OPERAÇÃO BAZAR


Em 20 de abril de 1944, o 100º Grupo de Apoio a Bombardeiros da RAF (uma formação de aeronaves equipadas com sistemas de contramedidas eletrônicas, capaz de "iludir" tanto os caças noturnos da Luftwaffe quanto os radares de defesa antiaérea alemã) estava dando cobertura a dois ataques aéreos contra alvos industriais vitais dentro do território alemão. Uma força de 235 bombardeiros pesados atacou as refinarias de combustível sintético em Bohlen, perto de Leipzig, e outra atacou as refinarias em Hemmingstedt, próximo a Hamburgo.

O 100º Grupo, uma formação de aeronaves equipadas com sistemas de contramedidas eletrônicas, capaz de "iludir" tanto os caças noturnos da Luftwaffe quanto os radares de defesa antiaérea, foi criado no dia: 8 de  novembro de 1943. Seu oficial comandante, více-marechal-do-ar E. B. Addison, possuía larga experiência em guerra eletrônica. Essa força de interferência eletrônica formava com quatro esquadrilhas de bombardeiros pesados: a 171. a, com aviões Halifax; a 199. a, com aviões Stirling, e depois Halifax; a 214. a, com Fortalezas Voadoras B-17; e a 223. a, com aviões Liberator. Outra unidade, a 192ª Esquadrilha, com aviões Halifax, Wellington e Mosquito, proporcionava o apoio ,de inteligência eletrônica. A Força de Aviões de Caça do grupo consistia em sete esquadrilhas: 23ª, 85ª, 141ª, 157ª, 169ª, 239ª e 515ª, todas equipadas com Mosquito. A maior parte do esforço de guerra do 100º Grupo dirigia-se contra os centros industriais inimigos. Suas atividades de interferência eletrônica, despistamento e intromissão para espionagem estenderam-se até o fim da guerra.

A primeira ação do Comando de Bombardeiros naquela noite foi um ataque aéreo contra Berlim, executado por sua força exploradora, às 17h14. Durante esse ataque, 35 aviões Mosquito da 23ª e 515ª Esquadrilha cortaram os céus da Alemanha, seguindo em direção às bases de caças noturnos do inimigo. Uma vez sobre a posição, voaram em círculo, prontos para atacar qualquer avião que decolasse ou que estivesse chegando para aterrissar.

Logo depois da 01:00h do dia 21, a força que se dirigia para Bohlen, cruzou a costa francesa e rumou para sudeste, mantendo-se sobre território aliado o maior tempo possível. A essa altura, outra força, composta de 64 aviões Lancaster e Halifax, pilotados por tripulações ainda em treinamento, separou-se e tomou o rumo da fronteira da Alemanha, próximo a Estrasburgo, para realizar um ataque de despistamento.

Ainda dentro de território aliado, sete pares de aviões Halifax começaram a provocar interferência nos radares inimigos com o Mandrel. Os equipamentos eletrônicos de interferência do 100º Grupo começaram a ser operados alguns momentos depois. A partir de uma linha com cerca de 130 km de extensão, ainda dentro de território aliado, sete pares de aviões Halifax da 171ª e 199ª esquadrilhas começaram a interferir nos radares inimigos com o Mandrel, um aparelho empregado para despistar a aproximação de bombardeiros da RAF dos radares terrestres alemães. Por trás da parede de interferência, a força de ataque a Bohlen separou-se em dois grupos: 41 aviões Lancaster rumaram para nordeste, enquanto a força principal continuou em rota direta sobre o alvo.

