenas de quarenta. Olhar por NVGs comuns era como olhar através de tubos de papel higiênico. Mas essas novos NVGs possibilitavam ver as zonas periféricas com facilidade e davam maior percepção situacional. Em 2011 esses óculos custavam cerca de sessenta e cinco mil dólares.

Normalmente a arma usada era o fuzil de assalto H&K 416 5,56 X 45 mm (caso o operador fosse da força de assalto e não um atirador de elite). Esse HK 416 da força de assalto podia ter um cano de dez polegadas com silenciador e visor óptico de ponto vermelho EOTECH com lente de aumento de três vezes, que permitia atirar com mais precisão à luz do dia. Tinham também um laser infravermelho. Outros usavam o H&K 416 com cano de catorze polegadas que era configurado para tiro de longo alcance. Também tinha silenciador, e no cano tinha uma mira telescópica de 2.5 x 10 Nightforce, além de ser equipado com um laser infravermelho e um sensor térmico de imagem que permitia atirar à noite com maior precisão.

A pistola podia ser uma Sig Sauer P226 usada rotineiramente pelos SEALs ou uma h&k 45C. É claro que nenhuma das armas permanecia na forma original como foi fabricada. Os SEALs faziam várias modificações personalizadas no gatilho, nos cabos, etc. Os armeiros tinham muito orgulho modificar essas "ferramentas" de acordo com a solicitação de cada operador do DEVGRU.

É claro que eles tinham a sua disposição a submetralhadora H&K MP7 com silenciador, mas ela não tinha o poder de impacto do h&k 416. Era útil na abordagem de embarcações, na selva, ou quando o peso, o tamanho e o fato de ser extremamente silenciosa eram importantes. Muitas vezes os operadores do DEVGRU atiravam em combatentes, num ambiente fechado, com uma MP7 com silenciador, e seus companheiros no cômodo ao lado não escutavam nada. O h&k 416 não chega aos pés da MP7 quando se quer agir com o máximo silêncio. Mas como essa operação usaria uma infiltração com helicópteros sobre o alvo e cargas explosivas para abrir portas de aço não haveria de fato nada de silencioso na operação. Muitos também levavam o veterano lançador de granadas M79 de quarenta milímetros, que era chamado de “garrucha de pirata”.

Eles sempre tinham as melhores armas do ramo. Cada um dos operadores sabia exatamente qual a sua função e cabia a cada um carregar aquilo de que precisaria. Na verdade todo o seu equipamento tinha sido testado e fora cuidadosamente observado em missões anteriores. Eles sabiam muito bem que tudo funcionava.

Eles também levavam um livreto SSE (Sensitive Site Exploitation), que era um espécie de caderninho de cola para a missão. Ele ia num pequeno bolso da frente do colete. A primeira página tinha um miniguia de coordenadas de referência, ou GRG. Era uma imagem aérea da propriedade com as principais áreas legendadas e as construções numeradas. Todo mundo envolvido na missão usava o mesmo GRG, dos pilotos à Força de Reação Rápida, incluindo o pessoal do Centro de Operações. Havia uma lista de radiofrequências na página seguinte. A última seção trazia os nomes e as fotos de todo mundo que se supunha morar no alvo. Os operadores do DEVGRU sempre examinavam com atenção as fotos dos irmãos de Al-Kuwaiti. Por exemplo quem ia para a casa dos hospedes, a C1, se detinha mais nas fotos dos dois irmãos. Cada página tinha não apenas fotos, mas estatísticas vitais, como altura, peso e todos os pseudônimos conhecidos. A página final tinha uma foto de Bin Laden e diversas representações projetando a aparência atual dele e do seu filho.

Ao todo eles carregavam em média cerca de trinta quilos de equipamentos. Seu colete pesava vinte e sete quilos. Quando vestiam os seus coletes os SEALs se sentiam selados entre as placas balísticas quando apertavam as suas tiras. Enquanto se vestiam os operadores checavam cada item de seu uniforme, equipamento e armas. Eles tiravam um tempo para ver se conseguiam alcançar tudo com as mãos. Por exemplo: passavam a mão por cima da cabeça, e pegavam os dois cabos da torquês ou apalpavam a carga de invasão no ombro esquerdo.

Eles checavam as todas as baterias dos dispositivos de visão noturna e a laser para terem certezas que eram novas. Os rádios ficavam o tempo todo nos carregadores. Ele conferiam e reconferiam os seus bolsos e itens. Cada etapa era cuidadosamente planejada. Cada checagem era um jeito deles se concentrarem, e terem a certeza de que não se esqueceriam de nada.

No final as conectavam as antenas dos rádios e colocavam os “fones ósseos”, que encostavam nas maçãs do rosto. Eles permitiriam ouvir qualquer conversa pelo rádio. Se fosse preciso, eles poderiam também colocar um fone de ouvido para eliminar os ruídos ambientes e deixar o som viajar diretamente para dentro do seu canal auditivo. No ouvido direito, eles ouviriam a rede da tropa. Nessa rede, escutariam as comunicações entre os seus companheiros. Os que eram chefes de equipe ouviriam também a rede de comando, neste caso através do ouvido esquerdo e poderiam se comunicar com os outros chefes de equipe e com seus superiores. Mesmo endo duas redes os chefes de equipe sabiam que par essa missão não haveria muita troca de mensagens na rede de comando. Só os oficiais falariam pelo rádio via satélite, e a maior parte das comunicações radiofônicas sobre o alvo seria feita pela rede da tropa.

Partida

Quatro ônibus levaram o pessoal que participaria da missão par os helicópteros. Os ônibus um e dois para quem ia nos Black Hawks e os ônibus três e quatro
vão para os que iam nos CH-47.

Quando as portas travaram, os helicópteros os Black Hawks levantaram voo e pairaram no ar por alguns segundos, antes de pousarem de novo. Então, na hora exata, eles pularam da pista de decolagem. Com seu nariz apontado para baixo ganharam velocidade. Quando saíram do campo de aviação, os Black
Hawks inclinaram-se para a direita e seguiu rumo à fronteira. A cabine estava escura e atulhada e não tinha espaço para nada. Os rádios estavam
mudo. Uma luz fraca vinha dos controles na cabine, mas nada do lado de fora das janelas. Estava escuro como breu. Era uma noite de lua nova e os pilotos dos helicópteros, com óculos de visão noturna, voaram sem luzes sobre as montanhas que percorrem a fronteira com o Paquistão. As comunicações por rádio foram reduzidas ao mínimo e uma estranha calma se instalou na cabine.

Depois de cerca de quinze minutos de voo, a primeira mensagem chegou na rede da tropa: “ Atravessando a fronteira.” Agora os helicópteros estavam sobre um vale montanhoso e penetravam, sem ser percebidos, no espaço aéreo paquistanês. Há mais de 60 anos que as forças armadas desse país mantém um estado de alerta contra seu vizinho do leste, a Índia. Devido a essa obsessão “as principais defesas aéreas estão voltadas para leste”, explicou Shuja Nawaz, um estudioso do Exército paquistanês, autor do livro “Espadas Cruzadas: Paquistão, seu Exército e as Guerras Internas”. Vários oficiais e altos funcionários do Governo paquistanês concordam com essa avaliação, mas um militar de alta patente discordou certa vez: "Ninguém deixa suas fronteiras sem proteção”. 

Apesar de recusar-se a dar detalhes sobre a localização ou direcionamento dos radares paquistaneses – “Não se trata de onde estão ou deixam de estar os radares” – disse que a infiltração americana foi consequência “do desnível tecnológico entre os EUA e o Paquistão”. Os Black Hawks, cada um deles com dois pilotos e uma tripulação formada por soldados do 160 SOAR, foram adaptados para mascarar o calor, o ruído e o movimento que faziam; a parte externa tinha ângulos afilados e achatados, cobertos por uma “pele” antirradar segundo algumas fontes. Os helicópteros atravessaram Mohmand, uma das sete regiões tribais do Paquistão, contornaram o norte de Peshawar e seguiram em direção ao leste para Abbottabad.  

Em Chalk Um estava "James", o Comandante da Equipe Vermelha do DEVGRU. Ele viajava sentado no chão junto com outros 10 SEALs, além de "Ahmed" e "Cairo". "James", era um homem de ombros largos, com menos de 40 anos, não tinha um corpo de um nadador, que é o que se imagina em um SEAL; parecia mais um lançador de discos.  Em um dos seus bolsos ele tinha um mapa plastificado e quadriculado do complexo. Em outro, seu livreto SSE de informações sobre a missão com fotografias e descrições físicas do pessoal que se acreditava estar na casa. Todos usavam protetores auriculares que bloqueavam qualquer ruído.

Durante os 90 minutos do voo de helicóptero, "James" e alguns de seus colegas ensaiaram a operação em suas cabeças. Outros preferiram tirar um soneca. Para a maioria deles desde o Outono de 2001, que eles tinham circulado através do Afeganistão, Iraque, Iêmen e o Chifre da África, a um ritmo brutal. Pelo menos três dos SEALs tinha participado na operação de resgate na costa da Somália em abril de 2009, que libertou o capitão da Marinha Mercante, Richard Phillips, o capitão do Maersk Alabama, e deixou três piratas mortos.

Apesar de lá fora estar um breu total eles sabiam pelas informações passadas pelo rádio que estavam voando sobre o Paquistão. E para muitos ali esse país  não era território desconhecido. Muitas equipes dos SEALs já tinham entrado secretamente no Paquistão em dez ou doze ocasiões anteriores, de acordo com um oficial de Operações Especiais profundamente envolvido com o ataque a Bin Laden. A maioria dessas missões foram realizadas no Norte e Sul do Waziristão, onde muitos militares e analistas de Inteligência tinham pensado que Bin Laden e outros líderes da Al Qaeda estavam escondidos (apenas uma operação - o ataque a  Angoor Ada, uma vila no sul do Waziristão, em setembro de 2008 foi amplamente divulgado).  Mas Abbottabad era, de longe, a missão que levava o DEVGRU mais para dentro do território paquistanês.

Chegada

Um pouco antes das quatro, Panetta anunciou para o grupo na Sala de Crise que os helicópteros se aproximavam de Abbottabad. Obama se pôs de pé. “Preciso ver isso” e cruzou o corredor para ir até o pequeno escritório e sentar ao lado de Webb. O vice-presidente Joseph Biden, a Secretária de Estado Hillary Clinton e o Secretário Gates o seguiram. Na tela LSD de tamanho modesto aparecia o helicóptero 1 acima do complexo e logo em seguida, aconteceu o inesperado.

Na rede da tropa todos dentro dos helicópteros ouviram: “Um minuto.”

