Operação Heritage


*

Pesquisa - http://news.nationalpost.com/2012/01/14/confessions-of-a-mossad-spy/

*

Senhor Zahedi, aqui é Masoud Farhad, estou com o leão na minha frente. Falou de forma empolgada ao telefone celular o experiente antiquário iraniano. Falando com ele, do outro lado da linha, estava um dos homens mais importantes do programa nuclear iraniano.

Farhad, essa é uma grande noticia, e não poderia ter vindo em momento mais propício para mim.

Quando o senhor pode vim pegá-lo?

Amanhã perto das 11:00h estarei na sua loja. Farhad, e quanto ao preço? Permanece o que combinamos?

Com certeza senhor Zahedi, pode ficar tranqüilo, sou um homem de palavra, e o preço será aquele que combinamos, com toda certeza, além do mais é sempre um prazer servi-lo.

 

Essa certamente seria uma conversa trivial ao celular entre um cliente e um vendedor, se Hamed Zahedi não fosse um dos diretores do programa nuclear iraniano e o antiquário Masoud Farhad, não fosse na verdade um dos principais agentes do serviço secreto israelense, o Mossad, em operação no Irã. O ano era 2005.

O cientista Hamed Zahedi não tinha mínima idéia sobre a verdadeira identidade de Farhad. Hamed Zahedi, nasceu em 1960 em Teerã. Ele entrou na Universidade de Shiraz em 1978, onde obteve seu bacharelado em 1985 em engenharia elétrica. Em seguida, ele mudou-se para a Universidade de Tecnologia de Sharif , em Teerã, para estudar para o mestrado em Física Nuclear. Em 1988, ele começou com o seu doutorado nesta universidade como um dos seus primeiros alunos de doutorado em física do Irã. Obteve seu PhD em 1992. Ele publicou cerca de 60 artigos científicos em revistas especializadas. Assim que se formou ele se envolveu com o programa nuclear iraniano, assumindo cargos de confiança após meados da década de 1990. Participou do grupo de trabalho do secreto Projeto 111, que tinha por objetivo criar uma bomba atômica para o Irã. Segundos relatórios da inteligência americana e britânica, ele esteve profundamente envolvido em um esforço para criar uma ogiva nuclear para o seu país. 

Em toda a sua vida Zahedi foi um ferrenho defensor de medidas extremas contra os sionistas e abertamente um aliado do Hezbollah (em árabe  "partido de Deus"), grupo terrorista libanês, que surgiu inicialmente como uma milícia, em resposta à invasão israelense do Líbano de 1982, também conhecida como Operação Paz para a Galiléia, e continuou a resistir contra a ocupação israelense do Líbano por toda a Guerra Civil Libanesa. Seus líderes se inspiraram nas idéias do aiatolá Khomeini, e suas forças foram treinadas e organizadas por um contingente da Guarda Revolucionária Iraniana. Hamed Zahedi visitou o Líbano várias vezes para prestar apoio ao Hezbollah. Sempre viu o programa nuclear iraniano não apenas como uma forma de proteção de seu país, como também um caminho rápido para eliminação de Israel em um grande holocausto atômico. Suas idéia radicais agradou a setores mais extremos da liderança iraniana, e Zahedi galgou posições políticas e administrativas mais e mais importantes dentro do programa nuclear. Ele não era apenas um ativista, sua capacidade técnica também era considerável sendo assim respeitado por seus pares cientistas.

Viúvo, pai de três filhos, um deles morto na Guerra Irã-Iraque, Zahedi estava vivendo um momento importante em sua vida. Seria em breve indicado para ser o diretor de um projeto ultra-secreto, chamado "Punho de Alá", para o desenvolvimento de mini-bombas atômicas que poderiam ser transportadas em mochilas ou valises e seriam entregues ao Hezbollah, o que daria a este grupo terrorista uma capacidade nuclear assustadora, e iria alterar completamente a geopolítica do Oriente Médio.

Reunião

Para o Mossad, as opiniões de extermínio de Israel defendidas por Hamed Zahedi estavam passando rapidamente da teoria para a prática, e isto não poderia ser mais tolerado. Dentro de suas operações de sabotagem do programa nuclear iraniano, muitas delas realizadas em cooperação com outros países, o assassinato era uma das opções mais adotadas.