Alguns minutos depois, as duas forças de ataque a Bohlen, voando bem para o norte, entraram na cortina do Mandrel e cruzaram a fronteira do território alemão. Quatro aviões Halifax da 171ª Esquadrilha e sete Liberator da 223ª, 32 km à frente, lançaram uma densa nuvem de resíduos metálicos de interferência eletrônica para esconder a verdadeira força dos bombardeiros atacantes. Mas alguma coisa tinha dado errado...  Os 211 Lancaster designados para o ataque a Bohlen foram recebidos em território alemão por uma forte barreira de caças noturnos. A ação da Luftwaffe foi sinistramente eficiente. Cerca de 13% da força atacante foi abatida, vítima do fogo antiaéreo os dos caças, antes de chegar ao alvo. Mesmo com a ação dos caças nazistas os bombardeiros da RAF seguiram para o alvo, tentando cumprir a sua missão. Sobre o alvo todos os bombardeiros lançaram resíduos metálicos de interferência. Cinco B-17 e um B-24 do 100º Grupo, que haviam dado cobertura de contramedidas eletrônicas no vôo de penetração, agora davam apoio de interferência sobrevoando a refinaria de petróleo. Mas os caças inimigos já tinham feito contato e ceifavam mais e mais bombardeiros. O ataque a refinaria que deveria durar onze minutos, durou apenas sete, e para os tripulantes dos bombardeiros pareceu uma eternidade. Após o ataque, um grupo de Halifax lançou um "cortina" com o Mandrel, deixando também uma falsa trilha de resíduos metálicos de interferência, tentando encobrir a rota de fuga.

Isto ajudou um pouco pois os operadores de radar nazistas deparavam com uma grande quantidade de interferência em seus aparelhos e tiveram muita dificuldade para localizar o inimigo em meio às nuvens de resíduos metálicos espalhados no ar.

O Ataque a Hemmingstedt

Enquanto a atenção do inimigo se concentrava no centro da Alemanha, a força de Lancaster, com destino a Hemmingstedt, voava, em baixa altitude e com o rádio em silêncio, na direção de seu alvo. Um pouco antes de chegar à refinaria, os bombardeiros começaram a subir para a altitude de ataque - cerca de 4.600 m. Cada um dos aviões deixava resíduos metálicos, para confundir o inimigo, na tentativa de induzi-lo a crer que o ataque não passava de mais uma manobra diversionista. Até chegar perto do alvo a única perda foi um Lancaster, derrubado por um caça noturno.

Precisamente às 4h10, treze minutos antes do horário marcado para se iniciar o ataque contra o complexo petrolífero, os caças da Luftwaffe começaram a atacar os aviões britânicos. Mesmo apoiados por contramedidas eletrônicas de uma Fortaleza Voadora e um Liberator do 100º Grupo, os bombardeiros não conseguiam se livrar dos ataques.

Analises

Quando voltaram para suas bases na Inglaterra, as tripulações foram recebidas pelo chamado "agente da base" e levados à sala de operações para, depois de uma caneca de chá, passarem a falar sobre a missão. Depois do relatório, serviu-se uma refeição de bacon e ovos, e todos foram dormir. Não se exigiu que as tripulações ficassem acordadas até a revelação das fotos batidas automaticamente. Isto ficou para depois do repouso. O que se concluiu foi que os radares dos controladores em terra alemães conseguiram estimar corretamente a extensão da força da RAF. Os alemães conseguiram também definir a rota de ataque e se prepararem para recebê-la.

A idéia era de que a capacidade dos radares inimigos, na constante guerra de "gato e rato" da arena eletrônica, tinha se ampliado. As contra-medidas do 100º Grupo não surtiram o efeito desejado, e as tripulações dos bombardeiros ficaram francamente expostas a ação inimiga. Estudos posteriores concluíram que os radares Freya, de alerta avançado, estavam sendo modernizados e ficando mais resistentes a interferência do Mandrel.

Estação de radar nazista fotografada por um avião de reconhecimento

Com o Dia-D se aproximando, o Alto Comando Aliado sabia que algo deveria ser feito. A capacidade do inimigo em detectar as levas de bombardeiros da RAF e da USAAF, tão importantes para o esforço de guerra, deveria ser bloqueada mais uma vez. A opção escolhida foi capturar o novo dispositivo instalado no radar Freya, trazê-lo para a Inglaterra, para que os cientistas aliados pudessem desenvolver contra-medidas eficientes contra o Freya.