Neste momento todos estavam prontos com suas armas preparadas, seus capacetes presos com suas correias de segurança no queixo e seus óculos NVGs com seu foco ajustado. Em Chalk Um todos estavam prontos para serem inseridos através de uma corda. O chefe da tripulação abriu a porta. Um dos chefe de equipe neste helicóptero posicionou a barra do Sistema de Inserção/Extração por Corda Rápida, ou FRIES. A corda foi conectada à barra do FRIES, o que permitiria que todos descessem verticalmente para o chão. Ela estava presa por um pino na base. O chefe de equipe passou a mão ao longo dela para ter certeza de que o pino estava no lugar. O chefe da tripulação também conferiu. O SEAL deu um forte puxão na corda para verificar se estava bem presa, e colocou as suas pernas para fora da borda do helicóptero. O chefe de equipe agarrou a corda e se inclinou bem para enxergar adiante. Neste momento os helicópteros sobrevoavam várias casas com piscinas iluminadas e jardins bem cuidados atrás de altos muros de pedra. Todos os SEALs ali estavam acostumados a verem de seus helicópteros de infiltração aldeias pobres de cabanas de adobe. De cima, tiveram a impressão de estar sobrevoando um subúrbio nos Estados Unidos. Mas lá foram estava tudo escuro, nenhuma das casas vizinhas estava com a luz acesa. Parecia que tinha faltado energia no quarteirão inteiro. Blecautes eram comuns naquela área.. O chefe de equipe inclinou-se para fora da porta e finalmente conseguiu a famosa propriedade. O longo voo até Jalalabad tinha finalmente terminado.

O barulho do motor mudou quando Chalk Dois começou a rondar a propriedade. Quando ele chegasse ao ponto predeterminado para os SEALS descerem, o chefe de equipe que estava na porta poderia jogar a corda. A aeronave oscilava, e os homens começaram a perceber que os pilotos estavam com dificuldade para manter a posição. Era como se eles estivessem brigando com o helicóptero para obrigá-lo a cooperar. E nada do Black Hawk entrar em voo estacionário.

Muitos dentro do Chalk Um pensavam: “Vamos, vamos, vamos”.

Os pilotos nunca tinham dificuldade para pairar sobre um ponto fixo. Havia algo de errado. Todos queriam desesperadamente sair do helicóptero e ir para o chão.
“Vamos circular”, todos ouviram pela rede da tropa.

Alguns pensaram: “Merda. Nem chegamos ao chão e já estamos no plano B.”

De repente, Chalk Um deu uma guinada de noventa graus para a direita como se estivesse desabando num declive de montanha-russa. Os rotores gritavam enquanto o Black Hawk usava toda a força que tinha para subir . Mas a cada segundo, o helicóptero chegava mais perto do chão. Todos dentro da cabine tentaram se segurar. Um sentimento de pavor e frustração passava pela cabeça de muitos. Cada um deles havia sacrificado muita coisa para chegar àquele
ponto. Todos achavam que era sorte demais terem sido escolhidos para a missão, mas ali estavam, a um passo da morte, sem que lhes fosse dada sequer uma chance de fazerem a sua parte.

Os homens sabiam que helicópteros não são como aviões, que podem planar para executar uma aterrissagem forçada. Quando param de funcionar, simplesmente desabam do céu como pedra. E ao baterem no chão, as lâminas do rotor desprendem-se, disparando estilhaços e destroços em todas as direções.

O muro que cercava o alvo passou rapidamente, enquanto Chalk Um rumava direto para o chão. O helicóptero fez um giro de noventa graus, e o rotor da cauda
quase bateu no muro do lado sul da propriedade. Segundos antes do impacto, o nariz do aparelho mergulhou. Todos suspenderam a respiração e esperaram o choque. O helicóptero estremeceu quando a dianteira cravou no chão, mole como um dardo. Num instante o chão tinha vindo em alta velocidade ao encontro de Chalk Um . As lâminas não se desprenderam. Em vez disso, os rotores causaram uma ventania no pátio úmido, espalhando poeira e destroços e criando um furacão em volta da aeronave. Os homens dentro do Chalk Um assopravam o nariz e piscavam os olhos por causa da poeira nos olhos. Pouco depois eles perceberam que a aeronave estava a quase dois metros do chão, em ângulo bastante inclinado. Quando o helicóptero caiu, a cauda ficou presa no muro de três metros e meio. O cone de carga traseiro segurou o aparelho e impediu que os rotores atingissem o chão. Se qualquer outra parte atingisse o muro, ou se tivéssemos virado e o rotor tocasse o chão primeiro, ninguém dentro dele teria saído andando, ileso. O piloto, chamado "Teddy" e seu copiloto tinham conseguido fazer o impossível.

Passado o choque um dos SEALs gritou: “Cai fora desta porra”. E todos começaram a correr o mais longe possível da aeronave, mesmo carregando trinta quilos de equipamento. Muitos saltaram da cabine e passaram correndo por uma brecha debaixo do helicóptero que ficou preso no muro. Na verdade anos de treinamento faziam com um SEAL se tornasse muito bom em não perder a cabeça em situações de grande tensão, e agora era preciso esquecer a queda e cumprir a missão. Apesar do quase desastre, a missão prosseguia.

Os SEALs já rumavam para o portão que levava ao edifício principal. Os americanos tinham calculado trinta minutos para completar a missão, com
base no consumo de combustível dos helicópteros e num possível tempo de reação dos paquistaneses. Eles acrescentaram dez minutos de flexibilidade só para garantir. Agora todos sabiam que eles iam precisar desses minutos extras.

Um SEAL, chamado "Charlie" preparou uma carga explosiva para abrir o portão trancado do edifício principal. À sua volta havia companheiros com as armas já em posição, destravando o mecanismo de segurança.

Enquanto isso um chefe de equipe, chamado "Mark" foi em direção a uma sala de orações perto do portão a fim de se certificar de que estava vazia. A sala tinha uma grande área aberta com grossos tapetes no assoalho e almofadas junto às paredes. Eles sabiam que, graças à inteligência, que a sala era usada muito provavelmente para receber convidados, o que raramente acontecia. Uma vez verificada, ele lançou uma luz química infravermelha pela porta para avisar
aos outros que o local já estava tomado.

Quando a carga no portão estava pronta para ser detonada todos abaixaram a cabeça para proteger os olhos. Ninguém ficou apavorado ou nervoso. Finalmente eles estavam no chão e, finalmente também, cabia a eles executarem o serviço. A explosão provocou uma onda de choque que abriu um buraco no
portão. "Charlie" foi o primeiro a passar, chutando e arrancando o metal chamuscado para alargar o buraco e podermos entrar. Todos passaram e partiram, às pressas, para fazer sua parte. Apesar de alguns imprevistos, todos estavam de novo seguindo o plano original.

Depois de desobstruírem o portão, os SEALs viram de relance o segundo Black Hawk, Chalk Dois. Pela maneira como o helicóptero se movimentava, eles deduziram que Chalk Dois já tinha baixado a equipe de segurança fora dos muros da propriedade. Pelas dezenas de vezes que eles treinaram, já estavam acostumados a receber no rosto o vento dos rotores quando o helicóptero entrava em voo estacionário em cima do prédio e as equipes escorregavam pela corda para descer no telhado.

Mas em vez de pairar em cima da casa, o helicóptero desapareceu rapidamente atrás dos muros. Os pilotos deviam ter visto quando Chalk Um caiu, e pousaram para deixar a equipe do lado de fora. “Não tenham medo de deixar os helicópteros numa posição ruim, e ponham os homens no chão”, reiterou o almirante McRaven numa das últimas reuniões de instrução. “Não importa onde, o essencial é colocá-los no chão em segurança. Eles cuidam do resto.”

Com certeza que Chalk Dois, depois de ver o que tinha acontecido ao outro helicóptero, preferiu não arriscar descer os homens pela corda no prédio
principal. Foi a decisão certa. Então começaram as primeiras chamadas de rádio na rede. Pelos planos de contingência, se não descessem pela corda, o pessoal em Chalk Dois pousaria em um portão no lado norte da propriedade. O que de fato foi feito.

Enquanto o pessoal de Chalk Dois estava tentando entrar no complexo, os homens de Chalk Um já estavam dentro e buscavam chegar em C1,  casa de hospedes. Mesmo depois da queda do helicóptero e da explosão de um portão os SEALs tentavam ser o mais silenciosos possível. Enquanto se aproximavam da C1 único barulho que denunciava a sua presença era o arrastar das botas no cascalho. Eles se aproximavam com cuidado pois sabiam que Ahmed al-Kuwaiti, sendo um dos mensageiros mais confiáveis de Bin Laden, morava na casa de hóspedes com a família. Eles também esperavam pelo menos que na casa tivesse uma mulher e várias crianças. E como havia crianças morando ali, eles não esperavam nenhuma armadilha com bombas.

Exatamente como na maquete e nas imagens, havia um conjunto de portas de metal duplas com janelas no alto. Uma janela à direita da porta tinha barras cobrindo o vidro. "Mark" e outro SEAL se aproximaram e não viram luzes dentro da casa. Lençóis cobriam todas as janelas, impossibilitando enxergar lá dentro.
O companheiro de "Mark", chamado aqui de "Will" assumiu posição à direita da porta enquanto "Mark" tentava a maçaneta. Ele virou duas vezes para baixo o puxador em forma de L, mas estava trancada. Recuando um pouco, "Will" tirou o malho da parte de trás do seu kit e puxou o cabo extensível. Seu companheiro lhe deu cobertura pela direita. "Will" recuou ereto e atingiu a fechadura com um golpe rijo. O malho bateu com força na maçaneta, mas o resultado foi apenas um puxador torto e um corte profundo. Ele deu mais duas pancadas, mas a fechadura não cedeu. As portas eram de metal sólido, o malho não funcionaria.

"Will" voltou-se para as janelas e tentou quebrar o vidro, para que eles pudessem tirar o lençol e olhar lá dentro. Enfiando a cabeça do malho pelas barras, fez força para quebrar a vidraça, mas, cada vez que puxava a ferramenta de volta, ela ficava presa. As barras eram muito estreitas. “Vou usar explosivo”, sussurrou "Mark" para "Will" e tirou a carga de invasão da parte de trás do meu kit. Eles sabiam que o tempo era essencial e que tinham perdido o elemento surpresa no minuto em que o helicóptero caíra. "Will" pôs o malho de lado e deu cobertura com seu fuzil.

Do outro lado da propriedade houve uma explosão quando a equipe do Chalk Dois abriu o portão norte a bomba. “Não houve ruptura”, foi avisado na rede da tropa. “Estamos indo agora para o portão Delta para tentar entrar na propriedade.” Depois de explodir o portão norte, os SEALs da DEVGRU descobriram que por trás dele havia uma parede de tijolo. Àquela altura, era para a equipe do Chalk Dois já estar assaltando o terceiro andar , mas ainda não tinham nem conseguido entrar na propriedade.

“Câmbio, vou encontrar vocês lá e tentar abri-lo por dentro”, respondeu "Mike", que veio no Chalk Um e era o suboficial da Equipe Vermelha, e o SEAL mais antigo da unidade. O portão Delta ficava na ponta norte da entrada da garagem que separava a área onde caiu o helicóptero do resto da propriedade. "Mike"
estava na ponta sul da entrada da garagem, perto da casa de hóspedes. Agora a missão se desenrolava depressa. Cinco minutos tinham se passado desde que os americanos tinham pousado, e os vinte quatro homens deslocavam-se em grupos pela propriedade. Pelo menos duas cargas de explosivos tinham sido usadas, e, com o barulho dos helicópteros, eles sabiam que àquela altura os ocupantes da propriedade deviam já estar preparados para se defender.