Para resolver esta situação o primeiro-ministro de Israel, Rafael Cohen foi até a sede do Mossad, conhecida como Midrasha, e se encontrou com o chefe do serviço secreto, Meir Ravid, que estava a frente do Mossad a seis anos. A comitiva do primeiro-ministro era formada por três Audi A6 blindados. Ravid recebeu Cohen na recepção e rapidamente seguiram em direção a sala de reuniões.

Como o mundo dormiu esta noite Ravid? Perguntou de forma bem humorada Cohen. Ele e Ravid eram velhos amigos de muito anos, tendo inclusive participado juntos de duas missões de combate, ambas no Líbano, quando o primeiro-ministro era um jovem oficial dos pára-quedista da Força de Defesa de Israel, e Ravid era um experiente agente de campo. Ravid na década de 1970 viajou por toda a Europa caçando terroristas árabes.

Ainda estamos aqui, não estamos! Deu uma boa gargalhada Ravid, enquanto levava Cohen pelo elevador em direção a sala de reuniões.

E como vai o gigante Gideon? Cohen se referia ao grande tesouro da vida de Ravid.

Se as coisas continuarem como estão, em pouco tempo o sobrenome da família vai aparecer mais nas páginas esportivas dos jornais do que no parte de política internacional. Ravid dizia isso porque seu neto, Gideon Ravid que tinha 16 anos, era um dos melhores jogadores de basquete do ensino médio nos EUA, sendo escolhido o segundo melhor jogador do “high school” na temporada passada e pretendia seguir carreira profissional. Se o duro chefe do Mossad tinha um ponto fraco era o seu único neto, filho do seu único filho. Gideon morava nos EUA com a sua mãe, desde a morte de seu pai devido a problemas cardíacos há uns 10 anos atrás. A mãe de Gideon que tinha cidadania americana decidiu morar em Nova York fugindo da violência do Oriente Médio, especialmente dos atentados nas ruas de Israel. Mas nem por isso seu filho deixou de ser alvo desta violência. Uma célula radical de uma grupo terrorista árabe descobriu quem era Gideon e tentou matá-lo há três anos atrás como forma de vingança contra as ações do Mossad no Oriente Médio. Os dois homens enviados para matar o neto de Ravid só não tiveram sucesso porque foram abordados por uma patrulha rodoviária quando estavam indo em direção a casa do garoto, chamando a atenção da polícia devido a alta velocidade do carro que dirigiam e uma das lanternas quebradas. Nervosos com a abordagem tentaram fugir e trocaram tiros com a polícia, vindo um dos terroristas a morrer devido aos ferimentos a bala. O outro foi capturado e confessou o plano, sendo julgado e preso. Iria morrer na cadeia um ano depois de causa misteriosa. Na época o furioso Meir Ravid recebeu permissão para tomar medidas cabíveis com o caso, e o Mossad destruiu por completo a célula terrorista com ações punitivas no México, Espanha e EUA, neste país sem o conhecimento dos americanos. Por causa disto Gideon e sua mãe tinham a proteção do FBI em tempo integral, mas por insistência de Ravid, três agentes do Mossad reforçavam a vigilância da família. 

Na sala de reuniões Ravid apresentou ao primeiro-ministro um arquivo que foi montado, resultado de intensa coleta de informações, que provava o quanto Zahedi era perigoso para Israel e que por isso ele devia ser assassinado. Era um arquivo altamente secreto, que continha fotos do iraniano, alguns antecedentes e uma acusação com inúmeras páginas densamente escritas. Um bom número de primeiros-ministros seque liam a acusação, e pulavam direto para as recomendações que, certamente, sempre sugeriam a morte do acusado. No caso de Rafael Cohen, ele gostava de folhear todo o arquivo. Dois curtos vídeos de Zahedi, um deles mostrando seu encontro com líderes do Hezbollah no Líbano e o outro mostrando o acusado presente em uma reunião de trabalho do projeto nuclear iraniano em Teerã, também foram mostrados.

