OPERAÇÃO JAGUATIRICA - FICÇÃO

Atenção: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas, nomes e obras é mera coincidência.


Helicóptero da Quadrant Defense Corp dá proteção a um T-65 Air Tractor em seu trabalho de fumigação de uma plantação de coca.

A Quadrant Defense Corp-QDC, uma Private Military Company (Companhia Militar Privada) americana, mundialmente conhecida, tinha um grande contrato com o governo da Colômbia. Ela estava envolvida nas mais diversas áreas do combate ao narcotráfico e também a guerrilha, a muitos anos.

Na manhã de 23 de março de 2008 um T-65 Air Tractor, pilotado por um americano (ex-tenente da USAF), começou o seu trabalho de fumigação em um pequeno vale dentro da Colômbia. Como proteção, o Air Tractor tinha a capacidade de voar bem baixo, a experiência do piloto e a cobertura de um Bell 212 Huey artilhado com metralhadoras e foguetes. O helicóptero era pilotado por um brasileiro, que tinha como co-piloto um peruano. Dois colombianos guarneciam as metralhadoras que estavam colocadas nas portas laterais do Huey.

O T-65 Air Tractor da Quadrant Defense Corp sobrevoa a selva colombiana.

De repente o piloto brasileiro viu um rastro de fumaça vindo como que de trás de uma colina. Quando entendeu o que era já foi tarde demais. O míssil anti-aéreo Stinger, que é termoguiado e que pode ser lançado do ombro, atingiu o Huey fortemente, fazendo com que a aeronave desse um salto no ar. Como no momento do impacto a aeronaves estava a baixa altitude, o piloto praticamente não teve como controlá-la e esta caiu rapidamente.

No duro choque contra o solo o co-piloto e um dos artilheiros morreram instantaneamente. O piloto brasileiro se machucou levemente no ombro e na mão esquerda e o outro artilheiro colombiano milagrosamente nada sofreu. O colombiano ajudou o brasileiro a sair do helicóptero. Quando olharam para os lados viram guerrilheiros da Frente Camponesa de Libertação-FCL se aproximando. A FCL era uma pseudo-guerrilha, mais interessada no narcotrafico do que

O artilheiro armado com um fuzil M-16 disparou contra os guerrilheiros que avançavam rapidamente. Na troca de tiros o artilheiro foi morto e o piloto, que não podia disparar, foi capturado. Sem poder fazer nada, pois não tinha armas em seu avião, o piloto do Air Tractor simplesmente viu tudo e comunicou a seus superiores da Quadrant Defense Corp o ocorrido e tratou de sair do local o mais rápido possível.

Complicações

Aparentemente este seria mais um assunto interno ente o governo colombiano e a QDC, onde a embaixada do Brasil em Bogotá seria notificada da captura de um brasileiro pela guerrilha e se esperaria que as providências necessárias fossem tomadas pelas autoridades locais. "Aparentemente", pois o piloto brasileiro era mais que um ex-militar querendo ganhar uma boa grana pelo mundo afora como mercenário. Na verdade ele trabalhava para o CIE (Centro de Inteligência do Exército) e tinha sido infiltrado na Colômbia a cerca de seis meses atrás.

Piloto brasileito abatido a serviço da DynCorp na Colômbia.

Piloto brasileiro é capturado por guerrilheiros colombianos

O piloto "Flávio Santos", era na verdade o major, Paulo Medeiros. Além de exímio piloto de helicóptero, ele era um agente a serviço do CIE a alguns anos, e estava na Colômbia para assumir a rede de espionagem montada pelo CIE naquele país. O agente brasileiro encarregado da rede, que inclusive a montou, estava voltando para o Brasil. Há um ano e meio, este agente, o Capitão Marcos Monteiro - nome de fachada "Jonas de Mendonça", que tinha o disfarce de empresário do ramo madeireiro, descobriu que estava com câncer na garganta, e nos meses seguintes ao diagnóstico, só fez perder para a doença. 