"Mark" apoiando-se num joelho à direita da porta, tirou a proteção da faixa de adesivo da carga de invasão e a colocou entre a maçaneta arrebentada e a fechadura. Com sua experiência em combate ele sempre se ajoelhava para colocar cargas de invasão, porque no Iraque ele fora alvejado através da porta muitas
vezes. Combatentes gostam de metralhar no meio da porta, disparando às cegas onde acham que um homem deve estar de pé.

Um terceiro membro da equipe de "Mark" entrou na propriedade. Foi um dos últimos a sair do helicóptero e tinha acabado de alcançá-lo. Sua tarefa era desobstruir a escada que levava ao telhado da casa de hóspedes. Quando começou a andar em direção à escada, que ficava bem na frente da porta, balas de AK-47 quase o atingiram, errando por pouco. "Mark" se afastou enquanto balas também estalavam poucos centímetros acima da sua cabeça.

Mas todos tentaram manter a calma. “Essa arma não tem silenciador”, pensaram. Para eles era fácil saber quem atirava: as armas dos SEALs tinham silenciadores, disparos sem silenciador significavam fogo inimigo. Alguém dentro da casa tinha um fuzil de assalto. Mirando na altura média, disparara uma
rajada às cegas. Mas os SEALs sabiam que o combatente era um animal enjaulado. Não tinha para onde ir e sabia que o seu inimigo estava chegando.

"Will", cobrindo a porta pelo lado esquerdo, começou a atirar de volta instantaneamente. "Mark" também abriu fogo. Seus disparos atravessaram a porta de metal. Rolando para se afastar da entrada, "Mark" levantou-se e foi até a janela a alguns passos da porta. “Ahmed al-Kuwaiti”, disse "Will". “Ahmed al-Kuwaiti, saia daí!” Quebrando a janela com o cano da arma, "Mark" atirou contra a sua provável posição.

Enquanto isso "Will" ainda berrava, sem obter resposta. Sem tempo a perder, "Mark" voltou-se para a carga de invasão, ainda presa à porta. O único jeito de entrar seria explodindo a entrada. Enquanto ele se aproximava, tomou a precaução de se manter bem abaixado. Depois que eles explodiram a porta, decidiram jogar uma granada lá dentro, para desobstruir o caminho. Ahmed al-Kuwaiti já demonstrara que não desceria por vontade própria, e os SEALs não queriam arriscar.

Quando "Mark" já ia colocar o detonador na carga os SEAls ouviram alguém mexer na tranca. Imediatamente eles recuamos para longe da porta. Não faziam ideia de quem poderia sair dali, ou o que esperar. Será que a pessoa ia abrir levemente a porta e jogar uma granada, ou apontar seu AK-47 e metralhar todos ali? A posição do SEALs era incomoda. Não havia onde buscar refúgio. O pátio estava atulhado de lixo e ferramentas de jardinagem. A sua única opção era andar para trás. A porta se abriu devagar, e então se ouviu uma voz de mulher gritar. Mas isso não queria dizer que os americanos estavam livres de perigo. Se ela saísse usando um colete suicida, todos ali morreriam u ficariam seriamente feridos. Eles sabiam que aquele era o esconderijo de Bin Laden. Aqueles eram seus auxiliares. Tiros foram disparados, e os SEALs sabiam que essas pessoas estavam dispostas a morrer para protegê-lo, como já fizeram outros no passado.

Através do suor que escorria pelo seu rosto e da areia que o vento dos rotores jogava nos olhos, "Mark" viu indistintamente uma figura de mulher através do esverdeado dos seus óculos de visão noturna. Ele tinha qualquer coisa nos braços e o dedo de "Mark" começou a apertar lentamente o gatilho do seu HK 416. Os lasers dos SEALs dançavam em torno de sua cabeça. Bastaria uma fração de segundo para acabar com a vida dela, se a mesma estivesse com uma bomba.

Como a porta ficou aberta, eles viram que o objeto era um bebê. A mulher de Al-Kuwaiti, Mariam, saiu com a criança apertada contra o peito. Atrás dela, saíram mais três meninos arrastando os pés. “Vem cá”, "Will" a chamou em árabe. "Mark" manteve o fuzil apontado enquanto avançavam. “Ele está morto”, gritou Mariam para "Will" em árabe. “Vocês atiraram nele. Está morto. Vocês o mataram.” "Will" a revistou rapidamente. “Ela diz que ele está morto”, Will traduziu para seus companheiros.

Olhando pela porta para dentro da casa "Mark" viu os pés de alguém estirado no chão na entrada do quarto de dormir. Não havia como saber se ainda estava vivo, e os SEALs não iam correr riscos. "Will" apertou o ombro de "Mark" para que ele soubesse que ele esta va pronto. "Mark" posicionou o seu fuzil, entrou e disparou vários tiros contra o homem.

A casa cheirava a óleo de calefação. Passando por cima do corpo de Al-Kuwaiti, "Mark" viu uma pistola e um AK-47 no chão, dentro do quarto, perto da porta. Ele chutou o fuzil para longe e continuou a desobstruir o local, que tinha uma cama no centro e camas pequenas para as crianças junto às paredes. A família inteira dormia no mesmo quarto. Do outro lado do corredor ficava a cozinha. Os disparos dos SEALs tinham destruído a sala, esfacelando os armários e explodindo alimentos por toda a parte. Água escorria da bancada. O fogão tinha vários furos e os ladrilhos baratos foram quebrados, espalhando pedaços pela bancada e pelo chão. O chão estava escorregadio por causa da água e do sangue de Al-Kuwaiti, que empoçara no corredor e sujara as botas dos americanos. Eles desobstruíram rapidamente os dois quartos e foram para fora. “Tiros disparados C1, prédio garantido”, disse "Mark" pela rede da tropa e atirou uma luz química na porta da frente da casa de hóspedes. Então ele e seus companheiros seguiram para o prédio principal, A1, a fim de dar apoio às outras equipes.

"Mark" e "Will" passaram correndo pelo portão aberto entre a casa de hóspedes e o prédio principal. Estavam indo para a porta norte de A1. Pela rede da tropa se ouviu: “Explosivos preparados, porta norte A1”. A carga foi posta no lugar por "Charlie"e ele ficou esperando a ordem de explodir.

As informações da CIA estavam certas. Oo americanos suspeitavam que a casa era dividida num dúplex. A família de Bin Laden ocupava o segundo e o terceiro andares, com entrada própria. Bin Laden sempre saía pela porta norte, mas os irmãos Kuwaiti sempre usavam a porta sul.

Sem saber direito se havia um corredor entre as portas norte e sul, os SEALs não queriam arriscar duas cargas de explosivo ao mesmo tempo. Por isso "Tom", um experiente operador do DEVGRU, e outro líder de equipe, proposto um plano que consistia em invadir primeiro o lado sul da casa, enquanto "Charlie" aguardava "Tom" chamar pelo rádio antes de detonar a carga de explosivos. Os três homens da equipe de "Tom" estavam lá dentro, desobstruindo o primeiro andar. O interior do prédio estava escuro, quase breu, mas com a visão noturna eles podiam enxergar facilmente o longo corredor e as quatro portas, duas de cada lado. A equipe de "Tom" tinha avançado poucos passos no prédio quando o sujeito da frente viu a cabeça de um homem aparecer no primeiro quarto à direita. Eles já tinham ouvido o barulho inconfundível de tiros de AK-47 na casa de hóspedes, e não iam correr riscos. Tempo suficiente tinha se passado para que alguém em A1 pudesse se preparar para resistir. O homem da frente disparou um tiro. O projétil atingiu o ocupante — que depois se confirmaria ser Abrar al-Kuwaiti — e ele desapareceu dentro do quarto. Deslocando-se lentamente pelo corredor, a equipe de "Tom" parou perto da porta. Abrar al-Kuwaiti estava ferido no chão. Quando eles abriram fogo de novo, sua mulher Bushra pulou para tentar protegê-lo. A segunda rajada matou os dois. A equipe viu outra mulher e várias crianças chorando, amontoadas num canto do quarto. Havia um AK-47 no chão. "Tom" pegou-o e descarregou-o enquanto o resto da equipe vasculhava os outros quartos. No fim do corredor havia uma porta trancada, diretamente alinhada com a porta norte. Com o lado sul de A1 garantido, a equipe de "Tom" saiu rapidamente.

Realmente até agora os SEALS não tinham enfrentado numa ação incomum. Eles tinham treinamento inúmeras e cansativas vezes a invasão de casas, prédios, navios e aviões, com as mais variadas possibilidades de oposição. Normalmente eles teriam deixado alguém tomando conta da mulher e das crianças no primeiro quarto, mas não havia tempo nem homens suficientes. Elas foram simplesmente deixadas ali.

Com essas área liberada "Tom" disse pela rede da tropas: “Charlie, pode mandar”.

Quando saíam pela porta sul, um dos SEALs removeu o pente e jogou o AK-47 de Abrar al-Kuwaiti no pátio. Estava escuro e era pouco provável que alguém saísse para pegá-lo. Segundos depois de "Tom" falar pelo rádio, se ouviu um estrondo quando "Charlie" detonou sua carga de invasão. Após isso os SEALS do Chalk Um ficaram enfileirados para entrar pela porta norte, que agora estava aberta.

Os SEALs do Chalk Dois tinham chegado à propriedade. Depois da primeira tentativa fracassada, seguiram para o portão principal e foram postos para dentro por "Mike". Agora, já estavam na fila da porta norte. "Charlie" já estava lá dentro, e uma fila não muito rigorosa se formara enquanto os SEALs esperavam para entrar no alvo. Enquanto isso múltiplos lasers percorriam janelas e sacadas, só para garantir.

O desejo de todos era continuar o ataque escada acima, mas "Charlie" informou pelo rádio que outro portão de metal bloqueava o caminho para o segundo andar. Agora "Charlie" concentrava-se em preparar sua terceira carga de invasão da noite. Tudo que restava para os SEALs era esperar e dar proteção.

Algo surreal era o cacarejo de galinhas muito irritadas. A caminho da porta norte os americanos passaram por uma pequena área de galinheiros cercados com grade. Os seus coletes à prova de bala e o seu equipamento tático tomavam conta da estreita passagem, esmagando os galinheiros.

Foi neste momento que "James", o comandante da missão, que viera no Chalk Dois soube que Chalk Um tinha caído. Mesmo através da visão noturna deu prá vê "James" mudar de expressão enquanto processava a informação. Ele se virou e voltou às pressas para trás da fila. Parece que ninguém do Chalk Dois sabia
que o outro helicóptero tinha caido.. Até aquela altura não fora divulgado nada nas redes.

O que aconteceu foi que quando viram Chalk Um cair no pátio, os pilotos do Chalk Dois cancelaram a delicada descida no telhado pela corda e foram pousar fora dos muros. Enquanto isso no Chalk Um, o piloto, chamdo de "Teddy", e sua equipe estavam desligando os motores e destruindo criteriosamente todos os instrumentos. Por um segundo, "Teddy" chegara a pensar em decolar. Não havia nenhuma grande avaria visível no helicóptero, e imaginou que sem peso talvez pudesse le-vantar voo. No fim, a cautela venceu.