Os primeiros-ministros israelenses têm o poder de tirar a vida de uma pessoa com um simples aceno de cabeça. A forma como cada um deles toma uma decisão deste tipo diz muito do seu caráter. O primeiro-ministro Cohen decidia conforme a sua visão de mundo e sua consciência. E uma vez tomada a sua decisão nunca voltava atrás. Mas antes de tomá-la fazia muitas perguntas, perguntas contundentes e algumas até embaraçosas. Não admitia respostas dúbias e exigia de seus subordinadas firmeza em suas colocações. Se via oficias da Inteligência Militar ou do Mossad vacilantes, os dispensava sumariamente. Quando um plano não lhe parecia sólido o suficiente, ou prematuro, devido ao contexto geopolítico, mandava de volta, ordenava uma nova avaliação, ou simplesmente cancelava tudo. Porém no caso de Zahedi ele ficou satisfeito com o que viu e assim o primeiro-ministro autorizou o inicio dos planos operacionais para o assassinato do cientista iraniano.

Imediatamente, após a saída do primeiro-ministro, Ravid acionou o chefe da altamente secreta unidade conhecida como “Caesarea” que executava as missões de assassinatos seletivos do Mossad. A Caesarea possuía uma pequena unidade, que era a responsável direta em executar os assassinatos. Ela se chamava Kidon (baioneta em hebraico כידון). A Kidon é na verdade um Mossad dentro do Mossad. Esta unidade tem algumas dezenas de agentes devidos em equipes de 12 homens/mulheres. Normalmente, duas dessas equipes eram submetidas a treinamento em Israel, em determinado momento, com a equipe restante em operação ao redor do mundo. Os planos operacionais para o assassinato de Zahedi foram então traçados pelos oficiais da Caesarea, levando em consideração sua rotina de trabalho, hábitos alimentares, circulo de relacionamento, estado de saúde, etc.

No final de seu planejamento os oficiais da Caesarea concluíram que o agente de campo do Mossad que já operava em Teerã a muitos anos podia dar conta da missão de eliminar o cientista iraniano.

Orgulho e tradição

O cientista iraniano era muito orgulho da história de sua família e de seu clã. Uma das sagas familiares que ele mais admirava era a história de três jovens guerreiros que saíram de sua humilde aldeia e seguiram para Bagdá e lá se ofereceram para lutar como voluntários contra os infiéis pela retomada de Jerusalém. A Pérsia foi dominada pelos árabes em 651 e muitos persas se converteram ao islamismo, inclusive todos os ancestrais da aldeia de Zahedi. Os três rapazes ficaram famosos por defenderem sozinhos uma das estradas que levava a cidade sagrada, morrendo os três durante os combates, mas possibilitando uma oportunidade de avanço para as forças muçulmanas. Por seu ato heróico os três ficaram conhecidos como os "leões de Qamsah", que era o nome da antiga aldeia de Zahedi. Em sua homenagem, um ano depois da morte dos três heróis, um artista da sua aldeia natal, criou três estatuetas de leões e lhes deu o nome de "os três leões de Qamsah".  

Quando ouviu a história pela primeira vez, com quinze anos, Zahedi ficou maravilhado, com o heroísmo, com a dedicação e a força de vontade daqueles rapazes em combaterem os infiéis. No fundo ele queria ser um deles, queria dá sua vida pelo islã, queria fazer algo grandioso pela Pérsia e por Alá. Por isso tomou duas decisões: iria buscar nos estudos uma forma de prover o Irã de poder contra seus inimigos e iria homenagear aqueles jovens guerreiros de alguma forma. Quando mais velho decidiu estudar física nuclear, pois defendia a idéia de que só com armas nucleares o Irã teria a sua antiga glória retomada e como forma de homenagear os leões de Qamsah, Zahedi decidiu ir atrás das estatuetas e reuni-las novamente, pois há muito tinham desaparecido. Conseguiu a sua primeira em 1988, em Londres, quando visitou a cidade como parte de uma delegação diplomática de seu país. A estatueta estava em um pequeno antiquário, e ele a conseguiu por um preço relativamente baixo. Um amigo seu na embaixada do Irã lhe deu a dica sobre o paradeiro desta estatueta.