Quando ficou claro, nos últimos seis meses, que "Jonas de Mendonça", não podia mais dirigir sua rede na Colômbia por causa do câncer, e por isso o CIE transferiu "Flávio Santos" para a Colômbia, onde ele conseguiu um emprego na QDC e começou a receber a rede montada por Mendonça. Trabalhar na QDC era um movimento estratégico, pois ter contatos dentro da empresa e saber como ela funcionava na Colômbia seria importante para futuras ações. "Flávio Santos" já trabalhava na região Amazônica a um bom tempo e a sua transferência para a Colômbia aconteceu sem maiores problemas. A idéia era concluir o seu contrato de dois anos com a QDC e depois abrir um escritório comercial em Bogotá no ramo de segurança. A rede de Mendonça tinha quatro informantes colombianos (um capitão da inteligência do Exército colombiano, um comerciante, um diplomata e um repórter), e um antigo agente de campo, infiltrado na FCL.

Rebeldes colombianos.

Guerrilheiros da Frente Camponesa de Libertação-FCL patrulham a selva colombiana.

Este agente infiltrado fora o maior orgulho e a maior decepção do CIE em suas operações em território colombiano. O "companheiro Afonso" como era chamado, era na verdade Maurício Saldanha, ex-tenente do NPOR (Comunicações) e ex-tenente da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Saldanha não tinha familiares próximos. Filho único, perdeu o pai que era pára-quedista, sargento do Exército, nos combates contra a guerrilha no Araguaia em 1973 e a perdeu a mãe em um acidente de carro em 1978. Foi criado pelo avô, agora também falecido. 

No NPOR e na PM de São Paulo, ele tinha recebido treinamento de guerrilha e contra-guerrilha. Como PM Saldanha foi trabalha no Serviço Reservado, trabalhando disfarçado na década de 1980 junto aos sindicatos dos metalúrgicos e motoristas. Adotou o codinome de "companheiro Afonso" e realizou grandes trabalhos, na época já trabalhava a serviço da inteligência do Exército, juntos aos "comunas" como ele chamava os sindicalistas. No inicio da década de 1990 o "companheiro Afonso" foi enviado para espionar o MST. Nesta época ele era inclusive assessor direto de um vereador de Campinas pelo Partido Socialista Nacional (PSN).

Em sua participação ativa dentro do MST o "companheiro Afonso" travou contato com a FCL e depois do episódio de Traíra, ele foi enviado (pelo CIE) para a Colômbia para se infiltrar em meio a guerrilha. O "companheiro Afonso" funcionou a principio, a título de fachada, como elo de ligação do MST junto a FCL, mas com o passar do tempo, ele abandonou o MST e se integrou diretamente aos guerrilheiros colombianos, subindo rapidamente na hierarquia. Essa é a parte boa da história.

A parte ruim é que nos últimos 14 meses o "companheiro Afonso" começou a se comportar de uma forma bem estranha, e praticamente rompeu contato. O pior é que dois informantes da rede brasileira, o repórter e o comerciante, os únicos que o "companheiro Afonso" conhecia, foram mortos no início do ano. E o agente "Jonas de Mendonça" sofreu um atentado pouco antes de deixar a Colômbia. Por causa de tudo isso o CIE acreditava que o "companheiro Afonso" definitivamente trocou de lado, pagando como moeda, a traição da rede de espionagem brasileira.

Para piora as coisas o "companheiro Afonso" conheceu de vista "Flávio Santos" quando de uma visita secreta que o agente infiltrado fez a Tabatinga a dois anos atrás. Na época não estava certo se Santos iria trabalhar na Colômbia e o contato entre os dois foi quase casual. Mas Afonso viu o rosto de Santos, sabia que ele era um agente do CIE e poderia reconhecê-lo.  

Restos do helicóptero abatido.

Tropas de Exército colombiano orientadas por um assessor da Quadrant Defense Corp chegam até os destroços do helicóptero pilotado por "Flávio Santos".

O "companheiro Afonso" era subcomandante de uma das frentes guerrilheiras da FCL que operavam no Departamento onde caiu o helicóptero da Quadrant Defense Corp e por isso com toda a certeza o piloto prisioneiro iria ser apresentado a ele. Acontecendo isto, os dias de "Flávio Santos" estariam contados e a rede brasileira, que tanto trabalho deu para ser montada, poderia ruir por completo.