Toda a máquina de inteligência Aliada foi colada em ação, vários agentes e fontes foram sondados e se descobriu um sítio de radar ideal para a ação de captura de equipamento. Agentes do SOE e homens da Resistência Francesa indicaram o melhor lugar: ficava na França, próximo a cidade de Lens, na Normandia.

A resistência informou que as forças alemãs na área eram de aproximadamente 80 homens de uma unidade de defesa da Luftwaffe estacionada a 1,5km, onde também haviam alguns canhões antiaéreos de 88mm e um pelotão (também da Luftwaffe) estava aquartelado em duas edificações próximas ao radar. A guarnição do radar propriamente dita era formada por uns trinta homens da Luftwaffe. Em volta do sítio do radar havia uma cerca de arame e três casamatas (apenas uma estava ocupada, armada com uma MG42), várias trincheiras, mas só duas delas estavam ocupadas, cada uma tinha uma guarnição de MG34. Existia um alojamento para os guardas e também um portão de acesso, sempre guardado por dois sentinelas. Uma ronda era realizada em torno do perímetro por uma patrulha de cinco homens, normalmente armados com fuzis. A 400m do do portão, também dentro do sítio, havia um radar Wuerzburg. Essas tropas de defesa eram de segunda categoria, formadas por pessoal excedente das tripulações de terra da Luftwaffe, que não tinham mais aeronaves para cuidar, e não tinham qualquer treinamento de campanha. Seu armamento era de qualidade duvidosa e vinha de todas as procedências possíveis !francês, tcheco, russo, etc.).

Planejamento

Os Aliados sabiam que tomar todo o sítio do radar, era algo bem difícil, pois esses alvos eram bem defendidos. Os britânicos fizeram isso em 28 de fevereiro de 1942, durante a Operação Biting, contra a estação de radar em Bluneval, França, quando 120 pára-quedistas britânicos da Companhia C, do 2º Batalhão da 1ª Brigada de Pára-quedistas, foram usados com sucesso neste assalto. Um ataque contra um sítio de radar sem uma força superior não resultaria em sucesso como aconteceu durante o Raid a Dieppe, quando o radar Freya localizado próximo ao local de desembarque das tropas canadenses não pode ser capturado devido a forte resistência alemã.

Tanto em Bluneval, quanto em Dieppe a opção para retirar a força atacante foi por mar, visto quer os objetivos estavam a beira-mar, o que não era o caso de Lens. Por isso uma grande força de assalto foi descartada, além do mais pára-quedistas, commandos e a maioria dos soldados estavam treinando duro para o Dia-D, e o Alto Comando não queria destacar nenhuma força maior que um pelotão para essa missão.

A força quer seria usada para capturar o equipamento deveria ser pequena, usando de ardil para entrar no sítio e depois sair dele. Seria infiltrada por ar e usar meios da Resistência francesa para se evadir depois da operação. Seus membros deveriam ser homens aptos a operarem atrás das linhas inimigas, capazes de usar equipamento inimigo e se passarem por alemães. O nome da operação seria Bazar.

O Commando 30

A unidade escolhida para executar a missão de captura do equipamento do Freya era o altamente secreto Commando 30, conhecido também por 30 Unit Assault.  A 30AU foi fundada em 30 de setembro de 1942. Oficialmente suas ações nunca existiram. Os membros desta unidade operavam em pequenas equipes, do tipo "saiba só o necessário", o que impedia que todos tivessem um quadro preciso de tudo que a unidade realizava ou estava envolvida. Um dado super interessante sobre a 30AU era que este unidade era comandada por Ian Fleming, famoso escritor, que criaria o James Bond (007) alguns anos depois, com base em suas experiências e de seus companheiros durante a Segunda Guerra Mundial.