Ele continuou a sua busca, mas esta se revelou muito difícil. Após 10 anos de procura, ele conheceu um antiquário iraniano em um vôo de Doha, capital do Qatar, para Teerã. Seu nome era Masoud Farhad. Eles estavam sentados lado a lado no vôo e a história dos três leões veio a tona. Farhad se comprometeu em ajudar Zahedi em sua busca, e dois anos depois o antiquário de Teerã entregou nas mãos de um Zahedi imensamente agradecido e emocionado a sua segunda estatueta dos leões de Qamsah. A partir desta data Farhad passou a se comunicar constantemente com o cientista iraniano e até mesmo a fazer parte de circulo de amizade.

Várias faces

Ehud Abramovich era uma lenda no Mossad. Seu pai era um judeu russo de nome Pavel, que escapou dos campos de concentração de Hitler, apesar de ter perdido toda a sua família neles, e conseguiu chegar a Palestina em 1947. Lá se juntou aos forças da milícia clandestina sionista (o Hagannah) para defender os judeus dos ataques dos árabes e fustigar as tropas britânicas que dominavam aquela região. Após a guerra de 1948 ele se casou com uma judia egípcia e teve com ela um único filho, Ehud, que nasceu em 1958.

Com o pai Ehud aprendeu russo e alemão, e com a mãe ele aprendeu árabe. O pai do agente do Mossad era professor de Filosofia em Jerusalém e sua mãe era bióloga. O casal morreu em um acidente de carro em 1971, e como eles não tinham outros parentes, Ehud foi adotado por uma casal de judeus iranianos, que não tinha filhos, e com eles aprendeu o persa (farsi) que passou a falar fluentemente. Com seu pai adotivo ele também aprendeu a gostar de artes, pois seu pai tinha um antiquário e amava visitar museus e bibliotecas, e sempre que possível levava Ehud com ele.

Com 18 anos em 1976, o jovem Ehud falava russo, alemão, árabe, farsi, hebraico e inglês, e tinha o desejo de aprender espanhol. Nesta idade ele se alistou nas Forças de Defesa de Israel e se apresentou para servir na Brigada Pára-quedista. Ele teria pela frente 36 meses de serviço militar obrigatório e procurou obter de seus pais adotivos a permissão para servir como combatente, pois filhos únicos são proibidos disso. Ao final do seu serviço obrigatório, ele sabia que ia ser indicado para uma unidade de reserva, na qual deveria servir por um período que variava entre 30 e 60 dias por ano e que podia ser prorrogado por mais tempo, dependendo da necessidade do país.  

 

Pára-quedistas israelense em operação no Líbano durante a Operação Paz Para a Galiléia. Ele carrega um fuzil automático Galil de 5,56 mm.

A seleção para tropa de pára-quedistas é rigorosa e o treinamento de dezoito meses enfatiza a habilidade em lidar com armas, demolições e medicina de urgência. Todos devem qualificar-se como pára-quedistas e muitos especializam-se em técnicas de HALO. A habilidade dos commandos no uso de armas, na demolição e em combates noturnos e urbanos é fator salientado na preparação das incursões clandestinas além das fronteiras inimigas. Algumas equipes de pára-quedistas - especialmente as de contra-terrorismo executam tais tarefas com relativa freqüência. Os pára-quedistas israelenses são treinados como força de emprego rápido, para combate em qualquer tipo de guerra em qualquer campo de batalha, esses soldados sempre precisam estar preparados para enfrentar tropas mais numerosas ou carros de combate. A facilidade de Ehud com idiomas não passou despercebida e ele foi enviado para servir na unidade de inteligência da Brigada Pára-quedista.

Ao lado dos pára-quedistas Ehud, participou em 1978 da Operação Litani de 14 de março a 15 de junho de 1978. A operação foi executada depois do infame “Massacre da Estrada Litoral” no qual terroristas palestinos assassinaram 37 civis e feriram outros 80. No dia 11 de março de 1978, sábado, dois ônibus civis que trafegavam pela estrada costeira foram atacados por terroristas que haviam desembarcado em uma praia próxima ao kibbutz Ma’agan Michael. Com a chegada da polícia e de tropas do Exército israelense no local, os terroristas explodiram ambos os ônibus, matando e ferindo dezenas de pessoas. As Forças de Defesa de Israel ocuparam o sul do Líbano com 25.000 soldados até o rio Litani, excetuando a área da cidade de Tiro. Seu objetivo era empurrar os grupos terroristas palestinos, em especial a OLP para longe da fronteira. Como reforço da ação, Israel entregou a área para o Exército do Sul do Líbano, que guarneceria uma zona-tampão. A operação foi um sucesso com poucas baixas para Israel. Durante essa operação Ehud chamou a atenção dos seus oficiais por sua versatilidade em se passar inclusive por palestino, usando de vários disfarces para entrar na área inimiga e coletar inteligência. O Mossad também começou a se interessar por ele.