Devido a crise "Marcos Monteiro", mesmo doente, teve que voltar imediatamente para a capital da Colômbia. Chegando lá descobriu com o seu contato no Exército colombiano que o piloto brasileiro estava provavelmente em um pequeno acampamento a uns 80km da fronteira com o Brasil, no Departamento de Vaupes. O capitão colombiano também disse que na próxima semana o Governo colombiano iria iniciar as negociações secretas com a FCL para libertar o piloto e que o "companheiro Afonso" não estava na região. Ele tinha indo até o Departamento de Huila para uma reunião de planejamento da FCL, e passaria cerca de cinco dias por lá.

Resgate Urgente!

Diante desta situação urgente o CIE solicitou ao Comandante do Exército, e este ao Ministro da Defesa, pelo resgate imediato do piloto (agente) brasileiro, pois a sua vida corria um grande risco de vida, a posição brasileira poderia ser comprometida. Pois a FCL poderia usá-lo como moeda de troca em uma possível chantagem contra o governo brasileiro ou mesmo negociá-lo com a QDC pois esta empresa estaria interessada em "conversar" com um agente infiltrado em sua estrutura operacional. Uma questão sensível nisto tudo surgiu algum tempo depois quando se descobriu que  "Flávio Santos" estava preparando um relatório sobre possíveis operações clandestinas da QDC em território brasileiro.

Em reuniões com os comandantes militares e o ministro da Defesa ficou determinado que uma operação de resgate não seria solicitada ao governo da Colômbia, afinal de contas o Brasil tinha uma rede de espionagem naquele país prestes a ser descoberta, e que contratar a Quadrant Defense Corp para resgatar o seu "próprio piloto" seria inaceitável.

Portanto ficou acertado que uma operação de resgate altamente secreta seria realizada em território colombiano por forças especiais brasileiras, sob a coordenação com Comando Militar da Amazônia (CMA). O segredo em torno da operação seria absoluto, pois se militares brasileiros fossem descobertas em ação no território colombiano geraria um crise diplomática de grandes proporções e o presidente brasileiro não queria isso.

Depois de muitas deliberações ficou determinado que uma equipe de resgate oriunda do 1º Batalhão de Forças Especiais da Brigada de Operações Especiais do Exército brasileiro seria acionada imediatamente para a operação de resgate. A 3ª Companhia de Forças Especiais (3ª Cia F Esp) tinha nesse exato momento um pelotão estacionado em São Gabriel da Cachoeira-AM a alguns meses com a missão de apoiar algumas ações da Polícia Federal naquela região. Deste pelotão foram selecionados doze homens iriam participar da missão de resgate.

A 3ª Cia F Esp tem missões, possibilidades, limitações e estrutura organizacional similares às das companhias de Forças Especiais do 1° B F Esp. Diferencia-se das demais, entretanto, porque está sediada em Manaus (AM). Destina-se, portanto, a operar na área de responsabilidade do Comando Militar da Amazônia (CMA). Está subordinada ao CMA para fins de emprego e vinculada à Bda Op Esp para fins de preparo.

Planejamento

Toda a missão de resgate seria coordenada a partir de São Gabriel da Cachoeira. Como seria uma operação encoberta as tropas brasileiras não poderiam usar nenhuma identificação que denunciasse a sua origem. Por isso os soldados não usariam plaquetas de identificação e nenhum documento. Até o jogo de mapas estava escrito em inglês, uma língua "universal".

Mas antes de mandar a equipe de resgate colocar o pé na lama, era preciso levantar o máximo de inteligência possível sobre o local da operação, pois sem uma boa inteligência qualquer missão esta fadada ao fracasso. Por questões "técnicas" não foram usados os satélites a serviço do SIVAM. Os brasileiros usariam a FAB e o EB na missão de reconhecimento.