Sua missão original era a coleta de inteligência técnica e de pessoal de instalações ou QGs inimigos.
Os operadores se infiltravam atrás das linhas inimigas por terra, mar ou ar. A unidade deveria ir á frente das tropas aliadas e capturar seus alvos antes que o inimigo pudesse destruí-los. A 30 AU trabalhava em uma sala subterrânea no Almirantado, em Londres e coletava toda informação disponível sobre as instalações secretas alemãs localizadas na França e na Alemanha. Esta unidade sabia com antecedência quase tudo a respeito dos planos de desembarque do Dia-D na Normandia, estas informações eram classificadas como 'Bigot', um nível bem acima de 'Top Secret'.

 

A 30 AU possuía as seguintes tropas:

Tropa No.33, Reais Fuzileiros Navais (1944) - 6 oficiais e 144 homens.
Tropa No.34, Exército - 4 oficiais e 20 homens.
Tropa No.36, Marinha Real - 5/10 oficiais.

*Tropa No.35, Real Força Aérea - 2 oficiais. Esta unidade nunca ficou sob o controle do Commando 30. Embora a RAF provesse oficiais de inteligência, para procurar objetivos específicos depois do Dia-D durante a Operação Crossbow.
 

Cada tropa mantinha um TAC QG no teatro de operações. A 30 AU também estava anexada a F.I.U. (Forward Interrogation Unit): Oficiais e agentes americanos, juntamente com oficiais britânicos que comandavam pequenas unidades de Royal Marines em certas operações secretas.  O Commando 3 operou no Mediterrâneo, Europa e Sudeste Asiático.

 

Em dezembro de 1943 as Tropas 33 (Royal Marines) e 36 (Royal Navy) voltaram ao Reino Unido para se prepararem para a invasão Aliada da Normandia, na chamada Operação Overlord. A Tropa 33 foi aumentada para seções A, B e X, cada uma consistindo de 2 oficiais e 48 operadores e um QG Tático.

 

Os membros deste Commando além do treinamento normal dos demais Commandos, tinham que aprender técnicas de espionagem, comunicações, interceptação de sinais, reconhecimento com uniformes inimigos, reconhecimento de documentos inimigos, uso avançado de explosivos, fotografia, falsificação, técnicas de sabotagem e arrombamento (com aulas ministradas por arrombadores presos pela polícia inglesa), infiltração e exfiltração, etc. Os membros do Commando 30 ainda deviam ser bons navegadores, pára-quedistas, mergulhadores e esquiadores.  Um número significativo dos recrutas iniciais eram ex-policiais.

 

A primeira grande missão do Commando 30 foi a assalto a Dieppe. A missão do Commando 30 era seguir diretamente para o QG alemão em Dieppe capturar todos os documentos militares possíveis. Entre seus operadores, estava um alto perito de radar da RAF que tinha a missão específica de capturar qualquer documento alemão relacionados com os seus radares. Um fato curioso, desconhecido do perito na época, é que a sua equipe de proteção tinha ordens de matá-lo, caso ele fosse feito prisioneiro pelos alemães.

 

A missão

 

A Seção B, da Tropa 33, foi escolhida para a missão. Ela teria o apoio de um técnico da Tropa 35 da RAF e de dois membros da Tropa 3 do Commando 10 InterAliado (IA). Também conhecida por Tropa X, ela era uma unidade extraordinário formada por judeus voluntários vindos principalmente da Alemanha e Áustria, com alguns outros vindos também da Tchecoslováquia, Hungria e outros países europeus. A existência desta unidade era um dos segredos mais bem guardados do Exército britânico. Ao todo, 130 homens passaram pelas fileiras do Tropa X.