Ehud deu baixa como sargento em 1979 e em 1980 começou sua faculdade de Ciências Sociais na Universidade de Tel Aviv. Em 1982 ele foi convocado para servir com os pára-quedistas durante a Operação Paz para a Galiléia. Os pára-quedistas lutaram em todo setor da guerra contra tropas sírias e contra concentrações terroristas em áreas urbanas e montanhosas. Eles operaram de formar coordenada com outros corpos do Exército de Israel eficazmente, e com unidades da Força Aérea e da Marinha israelense também. Ehud ficou no Líbano até 1983, quando voltou para Tel Aviv para terminar o seu curso em 1984. Neste ano ele foi recrutado pelo Mossad.

Ehud Abramovich foi treinado para ser um agente de campo do Mossad, que são chamados de Katsa. Um katsa é um oficial de inteligência implicado em operações de campo. Sua missão consiste em coletar inteligência e recrutar/dirigir espiões. Eles operam principalmente na Europa e no Oriente Médio. Eles operam em menor medida na África e Ásia. Mas os Estados Unidos também são alvo de suas operações.

Enquanto alguns katsas estão locados permanentemente em algum país estrangeiro, outros vão mudando de país de acordo com sua operação, razão pela qual recebem o apoio dos 'saltadores'. O número de katsas é muito inferior ao de outros oficiais de inteligência cumprindo funções similares em serviços secretos de outros países. Isto é devido à existência dos sayanim, voluntários judeus não israelenses que proporcionam apoio logístico às operações em todo mundo.

Os katsas operam na divisão Tsomet. Dividem-se em três ramos geográficos:
* Ramo Isarelis: Que inclui as regiões do Oriente Médio, Norte da África, Espanha, e aqueles katsas 'saltadores' (que vão de uma operação a outra).
* Ramo B: Que abarca a Alemanha, Áustria e Itália.
* Ramo C: Que compreende o Reino Unido, França, Países Baixos e Escandinávia.

Para selecionar candidatos idôneos, o Mossad utiliza diferentes teste psicológicos e de aptidão em função de suas necessidades de pessoal. Se o candidato for selecionado, passará um período de formação na academia de treinamento do Mossad, a Midrasha, localizada perto da cidade de Herzliya. Durante aproximadamente três anos, aprenderão as habilidades necessárias para as funções de inteligência. As mais importantes seriam o saber como encontrar, recrutar e cultivar agentes, incluindo como se comunicar clandestinamente com eles. Também aprendem como evitar ser descobertos pelos serviços de contra-espionagem , esquivando seus operativos da vigilância e possíveis emboscadas durante suas reuniões com outros agentes. Ainda que os katsas normalmente não portem armas de fogo, são também treinados no uso de vários tipos de armas, normalmente usam a pistola Beretta .22. Uma vez finalizado seu período de formação, passarão por um período prático durante o qual trabalharão em vários projetos, na maioria dos casos consistindo em manobras práticas em territórios que consideram hostis, como o sul do Líbano, as Colinas de Golan e a região do Curdistão, antes de se converter em um autêntico katsa com todas as seus atribuições. O treinamento de Ehud estava completado em 1987 e em 1989 ele já era um katsa preparado para operar no Ramo Isarelis. Nessa época ele já tinha realizado missões no Líbano, Chipre e até na Alemanha Ocidental. Em todas essas missões ele usou de sua fluência em idiomas e de sua capacidade de se disfarçar. Como filho de pai russo e mãe egípcia, Ehud representava uma mistura de etnias, podendo se passar por cidadão de muitos países. Era um tipo comum, tinha 1,75 m de altura e pesava 72 kg, tinha uma ótima condição física, cabelos pretos e sua aparência não chamava a atenção, o que era excelente para um agente secreto. Em 1989, como 31 anos ele recebeu a missão de se infiltrar no Irã e lá dirigir uma rede de espiões locais à serviço de Israel.