Para o conhecimento imediato do local aonde poderia se encontrar o piloto brasileiro, imediatamente foi acionado o 1/10 GAv "Esquadrão Poker" para realiza um reconhecimento tático (Rec-tat) do local com um dos seus RA-1A. Isto porque coincidentemente o "Poker" estava na Amazônia realizando um treinamento juntamente com o 3/10 GAv  "Esquadrão Centauro". Nesta missão o RA-1 levou um casulo nacional Gespi, no cabide central, que continha quatro câmeras Vinten cobrindo a frente, abaixo e os lados da aeronave.

O capitão Paulo Linhares, sub-comandante do 1/10 GAv  voou esta missão Rec-tat. Apesar de não ter que entrar muito em território colombiano o capitão Linhares sabia que devia ter cuidado, pois o perfil de sua missão era rápido e até certo ponto baixo, e a razão dele está ali era porque um piloto brasileiro foi abatido por um míssil terra-ar de ombro, o que muito bem podia acontecer com ele também. O capitão também devia não chamar a atenção da Força Aérea Colombiana, com os seus IAI Kfir C-7. Como apoio, o RA-1 contava com um R-99A que já estava no ar, para orientá-lo e auxiliá-lo nas contramedidas eletrônicas, diante de possíveis agressores.

Quando estava sobrevoando o Ponto-X, como foi batizado o local onde poderia está o piloto brasileiro, o capitão Linhares acionou as suas câmeras e pensou consigo: - Sorriam seus bandidos, vocês estão sendo filmados. Depois de ter terminado com suas tomadas de reconhecimento o capitão Linhares deu meia volta e retornou para território brasileiro. O tempo sobre o alvo foi de apenas 4 segundos, e ele não chamou a atenção de ninguém.

Um UH-1H (conhecido como sapão) da FAB sem marcas de identificação

Paralelo a missão Rec-tat da FAB, o EB enviou furtivamente de helicóptero dois homens para fazerem um reconhecimento in loco do Ponto-X. Nessa missão de reconhecimento, para a infiltração aeromóvel da equipe, os Pantera (HM-1) do 4º Esquadrão de Aviação do Exército não estavam disponíveis, por isso foi usado um UH-1H da FAB, sem nenhuma identificação. Os dois homens envolvidos nesta missão foram infiltrados usando a técnica de “Helocasting” saltaram do helicóptero dentro de um rio a cerca de 5km do Ponto-X. O Helocasting é muito usado em operações na selva, quando se quer infiltrar rapidamente no ambiente através curso d´agua. Os militares saltam com a aeronave de asa rotativa em movimento e equipados com suas mochilas e armamentos; eles se reagrupam em local previamente brifado para prosseguir no seu objetivo. Esta operação exige muito do piloto pois a aeronave deve permanecer a aproximadamente 3.00 m de altura da água e com uma velocidade que pode variar de 20Km/h a no máximo 40Km/h, lançando primeiramente o material (se for o caso) e em seguida a tropa,. Durante o lançamento, o piloto deve estar atento para, manter a altitude constante do helicóptero, uma vez que está ocorrendo a perda de peso na aeronave, e com a presença de tropas inimigas, pois neste momento a aeronave está vulnerável ao ataque de armas leves.

Os dois militares do EB que foram infiltrados eram:

  • O cabo Floriano Torres, um índio da etnia baniwa, que estava no Exército brasileiro a 10 anos, e que conhecia muito bem a região, tendo atravessado a fronteira colombiana várias vezes, tanto como militar como civil. O cabo Torres era um dos melhores guias do EB. Ele servia no 5º Batalhão de Infantaria de Selva (5º BIS) da 1ª Brigada de Infantaria de Selva (1ª Bda Inf Sl).

  • O sargento Jorge de Melo, natural do Ceará, 25 anos. Ela fazia parte do 1º Batalhão de Forças Especiais e era u exímio atirador de elite. O sargento Melo caçava desde criança. Primeiro foram os calangos "abatidos" com baladeira, depois os pássaros atingidos com uma espingarda de ar-comprimido, e quando já era adolescente caçava jaguatiricas e outros animais na companhia do pai e do avô, se emprenhando pela serra de Maranguape. Quando entrou no EB, como conscrito no 23° Batalhão de Caçadores em Fortaleza, e se deparou com rifles de verdade, foi um simples passo para chamar a atenção dos oficiais para o seu talento de sniper. Engajou e fez algum tempo depois a Escola de Sargento das Armas (ESA). Servindo no 1º Batalhão de Forças Especiais participou de missões de segurança presidencial e algumas missões confidenciais nos morros do Rio e no interior de Pernambuco e da Bahia. Apesar de suas recentes missões urbanas Melo se sentia bem na selva, pois gostava de "viver no mato" como ele mesmo dizia. O sargento Melo entre muitos cursos realizou tinha o Curso de Operações na Selva - COS Cat "C" do CIGS.