Depois de correr até o local do acidente, "James" pegou o rádio via satélite e chamou a Força de Reação Rápida. A Força de Reação Rápida imediatamente decolou de sua posição a uma pequena distância dali, ao norte da propriedade, e partiu na direção em direção ao complexo. Para ganhar tempo, pegou um atalho que passava por cima da academia militar do Paquistão. Mas poucos minutos depois "James" novamente falou no rádio. Apesar de ter sofrido um acidente, não havia mortos ou feridos. Todos os SEALs estavam posicionados em A1 e iam começar a desobstruir as escadas. “Mantenham a posição”, disse "James" à Força de Reação Rápida.

Dentro de A1, "Charlie" preparou a próxima carga de invasão e conferiu a área de explosão. Como a carga detonaria dentro do prédio, a superpressão seria mais dinâmica, arrebentando janelas e portas. Dois outros SEALs estavam perto de "Charlie". Com cobertura praticamente zero para protegê-los da explosão, um dos SEALs escondeu-se atrás de uma porta que dava para outro quarto. “Ei, cara, talvez seja melhor prestar atenção nessa porta”, disse "Charlie".

O SEAL saiu de trás da porta no momento exato em que "Charlie" detonou a carga. Se ouviu claramente a explosão do lado de fora, perto dos galinheiros. A superpressão arrancou a porta atrás da qual o SEAL tentara se proteger, e arremessou-a contra a parede oposta. Ele ficou parado, aturdido. Se não tivesse saído da frente poucos segundos antes estaria gravemente ferido. “Valeu”, disse ele a "Charlie", enquanto ambos empurravam e abriam o portão avariado.

Com o portão aberto, eles começaram a limpar a escada. Os degraus de ladrilho ficavam em ângulos de noventa graus, criando uma espécie de escada caracol com pequenos patamares. Eles não sabiam o que esperar . Àquela altura, Bin Laden, ou quem quer que estivesse lá dentro, tivera tempo suficiente para pegar uma arma e preparar uma defesa. Como o único caminho para cima era pela escada, eles podiam facilmente ser bloqueados.

Estava escuro e eles se nos esforçavam para não fazer barulho. Cada passo era deliberado. Eles não falavam. Eles não berravam. Eles não corriam. Nos velhos tempos, eles teriam invadido a propriedade lançando granadas luminosas enquanto desobstruíam cada objetivo. Agora faziam o mínimo possível de barulho. A vantagem era deles, por causa da visão noturna, mas poderiam perdê-la se viessem a se precipitar. Era uma questão de controlar o acelerador. Não havia motivo para eles correrem em direção à morte.

Ao chegarem ao segundo andar os SEALs se espalharam. Esse piso abria para um longo corredor que levava a um terraço no lado sul do prédio. Havia quatro portas. Os SEALs avançaram em silêncio pelo corredor, amontoando-se nas portas antes de entrarem e desobstruírem os quartos em completa mudez. Enquanto isso um batedor avançou para os degraus que iam para o terceiro andar. Ele viu um homem assomar a cabeça procurando algo. A inteligência dissera que podia haver até três homens habitando a propriedade principal. Khalid, o filho de Bin Laden, muito provavelmente moraria no segundo andar, enquanto Bin Laden viveria no terceiro. A cabeça que espiara tinha boa aparência, e nenhuma barba. Só podia ser o filho de Bin Laden. “Khalid”, sussurrou astutamente o batedor: “Khalid.” Todos que estavam na propriedade tinham ouvido os motores dos helicópteros. Ouviram também disparos na casa de hóspedes, e ouviram as cargas de invasão. Mas depois tudo ficara em silêncio novamente. Só se escutavam passos. E de repente o sujeito ouvira alguém chamando seu nome. talvez Khalid tenha pensado: "Eles sabem meu nome?". O certo é que não resistiu à curiosidade e esticou-se para ver quem era. No segundo em que voltou a assomar a cabeça, o batedor do DEVGRU atingiu-o no rosto. O corpo rolou pela escada e seu sangue começou a escorrer no piso de mármore.

Enquanto alguns SEALs garantiam o segundo andar outros SEALs começaram a se posicionar para irem verificar o terceiro andar. À frente estava o batedor e logo atrás dele estava o líder de equipe "Mark". Parado atrás do batedor que ia na frente, "Mark" apertou-o para avisar que todos estavam prontos. “Continue.”

O corpo de Khalid estava esparramado de barriga para cima e os SEALs tiveram de passar com cuidado por ele na escada. Os degraus eram de ladrilho escorregadio, mais escorregadio ainda por causa do sangue. Cada degrau era precário. Um fuzil AK-47 estava encostado na parede ao lado do corpo. A olho nu, a escada estava escura como breu, mas com a visão noturna tudo se banhava de uma luz esverdeada. Todos seguiam o batedor escada acima. Os SEALs tinham voltado a agir sem pressa. O batedor era os olhos e os ouvidos dos que subiam a escada.  Ele controlava os passos. Acelerava. Desacelerava.

Até aquele momento, tudo dera certo. O único homem que restava provavelmente era Bin Laden. Com o batedor logo na minha frente, não havia muito o que os outros pudessem fazer. Uns quinze minutos tinham-se passado, e Bin Laden tivera tempo de sobra para vestir um colete suicida ou simplesmente pegar sua arma. Os olhos dos SEALs esquadrinhavam o andar de cima. Seus sentidos estavam superexcitados. Os ouvidos esforçavam-se para captar os ruídos de um cartucho sendo carregado, ou os passos de alguém que se aproximava. Nada que faziam agora era novidade. Eles tinham participado de centenas de missões. No nível mais básico, estavam ali desobstruindo cômodos exatamente como aprenderam a fazer na Equipe Verde (o curso de formação dos novos operadores do DEVGRU). A grande diferença era que o alvo era Bin Laden e estava no Paquistão e isso tornava essa missão significativa.

O fim da escada dava num corredor estreito, que acabava numa porta que levava à sacada. Mais ou menos a um metro e meio do último degrau da escada havia mais duas portas, uma à direita e outra à esquerda. A escada era meio apertada, especialmente para um bando de sujeitos portando tantos equipamentos. Era difícil ver além do batedor , pois a escada e o patamar estreitavam à medida que eles subiam. Quando estavam a menos de cinco degraus do topo os outros  SEALs ouviram dois tiros disparados com silenciador.

O batedor tinha visto um homem espiar pela porta do lado direito do corredor a cerca de dois metros e meio à frente dos americanos. Após os disparos o homem desapareceu no quarto escuro. O batedor subiu até o terceiro andar e depois se deslocou lentamente em direção à porta. Diferentemente do que o cinema costuma mostrar, eles não pularam os últimos degraus e entraram no quarto disparando a esmo. Foram devagar e com cuidado. O batedor mantinha o fuzil apontado para o interior do quarto enquanto os outros caminhavam lentamente até a porta aberta. Eles pararam à entrada e espiaram. Lá dentro havia duas mulheres perto de um homem estendido ao pé da cama. Ambas vestiam longas túnicas e tinham os cabelos bagunçados, como se acabassem de levantar da cama. Choravam e lastimavam-se histericamente em árabe. A mais nova ergueu os olhos e viu os SEALs à porta. Ela deu um grito em árabe e precipitou-se em direção ao batedor.

Os outros operadores estavam a menos de um metro e meio de distância. Virando a arma para o lado, o batedor segurou as duas mulheres e empurrou-as para
um canto. Se as mulheres usassem coletes suicidas, é provável que ele tivesse salvo a vida de seus amigos, mas ao custo da sua. Foi uma decisão altruísta tomada numa fração de segundo.

Afastadas as mulheres, "Mark" e outro SEAL entraram na sala. Eles viram imediatamente um homem deitado no chão ao pé da cama. Trajava camiseta sem mangas, calças largas marrons e túnica marrom. Os tiros do batedor tinham penetrado do lado direito de sua cabeça. Sangue e massa cinzenta escorriam do crânio. À beira da morte, ele se contorcia, em convulsão. Então os dois SEALs apontaram os seus lasers para seu peito e fizeram vários disparos. As balas rasgaram-lhe a carne, sacudindo o corpo contra o assoalho, até parar de mexer.

"Mark" deu uma olhada rápida para certificar-me de que não havia mais ameaças, e viu pelo menos três crianças amontoadas num canto, perto da porta de vidro de correr que abria para a sacada. As crianças — não dava para saber se eram meninos ou meninas — ficaram sentadas no canto, atônitas, enquanto os SEALs verificavam o quarto.

Agora que o homem no chão parara de mexer, e não havia mais ameaças, e assim os americanos passaram a verificar os dois cômodos menores ao lado do quarto de dormir. Empurrando a primeira porta, eles deram uma espiada e viram um pequeno escritório, atulhado e desarrumado. Havia papéis espalhados
sobre uma escrivaninha. A segunda porta dava para um banheiro. Tudo agora era instinto. Ticavam sua lista mental de conferência. A principal ameaça estava morta ao lado da cama. O batedor cobria as mulheres e as crianças. Alguns SEALs desobstruíam o pequeno escritório e o banheiro, enquanto os outros desobstruíam o quarto do outro lado do corredor. Após o final da verificação esses locais foram declarados limpos.

O batedor tirou as mulheres e as crianças do quarto e as levou até a varanda para acalmá-las. Quando chegou ao terceiro andar, "Tom" viu que ambos os quartos estavam limpos. E falou pela rede da tropa: “Terceiro piso garantido”.

Neste ínterim a mulher mais jovem estava deitada na cama, gritando histericamente, agarrada às crianças. Um SEAL amigo de "Mark", chamado "Walt" estava em pé ao lado do corpo. Ainda estava escuro e era difícil distinguir o rosto do homem. A casa permanecia sem luz. "Mark" ergueu a mão e acendeu a lâmpada presa ao trilho na lateral do seu capacete. O alvo estava garantido e, com as janelas obstruídas, ninguém lá fora poderia vê-los, o uso da luz branca era seguro.

O rosto do homem morto estava coberto de sangue e tinha sido deformado por pelo menos um ferimento de bala. Um furo na testa fizera o lado direito do crânio afundar. O peito estava rasgado no ponto onde as balas tinham penetrado o corpo. Ele jazia numa poça de sangue que não parava de crescer. Quando "Mark" se agachou para olhar de perto, "Tom" se juntou a ele.

E "Tom" falou: “Acho que é nosso menino”.

Ele ainda não ia dizer pela rede da tropa que era Bin Laden, pois sabia que essa comunicação seria transmitida a Washington com a rapidez de um raio. Os  homens ali no quarto sabiam que o presidente Obama estava ouvindo, e não queriam cometer erros. Os SEALs passaram rapidamente as características que constavam da lista de conferência:
  - O homem era bem alto. Calcularam aproximadamente um metro e noventa e cinco. Tique.
  - Era o único adulto do sexo masculino no terceiro piso. Tique.

  - Os dois mensageiros estavam exatamente onde a CIA disse que estariam. Tique.


Quanto mais "Mark" olhava para o rosto deformado, mais seu olho reparava no nariz. Não estava danificado e lhe parecia familiar. Ele tirou o seu livreto do estojo e examinou as fotos. O nariz comprido e delgado correspondia. A barba era preta escura e não havia nenhum vestígio do grisalho que ele esperavam encontrar.
 

“Walt e eu vamos cuidar disto”, disse "Mark" para "Tom". “Positivo”, disse "Tom".