Diante do fanatismo cada vez mais exacerbado dos seguidores do Khomeini, o antiquário iraniano Masoud Farhad, que era judeu, mas tinha por toda a sua vida disfarçado as suas origens, não suportava mais viver no país dos persas. Através de um amigo entrou em contato com o governo de Israel e o sondou a respeito de poder imigra para sua terra espiritual. Vendo ai uma oportunidade o Mossad, que sabe de tudo, entrou em contato com Farhad e lhe fez uma proposta: Ele iria anunciar para seus poucos amigos que ganhou uma herança de uma tia distante e que iria se mudar de sua cidade Yazd para a capital Teerã, onde iria abrir um novo antiquário. E assim ele fez oito meses depois. Mas quem chegou a Teerã, não foi o verdadeiro Farhad, que neste momento já vivia a um mês em Israel com uma nova identidade e aparência, e sim Ehud Abramovich,que assumiu sua nova identidade.

 

Soldado da Guarda Revolucionária Iraniana durante a Guerra Irã-Iraque nos anos 1980.

Como Ehud era mais novo que Farhad uns 12 anos, ele teve que assumir algumas mudanças, como o corte de cabelo mais curto e a tintura de cabelos brancos nas têmporas que lhe dava uma aparência mais velha, um velho óculos para leitura também ajudava a compor o seu novo visual. Como Ehud tinha um bom preparo físico, Farhad recebeu a orientação de começar a fazer exercícios físicos e a correr ainda em Yazd. Quando chegou em Teerã Ehud podia então manter uma rotina de exercícios sem despertar suspeitas. Na capital iraniana ele comprou uma loja e estabeleceu o seu comércio. Esse era o ano de 1990.

Ehud "herdou" de um antigo agente israelense que operava no país, alguns espiões iranianos que foram recrutados pelo Mossad. Eram oito no total. Cinco deles cidadãos comuns, que serviam de correio e intermediários, para que o agente de campo do Mossad não fosse exposto. Mas os três restante valiam ouro pelas informações que eles coletavam e eram bem pagos por isso, diferente dos cinco primeiros que serviam a Israel por questões políticas, ideológicas ou pessoais. Os que estavam na "folha de pagamento" era um coronel da Guarda Revolucionária, um técnico do programa nuclear, e um diplomata do Ministério do Exterior.

Em suas ações Ehud nunca se encontrava pessoalmente com eles, pois não eram de confiança, e a forma como a rede de espionagem israelense foi montada era a prova de traição. Mesmo que um destes três espiões desse com a língua nos dentes jamais chegariam a Ehud. Talvez um ou dois correios seriam presos, mas nem esses poderiam dizer aonde Ehud estava e nem com que identidade trabalhava.

Quando se encontrava com algum espião, Ehud usava de disfarces, mudando inclusive a voz. Os encontros eram em lugares seguros, e Ehud só aparecia depois de se certificar de que não havia nenhum sombra, agente da contra-espionagem iraniana, na cola de seu contato. Mas o relacionamento com um de seus espiões passou do convencional. Entre eles estava Nadia Atef. Ela já espionava para Israel desde 1983. E seus motivos eram pessoais.

Ela não tinha mãe, e seu pai, um professor de literatura, era um crítico do sistema político dos Aiatolás. Por causa disto ele foi preso em 1981 e devido a problemas cardíacos morreu na prisão sem nenhuma assistência médica. Os dois únicos irmãos de Nádia foram enviados para a combater os iraquianos e por lá morreram em batalhas de infantaria estupidamente comandadas. Nadia era estudante de artes e bastante ativa na faculdade, foi lá que um recrutador do Mossad percebeu que ela poderia ser útil e a levou a ser uma espiã dentro da faculdade de Teerã.