Já era quase noite quando eles chegaram a Colômbia e munidos de óculos de visão noturna eles avançaram cautelosamente pela selva para montar o seu posto de observação próximo a Ponto-X. Montar um posto de observação em plena selva equatorial não é fácil, e fazer isto debaixo do nariz das FCL pior ainda. Na selva o zumbido e as picadas dos insetos é uma constante, os animais selvagens sempre passam pelo local, e a chuva que cai sempre, as vezes torrencialmente, deixa o clima úmido e a terra molhada, e esta sempre estar coberta de folhas e troncos de árvores mortas, o que dificultava a movimentação, o que não facilita a vida de ninguém. Poucos vezes aparece o sol. As noites são mais frescas, com a temperatura caindo pouco abaixo de 20ºC.

Os dois brasileiros usariam comunicações via satélite para informar se de fato "Flávio Santos" estava no local. Sua missão também deveria ser o levantamento da capacidade de reação do inimigo, seu poder de fogo, contingente e possíveis reforços. Também deveriam levantar rotas de aproximação e fuga.

Ambos estavam usando roupas civis (todas as etiquetas foram arrancadas) com padrões escuros, quase militares e botas de selva de modelos comerciais. Estavam armados com fuzis M4 americanos e Melo levava ainda um rifle Remington M24, com funcionamento a ferrolho. Levavam ainda, facas, minas e granadas. Em suas mochilas havia ainda rádios, baterias, comida, munição extra, um aparelho GPS e um kit de primeiros-socorros. Apesar de levarem alguma comida e água, eles estavam aptos a beberem água das plantas e comerem o que pudessem apanhar, cobras inclusive.

 

Remington M24 sniper rifle com luneta Leopold (8,5 – 25 X – 50mm)

O Ponto-X

Pouco tempos depois que se instalou, a equipe de reconhecimento começou a retransmitir os seus informes. O local era uma pequena fazenda no meio da selva com algumas cabanas e uma pequena casa de alvenaria, onde provavelmente estava o brasileiro, pois sempre tinha um guarda armado do lado de fora. Também havia um lugar para as refeições e reuniões, uma cozinha, um paiol, lavanderia e latrinas também. Existia no acampamento um local que funcionava como posto de comando. Numa área do acampamento os guerrilheiros mantinham uma pequena criação de animais: galinhas e porcos, principalmente.

Os horários no acampamento era rígidos: Alvorada às 4:20h da madrugada, às 05:00h ginástica, café às 6:00h, almoço às 11:00h, jantar às 17:00h. Às 20:00h eram apagadas todas as luzes e meia hora depois estabelecia-se silêncio absoluto, rompido apenas pelos sons dos animais da floresta. Os exercícios de treino militar ocupavam muitas horas ao longo do dia. Os guerrilheiros nunca se separavam de suas armas e dormiam com elas ao seu lado. O armamento era muito variado: fuzis AK-47, M-16 e Galil  israelenses, além de pistolas e revólveres de múltiplas procedências. Existia também dois morteiros e uma metralhadora de calibre 12,7mm. Apesar dos horários aparentemente rígidos, deu para perceber que existia uma certa displicência com a segurança do campo.

Bem camuflados, o sargento Melo e o cabo Torres observação o acampamento guerrilheiro

Um gerador fornecia a eletricidade. Ele só era ligado após o almoço para o acompanhamento do telejornal local do meio dia e entre às 18:30h e as 20:00h, horário em que todos os guerrilheiros se reuniam para palestras sobre temas ideológicos ou históricos, pronunciada normalmente pelo comandante do campo. Em todo o acampamento só havia meia dúzia de lugares onde chegava a luz elétrica.