Os membros da Tropa 3 era autênticos Commandos, com grande habilidade em explosivos, pára-quedismo, coleta de inteligência, combate urbano, operações anfíbias, camuflagem, navegação, arrombamento de casas, etc. Por serem naturais principalmente da Alemanha e Áustria, e poderem se passar por alemães de forma natural, também eram requisitados para servirem em missões junto ao SSRF (que fazia parte do SOE), SBS e SIS. Na verdade a Tropa 3 nunca lutou como uma unidade completa, pois seus homens sempre estavam anexados a outras forças especiais. Eram muito requisitados por serem especialistas em reconhecimento furtivo, no qual capturavam e interrogavam prisioneiros alemães. Suas missões freqüentemente aconteciam atrás das linhas inimigas e a noite. Os membros da Tropa 3 por conhecerem muito bem as unidades alemãs e suas armas, podiam operar perfeitamente disfarçados de soldados alemães. Os membros desta Tropa corriam grandes perigos pois se fosse capturados, a morte nas mãos da Gestapo era quase certa e as represarias contra seus parentes na parte da Europa dominada sob o manto nazista uma certeza. Por isso eles operavam com nomes falsos, e possuíam histórias falsas de vida.

A equipe da Seção B usada na operação seria comandada pelo Capitão Michael Campbell. Ele teria a seu dispor 4 Reais Fuzileiros Navais (Sargentos Stuart Eton, Willian Keyes e Peter Haselden e o cabo John Terry), dois membros da Tropa X (Sargentos Paul Arlen (nome verdadeiro Hans Abramovicz) e Victor Scott (nome verdadeiro Uri Averhahn)) e um técnico em radares da RAF, Tenente Clarke York.

Execução  

Na noite de 15 de maio de 1944 um solitário Short Stirling, do Esquadrão 161 da RAF partiu da base da RAF de Tempsford, em Bedfordshire, Grã-Bretanha, com os membros da Equipe Campbell. O experiente piloto, que já tinha realizado muitas missões clandestinas sobre a França, traçou seu plano de vôo de forma a evitar ser detectado pelos radares inimigos e se tornar um alvo do temível fogo antiaéreo alemão.

O Esquadrão 161 era um dos mais experientes da RAF. Em 1944 o 161 operava as aeronaves Westland Lysander IIIA, Handley Page Halifax B.Mk V, Lockheed Hudson III e Hudson V, e Short Stirling III e IV. Suas missões envolviam o apoio as forças de resistência na Europa, através do lançamentos de agentes e suprimentos, e com os Lysander, a coleta de pessoal.

Pegar uma carona como pára-quedista num bombardeiro Stirling IV, convertido em transporte, não era nada confortável. Os pára-quedistas iam sentados no chão, na total escuridão e na hora de saltar, tinham que fazê-lo através de um buraco no chão, e não por uma porta lateral como nos Dakotas C-47, que também tinham assentos para os pára-quedistas. Exceto esses inconvenientes, o vôo foi tranqüilo e alguns homens até conseguiram dormir. Quando se aproximaram da zona de salto os homens foram avisados pelo piloto para se preparem. Ficaram todos esperando que a luz vermelha passasse para verde e quando isto foi feito se lançaram no espaço. Também foram lançados dois casulos de equipamentos e uniformes.

Felizmente ninguém se machucou no contato com o solo, mas a equipe levou cerca de uma hora para encontrar o sargento Eton, que se atrapalhou um pouco na hora de saltar e conseqüentemente na desceu na zona de salto. Enquanto se desvencilhavam dos seus pára-quedas e procuravam ocultá-los, os homens de Campbell tiveram a sua atenção despertada por um assovio, imediatamente todos se lançaram no chão. Em seguida ouviram a senha "River" e aliviados deram a contra-senha "House".

Esperando por eles entre os arbustos estava o seu grupo de contato, formado por três membros da Resistência francesa, dois homens e uma mulher, conhecidos apenas como Pierre, Philippe e Sonia. Todos usavam roupas civis e estavam armados com sub-metralhadoras Sten. Não houve problemas de comunicação pois Philippe falava inglês, e Scott e York eram fluentes em francês, e Campbell sabia o suficiente para se comunicar bem. Com toda equipe reunida eles esconderam os pára-quedas e após encontrarem Eton se dirigiram rapidamente para um esconderijo. Eram 23:53h.