Ehud e Nadia se apaixonaram a primeira vista. Ehud sabia que isso era um perigo, e totalmente fora dos padrões. Eles começaram a namorar em 1992 escondidos dos superiores de Ehud, mas em janeiro de 1993 o chefe do Mossad determinou que para fortalecer o disfarce de Ehud ele deveria "se casar" e Nadia foi convidada a assumir esse missão. Nadia aceitou a missão e eles se casaram dois meses depois em uma cerimônia simples e bem discreta para a alegria, secreta, dos dois. Com o passar dos anos a rede de espionagem aumentou consideravelmente, tendo Nadia se mostrado um excelente apoio para Ehud em suas operações de campo.

Fecha-se o cerco

Às 11:15 do dia 23 de abril de 2005 um sedan preto com vidro fumê estacionou em frente ao antiquário de Masoud Farhad, que estava localizado em um bairro tranqüilo de Teerã. Dele desceu o cientista Hamed Zahedi,que estava radiante. Quem foi recebê-lo à porta foi Nadia, muito simpática e cortês. Desde que casaram Nadia passou a trabalhar com Farhad. Mas as terças e quintas a tarde ele ministrava aulas de arte em uma escola para meninas a poucas quadras do antiquário.

Dentro da loja Farhad recebeu o cientista com um largo sorriso e foi correspondido com um forte abraço. Farhad levou Zahedi para o seu confortável escritório, e Nádia os acompanhou.

− Então meu amigo que dia glorioso esse. Alá sorriu para mim com misericórdia e me concedeu essa grande alegria de realizar esse importante sonho. − Falou entusiasmado o cientista iraniano.

− De fato meu irmão, Alá guiou os meus passos e hoje posso lhe entregar essa maravilhosa relíquia. −  Dizendo isso Farhad se virou abrindo o seu cofre tirando de lá uma estatueta envolvido em um pano azul enveludado. Na verdade o Mossad tinha a terceira estatueta desde 2001, e aguardava o momento proprício para usá-la como trunfo.

Quase que Zahedi veio as lágrimas quando o pano foi retirado e o último Leão de Qamsah lhe foi entregue em suas mãos. Para ele era um momento impar em sua vida, ele agora segurava aquela estatueta que faltava e que um dia, com as bênçãos de Alá ele iria levá-la junto com as outras duas para Jerusalém quando os judeus fossem expulsos da terra santa, alvo de seu país, que ele ajudaria a atingir com suas bombas.

− Nádia vamos comemorar, traga para todos nós um chá e o ofereça também ao jovem que trouxe o meu amigo de carro, pois hoje é um dia de celebração. − Falou com seu melhor sorriso Farhad (Ehud), disfarçando as suas reais intenções.

Imediatamente Nádia saiu do escritório e se dirigiu para a pequena cozinha que existia nos fundos da loja. Ela preparou chá para todos e pingou duas gotas de um pequeno frasco, que retirou de dentro de uma caixa de limpeza, na xícara do motorista de Zahedi. O conteúdo do frasco tinha chegado para o casal a duas semanas atrás.

 

Em seguida Nádia serviu ao marido e ao seu feliz cliente e depois foi até a frente da loja e ofereceu ao motorista o chá acompanhado de uns biscoitinhos. O rapaz agradeceu a gentileza e Nádia se retirou. O motorista também era o segurança do cientista e tinha passado algum tempo no Líbano ao lado do Hezbollah onde alegremente participou de pelo menos um ataque a civis israelenses no norte de Israel.

Após meia hora de conversa amena Zahedi pagou o combinado pela estatueta e anunciou que tinha que ir embora, pois tinha muitas coisas para resolver ainda naquela tarde. Ele iria de carro de Teerã para Ramsar, onde trabalhava em seu projeto secreto, e como não gostava de viajar de avião, sempre se deslocava de carro dentro do Irã. Os dois amigos se despediram e o carro de Zahedi partiu rapidamente.

− Quanto tempo? − Perguntou baixinho Nádia de braços dados com Farhad na frente da loja.

− No máximo 90 minutos. − Disse Farhad e os dois entraram para continuarem com sua rotina.

Carro de fogo

O motorista de Zahedi gostava de dirigir aquele sedan importado. Era um ótimo veículo, os alemães sabiam mesmo fabricar carros pensou ele. Confortável, com ótima estabilidade e blindado, era um verdadeiro prazer estar ao volante daquela máquina. E o melhor, em longas viagens como aquela o seu chefe o deixava dirigir em alta velocidade, coisa para a qual foi devidamente treinado, e que estava fazendo agora, passando dos 140 Km/h enquanto Zahedi tirava um cochilo deitado no banco de trás sem o cinto de segurança, como sempre vazia em viagens mais longas.