Com uma luneta, o sargento Melo observa o comandante do campo guerrilheiro

Havia cerca de 45 guerrilheiros (homens e mulheres) no local, apesar do acampamento poder comportar cerca de 100 guerrilheiros. Uma trincheira protegida por sacos de terra rodeava o acampamento. A vigilância era permanente. Além das sentinelas, haviam patrulhas noturnas, normalmente compostas por 5 ou 6 guerrilheiros.

A equipe de reconhecimento confirmou no terceiro dia de missão que o piloto brasileiro estava de fato no local. Ele estava na única casa de alvenaria do acampamento. Os soldados puderam vê-lo quando os guerrilheiros abriram uma das janelas da casa. Confirmada a posição do refém, era o momento de acionar a equipe de assalto que já estava a espera em São Gabriel da Cachoeira.

O Ataque

A equipe de resgate seria transportada por dois Sikorsky HM-2 Black Hawk do do 4º BAvEx, sem nenhuma identificação. Eles muito bem podiam ser confundidos com os helicópteros da FAC ou a serviço da DynCorp. A idéia de pintar as cores da FAC nos helicópteros  foi descartada.

Os helicópteros Sikorsky HM-2 Black Hawk foram desenvolvidos desde o início para serem aeronaves militares, mas as aeronaves brasileiras são versões do modelo de exportação denominado Sikorsky S-70, apresentando algumas diferenças em relação ao UH-60 Black Hawk do Exército Americano. Adquiridos inicialmente para emprego na Missão de Observadores Militares Equador-Peru (MOMEP), ao final da missão passaram a integrar a frota de helicópteros do 4º BAvEx em Manaus. Impulsionado por dois motores General Electric T700-701C de 1940 shp cada, a sua missão principal é o transporte de tropa, sendo capaz de conduzir quatorze homens totalmente equipados, além da tripulação da aeronave (dois pilotos e um mecânico de vôo), podendo ser equipado com diversos tipos de armamentos, inclusive mísseis anti-tanques. Está equipado com equipamentos que lhe permitem realizar o vôo por instrumentos e configurado de maneira a possibilitar o vôo com óculos de visão noturna.

O HM-2 Black Hawk foi carinhosamente apelidado por seus tripulantes de Acari-Bodó, ou simplesmente Bodó, por sua semelhança física ao peixe típico da região amazônica, dotado de grande resistência.

Os dois HM-2 Black Hawk do 4º BAvEx foram extremamente furtivos em sua missão de infiltração da equipe de resgate

Todos os homens estavam usando uniformes militares, porém eram trajes comerciais dos mais variados padrões de camuflagem americanos, franceses, etc. Não havia uma padronização e nenhum deles carregava nenhuma identificação. Alguns tinham vindo de exercícios na selva recentemente e muitos estavam com barbas e cabelos fora do padrão militar.

A equipe de resgate estava fortemente armada. Os doze homens carregavam fuzis M-4, granadas, duas FN Minimi, um Morteiro Commando V 60mm, um canhão sem recuo Carl-Gustav M3 de 84mm, além de pistolas Glock. Todos usavam óculos de visão noturna (OVN), rádios, e a equipe ainda tinha a sua disposição aparelho de comunicação via-satélite e GPS.

A equipe de assalto estaria dividida nas seguintes sub-equipes:

  • Equipe de resgate, formada por 4 homens, estava armada com o Fuzil de Assalto Colt M-4A1 e granadas.

  • Equipe de apoio de fogo, que estaria posicionada taticamente para varrer todo acampamento estava assim composta: 

    • 2 homens com as FN Minimi, que tinham "caixas" de munição para remuniciamento rápido.

    • 2 homens operando o Carl-Gustav M3.

    • 2 homens operando o morteiro Commando V 60mm.