Eles caminharam cerca de 40 minutos, até o seu esconderijo, fazendo o possível para não serem descobertos pelas patrulhas alemãs. No se esconderijo, localizado no porão de uma casa de fazenda eles se encontraram com mais oito membros da resistência, que também iriam apoiar a operação. O líder do grupo, Henry, deu boas-vindas a todos e os convidou para comerem uma refeição quente. Após isto, passaram a rever com os franceses, detalhes da operação.

Por volta das 04:30h, o grupo precursor partiu em direção ao local do radar. Ele era formado por cinco homens da resistência e os Sargentos Eton e Keyes. Sua missão era prover vigilância e apoio de fogo para a fuga da equipe de captura. Eles fizeram o trajeto em uma velho caminhão francês. Os seis homens da equipe de captura (Campbell, Haselden, Terry, Arlen, Scott e York) estavam todos envergando uniformes da Luftwaffe. Todos iriam para o local em um caminhão alemão Mercedes-Benz L 3000, capturado pela resistência, pintado com as cores e marcações da Luftwaffe. Arlen e Scott, seriam respectivamente o Hauptmann (Capitão) Heinz Lange e o OberLeutnant  (1º Tenente) Heiner Knoke. Os demais membros da equipe teriam nomes alemães fictícios, mas como não falavam alemão, não abririam a boca.

Caminhão alemão Mercedes-Benz L 3000

As 07:40h o caminhão chegou ao portão de entrada do sítio do radar. Quem estava na direção era o cabo John Terry, para termos de encenação, o Unteroffizier (cabo) Hans. Ao seu lado estava o "Hauptmann Heinz". Na traseira do caminhão estava o restante da equipes. Um soldado alemão fez sinal para o veículo parar e se dirigiu para falar com o motorista. Para supressa dos dois soldados aliados na boléia, havia uma guarnição de MG34 dando cobertura ao portão. Arlen imediatamente tomou a palavra e disse que ele comandava um destacamento em missão especial, enviado diretamente pelo Alto Comando da Luftwaffe.

Heinz entregou ao guarda um documento "assinado" pelo próprio Reichsmarschall Hermann Göring, em que este autorizava o Hauptmann Heinz a realizar a captura de militares da Luftwaffe suspeitos de conspiração contra Hitler. Ao ler o conteúdo do documento o guarda ficou pálido. Aproveitando a situação Arlen ordenou que o guarda abrisse o portão e que todos ali, inclusive o pessoal da MG34, deveriam está sob a custódia do OberLeutnant Knoke, que nesse momento já tinha descido do caminhão, acompanhado de um um soldado. Em tom ameaçador Heinz enfatizou que esperava a colaboração de todos, que estava ali para prender dois oficias e que todos que o atrapalhasse em sua missão seriam enviado naquele mesmo dia de trem para a frente russa. O guarda perguntou se podia avisar o comandante da guarnição a respeito da chegada do destacamento de Heinz, mas este disse que não. Alegou que no momento todos eram suspeitos, pois podia haver conexões dos traidores com outros soldados e ninguém deveria ser previamente alertado.

Aturdidos e temerosos por suas próprias vidas, tendo os russos em suas mentes, todos os guardas ficaram juntos do lado de fora do portão, desarmados e sob a guarda de Knoke e seu companheiro (Haselden). Enquanto isso,  John "Hans" Terry levou o caminhão, tendo "Heinz" ao seu lado, para perto das duas antenas Freya. Chegando lá todos desceram do caminhão e ficaram esperando por alguns minutos. Neste momento, a missão específica de Campbell e Terry, era garantir a segurança de York. O grupo estava armado com submetralhadoras alemãs (Maschinenpistole 38) MP38 e pistolas Luger, além de granadas alemãs Stielhandgranate, apelidadas de amassador de batatas.