"Mark" pegou a sua câmera e luvas de borracha, e começou a tirar fotos enquanto "Walt" se preparava para extrair amostras de DNA. "Will", que falava árabe, tratava da perna ferida da mulher, que chorava deitada na cama. Seu nome era Ama al-Fatah, a quinta mulher de Bin Laden. Ele foi provavelmente atingida por um fragmentos de bala.


“Temos uma quantidade significativa de SSE no segundo andar”, falou alguém pela rede da tropa. “Vamos precisar de mais gente
aqui.” Quando "Tom" saiu do quarto, ele disse pela rede de comando: “Temos uma possível, repito, uma possível aterrissagem do alvo no terceiro andar .”

 

Enquanto isso "Walt" tirou sua mangueira CamelBak do estojo e espremeu água no rosto do homem. "Mark" começou a limpar o sangue do rosto dele usando um cobertor da cama. A cada movimento, o rosto ficava mais conhecido. Parecia mais jovem do que se esperava. A barba era negra, como se tivesse sido
tingida. Para "Mark " era estranho ver de perto um rosto tão infame, pois deitado na sua frente estava o motivo dele e de seus irmãos de armas terem passado a última década lutando. Para ele era surreal tentar limpar o sangue da face do homem mais procurado do mundo para que ele pudesse fotografá-lo. Mas ele tinha de se concentrar na missão. Os americanos precisvam de fotos de boa qualidade. Essa imagem poderia acabar sendo vista por muitos e examinada à exaustão.

 

Afastando o cobertor, "Mark" pegou a sua câmara que usara para tirar centenas de fotos nos últimos anos e começou a clicar. Todos os SEALs aprenderam
bem a tirar esse tipo de foto.  As primeiras fotos foram de corpo inteiro. Depois "Mark" se ajoelhou perto da cabeça e tirou algumas fotos só do rosto. Afastando a barba para a direita e depois para a esquerda, ele tirou várias fotos de perfil. Na verdade ele queria mesmo era fazer boas fotos do nariz.


“Ei, cara, segure o olho bom dele aberto”, disse "Mark" para "Walt". Seu amigo estendeu a mão e puxou a pálpebra expondo o olho castanho, agora sem vida. "Mark" deu um zoom e fotografou bem de perto. Enquanto ele tirava fotos, "Will" ficou com as mulheres e as crianças na sacada. Abaixo deles outros SEALs pegavam todos os computadores, cartões de memórias, notebooks e vídeos. Lá fora, "Ahmed", o intérprete da CIA, e a equipe de segurança lidavam com circunstantes curiosos.

 

Pelo rádio, "Mike" falou sobre o Black Hawk quebrado. “Equipe de demolição, prepare a explosão”, disse "Mike". Pela rede da tropa deu prá saber que SEAL encarregado de demolição e o especialista em descarte de material bélico explosivo estavam a caminho do pátio.


“Ei, vamos explodir”, disse o SEAL. “Câmbio”, disse o técnico. Ele começou a tirar as cargas e colocá-las no chão em volta da casa principal.

 

“Que merda é essa?”, perguntou o SEAL enquanto o técnico tirava o material. Todos estavam confusos.

 

“Você me disse para preparar para explodir , certo?”

 

“Não a casa”, disse o SEAL. “O helicóptero.”


“Que helicóptero?”
O especialista em descarte de material bélico explosivo achou que os SEALs queriam explodir a casa, pois esse era um dos planos de contingência que eles haviam treinado.


A notícia do acidente com Chalk Um ainda não se espalhara. As pessoas ainda estavam descobrindo. Em Washington, ninguém teve certeza se o
helicóptero tinha caído mesmo quando viram as imagens transmitidas por um avião não tripulado. Pelo vídeo em preto e branco que as autoridades assistiam em Washington parecia que Chalk Um tinha “estacionado” no pátio para a equipe descer. O presidente e as autoridades ficaram confusos, e chegaram a perguntar ao Comando de Operações Especiais Conjuntas o que tinha havido. Uma mensagem rápida para McRaven voltou com a resposta: “Agora vamos corrigir a missão… temos um helicóptero caído no pátio. Meus homens estão preparados para essa contingência, e vão dar um jeito”.


Lá fora, a tripulação do helicóptero precisava destruir o equipamento, que era secreto. "Teddy", o piloto mais antigo e o guia do voo, foi um dos últimos a sair. Chegando à porta, olhou para baixo, a quase dois metros do chão. Ele não quis de jeito nenhum pular e correr o risco de se machucar. Chutando a corda para fora da cabine, escorregou até o pátio, tornando-se o único homem naquela noite a descer pela corda.

 

O especialista em explosivos e o SEAL chegaram lá logo depois e começaram a preparar cargas de explosivos em torno da fuselagem. Subindo na cauda, o SEAL tentou colocar cargas o mais perto possível dos rotores. Mas de kit e vestindo óculos de visão noturna não era fácil galgar a instável e estreita seção do cone de cauda. Quando tentava alcançar a seção encostada no muro de três metros e meio de altura, ficava com medo de que ela quebrasse com seu peso.
Subindo até onde pôde, colocou as cargas com uma mão. A outra o mantinha estável enquanto se equilibrava precariamente acima do pátio. Destruir o equipamento de comunicação e o eletrônico era a parte mais importante. Depois de instalar cargas na cauda, pôs as restantes na cabine principal.

 

Enquanto isso, o Black Hawk que não caíra e o CH-47 com a Força de Reação Rápida voavam em círculo ali perto, esperando que a missão em terra acabasse. Combustível tornara-se uma preocupação, e isso queria dizer que o prazo para a permanência na propriedade esvaia-se rapidamente.


“Dez minutos”, falou "Mike" pelo rádio.


No terceiro piso, as lâmpadas do quarto foram acesas. O blecaute aparentemente terminara. Era o momento perfeito, e tornava tudo mais fácil. Enquanto "Mark" terminava de tirar fotos, "Walt" colheu mais amostras de DNA. Ele untou um cotonete com o sangue de Bin Laden. Enfiou outro na boca do morto para obter amostras de saliva. Finalmente, pegou uma seringa dosadora fornecida pela CIA para obter amostra de medula. Os SEALs tinham sido treinados para fincá-la na coxa e obter amostra de dentro do fêmur. "Walt" enfiou-a várias vezes na coxa de Bin Laden, mas a agulha não funcionou.


“Aqui”, disse "Mark", oferecendo a "Walt" a sua seringa dosadora. “Tente com esta.”


Ele pegou a seringa e a espetou na parte carnuda da coxa de Bin Laden, mas ela também estava quebrada.

 

“Merda de seringa”, disse "Walt", atirando-as para o lado.


Então "Mark" tirou uma segunda série de fotos usando a câmera de outro SEAL. Eles tiraram duas amostras de DNA e duas séries de fotos para que eles ficassem com conjuntos idênticos. "Walt" guardou uma amostra e deu outra para um SEAL que iria em outro helicóptero. Isso foi planejado assim para
que uma amostra de DNA e um conjunto de fotos sobrevivessem, se um dos helicópteros fosse derrubado no voo de volta para Jalalabad. Depois de tanto trabalho os americanos queriam ter provas de que tinham eliminado pegado Bin Laden para mostrar ao Paquistão e ao resto do mundo.


Enquanto isso, na sacada, "Will" tentava obter a confirmação de que era Bin Laden que estava estendido no chão. Sua mulher, Amal, que fora ferida no tornozelo, ainda estava histérica e não falava. Só continuava com suas lamúrias em cima da casa. A outra mulher, com os olhos inchados de tanto chorar, tentava manter uma expressão séria enquanto "Will" perguntava, repetidamente, quem era o morto.

 

“Qual é o nome dele?”


“O sheik”, disse a mulher .


“Que sheik?”, perguntou "Walt". Ele não queria pôr nada na boca da mulher, e continuou a fazer perguntas que ela pudesse responder por conta própria. Depois que ela mencionou vários pseudônimos, "Will" dirigiu-se às crianças na sacada. Estavam sentadas, mudas, contra a parede. "Will" ajoelhou-se e perguntou a uma das meninas: “Quem é esse homem?”.


Ela não sabia mentir.


“Osama bin Laden.”


"Will" sorriu.


“Tem certeza de que é Osama bin Laden?”


“Tenho”, disse a menina.


“Tudo bem”, disse ele. “Obrigado.”


De volta ao corredor, ele segurou uma das mulheres pelos braços e deu-lhe uma boa sacudida.


“Pare de bancar a esperta comigo”, disse ele, mais sério do que antes. “Quem é aquele ali no quarto?”


Ela começou a chorar . Estava muito amedrontada, não tinha mais condição de resistir. “Osama”, disse ela.


“Osama de quê?”, perguntou "Will", ainda segurando-lhe o braço. “Osama bin Laden”, disse ela.


"Will" a levou de volta para a varanda com as crianças e retornou ao quarto.


“Ei, confirmação dupla”, disse "Will". “Confirmado pela menina. Confirmado pela mulher . As duas dizem a mesma coisa.” Quando "Will" saiu do quarto, "James" e "Tom" apareceram. Vendo o corpo, "James" se aproximou e se debruçou.

 

“Will" confirmou, por intermédio de uma mulher e uma menina, que é UBL”, disse "Tom".


Ajoelhado perto da cabeça de Bin LAden, "Mark" puxou a barba para a direita e para a esquerda, para que "James" pudesse ver o perfil. "Mark" colocou seu livreto SSE perto do rosto do morto para que "James" pudesse ver o verdadeiro Bin Laden ao lado das fotos da CIA.


“É, parece o nosso homem”, disse o comandante da missão. Então ele saiu do quarto imediatamente para fazer uma chamada. Seus homens retornaram ao que estavanm fazendo. Uma vez fora do prédio, "James" comunicou-se pelo rádio via satélite com o almirante McRaven em Jalalabad. O almirante mantinha informados o presidente Obama e os demais na sala de emergência da Casa Branca. Então "James pronunciou a famosa frase: “Por Deus e pelo país, transmito Gerônimo”, e mais uma vez disse “Gerônimo E.K.I.A.” Gerônimo se referia a Bin Laden e
EKIA era a sigla em inglês, Enemy Killed In Action, ou seja, inimigo morto em ação. Foram essas duas palavras que encerraram uma caçada de quase uma década.

 

Pela rede da tropa, se ouviu os homens do segundo andar dizendo que precisavam de mais ajuda para coletar as informações de inteligência nas salas de
mídia. Era no segundo andar que Bin Laden tinha um escritório improvisado, onde instalara computadores e gravava pronunciamentos em vídeo. As salas eram imaculadas e organizadas. Tudo no lugar . Todos os CDs, DVDs e cartões de memória perfeitamente empilhados. Os SEALs concentraram-se em apoderar-se da mídia eletrônica — gravadores, cartões de memória, pen drives e computadores. A CIA tinha instruído todos eles sobre o tipo de gravador de voz digital que supunha que Bin Laden usasse, e até lhes mostrou um similar durante o seu treinamento. Os SEALs que faziam busca no segundo andar de fato encontraram um exatamente igual ao previsto pela CIA. Quando o pessoal no terceiro andar acabou de colher amostras de DNA e tirar fotos, "Walt" e outro operador agarraram o corpo de Bin Laden pelas pernas e o arrastaram para fora do quarto escada abaixo. Na passagem até lá embaixo eles arrastaram o corpo de Bin Laden por cima do corpo de Khalid. A camisa branca do filho estava manchada com o sangue do pai. No primeiro andar, "Walt" pusera o corpo dentro de
um saco mortuário.