Os dois homens da equipes de reconhecimento dariam também apoio de fogo, sendo que neste momento o sargento Melo estaria operando como sniper. O ataque foi marcado para às 05:45h, perto do café da manhã, quando a maioria dos guerrilheiros estariam juntos no refeitório e poderiam ser facilmente ceifados pelo poder de fogo dos brasileiros. Uma preocupação descartada foi a patrulha guerrilheira. A equipe de reconhecimento informou que a patrulha sempre retornava antes do café e só voltava para a selva lá pelas 08:00h.

Os dois HM-2 Black Hawk cruzaram a fronteira colombiana com relativa tranqüilidade. Os helicópteros voavam bem baixo sobre a densa selva e os pilotos experientes, usavam óculos de visão noturna. Parecia impossível aqueles aeronaves voarem tão rápido e tão baixo. Mas todos os procedimentos de vôo tinham sido treinados por muitas e muitas horas, a tal ponto de que tudo aquilo era muito normal para as tripulações dos HM-2. Mesmo assim a atenção era redobrada, pois treinamento ou missão real, não se pode descuidar um segundo durante um vôo. Todo a infiltração teve o apoio de um avião R-99A da FAB.

Os helicópteros chegaram a Zona de Desembarque-ZD, localizada por trás de uma pequena elevação a 2km do campo guerrilheiro, e rapidamente os soldados desceram das aeronaves através de cordas. O deslocamento pela selva foi cauteloso e feito em silêncio, apesar da equipe de reconhecimento ter avisado que a patrulha guerrilheira já tinha retornado ao acampamento. 

Protegidas por granadas de fumaça tropas brasileiros  entram na casa onde estava o piloto brasileiro.

A equipe de resgate era comandada pelo capitão Flávio Tito, também comandante da 3ª Cia F Esp. O Capitão Tito possuía o COS Cat "B", e era um dos mais experientes militares da Brigada de Operações Especiais, tendo realizado cursos avançados no Special Air Service-SAS britânico em Hereford e nas US Special Forces em Fort Bragg. Falava fluentemente inglês e estava estudando francês. Recentemente ele tinha participado de um intercâmbio com a Legião Estrangeira francesa nas selvas da Guiana Francesa.

Quando todos tomaram as suas posições já era 05:25h. Os brasileiros tomaram posições previamente definidas, que cobriam todo o campo. Eles esperaram os guerrilheiros se prepararem para o café e às 05:45, quando muitos já estavam na fila para pegar o café, o capitão Tito deu a ordem para o ataque.

As Minimis varreram quem estava na fila, o morteiro Commando atingiu a posição da metralhadora de 12,7mm matando os dois guerrilheiros que ali estavam, o Carl-Gustav M3 atingiu a posição dos morteiros e depois atingiu o paiol. O morteiro Commando destruiu também o posto de radio do acampamento. Ao mesmo tempo a equipe de resgate avançou pelo campo em meio ao tiroteio em direção a casa de alvenaria.  

Na verdade a sentinela da casa, uma garota de uns 19 anos de idade, armada com um AK-47, foi a primeira a tombar durante o ataque. O tiro que a matou não foi ouvido, porque ele aconteceu junto com as primeiras explosões. O sargento Melo, com a ajuda do cabo Torres, a matou com um único tiro e depois ficou a dar cobertura com seu rifle a casa até que a equipe de resgate entrasse e assaltasse a mesma. 

A equipe de assalto era comandada pelo próprio capitão Tito. Eles entraram por um caminho que existia no campo minado. A dupla precursora tinha visto por dois dias guerrilheiros passarem por ali. Tito e seus homens correram em direção a casa e com um ponta-pé um sargento arrombou a porta dos fundos. Os soldados encobertos por granadas de fumaça entraram na casa e só encontraram o major Paulo Medeiros encolhido no canto do único quarto da casa com uma cama sendo usada como uma espécie de barricada.

Somos brasileiros major, viemos levá-lo para casa! Disse o capitão Tito com um sorriso no rosto.

 Graças a Deus! Falou Paulo Medeiros com um suspiro.

Enquanto saiam rapidamente da casa em direção a floresta o capitão perguntou O senhor foi interrogado major?