As 08:05h, alertado por um sargento, eles foram abordados pelo OberLeutnant Otto, que saiu da sala de controle para saber o que grupo desejava. Quando "Heinz" acabou de apresentar a Otto o seu documento, bombardeiros Mosquito começaram a atacar o sítio de radar, a começar pelo alojamento dos guardas. Friamente "Heinz" abateu o jovem tenente alemão a tiros e "Knoke" e Haselden fizeram o mesmo com os guardas no portão. Campbell e Terry entraram como um raio na sala de controle e eliminaram todos que estavam lá com suas pistolas Luger. Com o sinal de Terry de positivo, York entrou na sala e foi procurar pelo novo dispositivo do Freya. Enquanto ele usava suas ferramentas para desconectá-lo, os Mosquitos atacavam o radar Wuerzburg e a guarnição de defesa que estava a 1,5km do local.

Quando York saiu da sala com o dispositivo nos braços toda ação não tinha levado uns 10 minutos. Os homens entraram no caminhão e partiram para o portão, enquanto a guarnição alemã,  tentava manter a cabeça baixa para não ser atingida pelas bombas. No portão, "Knoke" e Haselden, entraram no veículo e todos partiram acelerados pela estrada. No portão foi lançada uma granada de fumaça amarela, indicando aos Mosquitos que a missão foi bem sucedida, que todos estavam fora do local e que os bombardeiros podiam destruir o restante do local, não deixando pistas da ação dos commandos em roubar o novo dispositivo do Freya. O trabalho dos Mosquitos foi perfeito, suas bombas arrasaram o local, inclusive as antenas de radar e a sala de operações.

O caminhão tomou uma estrada secundária e foi recebido por Eton e Keyes e o pessoal da resistência. Juntos, se dirigiram para uma fazenda a uns nove quilômetros dali. No caminho passaram por um comboio de panzers e outro comboio com soldados de um batalhão da Legião Georgiana, que era uma unidade Ost (unidade formada por estrangeiros do leste - Ost em alemão significa Leste). Estes últimos estavam tão preocupados com suas vidas, que mal olharam para o caminhão com os commandos. 

Por volta das 13:25h, chegaram a fazenda, que ficava próxima a campos planos e com poucas árvores. Os homens iam ficar lá até a noite, que seria uma noite de luar, o que era ideal para os propósitos de Campbell. A exceção de Henry, todos os membros da resistência foram embora. No local eles foram recebidos por um velho casal de fazendeiros. Ele, Charles Arnoulf, era franco-belga, e ela, Anne Marie Arnoulf, francesa. Tinham três filhos. O mais velho, Daniel, foi morto na África do Norte em 1943, lutando com os franceses livres, e o caçula Jean-Claude, servia como navegador em um bombardeiro da RAF. Sua filha, Laure, era casada e morava em Paris. Ela também auxiliava a resistência. O Mercedes-Benz foi escondido em um velho celeiro.

Por volta das 02:25h todos foram para o campo. Era lua cheia e a paisagem era bem bonita, mais linda seria se eles não estivesse ali para uma das ações mais arriscadas da guerra: o pouso de um avião aliado na retaguarda nazista. E isto seria realizado pelo pequeno Westland Lysander III de dois lugares. Este avião era usado para apoio de operações especiais. Sua capacidade de operar em pistas de pouso simples e de pousar e decolar em pistas curtas fez dele o avião ideal para levar e trazer agentes (chamados de Joe, fossem homens ou mulheres) para a Europa ocupada pelos nazistas. Esses aviões também levavam armas e equipamentos para operações clandestinas na Europa ocupada. A asa alta e uma cabine bem envidraçada davam a ele uma visibilidade excelente. A princípio relegado à segunda linha, a aeronave voltou a fazer parte de um time de linha de frente e muito especial, servindo no Esquadrão 161 da RAF, realizando missões de apoio ao Special Operations Executive - SOE.