 

Os SEALs ainda no terceiro andar tentaram pegar qualquer informação de inteligência que encontrassem. Pegaram tudo que poderia vir a ser útil. Papéis, possivelmente escritos religiosos, e algumas fitas cassete foram colocados em uma sacola de náilon. Todos os SEALs levavam sacolas leves e dobráveis com essa finalidade. Uma inspeção rápida no minúsculo banheiro de azulejos verdes não rendeu nada de valor. Acharam uma caixa de tintura para cabelo, que ele devia usar na barba. Não é de admirar que parecesse tão jovem quando foi encontrado. Na parede entre o banheiro e o escritório, tinha um guarda-roupa
de madeira. Tinha quase dois metros de altura, com duas portas compridas. Dentro, havia muitos conjuntos de roupa, incluindo as camisas longas, as calças folgadas e os coletes usados na região. Comparado ao resto da casa, que parecia habitada por colecionadores compulsivos, seu guarda-roupa seria aprovado numa inspeção do Campo de Treinamento do Corpo de Fuzileiros Navais. Todas as camisetas estavam dobradas e empilhadas num canto. As roupas eram dispostas com espaços regulares entre si. Os SEALs pegaram algumas camisas e um colete e enfiei na sacola. Eles abriram as gavetas da parte de baixo, remexendo sua roupa à procura de alguma coisa que prestasse. No geral, parecia que seu quarto era mesmo só para dormir. Antes de sair, "Mark" notou uma prateleira em cima da porta. Ficava logo acima de onde ele se encontrava quando os SEALs chegaram ao terceiro andar. Ele passou a mão e apalpou duas armas. uma delas era um fuzil AK-47 e a outra uma pistola no coldre. "Mark" baixei as armas, tirou os pentes e examinou as câmaras de carregamento. Ambas estavam vazias.

 

Enquanto isso a equipe de segurança com "Ahmed", "Cairo" e quatro SEALs passaram a maior parte do tempo dando proteção ao longo da rua a nordeste da propriedade. Depois que eles foram inseridos, dois SEALs e "Cairo", o cão de assalto, fizeram uma varredura do perímetro. Após a patrulha, esperaram e cuidaram dos circunstantes que apareceram para investigar o que havia acontecido. Moradores tinham escutado os helicópteros, as explosões intermitentes, os tiros. Curiosos para saber o que estava acontecendo, pequenos grupos abordaram a equipe de segurança.


“Voltem para dentro”, disse "Ahmed" em pachto. “Está havendo uma operação de segurança.” Felizmente para os americanos, os paquistaneses obedeceram e voltaram para suas casas. Alguns postaram mensagens no Twitter sobre helicópteros e barulhos.


O tempo se esgotava. "Mike" estava no rádio dando recados constantes sobre o tempo que faltava, para que todos sincronizassem seus relógios. Eles estavam na propriedade havia quase trinta minutos. Cada vez que ele falava algo, seus companheiros de equipe no segundo andar pediam mais tempo.

 

“Precisamos de mais dez minutos”, disse um SEAL do segundo andar pela rede da tropa. “Não estamos nem na metade.” "Mike" simplesmente repetia quanto tempo faltava, calmamente. A missão exigia um equilíbrio delicado. Todos eles queriam ficar e ter certeza de que não estavam deixando nada para trás, mas os
helicópteros já não dispunham de muito combustível e não havia tempo de sobra.


“Pós-assalto, cinco minutos”, disse "Mike", finalmente. O que significava que todos deviam deixar imediatamente o que estavam fazendo e correrem para a zona de embarque em cinco minutos. Muitos queriam ficar mais um pouco. Havia tanta coisa para se checada ainda. Mas ficar ali que era arriscado, pois o combustível estava se acabando, e permanecer no alvo tempo demais, dava à polícia ou às forças armadas do Paquistão tempo para reagir. Na verdade eles já tinham conseguido o que foram buscar: Bin Laden. Era hora de partir, enquanto ainda era tempo.


“Ei, juntem as mulheres e as crianças e tirem-nas de A1”, disse "Mike" pelo rádio. "Will" tentava convencer as mulheres e as crianças a sair. Os SEALs não
queriam que todos ali se machucassem com a explosão do helicóptero. Mas era como pastorear gatos, e "Will" não obteve progresso algum. As mulheres ainda soluçavam, e as crianças choravam ou ficavam sentadas, aturdidas. Nenhuma delas queria ir para parte alguma.


Em C1 os SEALs tinham tirado fotos e pegado amostras de DNA de Al-Kuwaiti. A mulher e os filhos dele estavam acocorados no canto do pátio. OS SEALs tentaram fazê-los se levantar e andar quando um chamado urgente de "Mike" veio pelo rádio.


“Companheiros”, disse ele. “Larguem o que estão fazendo e se desloquem para a zona de aterrissagem do helicóptero de exfiltração.” Com pouco combustível, o Black Hawk e um CH-47 estavam vindo para buscar a força de invasão. Usando sinais com os braços, os SEALs fizeram a família de Al-Kuwaiti levantar-se e foram levados para a casa de hóspedes. Eles sabia que as cargas no helicóptero iam explodir ali perto. Seria uma grande explosão, mas a casa de hóspedes ficava suficientemente longe; e estariam a salvo se permanecessem dentro do quarto.


Dentro da C1, "Mark" tentou comunicar a ideia de que haveria uma grande explosão, usando as mãos e fazendo barulho com a boca. “Fiquem aqui”, disse ele em inglês. Não teve  como saber se foi entendido saiu do quarto e bateu a porta atrás de si.

 

Neste momento a cena parecia um acampamento de ciganos, ou Papai Noel na noite de Natal. Alguns levavam nos ombros sacolas de náilon tão cheias que lhes dificultava a corrida até o helicóptero. Um SEAL corria com uma CPU numa mão e uma sacola de couro para roupa de ginástica repleta de objetos na outra. Os SEALs do segundo andar tinham recolhido tanto material que não tinham bolsas em quantidade suficiente, por isso passaram a pegar as sacolas que encontraram na casa para enchê-las também. Os SEALs carregavam valises de couro dos anos 1950 como se estivessem a caminho do escritório, e sacolas falsificadas da Adidas como se tivessem saído da academia de ginástica.

 

Fora do portão os SEALs começaram a formar filas para embarcar. Atiradores já davam cobertura à zona de pouso. A exfiltração do grupo de "Mark" seria
feita no Black Hawk que sobrara, ou seja no Chalk Dois, porque o corpo estava com esse grupo. O Black Hawk era uma aeronave menor, mais manobrável, e por isso tinha menos chance de ser derrubada. Eis a razão de levar o corpo. O CH-47 levaria os SEALs do Chalk Dois, assim como "Teddy" e a sua tripulação

do Black Hawk acidentado.


A esta altura as luzes das casas em volta começaram a serem acessas e cabeças começaram a observar das janelas ao redor. "Ahmed" gritava-lhes em árabe, pedindo que voltassem para dentro de suas casas. Começou a contagem dos homens. O Black Hawk chegou bem em cima da luz estroboscópica infravermelha. Enquanto o helicóptero se equilibrava no ar, os SEALs baixaram a cabeça para proteger os olhos da nuvem de poeira e dos detritos dos
rotores. Quando a nuvem passou, "Mark" e "Walt" pegaram o corpo e saíram correndo a toda velocidade para o helicóptero. O campo tinha sido arado recentemente e eles tropeçavam em montes de terra na corrida de cem metros até o helicóptero. Pareciam um bando de bêbados, tropeçando e caindo a caminho da aeronave. O peso morto não era fácil de carregar para ninguém, mas "Walt" tinha mais dificuldade para se manter ereto. Com apenas um metro e
setenta, seus passos eram bem mais curtos que os de seu amigo. "Walt" dava alguns passos e caía num monte de terra. Lançando uma série de palavrões, ele se levantava e prosseguia. Agindo às pressas sob os rotores em movimento, jogaram o corpo dentro e subiram rapidamente a bordo.

 

Quando os operadores viram não iam levantar voo imediatamente, ficaram ansiosos. No Afeganistão, o helicóptero decolava quando a bota do último
SEAL ainda estava no solo. Quanto mais esperavam mais se preparavam para o momento em que um rojão de granada iria acertá-los


Mas o Black Hawk aguardava. Até desacelerou os motores. Os pilotos não queriam decolar antes que o CH-47 chegasse. Os pilotos eram instruídos a sempre voarem em dupla. As cargas no Black Hawk acidentado deviam explodir em poucos segundos. O SEAL e o especialista em descarte de explosivos tinham regulado a explosão para dentro de cinco minutos. Seria tempo mais que suficiente, se todos estivessem no horário. Mas eles estavam atrasados. Àquela altura, os americanos tinham passado oito minutos da hora prevista. Mesmo com os dez minutos extras de tolerância, esse prazo também estava quase vencendo. Quanto mais tempo passassem em terra maior era a chance de que as forças policiais e militares do Paquistão chegarem para investigar o complexo.

 

Mesmo com todo treinamento e armas modernas os SEALs ali em Abbottabad era uma pequena força de assalto que não seria capaz de fazer fe


Não podíamos deixar de supor que a polícia e as forças armadas
paquistanesas estavam a caminho para in vestigar a situação. Éramos
uma força militar estrangeira que in vadira seu território soberano. Vi
a expressão de Tom. Pelo sistema de comunicação do helicóptero ele
tenta va descobrir o que se passava. Queria que os pilotos se apressas-sem e decolassem.
“Vamos”, gritou ele, finalmente. “Temos de decolar agora!”
Faltava menos de um minuto para que as cargas explodissem o
Black Hawk acidentado. O Seal que pusera a carga correu para Jay e
o agarrou. Ambos permaneciam na zona de pouso esperando o ch-47
chegar . Jay estava tão concentrado em trazer os helicópteros com se-gurança que nem sequer ouviu chamar seu nome.
“Cancele o 47”, disse o Seal a Jay . “É preciso tirar todos os pássaros
da área vizinha, a carga vai explodir em menos de trinta segundos.”

*

A execução da operação

Depois que o presidente Obama autorizou a missão de matar ou capturar Bin Laden, o diretor da CIA Leon Panetta, transmitiu a sua ordem ao meio dia de 01 de maio de 2011. 

O assalto ao complexo foi realizado diretamente por 24 SEALs da DEVGRU que temporariamente foram transferidos para o controle da CIA. Os SEALs DEVGRU foram divididos em duas equipes de 12 homens cada. De acordo com The New York Times, um total de 79 comandos e um cão estavam envolvidos na invasão. O cão da raça pastor belga Malinois, nomeado Cairo, podia detectar explosivos. O pessoal adicional a missão incluía as tripulações dos helicópteros, especialistas em sinais táticos, coletores de inteligência, e navegadores usando moderno e secretos equipamentos de imagens hiperespectrais.