De repente o motorista começou a se sentir mal, o que era o resultado de uma droga que ele ingeriu com o chá que Nadia o serviu em Teerã e em 30 segundos eles sofreria um ataque cardíaco fulminante. A droga era uma variante da sucinilcolina, que na verdade era uma versão sintética do curare. Ela foi desenvolvida especialmente pelo Departamento Técnico do Mossad, através de uma equipe especial de cientistas que trabalham no Instituto para Pesquisa Biológica em Tel Aviv, que testou exaustivamente com sucesso a droga em animais que tinham um sistema cardiovascular parecido com o humano. São esses cientistas que preparam também as toxinas mortais normalmente usadas pelas equipes assassinas da unidade Kidon. Como foi preparada, a droga que deveria ser ingerida oralmente, iria agir entre 90 minutos e 120 minutos no máximo após entrar no corpo. Ela iria paralisar os músculos do corpo quase imediatamente A vítima não poderia respirar e nem se mover. A dor intensa no peito seria como se uma lança fosse fincada no mesmo. Era imperceptível, pois as esterases no corpo transformariam rapidamente a droga em acetilcolina. E só uma autopsia muito detalhada, com um legistas orientado sobre o quê procurar e no lugar certo iria encontrar os vestígios da sucinilcolina.

Com o motorista morto o sedan que corria a 150 Km/h perdeu completamente o controle quando o corpo do rapaz inclinou-se sobre a direção fazendo o veículo realizar uma curva fechada para a direita. Com isso o carro capotou violentamente quatro vezes. Lá dentro Zahedi que estava sem cinto teve o pescoço quebrado na segunda capotada.

Quando os bombeiros chegaram não tinham muito o que fazer a não ser recolher os corpos e encaminhá-los para o legista. Se constatou que Zahedi morreu com o pescoço quebrado e que seu motorista tinha morrido de um ataque cardíaco. Depois se descobriu uma ficha médica do rapaz em que um médico de Teerã (devidamente subornado pelo Mossad) constatou que ele apresentava problemas cardíacos, mas que pediu para guardar segredo de sua família e de seu patrão.

Naquele mesmo dia Ehud recebeu a notícia do sucesso de sua missão, através de um contato. Ele repassou a informação para a sede do Mossad e a noite saiu para jantar com sua amada esposa iraniana. Com essa ação, mais uma vez Israel frustrou os planos do Irã e de qualquer um dos seus vizinhos de obterem bombas atômicas que ameaçavam a sua existência.

Para casa

No final de 2005 Ehud pediu para voltar para Israel, ele já tinha servido ao seu país por 15 anos no Irã à frente de uma eficiente rede de espionagem, era uma lenda viva no Mossad, e de fato gostaria agora de viver em sua terra natal ao lado de Nadia. Para sua surpresa Meir Ravid autorizou a sua volta ao lado de Nádia e lhe disse já sabia há muito tempo de sua ligação com ela. A rede de Ehud foi passada para um agente que se passava por um negociante suíço que trabalhava no ramo de extração de petróleo e tinha um escritório em Teerã. 

Em janeiro de 2006 Farhad e Nadia saíram de férias com faziam a cada dois anos e viajaram para o sul do país e depois foram para Bangladesh onde Farhad declarou que iria procurar por novos itens para a sua loja. Dai sumiram. Naquele mês um barco com turistas naufragou em um dos rios de Bangladesh e desapareceu um casal de iranianos de nomes Farhad e Nadia, seus corpos não foram encontrados, sendo dados como mortos. Na verdade nem podiam ser encontrados mesmo, pois já estavam vivendo em Israel. Nadia agora se chamava Ana Meier e morava com seu esposo, um representante comercial, em um confortável e espaçoso apartamento em Tel Aviv. O que ninguém sabia era que seu esposo ministrava aulas concorridas na sede do Mossad e coordenava de Israel operações de inteligência na região do Mediterrâneo.


Free web templates by Nuvio – Our tip: Webdesign, Webhosting