A famosa Minimi M249SAW

- Alcance eficaz: 400m
- Calibre: 5,56mm
- Fabricação: BÉLGICA
- Carregador: cofre rígido - 250 tiros / cofre de lona – 100 e 200 tiros
- Peso: 6,5 Kg
- Particularidade: Permite a acoplagem de diversos equipamentos (mira holográfica, lanterna tática e etc)

Não! Eles iam começar na próxima semana.

Ótimo! - Disse o capitão Tito.

Enquanto isso a fuzilaria continuava. Os guerrilheiros fora pegos completamente de surpresa e os brasileiros estavam bem posicionados e fortemente armados. O resultado não podia ser outro: um massacre.

Depois de ter dado cobertura a equipe de resgate em sua saída da casa de alvenaria, o sargento Melo pode voltar sua atenção para o seu segundo alvo, que era o comandante do campo. Pois antes de atingir a sentinela da casa, Melo tinha observado aonde estava o comandante do campo. Ele estava bem perto gerador. 

Quando voltou os seus olhos para o local, para sua satisfação Melo viu que o cara estava no mesmo lugar. Só que tentando se proteger por trás de uns sacos de areia. Pela sua mira ele podia ver o comandante berrando ordens desesperadas para todos o lados. Mas não por muito tempo. Mas uma vez com a ajuda do cabo Torres ele estabeleceu as condições para um ótimo tiro, mirou logo abaixo da orelha e apertou o gatilho, atingindo o seu pescoço. A 200 metros do alvo, não tinha como errar. O comandante guerrilheiro caiu tão rápido que deu a impressão de ter desaparecido. O jovem guerrilheiro que estava ao seu lado com um fuzil Galil também foi abatido por Melo em seguida.

Com o major protegido na selva por dois de seus homens, o capitão Tito voltou a atacar o campo. Por rádio ele foi informado pelo tenente Ramos, o seu segundo em comando, que a resistência estava cessando. O capitão ordenou que os homens sustentassem o poder de fogo e acabassem com os últimos focos de resistência. 

Pouco tempo depois não se ouviu mais nenhum fogo de resposta do inimigo. Mas o capitão ordenou que os homens continuassem atirando, por mais um tempo e depois ordenou o cessar fogo. Os homens se remuniciaram, e receberam ordens para consolidarem a sua posição. Não se via qualquer movimento, e se ouvia apenas alguns gemidos de guerrilheiros feridos.

Os operadores da equipe de resgate da 3ª Cia F Esp estavam armados com Fuzil de Assalto Colt M-4A1.

O capitão Tito então ordenou que o tenente Ramos, o sargento Macedo e os cabos Andrade e Fernandes fossem até o campo para checar a posição. Eles receberiam a cobertura do restante dos homens. Assim que chegaram no campo, o tenente e seus homens começaram a trabalhar. Todos os guerrilheiros encontrados com vida foram eliminados a tiros, e os comandos começaram a recolher material de inteligência. Tudo foi feito rapidamente pois não dava para saber se o comandante guerrilheiro tinha alertado outras unidades da FCL. Apesar de não existirem outras forças guerrilheiras muito próximas. 

Serviço terminado, satisfeito por ter resgatado o refém, não ter tido nenhuma baixa e ter acabado com o acampamento guerrilheiro, o capitão Tito ordenou a evacuação da área imediatamente. Todos entraram na mata em direção ao ponto onde seriam exfiltrados pelos helicópteros do EB. O que aconteceu sem nenhum problema. A bordo do seu helicóptero, olhando para o major Paulo Medeiros, são e salvo, o capitão enviou a mensagem código de sucesso: Jaguatirica.

No dia 17 de setembro de 2009, o "companheiro Afonso" foi morto em um ataque aéreo da Força Aérea colombiana, ironicamente as aeronaves utilizadas foram aviões Embraer A-29B Supertucanos. Dois dias depois "Jonas de Mendonça" morria de câncer em São Paulo. O major Paulo Medeiros foi destacado para operações na Venezuela oito meses após o seu resgate e a rede de inteligência do CIE na Colômbia só foi restabelecida em fevereiro de 2010.


O que você achou desta página? Dê a sua opinião, ela é importante para nós.

Assunto: Jaguatirica