Toda esses homens foram transportados em helicópteros da 160th Special Operations Aviation Regiment (SOAR), uma unidade aérea especial do Exército dos Estados Unidos, pertencente ao Comando de Operações Especiais dos EUA e conhecida como o Night Stalkers. Essa unidade tem uma larga experiência em operações de combate no Panamá, Iraque, Afeganistão, etc. O 160 SOAR usou dois helicópteros Black Hawk, e dois helicópteros Chinook para o transporte. Os Falcões Negros provavelmente eram de um modelo secreto, com tecnologia "stealth" (MH-60L Stealth?),  avaliados em US$ 60 milhões cada um e que dificultavam a sua detecção por radar. As aeronaves do 160 SOAR foram apoiadas por várias outras aeronaves, incluindo aviões AWACS, caças e drones. Segundo a CNN, a Força Aérea também tinha um time pronto para realizar missões CSAR usando helicópteros.

A fuselagem do MH-60L Stealth ganhou um perfil esguio, de revestimento fosco feito com espuma "sharkskin", ou pele de tubarão, destinada a absorver pulsos de radares e suprimir sinais de localização pelo calor. Uma espécie de calota cobre a caixa de transmissão e o rotor traseiro. Sua função é desviar sensores de busca a laser. Todo o armamento é levado em compartimentos internos de forma a reduzir o arrasto aerodinâmico.

Os SEALs voaram para o Paquistão a partir de uma base de teste em Jalalabad, Afeganistão, partindo inicialmente da base aérea de Bagram. Os operadores SEALs estavam armados com fuzis de assalto M4, pistolas automáticas, granadas e usavam óculos de visão-noturna. Eles voaram 257 km até o seu objetivo. O vôo durou menos de uma hora.

A invasão foi marcada para um horário com pouca luz do luar para que os helicópteros pudesse entrar no Paquistão voando baixo para evitar serem detectados pelos radares paquistaneses, os helicópteros utilizaram o terreno montanhoso para se ocultarem e alcançarem o complexo sem serem percebidos.

Quando os dois Black Hawk "stealth" estavam sobre a área do complexo as duas equipes se preparam para serem inseridas usando a técnica fast-rope. O cão farejador desceu pendurado em um dos soldados. Quando os helicópteros já estavam sobre o complexo uma das aeronaves sofreu problemas mecânicos e caiu em cima do muro do pátio do complexo. Esse foi um dos momentos mais tensos da operação. Em Washington, segundo um funcionário graduado, todos lembraram logo dos grandes fracassos militares dos EUA com operações especiais envolvendo helicópteros, Deserto One (Irã - 1980) e Black Hawk Down (Somália - 1993). O perigo de fracasso era real.

Felizmente nenhum dos SEALs ou membros da tripulação ficaram gravemente feridos. Os soldados dos dois helicópteros, em seguida, se reagruparam em iniciaram o ataque à partir do pátio. A 01:00h (hora local), os SEALs entraram no prédio usando explosivos contra as paredes.

Combate

Dentro da residência os SEALs houve uma troca de tiros entre Al-Kuwaiti, que morava na casa de hóspedes. Uma mulher, identificada por alguns como a mulher do correio, foi morta durante essa troca de tiros.  O irmão de Al-Kuwaiti e um filho adulto de Bin Laden foram mortos pela segunda equipe na casa principal, o irmão do correio no primeiro andar, e o filho de Bin Laden na escada. Duas mulheres ficaram feridas. Segundo a ABC News, a quinta esposa de Bin Laden, Amal Ahmed Abdul Fatah, foi uma das mulheres feridas.

Os SEALs encontraram Bin Laden no segundo ou terceiro andar da residência. Bin Laden estava vestindo de um "shalwar kameez" (traje de camisa e calça típico do sul e do centro da Ásia. Ele teria olhado por cima do parapeito do terceiro andar e visto os norte-americanos avançando até as escadas, em seguida, retirou-se para seu quarto no momento em que  um SEAL disparou um tiro contra ele, mas errou. Os soldados rapidamente seguiram até seu quarto, e atiraram nele.

Segundo informações, uma das esposas de Bin Laden estava com ele no quarto e foi usada como escudo. Os SEALs a balearam na perna. Bin Laden tinha 500 euros e dois números de telefone costurados em sua roupa. No seu quarto havia um fuzil automático AK-47 e uma pistola Makarov. No entanto o próprio Bin Laden não estava armado, mas ainda assim segundo relatos esboçou a intenção de pegar uma das armas, por isso foi alvejado com dois disparos mortais, um no peito e outro no olhos esquerdo, uma técnica conhecida como "double tap." Após isso um operador do SEAL SIX transmitiu a mensagem: "Geronimo-E KIA." para o seu QG. No caso "E" para enemy, e KIA para Killer in Action. - "Bin Laden - Enemy Killed in Action". O chefe de contraterrorismo John Brennan disse aos jornalistas que, enquanto Bin Laden prometeu morrer lutando, em seus últimos momentos como mestre dos terroristas se escondeu atrás de uma mulher. O Diretor da CIA transmitiu online o código  "Geronimo-E KIA." para o presidente Obama e seu Staff.

Os soldados encontraram várias mulheres e crianças durante a invasão. Eles foram presos com algemas de plástico, e foram deixados no local sendo encontrados depois pelas forças paquistanesas. O número exato e a identidade das pessoas que viviam no complexo é incerto no composto é incerto. Vários parecem que eram membros da família de Osama bin Laden, incluindo até três de suas esposas (incluindo a quinta e a mais nova) e pelo menos três filhos. Um oficial paquistanês disse ao The New York Times que nove crianças entre 2 a 12 anos de idade foram colocadas sob custódia do Paquistão. Sete dessas crianças podem ser parentes do correio e seu irmão, ambos mortos na ação. Segundo informações quatro crianças e duas mulheres, incluindo a filha de Bin Laden de 12 anos, Safia, foram levados em uma ambulância. Uma outra pessoa teria sido levada viva pelos militares dos EUA; funcionários da CIA e da Casa Branca negou que qualquer pessoa tenha sido levada presa pelos americanos durante o ataque. 

Encerramento

Desde que chegaram até terem saído os SEALs levaram cerca de 38 minutos. Bin Laden foi achado e morto nos primeiros 15 minutos de missão. Os outros 23 minutos foram usados para coletar inteligência e explodir o que havia sobrado do helicóptero. Dentro da casa os SEALs realizam busca por hostis com as equipes movendo-se cuidadosamente através do complexo, passando de sala em sala, e checando todas as portas e corredores, pois no complexo podiam haver armadilhas, barricadas e esconderijos, incluindo portas falsas. Os SEALs encontraram três fuzis AK-47, duas pistolas e levaram embora disco rígidos, DVDs, pendrives, vários equipamentos eletrônicos e muitos documentos.

Todo esse material recolhido foi enviado para os EUA onde peritos de várias agências governamentais iriam analisar impressões digitais, DNA e outros vestígios de provas contra terroristas. Também seriam analisados os dados contidos nos equipamentos eletrônicos.

O helicóptero que fez o pouso de emergência foi destruído, pois era incapaz de sair do local. A destruição era necessária para se evitar que seus equipamentos secretos, inclusive a tecnologia stealth fossem capturados. A equipe de assalto chamou um dos dois helicópteros de apoio e todos se retiraram do local indo para uma base no Afeganistão, ou segundo outras fontes, indo direto para o porta-aviões USS Carl Vinson, que estava no Mar da Arábia.

No porta-aviões Carl Vinson, o corpo foi colocado dentro de um saco com pesos, enquanto um oficial leu declarações religiosas previamente preparadas que foram traduzidas por uma pessoa cuja língua materna é o árabe, segundo um alto funcionário do Pentágono. O corpo foi então colocado sobre uma tábua plana já preparada e deslizado para dentro do mar. Apenas um grupo pequeno de pessoas assistiu a tudo de uma das grandes plataformas elevatórias que levam aviões para o convés de vôo. Só elas foram testemunhas do fim dado ao corpo do fugitivo mais procurado pelos Estados Unidos.

Uma das razões para o enterro no mar foi que o local não é facilmente identificado ou acessado, evitando que ele se torne um foco de atenção ou "santuário terrorista".  

Resultados

5 Mortos, na seguinte ordem:
Abu Ahmed Al-Kuwaiti, correio Osama
Adulto feminino, possivelmente a esposa do correio
Tareq Khan, irmão ou primo do correio
Khaled bin Laden, filho de Osama, 22 anos de idade
Osama bin Laden

2 Feridos:
Amal Ahmed Abdul Fatah, quinta esposa de Osama
Safia bin Laden, filha de Osama, de 12 anos

11 a 18 pessoas ilesas:

Abu Ahmed Al-Kuwaiti ou tinha dois ou três filhos, com idades entre três e quatro
Tareq Khan podia ter quatro filhos.

Osama podia ter até oito filhos e netos com ele, não está claro se isso inclui seu filho morto durante o ataque.
Khairiah Sabar, terceira esposa de Osama
Siham Sabar, quarta esposa de Osama
Hamza bin Laden, 20 anos, pode ter escapado.

 

O corpo de Bin Laden

As forças dos EUA usaram de vários métodos para identificar positivamente o corpo de Osama bin Laden:
Medição do corpo: O corpo de Bin Laden media 1,93m. Um SEAL que tinha a 1,83m de altura deitou ao lado do corpo para se ter uma idéia aproximada para se medir o cadáver. Segundo informações, na Situation Room da Casa Branca, no domingo à noite, o presidente e seu time de segurança nacional assistiram a um vídeo da operação, sem som. O presidente Obama comentou na ocasião: “Perdemos um helicóptero de US$ 60 milhões nesta operação. Não podíamos ter comprado uma fita métrica?;
Software de reconhecimento facial: Uma fotografia foi transmitida para a sede da CIA em Langley, Virgínia, para o reconhecimento facial, e a análise resultou em um acerto de 90-95% de probabilidade.
Reconhecimento do corpo: Uma ou duas mulheres do complexo, incluindo uma das esposas de Bin Laden, identificaram o corpo uma das mulheres de Bin Laden também o chamou pelo nome durante a invasão, inadvertidamente, auxiliando na sua identificação pelas Forças Armadas dos EUA no terreno.
Testes de DNA: A Associated Press e The New York Times relataram que o corpo de Bin Laden pode ser identificado também por exames de DNA usando tecidos e amostras de sangue retiradas de sua irmã que morreu de câncer no cérebro. O Departamento de Defesa e a CIA, analisaram as amostras separadamente em seus laboratórios, e identificou positivamente Osama Bin Laden. Amostras de DNA coletadas de seu corpo foram comparadas com um perfil de DNA global derivado da grande família de Bin Laden. Com base nessa análise, o DNA é, sem dúvida dele. A possibilidade de uma identidade equivocada, com base nesta análise, é de cerca de uma em 11,8 quatrilhões.
Inferência: A partir da análise inicial dos materiais retirados do complexo em Abbottabad se avaliou que grande parte desta informação, incluindo a correspondência pessoal entre Osama bin Laden e outros, bem como algumas das imagens de vídeo .. . só poderiam estar em seu poder.