O piloto do Lysnder, como seus colegas de esquadrão, era um piloto experiente, que voava a baixa altitude e sem instrumentos sofisticados de orientação. Os homens da resistência usaram uma lanterna para sinalizar o local e orientar a aterrissagem. O avião pousou sem problemas e todos ficaram espantados com a perícia do piloto. O Lysander estava pintado de preto e tão logo parou, o Tenente York correu para a aeronave e subiu por uma escadinha. Assim feito o Lysander inicio a sua decolagem e pouco tempo depois já estava no ar tendo como destino a sua base em Tempsford. Aliviado, Campbell olhou para toda a cena e agradeceu a Deus por tudo ter ocorrido bem até este momento: o dispositivo inimigo foi capturado e York estava a caminho da Inglaterra. Se algo tivesse ocorrido de errado Campbell teria que matar York para evitar que um expert em radar caísse em mãos inimigas. Agora era o momento mais difícil de uma operação depois que o seu objetivo é alcançado. Era a hora da evasão.

Campbell dividiu a sua equipe em três grupos que tomariam rotas diferentes de fuga, contando com o imenso apoio da Resistência francesa e agentes do SOE. As rotas e seus respectivos viajantes eram as seguintes:

- Rota 1 (Haselden e Terry): Partindo de Paris iriam para Tours, Bordeaux, Bayonne ao longo dos Pirinéus até San Sebastian, na Espanha. Neste país os homens chegariam até Bilbau e, em seguida, Madri e Gibraltar (sob domínio britânico).

- Rota 2 (Eton e Keyes): Outra rota partiria de Paris para Dijon, Lyon, de Marselha para Avignon, em seguida, para Nimes, Perpignan e Barcelona. De Barcelona iriam para Gibraltar.

- Rota 3 (Campbell, Arlen e Scott): A última rota partiria de Paris para Rennes e, em seguida, para St Brieuc na Bretanha onde os homens seriam enviados para Dartmouth na Grã-Bretanha.

A equipe da Rota 3 realizou o seu trajeto sem muitos problemas. Eton e Keyes da Rota 2 foram capturados pela polícia espanhola no trajeto de Barcelona para Gilbraltar. Porém um policial simpático a causa aliada facilitou a fuga da dupla, que conseguiu chegar a Gilbraltar e de lá foi de avião para a Inglaterra. Mas quem teve serias complicações foi a dupla Haselden e Terry. Nos arredores de Bordeaux, três agentes da Gestapo interceptaram o carro que eles estavam usando para sua fuga. Houve uma perseguição automobilística e o carro dos britânicos capotou. No desastre morreu um membro da resistência e Terry quebrou a clavícula e o braço direito. Porém Haselden conseguiu eliminar os agentes com sua pistola e um revolver, tomar o carro alemão e levar Terry e outro membro da resistência de volta para Bordeaux. O agente local do SOE decidiu ficar com os britânicos escondidos por mais uns dias. Quando viram que Terry não podia prosseguir, enviaram Haselden para a Rota 1 e Terry foi mandado para Paris, onde ficou escondido até que a cidade foi libertada pelos Aliados e por forças da resistência em agosto de 1944.

Apesar dos contratempos na evasão, a Operação Bazar foi um sucesso, pois os cientistas britânicos conseguiram neutralizar o novo dispositivo do radar Freya e as levas de bombardeiros britânicos que penetravam a Alemanha para destruir alvos estratégicos conseguiram, com o apoio dos aviões do 100º Grupo de Apoio a Bombardeiros da RAF, cumprir a sua missão.

O sargento Paul Arlen (Hans Abramovicz) morreu no Normandia no dia D+2 quando servia ao lado de uma unidade de commandos britânicos. Já Victor Scott (Uri Averhahn)) sobreviveu a Segunda guerra Mundial e serviu até 1947 ao lado das tropas britânicas na Alemanha ocupada, em missões de caça a criminosos de guerra e coleta de inteligência. em 1949 migrou para Israel. Em 1952 passou a trabalhar para o serviço secreto israelense e nas décadas de 1960 e 1970 se tornou um importante diretor do Mossad.


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Assunto: Operação Bazar