Obama x Osama

Obama e seus principais conselheiros acompanham o desenrolar da ação que matou Osama bin Laden

Durante a operação o presidente Obama e e seus principais conselheiros, viveram 38 minutos de tensão na tarde do domingo de 1º de maio de 2011. Apinhados na chamada Sala da Situação da Casa Branca, Obama e outros 13 integrantes do Conselho de Segurança Nacional americano acompanharam com indisfarçável apreensão a maior e mais complexa operação secreta realizada pelos Estados Unidos desde o fim Guerra Fria. Sentados lado a lado, Obama e o vice-presidente, Joe Biden, mantiveram por todo o tempo o ar circunspecto e os olhos grudados em um monitor de televisão, em que o diretor da CIA, Leon Panetta, ia relatando segundo a segundo o que estava ocorrendo na pequena cidade de Abbottabad, no distante Paquistão, onde a madrugada da segunda-feira 2 já havia chegado. Biden, por vezes, tentava dissipar a tensão acariciando um terço com a imagem de Cristo. A secretária de Estado Hillary Clinton, por sua vez, não conseguiu esconder a tensão, impressionada com os relatos de Panetta. “Foram os 38 minutos mais intensos da minha vida”, relatou a secretária de Estado alguns dias depois, em Roma.

O presidente e seus assessores assistiram ao diretor da CIA, Leon Panetta, em um telão, narrando desde a sede de sua agência o que estava acontecendo no distante Paquistão. "Eles chegaram ao alvo", disse Panetta. Minutos se passaram. "Temos um visual de Geronimo", disse ele. Alguns minutos mais tarde: "Geronimo EKIA". Era a sigla em inglês de "morto em ação". Houve silêncio. Finalmente, o presidente se manifestou. "Nós o pegamos."

Muito estava em jogo nesta operação e lembranças de uma frustrada ação no Irã devem ter permeado a cabeça do presidente americano. Em abril de 1980, o então presidente Jimmy Carter autorizou uma operação especial para resgatar 52 americanos presos na embaixada dos EUA em Teerã. No fim, tudo deu errado. Um C-130 se chocou com um CH-53 em pleno deserto iraniano, em um ponto de encontro montado secretamente pelos americanos, chamado de Desert One, muitos soldados americanos morreram no local, sendo cancelada a operação de resgate. Carter pagou caro por isso, foi derrotado por Ronald Reagan nas eleições seguintes.

O caçador implacável
Na véspera da operação que matou Osama bin Laden, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez uma pausa no jantar de gala com os jornalistas que cobrem a Casa Branca e telefonou para o vice-almirante William McRaven, de 55 anos. Obama desejou-lhe boa sorte. No domingo, McRaven comandou de seu QG os SEALs do DEVGRU no assalto à fortaleza onde se escondia o terrorista mais procurado pelos EUA. A operação de 40 minutos terminou com McRaven dizendo a senha "Geronimo-E-KIA" ao diretor da CIA, Leon Panetta. Bin Laden estava morto.

Texano de Santo Antonio, o comandante das Forças Especiais Conjuntas McRaven fora chamado por Panetta para liderar a missão em Abbottabad em fevereiro, segundo o jornal The New York Times. Sua ficha de serviço era perfeita para a tarefa. McRaven comandou a Força Tarefa 121, um híbrido de militares e de agentes de inteligência que capturou o ex-presidente do Iraque Saddam Hussein, em dezembro de 2003. Sua tese na escola de pós-graduação da Marinha americana sobre operações especiais tornou-se leitura obrigatória para os comandantes da força.

OSAMA E SADDAM - McRaven caçou e capturou os dois maiores inimigos americanos

Graduado em Jornalismo pela Universidade do Texas, em 1977, McRaven era considerado pelo secretário de Defesa americano, Robert Gates, como "implacável e eficaz no combate aos inimigos mais perigosos e cruéis da América". Em abril do ano passado, no Afeganistão, depois da morte de quatro pessoas desarmadas por uma das equipes sob seu comando, McRaven apresentou um pedido de perdão ao patriarca local. Levou ainda uma oferta de dois carneiros para desfazer o mal-estar.

Um ex-comandante das Forças Especiais, que não quis se identificar, contou à revista americana Newsweek que McRaven tem a reputação de ser o Seal mais inteligente e capaz de todos os tempos. “Ele é um homem que tem compaixão, mas também sabe como introduzir uma faca entre as costelas de um inimigo numa fração de segundo, se for preciso”, disse a fonte, de acordo com reportagem publicada em 2004, bem antes do furor provocado pela morte do inimigo número um dos EUA.

McRaven é descrito por um velho amigo como alguém que gosta de liderar, dando bons exemplos. “Ele não pediria a ninguém para fazer algo que ele mesmo não faria”, disse a um jornal de San Antonio o general aposentado da Força Aérea Michael Longoria, que conhece o vice-almirante há 20 anos.

A participação do vice-almirante McRaven começou em fevereiro deste ano, quando o diretor da agência de inteligência americana CIA, Leon Panetta, deu ao oficial os detalhes sobre a casa onde estava bin Laden e pediu a ele um planejamento da ação militar. De acordo com o jornal The New York Times, o vice-almirante passou semanas trabalhando no plano e ofereceu três opções: um assalto com helicópteros usando comandos americanos; ataques com bombardeiros B-2 que destruiriam a casa de Osama; ou uma incursão conjunta com agentes da inteligência paquistanesa, que seriam informados da missão horas antes do início.

Obama escolheu a primeira opção. Na noite anterior à missão, o presidente americano fez uma pausa num jantar de gala com jornalistas e desejou boa sorte ao vice-almirante, dando o sinal verde para a operação. Quarenta minutos depois, McRaven informava a Panetta que bin Laden estava morto.

Em 1995 William McRaven, escreveu o livro "Spec Ops" (Spec Ops: estudos de caso em guerra de operações especiais -teoria e prática, da editora Ballantine Book), onde apresenta seis regras básicas para que uma operação especial obtenha sucesso. As seis regras são descritas abaixo:

Clique na imagem para ver um texto completo sobre a teoria

O Atirador

No momento-chave da Operação Neptune Spear, um soldado da SEAL apertou o gatilho diante do inimigo número 1 do mundo. Seu nome talvez nunca seja conhecido, mas excelência, frieza e discrição são parte do perfil do selecionado para a missão. Em outros tempos, ele não seria apenas identificado como poderia viver dos créditos de ter apontado a arma e apertado o gatilho contra Osama bin Laden, caçado por quase uma década pelas potências ocidentais.

Mas os tempos (e os inimigos) são outros. Por razões de segurança, em uma guerra contra o terrorismo onde não há tréguas, a atmosfera de tensão e vingança é constante, e o nome do homem que colocou duas balas na cabeça de Bin Laden, deverá ser tão desconhecido quanto os dos componentes da tropa que algemou o ditador iraquiano Saddam Hussein. Mas há pistas, esboços de um retrato que pode ser formado a partir da opinião de militares americanos. Ao jornal The Washington Post, três ex-oficiais dos SEALs – unidade da marinha responsável pela morte do líder da Al-Qaeda – usaram a própria experiência para tentar compor como seria este soldado.

 

Operadores do SEAL 8 e 10 (uns 35 operadores) realizam a tomada de Mina al Bakr Oil Terminal (MABOT) em 2003 no Iraque.


Com 100% de certeza é possível dizer se tratar de um homem. Não há mulheres nos Seals. Fisicamente, não é possível precisar a altura do soldado – há operadores dos SEALs de 1m62cm a 1m96cm –, mas a idade, sim. Ele deve ser velho o bastante para ultrapassar a barreira do treinamento necessário para compor a unidade de elite contraterrorismo, mas também jovem o suficiente para suportar a parte física desse trabalho. Dificilmente o autor do disparo é mais jovem do que 26 anos ou mais velho do que 33 anos.

Também é possível imaginar que um soldado não é escolhido para tal missão sem calos e cicatrizes. Richard Marcinko, um dos fundadores do Seal Team Six aposta em um sujeito que em algum lugar do corpo carrega inevitáveis estilhaços de bomba. Matar o líder da Al-Qaeda certamente não foi a primeira experiencia de combate desse soldado no explosivo Oriente Médio. Ter passado por pelo menos uma dúzia de missões de alto risco é pré-requisito para o trabalho.

Marcinko tampouco aposta em um soldado almofadinha. No que define como “modificações das normas de limpeza”, o ex-oficial da Seal acredita que tal especialista em ações no Oriente Médio seja um sujeito sujo e mal-encarado. Definitivamente, alguém a ser deixado em paz quando circula pela rua.

De acordo com Stew Smith, membro dos SEALs entre 1991 e 1999, quando foi caça-talentos da organização para um programa chamado Heróis do Amanhã, os membros da tropa costumam ser atletas no Ensino Médio ou na faculdade. Não será, no entanto, o talentoso centroavante que a torcida adora. No futebol, é mais provável que o futuro Seal se esconda debaixo do fardamento de um quarto zagueiro, que segura o adversário e levanta a moral do grupo quando o time está sob pressão. Um dos apelidos dos SEALs é “The Humble Warriors” (os Guerreiros Humildes).

– O cara só talentoso quer jogar o Super Bowl (final da Liga de Futebol Americano) e ganhar o Oscar ao mesmo tempo. O que ele quer é crédito. Não é esse o sujeito ideal – opina Marcinko.

Dentre esse time de zagueiros dos SEALs, quem matou Bin Laden deve ser aquele que sequer era capitão da equipe, pois pouco importa levantar a taça, fica satisfeito por seu time ter obtido a vitória.

Se levar o crédito público pela ação é proibido, internamente a questão é bem diferente. Entre os colegas, a identidade do atirador será bem conhecida. Ele e os companheiros de missão serão homenageados e condecorados, não sem antes reafirmarem compromisso de sigilo. O reconhecimento público só virá em homenagens póstumas à família.

Passadas as condecorações, Marcinko prevê até que peguem no pé do colega:

– Eles vão pegar duro com ele. Se eu estivesse lá, e eu estive lá, a missão teria sido executada em 20 minutos, não em 40 minutos – afirma o ex-oficial. – Mas ele certamente vai responder que falar é fácil, que no fim das coisas ele fez o que deveria ser feito. Deixou a sua marca.

Os especialistas divergem quando questionados onde o atirador estará agora. Segundo Smith, um agente da Seal pode estar “se arrastando na grama” do outro lado do mundo 24 horas após uma missão, mas em um caso especial os seus superiores podem tê-lo tirado de ação, a fim de aliviar a pressão sobre a sua identidade. Já Marcinko acredita que paz não é o que ele deseja no momento, e aponta a próxima missão como mais importante:

– Ele deve querer provar que não é fruto da casualidade. Deve estar pensando: deixa eu provar que eu realmente sabia o que estava fazendo.

Ex-operador dos SEALs e autor do livro O Coração e o Punho, em que fala sobre a tropa de elite, Eric Greitins faz coro: – Aposto que quando as hélices começarem a girar, esse cara será o primeiro a embarcar no helicóptero para a próxima missão.

Resumo da Operação

Durante a operação do dia 02 de maio o correio e um parente seu (irmão ou um primo) foram mortos no raid. Depois alguns moradores identificaram os homens como sendo pashtuns, e seus nomes eram  Arshad e Tareq Khan. Arshad Khan estava carregando um velho cartão de identificação paquistanês (sem chip), que dizia que ele era de Khat Kuruna, uma aldeia perto de Charsadda no noroeste do Paquistão. Autoridades paquistanesas não encontraram nenhum registro de um Arshad Khan nessa área e suspeitam que os homens estavam vivendo sob falsas identidades.

 

 

 

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